Quais
são as diferenças entre sunitas e xiitas, que estão nas origens dos conflitos
no Oriente Médio
A
grande divisão do mundo muçulmano é entre sunitas e xiitas.
A
reação iraniana aos ataques de Israel e dos Estados
Unidos,
lançando mísseis e drones em direção aos seus
vizinhos de
maioria sunita aliados a Washington na região, evidenciou novamente que as
tensões políticas e religiosas tradicionais no Oriente Médio continuam vigentes
e marcam a postura de várias partes envolvidas.
Para
muitos analistas, as diferenças entre os dois ramos do Islamismo são uma clara
recordação das complexas relações entre os principais rivais do Oriente Médio:
a Arábia Saudita e o Irã.
Antes
que os ataques combinados dos Estados Unidos e Israel colocassem o regime
islâmico na corda bamba, os dois países estavam envolvidos em uma feroz disputa
pelo domínio regional. E esta disputa de décadas é agravada pela divisão
religiosa.
Cada um
deles segue um ramo do Islamismo. O Irã, em grande parte, é muçulmano xiita,
enquanto a Arábia Saudita se considera a principal potência muçulmana sunita.
O
enfrentamento entre as duas vertentes também foi observado no recente conflito
entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza e, novamente,
nas diferentes reações aos ataques de Israel e dos Estados Unidos, que puseram
fim, entre muitas outras, à vida do ex-líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026).
Após o
ataque mortal a Khamenei, o Hezbollah lançou em
represália mísseis e foguetes sobre a cidade israelense de Haifa, abrindo um
novo foco de conflito. Israel respondeu atacando o Hezbollah no território
libanês.
O
Hezbollah é uma milícia libanesa formada por xiitas. Eles são aliados do Irã
dos aiatolás, que os apoiou e
financiou por anos.
Outro
grupo xiita nesta região repleta de convulsões são os houthis do
Iêmen, que também são aliados de Teerã.
Os
houthis ainda não reagiram ao ataque contra o Irã, mas estrategistas americanos
e israelenses receiam que eles acabem se envolvendo com ataques aos navios que
trafegam pelo estratégico Estreito de Ormuz, como já aconteceu no passado.
Já os
adversários do Irã são os curdos, sunitas
considerados um povo sem Estado que vivem espalhados por países como o Iraque,
a Turquia e o próprio Irã.
Grupos
de opositores curdos no exílio declararam à BBC que já têm planos para adentrar
no território iraniano e apoiar a luta contra as forças do governo do país.
A
divisão entre sunitas e xiitas remonta a 632 d.C., ano da morte do
profeta Maomé. Ela gerou uma
disputa pelo direito de liderar os muçulmanos, que, de certa forma, persiste
até os dias de hoje.
As duas
vertentes coexistiram por séculos, compartilhando muitas crenças e práticas.
Mas sunitas e xiitas mantêm diferenças importantes, em termos de doutrina,
rituais, leis, teologia e organização.
Seus
respectivos líderes também se acostumaram a competir por influência.
Da
Síria até o Líbano, passando pelo Iraque e pelo Paquistão, muitos dos conflitos
recentes destacaram ou até agravaram esta divisão, rompendo comunidades
inteiras.
Aqui
explicamos do que consistem estes dois ramos do Islã e suas principais
diferenças.
<><>
Quem são os sunitas?
Os
sunitas são maioria entre os muçulmanos. Estima-se que cerca de 90% deles
pertençam a esta corrente. Eles se consideram o ramo mais tradicional e
ortodoxo do Islã.
De
fato, o nome "sunita" provém da expressão árabe Ahl al-Sunnah —
o povo da tradição. Trata-se, neste caso, de uma referência às práticas
derivadas das ações do profeta Maomé e suas pessoas próximas.
Os
sunitas veneram todos os profetas mencionados no Corão, mas particularmente
Maomé, considerado o profeta definitivo. E os líderes muçulmanos que se
seguiram são considerados figuras temporárias.
No
mais, diferentemente dos xiitas, os mestres e líderes religiosos sunitas são
historicamente controlados pelo Estado.
A
tradição sunita tem sua expressão máxima na Arábia Saudita e também defende um
sistema jurídico islâmico claramente codificado, bem como a filiação a uma
dentre quatro escolas legais.
<><>
Quem são os xiitas?
Os
xiitas começaram como uma facção política. Literalmente, o nome significa Shiat
Ali, o partido de Ali.
Ali era
o genro do profeta Maomé. Os xiitas reclamam seu direito e de seus descendentes
de liderar os muçulmanos.
Ali
morreu assassinado em virtude das intrigas, violência e guerras civis que
marcaram seu califado. Seus filhos Hassan e Hussein tiveram negado o que
consideravam seu direito legítimo de sucedê-lo.
Acredita-se
que Hassan tenha sido envenenado por Muawiyah, que foi o primeiro califa (líder
dos muçulmanos) da dinastia Umayyad. Já o seu irmão Hussein morreu no campo de
batalha, ao lado de vários membros da família.
Estes
eventos geraram o conceito xiita de martírio e dos seus rituais de luto.
A fé
xiita também é caracterizada por um distinto elemento messiânico. E eles contam
com uma hierarquia de clérigos que praticam uma interpretação aberta e
constante dos textos islâmicos.
Calcula-se
que os xiitas somem atualmente 120 a 170 milhões de fiéis, o que representa
cerca de 10% de todos os muçulmanos.
Eles
são a maioria da população no Irã, Iraque, Bahrein, Azerbaijão e, segundo
algumas estimativas, no Iêmen.
Mas
também há importantes comunidades xiitas no Afeganistão, Arábia Saudita, Catar,
Emirados Árabes Unidos, Índia, Kuwait, Líbano, Paquistão, Síria e Turquia.
O líder
supremo iraniano exercia notável influência espiritual sobre milhões de xiitas.
Eles o consideravam o intermediário entre os fiéis e o mahdi, o
imã oculto que, segundo acreditam, irá reaparecer no final dos tempos.
<><>
Qual a influência desta divisão nos conflitos políticos?
Nos
países governados por sunitas, os xiitas normalmente estão entre os mais pobres
da sociedade. Eles se consideram vítimas de opressão e discriminação.
Alguns
extremistas sunitas também chegaram a pregar o ódio contra os xiitas.
A
Revolução Iraniana de 1979, por outro lado, introduziu uma agenda islamista
radical de vertente xiita, que desafiou os governos sunitas conservadores,
particularmente no Golfo Pérsico.
Os
Estados do Golfo contrabalançaram a política de Teerã, de apoiar partidos e
milícias xiitas além das suas fronteiras, com maior apoio a governos e
movimentos sunitas no exterior.
Durante
a guerra civil libanesa (1975-1990), por exemplo, os xiitas ganharam
protagonismo graças às atividades militares do Hezbollah.
Extremistas
sunitas, como o Talebã, fizeram o mesmo no
Paquistão e no Afeganistão, onde atacam frequentemente os locais de culto dos
xiitas.
Os
recentes conflitos no Iraque e na Síria também adquiriram viés sectário. Muitos
jovens sunitas se uniram aos grupos rebeldes para combater nesses países,
reproduzindo a ideologia extremista da antiga al-Qaeda, um grupo de vertente
sunita.
¨
Como os líderes do Irã planejam sobreviver diante da
superioridade militar americana
Os
Estados Unidos e Israel afirmam que seus ataques aéreos conjuntos já
causaram danos significativos às instalações
militares do Irã.
"Suas
defesas aéreas, sua força aérea, marinha e liderança se foram", postou o
presidente americano, Donald Trump, na sua plataforma
Truth Social na terça-feira (3/3). "Eles querem conversar. Eu disse:
'Tarde demais!'"
O Irã
reagiu lançando ataques contra Israel e os países do Oriente Médio que abrigam
bases militares dos Estados Unidos, afirmando estar agindo em autodefesa.
Mas,
com Israel e os Estados Unidos considerados militarmente superiores, quais
opções teria o Irã nesta guerra? E qual estratégia o país está buscando seguir?
<><>
Drenagem de recursos
O
especialista em segurança do Oriente Médio, H. A. Hellyer, do centro de estudos
britânico Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança
(Rusi, na sigla em inglês), afirma que o atual objetivo militar do Irã não é
vencer os Estados Unidos ou Israel "em uma guerra convencional", mas
sim transformar o conflito em um evento "prolongado, regionalmente
disperso e economicamente caro".
"O
Irã não pode vencer convencionalmente", explica ele, "mas sua
estratégia é garantir que a vitória dos demais permaneça cara e incerta."
A
professora Nicole Grajewski, do Centro de Estudos Internacionais (Ceri, na
sigla em francês) da Universidade Sciences Po, na França, é da mesma opinião.
Ela
descreve a estratégia do Irã como "uma guerra de atrito", projetada
para desgastar o oponente, drenando seus recursos e infligindo perdas
sustentadas, até enfraquecer sua capacidade de luta.
Existe
também uma dimensão psicológica.
"Durante
a Guerra dos 12 Dias [contra Israel,
no ano passado], o Irã se dirigiu muito mais a áreas civis", explica
Grajewski.
"A
precisão não foi grande preocupação. Isso instila temor psicológico e trauma
entre a população."
Acredita-se
que os mísseis e drones formem a principal estrutura do arsenal defensivo
iraniano.
O
inventário de mísseis balísticos do Irã teria sido seriamente afetado durante a
Guerra dos 12 Dias, mas "os números exatos permanecem incertos, devido ao
armazenamento subterrâneo e aos esforços contínuos de reposição", segundo
Grajewski.
Israel
calcula que o Irã tivesse cerca de 2,5 mil mísseis em fevereiro de 2026, de
curto (até 1 mil km) e médio alcance (1 mil a 3 mil km).
Autoridades
iranianas afirmam terem usado sistemas como os mísseis Sejjil, descrito como
tendo alcance de cerca de 2 mil km, e Fattah, caracterizado por Teerã como
hipersônico, ou seja, muito mais rápido que a velocidade do som.
<><>
'Cidades de mísseis'
As
autoridades e a imprensa iraniana fazem frequentes referências a instalações de
mísseis subterrâneas, conhecidas como "cidades de mísseis". Mas os
detalhes da sua escala e inventário permanecem sem verificação.
O
principal comandante americano, o general Dan Caine, afirma que os lançamentos
de mísseis balísticos pelo Irã caíram em 86% desde o primeiro dia de combate, o
sábado (28/2). E o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) informa uma
queda de mais 23% na terça (3/3).
Ainda
assim, Hellyer afirma que o Irã detém capacidade de ataque significativa para
atingir "infraestrutura israelense, bases regionais americanas e aliados
do Golfo, além de ameaçar os fluxos globais de energia através do Estreito de
Ormuz".
"Mesmo
uma paralisação limitada do Estreito pode trazer graves consequências para a economia
global", destaca ele.
Cerca
de 20% do petróleo do mundo passa através do Estreito. Agora, ele está
efetivamente fechado pelo Irã, que prometeu atacar qualquer navio que tente
transitar por ali.
O Irã
pode enfrentar escassez de mísseis avançados e propelentes sólidos, mas
Grajewski afirma que sua capacidade de lançar drones ainda é significativa.
Acredita-se
que o país tenha produzido dezenas de milhares de drones de ataque Shahed
kamikazes antes da guerra. Seu projeto foi exportado para a Rússia e até os
Estados Unidos reproduziram alguns aspectos da sua tecnologia.
Eles
também atendem a um objetivo estratégico além dos danos diretos. Eles
"desgastam os sistemas de defesa aérea ao longo do tempo", forçando
os adversários a gastar mísseis interceptadores de alto custo.
"Parte
disso pretende exaurir as capacidades de interceptação", explica
Grajewski.
"O
Irã vem fazendo isso com UAVs [veículos aéreos não tripulados, na sigla em
inglês] e drones. É algo que os russos também têm feito na Ucrânia."
Mas os
Estados Unidos afirmam que os lançamentos de drones pelo Irã caíram em 73%
desde o primeiro dia do conflito.
O
Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS, na sigla em inglês), sediado
em Tel Aviv (Israel), declarou que os Estados Unidos e Israel já realizaram
mais de 2 mil ataques com múltiplas munições, enquanto o Irã lançou 571 mísseis
e 1.391 drones, muitos dos quais foram interceptados.
Manter
este nível de combate se tornará cada vez mais difícil para os dois lados, à
medida que a guerra continua, defendem os especialistas.
<><>
Conflito prolongado
O Irã
também mantém uma das maiores forças armadas do Oriente Médio.
São
cerca de 610 mil militares na ativa, segundo estimativa do relatório Balanço
Militar de 2025, publicado pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos
(IISS, na sigla em inglês). Eles incluem:
- 350 mil no
exército regular; e
- 190 mil no Corpo
da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), que supervisiona os programas de
mísseis e drones, além de muitas operações regionais.
O Irã
também conta com uma rede de aliados regionais. Eles incluem os rebeldes
houthis, no Iêmen, grupos armados do Iraque, o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas,
nos territórios ocupados.
Mas seu
autodenominado Eixo da Resistência sofreu fortes
baixas durante os combates que se espalharam pela região, após o ataque do
Hamas a Israel em outubro de 2023.
Apesar
das restrições atuais, o Irã tem experiência em suportar conflitos prolongados,
segundo Grajewski. Sua resiliência data da Guerra Irã-Iraque (1980-1988),
quando as cidades iranianas foram repetidamente atacadas, apesar da
inferioridade convencional.
Mas a
continuidade da estratégia iraniana pode depender da sua coesão interna.
"Realmente
depende de como a elite política e de segurança permanece unida e se existem
cismas", explica Grajewski. "Isso pode causar maior desarticulação,
em termos de estratégia militar."
"Parece
que os operadores de mísseis estão sob muita tensão e exaustão, o que causa
imprecisões ou disparos acidentais contra alvos errados. Muitas operações são
mais desorganizadas e existe um nível de exaustão."
E isso,
combinado com os contínuos ataques às forças e estoques de mísseis do Irã,
"poderá gerar uma escalada inadvertida".
<><>
'Escaladas maiores'
Nicole
Grajewski destaca a Turquia, que declarou que as defesas aéreas da Otan
destruíram um míssil balístico iraniano que se dirigia para o espaço aéreo
turco na quarta-feira (4/3).
Vizinha
do Irã, a Turquia buscou mediar as negociações entre o Irã e os Estados Unidos
antes do início da guerra aérea no final de semana (28/2-1/3). O país alertou
para que "todas as partes evitem tomar ações que gerem escaladas
maiores".
Mas o
objetivo principal do Irã é tornar as condições "tão intoleráveis"
para os países vizinhos, que "possam potencialmente pressionar os Estados
Unidos ou, pelo menos, tentar levar os EUA para um acordo mais negociado ou
para o fim das hostilidades", explica Grajewski.
"Até
aqui, não acho que isso terá sucesso, mas parece ser a aposta que o Irã tem no
momento", destaca ela.
Mas
esta aposta pode simplesmente sair pela culatra.
H. A.
Hellyer afirma que os países do Golfo "podem decidir que, embora se
oponham em princípio à guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, sua
própria segurança, agora, está em risco, devido às represálias iranianas contra
eles. E que, por isso, faz mais sentido apoiar a campanha americana, para pôr
fim à ameaça imediata do Irã."
"Não
acho que os países do Golfo já tenham chegado a este ponto, mas o tempo, neste
particular, está acabando", conclui ele.
Fonte:
BBC News Mundo

Nenhum comentário:
Postar um comentário