O
que é o Escudo das Américas, a nova iniciativa de Trump para o continente,
liderada por secretária demitida
Donald
Trump é um grande fã de escudos.
Quase
um ano depois de apresentar seu Domo de Ouro, um sofisticado
sistema de defesa antimíssil que custará US$ 175 bilhões e deverá entrar em
funcionamento em 2029, o presidente dos EUA anunciou sua intenção de lançar o
Escudo das Américas.
O
presidente republicano confiou a tarefa de executar o projeto, descrito por
Washington como "uma nova iniciativa de segurança no Hemisfério
Ocidental", a Kristi Noem, que ele exonerou do cargo de Secretária de
Segurança Interna nesta quinta-feira.
"O
Hemisfério Ocidental é absolutamente crucial para a segurança dos EUA",
declarou Noem em sua conta X (antiga conta do Twitter), onde agradeceu a Trump
por nomeá-la "Enviada Especial para o Escudo das Américas".
Nas
últimas semanas, a secretária tem sido alvo de duras críticas pela controversa onda de prisões de
imigrantes indocumentados iniciada nos últimos meses, durante a qual dois
cidadãos americanos morreram nas mãos de agentes federais em janeiro.
A
iniciativa está sendo lançada neste sábado (7/3), com uma cúpula em Miami, na
Flórida, com a presença de Trump e de líderes de 12 países da região que ele
convidou para aderir ao seu plano, todos alinhados a ele em termos ideológicos.
<><>
O que se sabe
Ao
contrário do Domo de Ouro, o chamado Escudo das Américas não tem como objetivo
repelir mísseis, drones ou outras ameaças militares contra o território ou os
interesses dos EUA. Em vez disso, está voltado para o combate ao narcotráfico,
ao crime organizado e à imigração irregular, segundo as autoridades americanas.
"Espero
trabalhar (...) para desmantelar os cartéis que inundaram nossa nação com
drogas e mataram nossos filhos e netos", declarou Noem, cujas
responsabilidades e deveres daqui para frente não estão totalmente claros.
A
secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, ecoou esses
sentimentos, afirmando: "O presidente conversará com os líderes desses
países, que formaram uma coalizão histórica para trabalhar juntos contra os
cartéis de drogas criminosos e a imigração ilegal em massa".
As
declarações sugerem uma busca por acordos para fortalecer a cooperação policial
no combate ao crime organizado, o que poderia levar a operações conjuntas como
as realizadas recentemente pelas forças americanas e equatorianas em outras
partes da região, previu o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais
(CSIS) em um relatório.
No
entanto, a ausência notável dos presidentes do México e da Colômbia, Claudia
Sheinbaum e Gustavo Petro, respectivamente, na cúpula da Flórida levanta
suspeitas sobre a eficácia da iniciativa.
O
México compartilha uma fronteira de 3 mil quilômetros com os EUA, e uma parcela
significativa das drogas e dos migrantes que entram no país irregularmente
passa por ela, sem mencionar os poderosos cartéis e grupos criminosos que
operam em seu território.
Por sua
vez, a Colômbia é um dos maiores produtores de drogas do mundo.
"Esta
é uma conferência focada em novos parceiros de segurança para os EUA",
explica Carlos Solar, especialista em segurança e defesa na América Latina do
Royal United Services Institute (RUSI) no Reino Unido, à BBC News Mundo,
serviço de notícias da BBC em espanhol.
O
especialista chileno acredita que a cúpula tem um viés ideológico: os 12
líderes convidados são de direita e apoiaram Trump ou foram apoiados por ele em
algum momento.
No
entanto, Solar insiste que o objetivo de Washington é outro.
"Os
países que foram convidados ou aceitaram o convite não têm a mesma relação de
segurança com os EUA que o México e a Colômbia historicamente tiveram",
aponta.
"Por
exemplo, a Argentina se aproximou muito mais da China na última década, e a
Bolívia agora tem um presidente disposto a colaborar com os EUA depois de mais
de uma década de governos do MAS [Movimento ao Socialismo]", acrescenta o
especialista.
Ainda
assim, alguns acreditam que a exclusão do México e da Colômbia é temporária e
não pode ser mantida indefinidamente.
"O
escudo de Trump precisará da Colômbia e do México", afirma Juan Luis
Manfredi, professor de Jornalismo e Estudos Internacionais da Universidade de
Castilla-La Mancha (Espanha) e da Universidade de Georgetown (EUA).
"A
ausência do México e da Colômbia pretende destacar uma diferença e deixar claro
que existem países menos comprometidos, até o momento, com esse escudo",
aponta ele.
"No
caso da Colômbia, o argumento pode ser eleitoral, já que as eleições
presidenciais estão se aproximando; e no caso do México, porque um
relacionamento mais próximo pode ser construído fora do escudo", afirma.
Mas o
narcotráfico e a imigração podem não ser os únicos temas incluídos no plano.
"Não
se deve descartar que questões de segurança mais gerais, como a situação do
Canal do Panamá ou do Estreito de Magalhães, sejam apresentadas na
cúpula", alerta Solar.
Assim
como tentou anexar a Groenlândia, ao retornar à Casa Branca, Trump levantou a
possibilidade de retomar o controle do Canal do Panamá, após denunciar as
"taxas exorbitantes" cobradas dos navios americanos e alegar que a
China controla a hidrovia.
<><>
Nova ordem
O fato
de esta cúpula estar sendo realizada quatro meses após o adiamento da 10ª
Cúpula das Américas é, segundo os especialistas consultados, mais um sinal de
que Trump está determinado a alterar a ordem internacional vigente.
"Trump
não está utilizando os canais regulares do multilateralismo, mas sim optando
por formar novos grupos onde se sinta cercado por pares e indivíduos com ideias
semelhantes", indica Solar.
O
republicano parece querer replicar algo similar ao seu controverso Conselho de Paz de Gaza na região.
Manfredi
lembra que, em janeiro passado, Trump retirou os EUA de três organizações
regionais (o Instituto Interamericano de Pesquisa sobre Mudanças Globais, o
Instituto Pan-Americano de Geografia e História e a Comissão Econômica das
Nações Unidas para a América Latina e o Caribe).
Além do
viés ideológico, outro motivo pelo qual alguns duvidam da eficácia da proposta
de Trump é a saturação do hemisfério com organizações e iniciativas regionais.
"Atualmente,
existem mais de 40 organizações e entidades — incluindo blocos comerciais,
órgãos políticos formais e entidades sub-regionais — específicas para as
Américas", alertou o especialista em relações internacionais Adam Ratzlaff
em um artigo.
Ratzlaff,
fundador da consultoria Pan-American Strategic Advisors, advertiu que
organizações movidas por motivações ideológicas tendem a desaparecer, citando
como exemplo a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), promovida pelo falecido
presidente venezuelano Hugo Chávez no início dos anos 2000.
<><>
De olho na China
Especialistas
acreditam que o Escudo das Américas também tem outro objetivo não declarado:
conter a expansão chinesa na região.
"A
doutrina de segurança nacional busca estabelecer uma barreira contra potências
adversárias e, embora não seja explicitamente declarada, é claramente
direcionada à China", afirma Solar.
Manfredi
ecoa esse sentimento, afirmando: "O Escudo das Américas visa reduzir, ou
pelo menos mitigar, o impacto dos investimentos chineses na região."
O
comércio entre a América Latina e a China tem aumentado constantemente nos
últimos anos.
Em
2024, a troca de bens e serviços atingiu um recorde de US$ 518 bilhões.
A China
é atualmente o principal parceiro comercial da América do Sul e o segundo mais
importante para a América Latina como um todo, depois dos EUA, de acordo com o
Conselho de Relações Exteriores (CFR).
Além
disso, Pequim emprestou mais de US$ 120 bilhões a governos em todo o Hemisfério
Ocidental, informou o CSIS. A região contém inúmeros recursos naturais de
interesse tanto para os EUA quanto para o gigante asiático.
O CSIS
não descarta a possibilidade de que o acesso aos recursos naturais dos países
convidados e os compromissos de investimento sejam firmados durante a reunião
em Miami.
Especialistas
também sugerem que o escudo é mais um passo na implementação da Doutrina de
Segurança Nacional que Washington publicou em dezembro passado.
Ela
anunciou que os EUA buscariam "restaurar sua preeminência no Hemisfério
Ocidental" e retratou a China como "uma economia predatória".
A doutrina foi apelidada de
"Donroe" pela Casa Branca, por ser uma versão atualizada da Doutrina
Monroe de 1823, na qual os EUA rejeitavam qualquer possível interferência das
potências coloniais europeias no continente.
"A
Doutrina Donroe é ofensiva, enquanto a Doutrina Monroe era defensiva e
protetiva contra invasões de potências coloniais", explica Manfredi.
"A
nova perspectiva trumpista considera a América Latina como um espaço que
precisa ser apoiado, defendido e protegido por meio do poder político,
incluindo influência nos processos eleitorais e apoio a certos atores, mas
sobretudo por meio da geoeconomia", indica ele.
Solar
alerta que o conteúdo do documento deve ser levado a sério.
"A
captura de Nicolás Maduro deixou claro para muitos de nós que a doutrina será
aplicada por meio de ações concretas na região", conclui ele.
¨
O que é o sistema de defesa antimíssil 'Domo de Ouro' de
Trump
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma que a aquisição da Groenlândia é fundamental
para o desenvolvimento de seu futurista sistema de defesa Domo de
Ouro.
Em
um discurso no Fórum Econômico Mundial
em Davos,
ele disse: "Tudo o que queremos da Dinamarca, para segurança nacional e
internacional, e para manter à distância nossos potenciais inimigos — muito
enérgicos e perigosos — é esta terra onde construiremos o maior Domo de Ouro já feito."
No ano
passado, Trump disse que o sistema estaria "totalmente operacional"
até o final de seu mandato presidencial em 2029.
Após um
financiamento inicial de US$ 23 bilhões, o presidente estimou o custo total em
cerca de US$ 175 bilhões, mas o Escritório de Orçamento do Congresso afirmou
que o valor final poderia ser quase cinco vezes maior ao longo de duas décadas.
Os
planos envolvem uma rede de tecnologias de "próxima geração" em
terra, mar e espaço — incluindo interceptores e sensores espaciais, com o
objetivo de deter mísseis.
O Domo
de Ouro expandiria e aprimoraria os sistemas existentes para proteger os EUA
contra ameaças aéreas cada vez mais sofisticadas de países como Rússia e China.
<><>
Como funcionaria o Domo de Ouro?
O plano
de Trump é parcialmente inspirado no Domo de Ferro de Israel, que usa sistemas de
defesa por radar para interceptar ameaças de mísseis de curto alcance e está em
uso desde 2011.
O Domo
de Ouro, no entanto, seria muitas vezes maior e projetado para combater uma
gama mais ampla de ameaças.
Ele
usaria uma rede de potencialmente centenas de satélites, algo que teria sido
inviável economicamente no passado, mas que é uma possibilidade mais prática
hoje.
"Ronald
Reagan queria isso há muitos anos, mas eles não tinham a tecnologia",
disse Trump, referindo-se ao sistema de defesa antimíssil baseado no espaço,
popularmente chamado de "Guerra nas Estrelas", que o ex-presidente
havia proposto na década de 1980.
O Domo
de Ouro seria "capaz até mesmo de interceptar mísseis lançados do outro
lado do mundo ou lançados do espaço", acrescentou Trump.
Ele
seria construído para se defender contra mísseis de cruzeiro e balísticos
(incluindo armas hipersônicas — aquelas capazes de se mover mais rápido que a
velocidade do som) e sistemas de bombardeio orbital fracionário — também
chamados de FOBS — que poderiam lançar ogivas do espaço.
O
diretor do Centro de Inovação Cibernética e Tecnológica dos EUA, o
contra-almirante Mark Montgomery, disse à BBC que o Domo de Ouro dependeria de
"três ou quatro grupos de satélites que, juntos, somam centenas de
satélites".
"Há
satélites que fazem detecção, várias centenas deles, detectando lançamentos.
Depois, há uma série que rastreia e fornece soluções de controle de fogo. E,
por fim, há satélites de engajamento, que carregam as armas cinéticas ou o que
quer que seja usado para abater [os mísseis inimigos]", disse ele à BBC.
<><>
É possível construir o Domo de Ouro em três anos?
O
jornalista Shashank Joshi, editor de defesa da revista The Economist, disse à
BBC que os militares dos EUA levam o plano muito a sério, mas que não é
possível acreditar que ele será concluído durante o mandato de Trump. Além
disso, o custo enorme do projeto consumiria uma grande parte do orçamento de
defesa dos EUA.
Montgomery
concorda.
"Esta
é uma missão de cinco, sete, dez anos para ser feita do jeito certo", diz.
"Teremos
coisas daqui a três anos que nos tornem mais seguros? Pode ter certeza",
disse ele. Mas ele ressalta que um "sistema 100% seguro" não é viável
até o final do atual mandato do presidente.
<><>
Quem vai construir o Domo de Ouro?
O
general Michael Guetlein será responsável por liderar o projeto bilionário do
Domo de Ouro.
Desde
dezembro de 2023, ele é o vice-chefe de operações espaciais da Força Espacial,
o ramo das Forças Armadas dos EUA que fornece "alerta de mísseis,
consciência espacial, posicionamento, navegação e sincronização, comunicações e
guerra eletrônica espacial".
Guetlein,
um general de quatro estrelas descrito por Trump como "um homem muito
talentoso", tem larga experiência em espaço e detecção de mísseis. Ele já
foi chefe do Comando de Sistemas Espaciais e diretor de sistemas de
sensoriamento remoto.
Nascido
e criado no Estado americano de Oklahoma, Guetlein ingressou na Força Aérea dos
EUA em 1991, após se formar na Universidade Estadual de Oklahoma.
<><>
O que a Rússia e a China pensam sobre o Domo de Ouro?
O Domo
de Ouro tem como finalidade principal a defesa contra mísseis que possam ser
lançados por Rússia e China.
Um
documento divulgado recentemente pela Agência de Inteligência de Defesa
observou que as ameaças de mísseis "aumentarão em escala e
sofisticação", com ambos os países supostamente projetando ativamente
sistemas "para explorar lacunas" nas defesas dos EUA.
A China
e a Rússia criticaram o conceito como "profundamente
desestabilizador".
O novo
sistema de defesa "prevê explicitamente um fortalecimento significativo do
arsenal para a condução de operações de combate no espaço", disse um
comunicado do Kremlin publicado após conversas entre a Rússia e a China em maio
de 2025.
No
entanto, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, descreveu posteriormente o
plano como "uma questão soberana" para os EUA e sugeriu que ele
poderia levar a uma retomada das negociações sobre armas nucleares.
A
China, por sua vez, afirmou que o plano colocaria em risco a segurança
internacional, intensificando a militarização do espaço e arriscando uma
corrida armamentista.
"O
Domo de Ouro propõe abertamente um aumento em larga escala das capacidades de
combate no espaço exterior... e tem aspectos de natureza fortemente ofensiva,
contrários aos usos pacíficos defendidos pelo Tratado do Espaço Sideral",
disse um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China em maio
passado, instando os EUA a abandonar o sistema.
<><>
O Canadá vai aderir ao sistema Domo de Ouro?
Ainda
não está claro se o Canadá participará do projeto de defesa, visto que a tensão
entre os países vizinhos tem aumentado devido às tarifas de Trump.
Em
Davos, o Secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse que o país foi convidado.
Trump também afirmou que o Canadá deveria ser "grato" pelos
"benefícios" que recebe dos EUA e que o sistema defenderia o Canadá
"por sua própria natureza".
Em maio
de 2025, o gabinete do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, afirmou que
ele e seus ministros estavam discutindo uma nova relação econômica e de
segurança com seus homólogos americanos.
"Essas
discussões incluem, naturalmente, o fortalecimento do NORAD (Comando de Defesa
Aeroespacial da América do Norte) e iniciativas relacionadas, como o Domo de
Ouro", acrescentou.
No ano
passado, o então ministro da Defesa canadense, Bill Blair, também reconheceu
que o Canadá tinha interesse em participar do projeto da cúpula, argumentando
que "fazia sentido" e era do "interesse nacional" do país.
Fonte:
BBC News Mundo

Nenhum comentário:
Postar um comentário