Querem
mulher bem-sucedida, mas que obedeça ao marido: o conservadorismo dos homens da
geração Z
Os
homens da geração Z têm mais propensão do que os baby boomers a acreditar que
as esposas devem "obedecer" seus maridos, segundo um estudo global
realizado pela empresa de pesquisas Ipsos e pelo King's College de Londres.
O
estudo envolveu 23 mil pessoas de 29 países e demonstrou que até 31% dos homens
adolescentes e na casa dos 20 anos de idade acreditam que "a esposa deve
sempre obedecer seu marido", enquanto 13% dos homens mais velhos, com 60
anos ou mais, concordam com esta mesma afirmação.
Ao
mesmo tempo, 41% dos homens da geração Z dizem achar mulheres com carreiras de
sucesso mais atraentes — percentual bem maior do que entre aqueles com 60 anos
ou mais, de 27%.
Em
entrevista à BBC News, uma das autoras do estudo declarou que as redes sociais
desempenham "enorme papel" na mudança das opiniões em todo o mundo.
Já um grupo britânico de defesa dos direitos das mulheres afirma que as
estatísticas mostram que estamos "caminhando na direção errada".
Os
limites que definem cada geração são motivo de intensos debates. O relatório da
Ipsos considera as faixas de idade para as diferentes gerações como sendo:
• Geração Z: nascidos entre 1996 e 2012
• Millennials: nascidos entre 1980 e 1995
• Geração X: nascidos entre 1966 e 1979
• Baby Boomers: nascidos entre 1945 e 1965
As
mulheres mais velhas (nascidas entre 1945 e 1965) foram as menos propensas a
concordar que as esposas devem sempre obedecer aos seus maridos (6%), contra
18% das mulheres mais jovens, da geração Z.
Tentando
entender o motivo da diferença de opinião entre as gerações, uma das autoras do
estudo, a professora Heejung Chung, declarou à BBC que os homens da geração Z
se sentem ignorados pelos políticos e alguns deles se sentem ressentidos por
não terem as mesmas oportunidades das gerações mais velhas, como em relação à
compra de moradia.
Ela
defende que assumir visões de gênero mais conservadoras é a "sua forma de
encontrar sentido no mundo" e se agarrar ao "poder potencial e aos
poderes que eles observaram entre seus pais e avôs".
Os
pesquisadores entrevistaram pessoas da África do Sul, Alemanha, Argentina,
Austrália, Bélgica, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Coreia do Sul, Espanha,
Estados Unidos, França, Holanda, Hungria, Índia, Indonésia, Irlanda, Itália,
Japão, Malásia, México, Peru, Polônia, Reino Unido, Singapura, Suécia,
Tailândia e Turquia.
Os
resultados da pesquisa apresentam drásticas variações por país. Na Suécia, por
exemplo, apenas 4% dos participantes de todas as faixas etárias concordaram que
a esposa deve sempre obedecer seu marido, contra 60% na Malásia e 66% na
Indonésia.
Na
Tailândia, 80% dos participantes concordam que fomos longe demais ao promover a
igualdade das mulheres e passamos a discriminar os homens, contra 25% na
Hungria.
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'Tudo está indo na direção errada'
As
conclusões demonstram que, "de muitas formas, os direitos das mulheres
estão retrocedendo e as posturas do público em relação aos direitos das
mulheres, infelizmente, estão caminhando na direção errada", segundo Penny
East, executiva-chefe da Sociedade Fawcett, uma organização de defesa dos
direitos das mulheres com sede no Reino Unido.
Para
ela, um fator que contribuiu para a mudança de postura são os "níveis
chocantes de misoginia, online e offline", a que os meninos são expostos.
Chung
dirige o Instituto Global para a Liderança das Mulheres do King's College de
Londres. Ela concorda com esta visão e afirma que as redes sociais desempenham
um "enorme papel" na mudança de opinião.
Isso
ocorre, segundo ela, porque os influenciadores e políticos "exploram as
reclamações das pessoas" e "tentam recapturar parte do sentimento de
serem enfraquecidos pela geração mais jovem".
Eles
fazem isso sugerindo que os homens precisam reafirmar sua dominância e seu
papel de protetores e provedores, explica Chung.
As
pessoas estão "imitando" o que veem nas redes sociais "sem
realmente compreender o que aquilo significa", destaca a professora.
Na
visão de East, "é quase surpreendente que os meninos possam não assumir
esse comportamento misógino, considerando o conteúdo oferecido a eles
diariamente em termos do que eles consomem na internet".
O
número de mulheres mais jovens que acreditam que as esposas devem obedecer aos
seus maridos foi menor que o de homens, mas esta proporção ainda era mais alta
que a dos homens da geração baby boomer.
Questionada
sobre qual poderia ser o motivo, East aponta novamente as redes sociais.
"Da
mesma forma que os homens jovens são ensinados que o caminho para a felicidade
é o dinheiro, carros, garotas e força física, existem mulheres sendo ensinadas
que o caminho para a felicidade é a ideia tradicional de feminilidade",
explica ela.
"Parte
disso é o conteúdo esteticamente agradável que mostra a 'esposa tradicional',
que fica na cozinha. Mas existe um lado mais sombrio, que se refere à
subserviência... Se o homem é o provedor, ele, por isso, manda na casa?",
pergunta ela, retoricamente.
"Parece
simplesmente que tudo está indo na direção errada", lamenta East. "E
está afetando os jovens, homens e mulheres."
Heejung
Chung afirma que, de forma geral, o estudo demonstrou que a maioria das pessoas
realmente tem visões de gênero "muito progressistas".
A
pesquisa da Ipsos e do King's College, compilada para o Dia Internacional da
Mulher, indica que as pessoas do Reino Unido detêm visões de gênero mais
progressistas do que a média dos países do estudo.
Dentre
os participantes britânicos, 15% concordam que "o marido deve ter a
palavra final sobre decisões importantes tomadas na sua casa", em
comparação com a média global de 21%.
O Reino
Unido ficou em quarto lugar no índice global de desigualdade de gênero do Fórum
Econômico Mundial em 2025. A posição do país é atribuída à sua proporção de
mulheres no Parlamento e em cargos sênior no mercado de trabalho.
Outras
indicações da pesquisa demonstram que, globalmente, 44% das pessoas concordam
que "fomos longe demais ao promover a igualdade das mulheres e passamos a
discriminar os homens".
Segundo
o organismo de defesa dos direitos das mulheres das Nações Unidas, nenhum país
atingiu plena igualdade legal para mulheres e meninas.
As
mulheres detêm globalmente 64% dos direitos legais dos homens, "o que as
expõem à discriminação, violência e exclusão em todas as fases da vida",
declarou a UN Women.
Penny
East afirma que existe um "fenômeno crescente na percepção do público, de
que a igualdade das mulheres já fez o necessário".
Mas
esta postura, segundo ela, "ignora as estatísticas nacionais que
demonstram, infelizmente, que as mulheres ainda sofrem abusos nas suas próprias
casas, continuam sendo importunadas sexualmente nas ruas e ainda ganham menos,
em comparação com os homens".
• O que é o Dia Internacional das Mulheres
e como começou a ser comemorado?
Você
deve estar vendo o Dia Internacional das Mulheres sendo mencionado na imprensa
ou ouvindo comentários sobre o assunto.
Mas
para que serve esta data? Quando é? É uma celebração ou um protesto? Existe
algo equivalente como um Dia Internacional dos Homens? E que eventos vão
acontecer neste ano?
Por
mais de um século, o dia 8 de março é identificado ao redor mundo como uma data
especial para as mulheres.
A
seguir, explicamos para você por quê.
>>>
1. Como começou?
O Dia
Internacional das Mulheres teve origem no movimento operário e se tornou um
evento anual reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Suas
sementes foram plantadas em 1908, quando 15 mil mulheres marcharam pela cidade
de Nova York exigindo a redução das jornadas de trabalho, salários melhores e
direito ao voto. Um ano depois, o Partido Socialista da América declarou o
primeiro Dia Nacional das Mulheres.
A
proposta de tornar a data internacional veio de uma mulher chamada Clara
Zetkin, ativista comunista e defensora dos direitos das mulheres.
Ela deu
a ideia em 1910 durante uma Conferência Internacional de Mulheres Socialistas
em Copenhague. Havia 100 mulheres, de 17 países, presentes, e elas concordaram
com a sugestão dela por unanimidade.
A data
foi celebrada pela primeira vez em 1911, na Áustria, Dinamarca, Alemanha e
Suíça. E seu centenário foi comemorado em 2011.
Mas o
Dia Internacional das Mulheres só foi oficializado em 1975, quando a ONU
começou a comemorar a data. O primeiro tema foi introduzido pela ONU em 1996:
"Celebrando o Passado, Planejando o Futuro".
O Dia
Internacional das Mulheres se tornou uma ocasião para celebrar os avanços das
mulheres na sociedade, na política e na economia, enquanto suas raízes
políticas significam que greves e protestos são organizados para aumentar a
conscientização em relação à contínua desigualdade de gênero.
>>>
2. Por que 8 de março?
A
proposta de Clara de criar um Dia Internacional das Mulheres não tinha uma data
fixa.
A data
só foi formalizada após uma greve em meio à guerra em 1917, quando as mulheres
russas exigiram "pão e paz" — e quatro dias após a greve o czar foi
forçado a abdicar, e o governo provisório concedeu às mulheres o direito ao
voto.
A greve
das mulheres começou em 23 de fevereiro, pelo calendário juliano, utilizado na
Rússia na época. Este dia corresponde a 8 de março no calendário gregoriano — e
é quando é comemorado hoje.
>>>
3. Por que as pessoas usam a cor roxa?
Roxo,
verde e branco são as cores do Dia Internacional das Mulheres, de acordo com o
site oficial.
"Roxo
significa justiça e dignidade. Verde simboliza esperança. Branco representa
pureza, embora seja um conceito controverso. As cores se originaram da União
Social e Política das Mulheres (WSPU, na sigla em inglês) no Reino Unido em
1908", afirmam.
>>>
4. Existe um Dia Internacional dos Homens?
Existe,
sim, 19 de novembro.
Mas a
data só foi criada na década de 1990 e não é reconhecida pela ONU. É celebrada
em mais de 80 países em todo o mundo, incluindo o Reino Unido.
Este
dia celebra "o valor positivo que os homens trazem para o mundo, suas
famílias e comunidades", de acordo com os organizadores, e visa destacar
modelos positivos, aumentar a conscientização sobre o bem-estar dos homens e
melhorar as relações de gênero.
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5. Como é comemorado o Dia Internacional das Mulheres?
O Dia
Internacional das Mulheres é um feriado nacional em muitos países, incluindo a
Rússia, onde as vendas de flores dobram durante três a quatro dias ao redor de
8 de março.
Na
China, muitas mulheres recebem meio dia de folga no 8 de março, conforme
recomendado pelo Conselho de Estado.
Na
Itália, o Dia Internacional das Mulheres, ou La Festa della Donna, é comemorado
com a entrega de botões de mimosa. A origem desta tradição não é clara, mas
acredita-se que tenha começado em Roma após a Segunda Guerra Mundial.
Nos
EUA, março é o Mês da História das Mulheres. Todos os anos, um pronunciamento
presidencial homenageia as conquistas das mulheres americanas.
Fonte:
BBC News Brasil

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