Carol
Proner: Apuração responsável da crise ou terra arrasada
A nova
remessa de vazamentos seletivos parece a repetição do filme de terror que foi a
Lava Jato contra o Brasil, desta vez mirando nas eleições de outubro. É triste
perceber que tudo o que vivemos na última década não serviu para evitar a
repetição do método de desestabilização com o uso da mídia seletiva.
Com
todo o respeito aos jornalistas experientes, alguns aparentemente ameaçados por
realizar o seu trabalho, é impressionante constatar o poder dos editoriais e
das manchetes na condução da opinião pública, na maior parte das vezes sem
nuances ou contraditório.
Fragmentos
de mensagens infiltrados por setores da polícia a jornalistas passam a ocupar
os títulos dos grandes jornais sem qualquer cuidado com a biografia e a vida de
personalidades da mais alta institucionalidade jurídica e política do país.
Mesmo
sem qualquer processo formal instaurado contra autoridades mencionadas, as
matérias insinuam comportamentos criminosos que servem de condenação prévia,
desafiando a legitimidade do Poder Judiciário, bem como do sistema eleitoral e
político, que passam a ser questionados de forma oportunista.
Para
além do interesse genuíno e legítimo do jornalismo investigativo no deslinde
dos espantosos crimes financeiros, a marola dos vazamentos seletivos, em parte
ilegais ou duvidosos, favorece a ira contra personagens do sistema de justiça e
estimula os ataques daqueles que estão dispostos a tudo, como vimos no 08 de
janeiro de 2023.
As
eleições deste ano dependem de um compromisso democrático e ético na apuração
das crises ou, como estamos vendo em outras partes do mundo, o Brasil fará da
democracia terra arrasada.
• Quem são os maiores afetados pelo
esquema do Banco Master
O
esquema financeiro praticado pelo Banco Master e sua consequente liquidação
geraram um rombo bilionário nas reservas do Fundo Garantidor de Créditos (FGC),
no caixa do Banco de Brasília (BRB) e nos ativos de 18 fundos públicos de
pensão.
O
Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) ainda identificou descontos
indevidos nos benefícios de milhares de aposentados e pensionistas, por meio de
créditos consignados que nunca teriam sido contratados.
O
resultado é um impacto generalizado tanto nas contas públicas quanto no bolso
de pequenos investidores. Até mesmo os grandes bancos foram convocados a
adiantar pagamentos ao FGC como forma de cobrir o ressarcimento aos afetados
pela liquidação do Master. Já o prejuízo ao BRB e aos fundos de pensão deverá
ser coberto pelos próprios estados e municípios envolvidos.
"O
estrago fica por conta de investidores institucionais como fundos de pensão,
institutos de previdência, o Banco Regional de Brasília, empresas e pessoas
físicas que investiram além de R$ 250 mil e na recomposição do FGC",
afirmou à DW o economista Pedro Silveira, em janeiro.
Cerca
de 1,6 milhão de investidores que aplicavam até R$ 250 mil em títulos
protegidos, como CDBs e LCIs/LCAs, têm direito ao reembolso dos valores
perdidos. Contudo, o restante dos investidores, principalmente aqueles que
aportavam em fundos ou debêntures, agora entra na massa de credores do banco —
e estão, portanto, sujeitos a um eventual calote.
Segundo
o Banco Central, não é possível estimar prazos para um possível ressarcimento.
O pagamento não é garantido e vai depender da capacidade do Master de recuperar
recursos, vendendo ativos que ainda acumula, e pagar seus investidores.
Veja
quem é impactado com a crise generalizada disparada pela incapacidade do Master
de honrar seus compromissos, o que levou à liquidação de sete instituições
ligadas ao conglomerado financeiro do banqueiro Daniel Vorcaro.
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Fundos de pensão, municípios e estados
O
Ministério da Previdência Social identificou que 18 fundos de pensão aportaram,
juntos, R$ 1,86 bilhão em letras e fundos de investimento do Master que não são
cobertos pelo FGC.
Esses
valores compõem a aposentadoria de funcionários públicos municipais e
estaduais, os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS). Por terem sido
aplicados em investimentos de alto risco, agora entram na massa de credores do
banco e podem não ser reembolsados.
Uma
reportagem do G1 identificou que oito desses fundos de previdência registraram
déficit financeiro acumulado de R$ 1,6 bilhão em 2025. Eles se referem à pensão
de servidores dos municípios de Santa Rita d'Oeste (SP), Paulista (SP), Maceió
(AL), Campo Grande (MS), Araras (SP), além dos estados do Amazonas, Amapá e Rio
de Janeiro.
Em
alguns casos, como em Itaguaí (RJ), São Roque (SP) e Fátima do Sul (MS), mais
de 15% de todo o montante do fundo estava aplicado no Master.
O
ex-diretor do Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, chegou a ser preso pela
PF. Sozinho, o fundo de pensão do Rio aplicou quase R$ 1 bilhão em letras do
Master, colocando em risco as aposentadorias de 235 mil servidores públicos do
estado do Rio de Janeiro.
Em
tese, esses fundos possuem modelo de governança estrito para impedir a compra
de títulos inadequados, o que levantou suspeitas de gestão fraudulenta, desvio
de recursos e corrupção passiva na Rioprevidência, diz a PF.
Em nota
à imprensa, o Ministério da Previdência Social informou que, por determinação
da Lei nº 9.717/98, os estados e municípios são os "responsáveis diretos
por garantir o pagamento de aposentadorias e pensões de seus servidores caso os
recursos acumulados pelos regimes próprios de previdência sejam
insuficientes".
Isso
significa que os rombos na pensão de servidores desses municípios e estados
causados pela crise do Master deverão ser cobertos pelo próprio orçamento do
ente federativo, que atua como garantidor do sistema. Além dos já citados,
também serão impactados os municípios de Angélica (MS), Aparecida de Goiânia
(GO), Cajamar (SP), Congonhas (MG), Jateí (MS), Santo Antônio de Posse (SP) e
São Gabriel do Oeste (MS).
Não há
previsão legal para que os beneficiários reponham os valores perdidos, mas o
ressarcimento dos fundos por parte do ente federativo deve ser judicializado e
longamente discutido por Legislativo e Executivo, tornando imprevisível quando
os servidores terão seus direitos garantidos.
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Aposentados e pensionistas do INSS
Além do
rombo nos fundos de pensão, o INSS agorainvestiga contratos de crédito
consignado supostamente firmados por 250 mil aposentados e pensionistas, e que
foram adquiridos pelo Master.
Aposentados
e pensionistas podem solicitar empréstimos em instituições financeiras que
mantêm acordo de cooperação técnica com o INSS. Depois de liberado o valor, as
parcelas são descontadas automaticamente no contracheque do beneficiário.
Em
outubro de 2025, porém, o INSS suspendeu a autorização do Master para operar a
modalidade por indícios de irregularidades. A justificativa foi que a
instituição precisava comprovar "o atendimento integral à legislação e aos
regulamentos que disciplinam o crédito consignado". Um mês depois, o
conglomerado financeiro foi liquidado.
Agora,
o INSS afirma que o banco de Daniel Vorcaro não conseguiu comprovar a
"existência jurídica e a validade do consentimento" de milhares de
beneficiários que teriam contratado empréstimos e hoje sofrem descontos mensais
em suas folhas de pagamento.
O órgão
apura se houve fraude na obtenção desse consentimento, o que pode ter levado a
descontos sem real autorização do beneficiário. O caso também é investigado
pela Comissão Parlamentar de Inquérito do INSS, no Senado. Em análise anterior,
o BC fez uma checagem aleatória de 30 CPFs dos devedores do crédito consignado
e não encontrou correspondência real da operação em nenhum deles.
"A
omissão na apresentação de mais de 250 mil contratos constitui uma falha grave
e insanável, que lança dúvidas fundadas sobre a existência jurídica e a
validade do consentimento dos beneficiários em um percentual alarmante das
consignações", diz o INSS em documento interno obtido pela TV Globo.
"Além
da ausência física dos contratos, a análise amostral dos poucos documentos
disponibilizados no sistema e-consignado revelou um padrão de instrumentos
genéricos e padronizados, desprovidos de informações essenciais e
personalizadas, como o limite de crédito aprovado, a forma de pagamento, a taxa
de juros aplicada e o número de parcelas", complementa.
O
reembolso de valores já descontados indevidamente também não está garantido. O
Ministério Público Federal (MPF) emitiu recomendação de que o ressarcimento
seja feito de forma automática aos contratos reconhecidos como inválidos pelo
INSS, o que ainda precisará ser acatado pelo administrador da liquidação do
Master.
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BRB e Distrito Federal
O Banco
Regional de Brasília também saiu prejudicado. A instituição financeira havia
aportado mais de R$ 16 bilhões em ativos do Master para adquirir o conglomerado
financeiro de Vorcaro.
Contudo,
segundo a PF, ao menos R$ 12 bilhões tinham indícios de fraude, como títulos
"podres" supervalorizados. Os agentes afirmam que os diretores do BRB
sabiam do problema.
Parte
dessas letras não chegou a integrar o patrimônio do banco ou foi substituída
quando foram identificadas irregularidades antes da liquidação.
Com
isso, o atual presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, estima que o dano ao
caixa da instituição é de R$ 6,6 bilhões, mas pode chegar a R$ 8 bilhões.
Segundo ele, entre os ativos adquiridos, ao menos R$ 10 bilhões são
"bons" e podem ser revendidos no mercado, o que não deve ocorrer no
momento.
Por ser
um banco público, o prejuízo ficará com os cofres do Distrito Federal. Agora, a
Câmara do DF aprovou um projeto de lei que autoriza o BRB a contratar
empréstimo de até R$ 6,6 bilhões.
Para
isso, poderá oferecer nove imóveis públicos que hoje compõem o patrimônio da
administração indireta como garantia ou vendê-los para recompor o orçamento.
Entre eles, a Serrinha do Paranoá – uma área de proteção ambiental que
concentra cem nascentes que abastecem o Distrito Federal.
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FGC, grandes bancos e tomadores de empréstimo
A
liquidação de sete instituições forçará o FGC a desembolsar mais de R$ 40
bilhões para pagar os credores.
O FGC
funciona como um sistema garantidor para investimentos tidos como
"seguros". No esquema do Master, porém, o banco usava o fundo como um
lastro para promover títulos de renda fixa, como o CDB, com retornos muito
acima da média do mercado.
Para
honrar o compromisso, o Master aplicava os recursos em letras de alto risco,
instáveis, que afetaram sua liquidez e capacidade de pagar os próprios
investidores.
Antes
da crise do Master, o FGC possuía R$ 140 bilhões em caixa para cobrir tais
emergências. Esses recursos são acumulados a partir de depósitos dos próprios
bancos e servem para preservar a estabilidade do sistema financeiro.
Agora,
as próprias instituições financeiras foram convocadas a antecipar seus
depósitos compulsórios, adiantando, em um mês, cinco anos de contribuições ao
fundo. O recolhimento de R$ 32,5 bilhões será feito em 25 de março e deve
afetar principalmente os grandes bancos, maiores contribuidores do sistema.
"A
medida tem por finalidade assegurar a solidez patrimonial do FGC e garantir a
plena capacidade de cumprimento de suas obrigações", disse o FGC, em nota.
Com o
adiantamento dos valores, previsto nos contratos dos bancos com o Fundo em
casos como este, é possível que as instituições financeiras tentem recompor os
próprios caixas elevando as taxas de juros em empréstimos.
"Quem
vai pagar a recomposição do FGC é o tomador de crédito no Brasil nos próximos
anos. Os bancos vão repassar o custo de capitalização para as taxas de
empréstimo, encarecendo as taxas de juros", afirmou anteriormente Pedro
Silveira à DW.
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Moraes solta nota oficial e nega troca de mensagens com Vorcaro
A
Secretaria de Comunicação do Supremo Tribunal Federal (STF) divulgou, no início
da noite de sexta-feira (6), uma nota a pedido do gabinete do ministro
Alexandre de Moraes, negando conversas entre o ministro e o banqueiro Daniel
Vorcaro, controlador do Banco Master. De acordo com o texto, uma análise
técnica realizada em dados telemáticos ligados ao empresário não identificou
qualquer contato entre ele e o ministro Alexandre de Moraes.
“Análise
técnica realizada nos dados telemáticos de Daniel Vorcaro, tornados públicos
pela CPMI do INSS, constatou que as mensagens de visualização única enviadas
por ele no dia 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos do ministro
Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos”, destaca a nota.
O texto
ressalta que “no conteúdo extraído do celular do executivo pelos
investigadores, os prints dessas mensagens enviadas por Vorcaro estão
vinculadas a pastas de outras pessoas de sua lista de contatos e não constam
como direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes”.
“A
mensagem e o respectivo contato estão na mesma pasta do computador de quem fez
os prints (Vorcaro). Ou seja, fica demonstrado que as mensagens (prints) estão
vinculadas a outros contatos telefônicos no computador de Daniel Vorcaro,
jamais ao Ministro Alexandre de Moraes. Os nomes e contatos das pessoas
vinculadas aos respectivos arquivos não serão mencionados na presente nota em
virtude do sigilo decretado pelo Ministro André Mendonça, mas constam no
arquivo que a CPMI do INSS disponibilizou para toda a imprensa”, finaliza a
nota.
• Polícia Federal afirma não haver
elementos para investigar relação entre Moraes e Vorcaro
A
Polícia Federal informou que, até o momento, não identificou elementos que
justifiquem a abertura de investigação sobre a relação entre o ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e o ex-banqueiro Daniel
Vorcaro, do Banco Master. Segundo o jornal O Globo, a PF não elaborou relatório
específico sobre menções a Moraes encontradas em celulares apreendidos durante
a Operação Compliance Zero, nem houve análise formal sobre as trocas de
mensagens entre o ministro e Vorcaro que teriam sido apagadas e posteriormente
reveladas em reportagens.
A
prioridade da corporação, neste momento, é a investigação de possíveis
vazamentos de informações do caso. A apuração foi solicitada ao relator do
processo envolvendo o Banco Master no STF, ministro André Mendonça. Na
sexta-feira (6), Mendonça determinou a abertura de um inquérito específico para
apurar a divulgação de dados sigilosos.
Segundo
o Metrópoles, os registros obtidos pela Polícia Federal, pela
Procuradoria-Geral da República e pela defesa de Vorcaro indicam apenas que
houve troca de mensagens entre o ex-banqueiro e o ministro. Como as conversas
teriam sido enviadas no modo de visualização única, não é possível verificar o
conteúdo do diálogo. Segundo fontes da corporação ouvidas pelo portal, não
seria possível, do ponto de vista criminal, fazer conjecturas sobre o que teria
sido discutido entre os dois, motivo pelo qual não foi elaborado relatório ao
Supremo sobre o episódio, ao contrário do que ocorreu no caso envolvendo o
ministro Dias Toffoli.
Investigadores
avaliam que a reportagem do jornal O Globo teria associado anotações
registradas por Vorcaro em um bloco de notas, sem identificação de remetente, a
mensagens enviadas ao ministro com base apenas na coincidência de horários
entre os registros. Na Polícia Federal, a interpretação é de que esse tipo de
inferência reproduziria práticas atribuídas à Operação Lava Jato, baseadas em
conjecturas, algo que o atual comando da instituição afirma buscar evitar.
Dentro
da Polícia Federal, o entendimento predominante é que a situação envolvendo
Moraes difere do caso do ministro Dias Toffoli. No episódio anterior, a
corporação elaborou um relatório detalhado encaminhado ao então presidente do
STF, ministro Edson Fachin. Na ocasião, havia indícios mais consistentes de
relações frequentes entre Toffoli e Vorcaro, incluindo transações financeiras
com pessoas ligadas ao caso, posteriormente justificadas como negociação de
cotas de resorts no Paraná em nome da empresa da família do ministro, a Maridt.
No caso
de Moraes, existem apenas conjecturas sobre possíveis conversas entre ele e
Vorcaro, razão pela qual não há justificativa para investigação formal neste
estágio. Caso surjam novos elementos relevantes, o material poderá ser
encaminhado ao relator do caso. Parte dos investigadores entende que qualquer
análise mais aprofundada dependeria de autorização do próprio STF, já que
envolve um de seus ministros. O debate ocorre enquanto persistem
questionamentos públicos sobre a relação entre Moraes e o Banco Master, que
mantinha um contrato de R$ 132 milhões com o escritório da advogada Viviane
Barci de Moraes, esposa do ministro.
Fonte:
Brasil 247/DW Brasil

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