Acossado
por potências militares, assim o Irã contra-ataca
Teerã
sentou-se à mesa de negociações com o governo Trump, de fato. Mas seria
ingenuidade acreditar que o ataque dos Estados Unidos e Israel foi totalmente
surpresa. Não somente devido aos bombardeios de Tel Aviv ano passado a
instalações nucleares, militares e residências de lideranças, com a Operação
Leão em Ascensão, e os protestos nas ruas do país, estimulados por Washington.
Afinal, se há uma palavra que cai como uma luva ao Irã, é resiliência.
“Há certos elementos da própria natureza do regime iraniano que fazem com que
ele tenha sido criado e desenvolvido, desde a Revolução de 1979, para
sobreviver a esses diversos ataques externos, inclusive se protegendo
internamente para evitar instabilidades e cisão de elites.”, aponta Isabela
Agostinelli, professora de Relações Internacionais na Fecap, pesquisadora do
Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos
(INCT-INEU) e do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI) da
PUC-SP.
Até
esta quinta, ao menos 1.230 pessoas morreram, incluindo 175 alunas e
funcionários em um ataque com mísseis a uma escola na cidade iraniana de Minab,
no sábado (28). O conflito se estende para outros países: doze o nações que já
registraram algum tipo de ataque relacionado à ofensiva militar empreendida
inicialmente pelos governos de Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Não há sinais
de arrefecimento de nenhuma das partes, tampouco perspectiva de conversas
acerca de um eventual cessar-fogo.
É
complexo compreender o que se passa pela cabeça de Trump ao negar
descaradamente seu projeto de Make America Great Again (MAGA), que apregoava
que guerras somente trariam volumosos gastos públicos desnecessários e morte de
norte-americanos. Mas, como lembra a pesquisadora, Israel tem grande influência
na política doméstica dos Estados Unidos. Ela também esboça os possíveis
motivos para a ofensiva militar contra o país persa. “As aspirações dos Estados
Unidos e de Israel criam uma ordem regional que leva em consideração a
lucratividade do chamado complexo industrial-militar, os interesses
imobiliários estadunidenses e o interesse israelense de expandir suas
fronteiras nesse neocolonialismo que começou na Palestina, mas que não vai
acabar ali”, analisa Agostinelli.
A
guerra fustigada pela Casa Branca, embora mais contundente que as últimas
contra Teerã, não será um passeio pelo Oriente Médio, como já observamos. Ao
contrário da Venezuela, recentemente atacada e com seus recursos petroleiros
sitiados, o Irã tem significativo poder de fogo — e provou isso ao furar o Domo
de Ferro, o sistema de defesa israelense alardeado como “impenetrável”, por
exemplo. Por isso, é crucial analisar como Teerã age diante de duas potências
tão belicosas. Como tenta resistir e contra-atacar.
Entre
suas estratégias, diz a pesquisadora, está concentrar seus esforços nas
monarquias árabes do Golfo. Bombardeou bases militares norte-americanas no
Bahrein, no Kuwait e nos Emirados Árabes Unidos. Houve respostas, claro. Mas
vários países do Oriente Médio, apesar de enxergarem o Irã como ameaça ao
bloco, começam a entender que este apoio irrestrito aos Estados Unidos, sob a
promessa de proteção, não é mais um bom negócio. Além disso, temem uma
Primavera Árabe, pois seus povos veem Israel como grande ameaça à segurança da
região. “Existe ainda uma dimensão econômica no cálculo estratégico iraniano:
atingir os fluxos de comércio e de pessoas, a logística que sustenta as
monarquias do Golfo, grandes pontos de passagem entre o Ocidente e o Extremo
Oriente”, diz ela.
Nesta
entrevista, Isabela Agostinelli analisa a sabotagem às negociações com o Irã, a
conexão da guerra com a Questão Palestina, o pânico moral propagandeado pelas
mídias ocidentais para justificar a guerra e o papel geopolítico da Rússia e
China no Oriente Médio. Confira os principais trechos da entrevista realizada
por Glauco Faria.
·
O timing dos ataques
Ainda
não conseguimos identificar a racionalidade central por trás dessa ação militar
dos Estados Unidos e Israel, que foi uma agressão apesar de ter sido
qualificada como guerra preventiva ou ataque preventivo. Trump e Netanyahu
sempre justificam os seus bombardeios no Irã com base na necessidade de mudança
de regime, mas o Irã já mostrou que é um Estado muito forte no sentido da sua
organização política e das divisões de poderes, e o assassinato de uma
liderança específica — o Khamenei, no caso — não seria suficiente para promover
essa mudança de regime. O Irã não é a Venezuela, não é o Iraque, não é o
Afeganistão. Há certos elementos da própria natureza do regime iraniano que
fazem com que ele tenha sido criado e desenvolvido, desde a Revolução de 1979,
para sobreviver a esses diversos ataques externos, inclusive se protegendo
internamente para evitar instabilidades e cisão de elites.
Sobre
o timing, é muito curioso: Estados Unidos e Irã estavam em processo
de negociação para um novo acordo nuclear mediado pelo governo de Omã há
algumas semanas. Os próprios protestos nas ruas foram diminuindo, ainda há
diversas reclamações das distintas oposições ao regime iraniano, mas não a
ponto de significar a sua queda. O Irã já tinha concordado em abrir o país para
inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica, e horas depois veio esse
ataque, mostrando que não havia interesse genuíno em chegar a um acordo. O
máximo que houve nesse sentido foi o estabelecido em 2015, ainda na presidência
de Obama, com o JCPOA [Joint Comprehensive Plan of Action], o acordo nuclear
que resultou num alívio das sanções econômicas que o Irã sofre há muito tempo,
não só dos Estados Unidos, mas da União Europeia e de vários outros países.
Quando Trump chegou ao poder, em 2018, acabou unilateralmente com esse acordo,
retirou-se dele e reinstaurou as sanções no que ele chamou de campanha de
pressão máxima.
O Irã
já sabe que os Estados Unidos não são um parceiro confiável. Já sabia disso,
mas essa movimentação recente provou que não há possibilidade real de
negociação e que, mesmo que exista, o resultado não será cumprido. O próprio
representante da Agência Internacional de Energia Atômica veio a público
afirmar que não havia nenhuma evidência de que o Irã estava desenvolvendo uma
arma nuclear ou representando uma ameaça existencial para os Estados Unidos.
Essa guerra é injustificável do ponto de vista do direito internacional.
·
Gaza, Cisjordânia e o projeto expansionista de Israel
Existe
uma influência muito forte dos interesses israelenses na política doméstica
norte-americana, mas não acredito que isso seja o único motivo. Há também
interesses que podem ser pessoais de Trump ou de parte da sua base de apoio.
Não do Make America Great Again (MAGA), que defende o America First e não quer
que o país se envolva militarmente na região do Oriente Médio, porque isso
sempre é muito custoso, inclusive em vidas humanas. Ainda que, nesse caso, o
custo em vidas seja menor, dado que as táticas de ataque são predominantemente
aéreas, sem movimentação de tropas terrestres, o que já é uma diferença em
relação à ocupação do Iraque e do Afeganistão, que mobilizou milhares de
soldados americanos.
Há um
elemento importante na vinculação desses eventos recentes com a guerra em Gaza,
que em tese está num cessar-fogo desde outubro do ano passado e tem passado por
um processo de reconstrução conduzido por aquele Conselho de Paz, que também é
uma piada. Na verdade, trata-se de um neocolonialismo, uma tentativa de
transformar Gaza num empreendimento imobiliário, de lucrar com essa
reconstrução e, ao mesmo tempo, continuar matando os palestinos que vivem ali.
O cessar-fogo já foi violado diversas vezes. É uma transformação espacial da
Faixa de Gaza cujo resultado ainda não sabemos, mas é uma tentativa de Israel
se aproveitar do momento em que Gaza sai dos holofotes, assim como a
Cisjordânia, onde está cada vez mais próxima a possibilidade de anexação ao Estado
de Israel, com o aumento da violência dos colonos e dos soldados israelenses
contra os palestinos que vivem ali.
É uma
estratégia de Netanyahu promover uma expansão para a guerra regional, para além
de Gaza, e avançar seu projeto de Grande Israel, que não se resume ao
território da Palestina histórica, mas envolve partes do Líbano e da Síria, por
exemplo. Não é à toa que o próprio Hezbollah (e muitos consideraram um erro
tático) atacou a cidade de Haifa logo depois dos ataques iranianos, o que
resultou no envio de tropas israelenses para o sul do Líbano. Israel sempre se
aproveita desses momentos de instabilidade que ele mesmo cria para avançar em
seu projeto de modificação do espaço regional.
Essa
expansão também vem às custas da desmobilização iraniana. O Irã ainda é o
grande ator que consegue bater de frente com Israel, ainda que as capacidades
militares sejam desproporcionais. Israel tem capacidade militar muito maior,
mas o Irã tem provado que consegue enfrentá-lo, impondo custos ao outro lado. A
junção dessas aspirações dos Estados Unidos e de Israel cria uma ordem regional
que leva em consideração a lucratividade do chamado complexo
industrial-militar, os interesses imobiliários estadunidenses e o interesse
israelense de expandir suas fronteiras nesse neocolonialismo que começou na
Palestina, mas que não vai acabar ali.
·
Uma suposta “guerra de valores”
Na
narrativa que vemos da mídia tradicional, principalmente a brasileira, a
própria qualificação do Irã remete ao “regime dos aiatolás”, como se o país se
resumisse à existência de aiatolás, quando se trata de um Estado forte, muito
bem dividido politicamente, ainda que com a balança de poder mais favorável
para algumas elites do que para outras. Um sistema de governo que, sim, tem um
elemento religioso: Khamenei era um líder nesse sentido, com influência
política. Mas o Irã se vale bastante da sua Guarda Revolucionária, que muitos
analistas apontam como cada vez mais fortalecida, principalmente nas suas
correntes de linha dura.
Não é à
toa que o Irã reagiu muito rapidamente, sem esperar 12 dias como fez no ano
passado, concentrando seus esforços nas monarquias árabes do Golfo. As
narrativas da mídia tradicional reduzem o conflito — não só em relação ao Irã,
mas ao Oriente Médio em geral — a um embate religioso, como se a religião fosse
o elemento central, quando na verdade ela funciona como um malabarismo
argumentativo em torno de valores ocidentais. E as mulheres são sempre um
grande objeto nesse enquadramento, nunca sujeitos. Vi várias reportagens, com
muitas informações falsas, mostrando como as mulheres iranianas agora estariam
livres porque Khamenei morreu e agora poderiam tirar o véu, como se o véu fosse
o grande problema daquelas mulheres. Existem vários movimentos feministas e de
direitos das mulheres no Irã, mas ninguém lhes pergunta o que querem. É sempre
uma versão que as coloca como objeto da própria história, não como sujeitos.
Não se questiona qual é a sua opinião sobre a intervenção externa, sobre os
bombardeios dos Estados Unidos, até porque os primeiros alvos atingidos
incluíram uma escola de meninas. O argumento já cai por terra no primeiro
movimento deles. O interesse era proteger o direito das mulheres? Nunca foi.
Nunca foi no Afeganistão, para proteger as mulheres do Talibã.
É
sempre um argumento que tem força porque é subjetivo, relacionado a valores,
uma justificativa que encobre os interesses reais dessas guerras: interesses
materiais, territoriais, comerciais e imperialistas.
A
religião islâmica tem várias vertentes internas, mas é tratada de forma
simplista ou, no extremo oposto, como se fosse a grande fonte de
desestabilização mundial. Essa narrativa orientalista não é nova, Edward Said
já falava nisso há muito tempo, sobre o estereótipo de uma religião tratada sem
nenhuma consideração pela sua complexidade, pela sua importância não só para o
Oriente Médio, mas para a Ásia e para países africanos. Como se os Estados
seculares também não fossem, em sua maioria, atravessados pela influência
religiosa. Nos Estados Unidos e no Brasil fala-se de fundamentalismo islâmico,
mas não de fundamentalismo evangélico, que tem sido uma questão cada vez mais
relevante.
O
elemento central não é a religião, é como ela é instrumentalizada. O problema
não é Khamenei e a religião muçulmana, mas os interesses de Israel e dos
Estados Unidos na região do Oriente Médio e a forma como o Irã se contrapõe a
eles, barrando sua influência não só dentro do próprio país, mas por meio de
alianças com os chamados atores não estatais: Hezbollah, Hamas, Houthis, Ansar
Allah. Grupos que hoje estão enfraquecidos e passando por desestabilizações
internas.
·
Dividir para conquistar
Uma das
possíveis estratégias por trás da ofensiva dos EUA seria justamente promover o
caos dentro do Irã. Vimos isso no começo do ano, com a tentativa de inflar os
protestos tanto por parte dos Estados Unidos quanto de Israel. Agora parece
existir uma tentativa de insuflar os movimentos separatistas, principalmente em
relação aos curdos, que não se resumem ao Irã, vivem também em partes do
Iraque, da Síria e da Turquia.
Poucos
elementos ainda apontam com clareza para isso, mas seria uma possibilidade que
vale investigar. Insuflar esses movimentos seria promover no Irã algo
semelhante ao que está acontecendo com a Síria depois da queda de Bashar
al-Assad, um processo de reconstrução de Estado muito delicado e ambíguo. Essa
velha tática de dividir e conquistar é mais difícil de aplicar no caso do Irã,
mas também é por isso que o Irã avança sobre as monarquias árabes. Desde o
início dos ataques, já começou a bombardear bases militares americanas no
Bahrein, no Kuwait e nos Emirados Árabes Unidos. As interceptações desses
mísseis iranianos acabam gerando os chamados danos colaterais e atingindo a
população civil.
Não há
ataques diretos da Arábia Saudita ou dos Emirados Árabes Unidos contra o Irã, e
isso é improvável, seria muito custoso, não só financeiramente, mas em termos
de apoio popular. A grande preocupação das monarquias árabes é a chamada rua
árabe, como ficou evidente na Primavera Árabe, quando as manifestações foram
violentamente reprimidas no Bahrein, na Arábia Saudita e em outros países. A
população em geral não apoia o processo de normalização das relações com Israel
nem as ações contra o Irã. Pelo contrário, enxerga em Israel a grande ameaça à
segurança da região, o que os palestinos atestam há décadas, pelo menos desde
1948.
Há pelo
menos dez anos tem crescido um movimento, que alguns autores chamam de hedging e
que chamamos no Brasil de equidistância pragmática, pelo qual as monarquias
árabes buscam não depender tanto da proteção dos Estados Unidos. Há um grande
contingente de bases militares e soldados americanos naquela região, inclusive
no Catar, que sedia a maior base dos EUA no mundo. Mas sediar essas bases, como
o Irã tenta demonstrar, é muito mais um perigo do que uma proteção, porque os
Estados Unidos não estão fazendo nada para proteger esses países. Pelo
contrário, os utilizam como peças numa disputa da qual eles também pagam o
preço.
De um
lado, o Irã tenta mostrar que a aliança das monarquias árabes com os Estados
Unidos é muito custosa. Já houve, por parte do governo iraniano, uma tentativa
de diálogo com elas, a Arábia Saudita talvez tenha sido pioneira nesse sentido,
com a normalização das relações com o Irã em 2023, antes do 7 de outubro, numa
conversa mediada pela China. Isso mostra que há possibilidade de o Irã e o
Conselho de Cooperação do Golfo chegarem a um entendimento que reduza essa
inimizade. O Conselho foi criado em 1981, num contexto muito diferente, marcado
pela guerra entre Irã e Iraque que ameaçava a estabilidade do Golfo.
Os
iranianos continuaram sendo vistos como a grande ameaça pelo bloco, mas nos
últimos anos há uma mudança de percepção: tem ficado cada vez mais evidente que
a principal ameaça à estabilidade regional é Israel, com o respaldo
incondicional dos Estados Unidos. Isso foi demonstrado na Guerra dos Doze Dias
e nos ataques israelenses ao Catar em setembro de 2025. Como um aliado ataca
outro?
Existe
ainda uma dimensão econômica no cálculo estratégico iraniano: atingir os fluxos
de comércio e de pessoas, a logística que sustenta as monarquias do Golfo,
grandes pontos de passagem entre o Ocidente e o Extremo Oriente. Quem viaja da
América Latina ou dos Estados Unidos para a China, por exemplo, frequentemente
faz escala em Dubai ou Doha. As disrupções nessa logística têm efeitos
concretos. O próprio fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do
petróleo mundial, mostra que, para além dos ataques militares, existe uma
tentativa iraniana de atuar sobre o comércio internacional.
Depois
dos ataques, a Grã-Bretanha declarou que estaria ao lado dos Estados Unidos.
Mas após o Irã atacar uma base britânica no Chipre, indo além das monarquias
árabes, a mensagem ficou clara: há um custo em apoiar as ações de Estados
Unidos e Israel, e esse custo pode chegar à Europa.
·
O Irã sozinho. E por que Rússia e China ficam à margem
Rússia
e China não estão movendo um dedo para ajudar o Irã, o que já era esperado. Não
é interesse dessas duas potências um envolvimento militar direto. Há quem
especule que a China também seria um alvo no horizonte desses ataques, mas ela
não depende exclusivamente do petróleo iraniano, compra muito mais dos Emirados
Árabes Unidos, da Arábia Saudita e das monarquias do Golfo em geral.
O Irã é
um parceiro estratégico da China, mas essa parceria ainda não se traduziu em
apoio militar equivalente ao que os Estados Unidos oferecem a Israel. A Rússia,
por sua vez, está completamente absorta na guerra da Ucrânia, já no quarto ano
sem perspectiva de paz no horizonte, e mantém alianças estratégicas com
Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. O Irã depende muito mais desses países
do que o contrário.
Além
disso, envolver-se militarmente significaria um confronto direto com os Estados
Unidos e isso não é do interesse de nenhuma das duas potências, nem é o padrão
de comportamento da China, que evita intervenções militares, ao menos no
Oriente Médio. Portanto, o Irã está sozinho. O máximo de apoio que conta é do
Hezbollah e é por isso que está apostando todas as suas fichas nas monarquias
árabes do Golfo.
Fonte: Entrevista
de Isabela Agostinelli para Glauco Faria, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário