segunda-feira, 9 de março de 2026

Quais são as diferenças entre sunitas e xiitas, que estão nas origens dos conflitos no Oriente Médio

A grande divisão do mundo muçulmano é entre sunitas e xiitas.

A reação iraniana aos ataques de Israel e dos Estados Unidos, lançando mísseis e drones em direção aos seus vizinhos de maioria sunita aliados a Washington na região, evidenciou novamente que as tensões políticas e religiosas tradicionais no Oriente Médio continuam vigentes e marcam a postura de várias partes envolvidas.

Para muitos analistas, as diferenças entre os dois ramos do Islamismo são uma clara recordação das complexas relações entre os principais rivais do Oriente Médio: a Arábia Saudita e o Irã.

Antes que os ataques combinados dos Estados Unidos e Israel colocassem o regime islâmico na corda bamba, os dois países estavam envolvidos em uma feroz disputa pelo domínio regional. E esta disputa de décadas é agravada pela divisão religiosa.

Cada um deles segue um ramo do Islamismo. O Irã, em grande parte, é muçulmano xiita, enquanto a Arábia Saudita se considera a principal potência muçulmana sunita.

O enfrentamento entre as duas vertentes também foi observado no recente conflito entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza e, novamente, nas diferentes reações aos ataques de Israel e dos Estados Unidos, que puseram fim, entre muitas outras, à vida do ex-líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026).

Após o ataque mortal a Khamenei, o Hezbollah lançou em represália mísseis e foguetes sobre a cidade israelense de Haifa, abrindo um novo foco de conflito. Israel respondeu atacando o Hezbollah no território libanês.

O Hezbollah é uma milícia libanesa formada por xiitas. Eles são aliados do Irã dos aiatolás, que os apoiou e financiou por anos.

Outro grupo xiita nesta região repleta de convulsões são os houthis do Iêmen, que também são aliados de Teerã.

Os houthis ainda não reagiram ao ataque contra o Irã, mas estrategistas americanos e israelenses receiam que eles acabem se envolvendo com ataques aos navios que trafegam pelo estratégico Estreito de Ormuz, como já aconteceu no passado.

Já os adversários do Irã são os curdos, sunitas considerados um povo sem Estado que vivem espalhados por países como o Iraque, a Turquia e o próprio Irã.

Grupos de opositores curdos no exílio declararam à BBC que já têm planos para adentrar no território iraniano e apoiar a luta contra as forças do governo do país.

A divisão entre sunitas e xiitas remonta a 632 d.C., ano da morte do profeta Maomé. Ela gerou uma disputa pelo direito de liderar os muçulmanos, que, de certa forma, persiste até os dias de hoje.

As duas vertentes coexistiram por séculos, compartilhando muitas crenças e práticas. Mas sunitas e xiitas mantêm diferenças importantes, em termos de doutrina, rituais, leis, teologia e organização.

Seus respectivos líderes também se acostumaram a competir por influência.

Da Síria até o Líbano, passando pelo Iraque e pelo Paquistão, muitos dos conflitos recentes destacaram ou até agravaram esta divisão, rompendo comunidades inteiras.

Aqui explicamos do que consistem estes dois ramos do Islã e suas principais diferenças.

<><> Quem são os sunitas?

Os sunitas são maioria entre os muçulmanos. Estima-se que cerca de 90% deles pertençam a esta corrente. Eles se consideram o ramo mais tradicional e ortodoxo do Islã.

De fato, o nome "sunita" provém da expressão árabe Ahl al-Sunnah — o povo da tradição. Trata-se, neste caso, de uma referência às práticas derivadas das ações do profeta Maomé e suas pessoas próximas.

Os sunitas veneram todos os profetas mencionados no Corão, mas particularmente Maomé, considerado o profeta definitivo. E os líderes muçulmanos que se seguiram são considerados figuras temporárias.

No mais, diferentemente dos xiitas, os mestres e líderes religiosos sunitas são historicamente controlados pelo Estado.

A tradição sunita tem sua expressão máxima na Arábia Saudita e também defende um sistema jurídico islâmico claramente codificado, bem como a filiação a uma dentre quatro escolas legais.

<><> Quem são os xiitas?

Os xiitas começaram como uma facção política. Literalmente, o nome significa Shiat Ali, o partido de Ali.

Ali era o genro do profeta Maomé. Os xiitas reclamam seu direito e de seus descendentes de liderar os muçulmanos.

Ali morreu assassinado em virtude das intrigas, violência e guerras civis que marcaram seu califado. Seus filhos Hassan e Hussein tiveram negado o que consideravam seu direito legítimo de sucedê-lo.

Acredita-se que Hassan tenha sido envenenado por Muawiyah, que foi o primeiro califa (líder dos muçulmanos) da dinastia Umayyad. Já o seu irmão Hussein morreu no campo de batalha, ao lado de vários membros da família.

Estes eventos geraram o conceito xiita de martírio e dos seus rituais de luto.

A fé xiita também é caracterizada por um distinto elemento messiânico. E eles contam com uma hierarquia de clérigos que praticam uma interpretação aberta e constante dos textos islâmicos.

Calcula-se que os xiitas somem atualmente 120 a 170 milhões de fiéis, o que representa cerca de 10% de todos os muçulmanos.

Eles são a maioria da população no Irã, Iraque, Bahrein, Azerbaijão e, segundo algumas estimativas, no Iêmen.

Mas também há importantes comunidades xiitas no Afeganistão, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos, Índia, Kuwait, Líbano, Paquistão, Síria e Turquia.

O líder supremo iraniano exercia notável influência espiritual sobre milhões de xiitas. Eles o consideravam o intermediário entre os fiéis e o mahdi, o imã oculto que, segundo acreditam, irá reaparecer no final dos tempos.

<><> Qual a influência desta divisão nos conflitos políticos?

Nos países governados por sunitas, os xiitas normalmente estão entre os mais pobres da sociedade. Eles se consideram vítimas de opressão e discriminação.

Alguns extremistas sunitas também chegaram a pregar o ódio contra os xiitas.

A Revolução Iraniana de 1979, por outro lado, introduziu uma agenda islamista radical de vertente xiita, que desafiou os governos sunitas conservadores, particularmente no Golfo Pérsico.

Os Estados do Golfo contrabalançaram a política de Teerã, de apoiar partidos e milícias xiitas além das suas fronteiras, com maior apoio a governos e movimentos sunitas no exterior.

Durante a guerra civil libanesa (1975-1990), por exemplo, os xiitas ganharam protagonismo graças às atividades militares do Hezbollah.

Extremistas sunitas, como o Talebã, fizeram o mesmo no Paquistão e no Afeganistão, onde atacam frequentemente os locais de culto dos xiitas.

Os recentes conflitos no Iraque e na Síria também adquiriram viés sectário. Muitos jovens sunitas se uniram aos grupos rebeldes para combater nesses países, reproduzindo a ideologia extremista da antiga al-Qaeda, um grupo de vertente sunita.

¨      Como os líderes do Irã planejam sobreviver diante da superioridade militar americana

Os Estados Unidos e Israel afirmam que seus ataques aéreos conjuntos já causaram danos significativos às instalações militares do Irã.

"Suas defesas aéreas, sua força aérea, marinha e liderança se foram", postou o presidente americano, Donald Trump, na sua plataforma Truth Social na terça-feira (3/3). "Eles querem conversar. Eu disse: 'Tarde demais!'"

O Irã reagiu lançando ataques contra Israel e os países do Oriente Médio que abrigam bases militares dos Estados Unidos, afirmando estar agindo em autodefesa.

Mas, com Israel e os Estados Unidos considerados militarmente superiores, quais opções teria o Irã nesta guerra? E qual estratégia o país está buscando seguir?

<><> Drenagem de recursos

O especialista em segurança do Oriente Médio, H. A. Hellyer, do centro de estudos britânico Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança (Rusi, na sigla em inglês), afirma que o atual objetivo militar do Irã não é vencer os Estados Unidos ou Israel "em uma guerra convencional", mas sim transformar o conflito em um evento "prolongado, regionalmente disperso e economicamente caro".

"O Irã não pode vencer convencionalmente", explica ele, "mas sua estratégia é garantir que a vitória dos demais permaneça cara e incerta."

A professora Nicole Grajewski, do Centro de Estudos Internacionais (Ceri, na sigla em francês) da Universidade Sciences Po, na França, é da mesma opinião.

Ela descreve a estratégia do Irã como "uma guerra de atrito", projetada para desgastar o oponente, drenando seus recursos e infligindo perdas sustentadas, até enfraquecer sua capacidade de luta.

Existe também uma dimensão psicológica.

"Durante a Guerra dos 12 Dias [contra Israel, no ano passado], o Irã se dirigiu muito mais a áreas civis", explica Grajewski.

"A precisão não foi grande preocupação. Isso instila temor psicológico e trauma entre a população."

Acredita-se que os mísseis e drones formem a principal estrutura do arsenal defensivo iraniano.

O inventário de mísseis balísticos do Irã teria sido seriamente afetado durante a Guerra dos 12 Dias, mas "os números exatos permanecem incertos, devido ao armazenamento subterrâneo e aos esforços contínuos de reposição", segundo Grajewski.

Israel calcula que o Irã tivesse cerca de 2,5 mil mísseis em fevereiro de 2026, de curto (até 1 mil km) e médio alcance (1 mil a 3 mil km).

Autoridades iranianas afirmam terem usado sistemas como os mísseis Sejjil, descrito como tendo alcance de cerca de 2 mil km, e Fattah, caracterizado por Teerã como hipersônico, ou seja, muito mais rápido que a velocidade do som.

<><> 'Cidades de mísseis'

As autoridades e a imprensa iraniana fazem frequentes referências a instalações de mísseis subterrâneas, conhecidas como "cidades de mísseis". Mas os detalhes da sua escala e inventário permanecem sem verificação.

O principal comandante americano, o general Dan Caine, afirma que os lançamentos de mísseis balísticos pelo Irã caíram em 86% desde o primeiro dia de combate, o sábado (28/2). E o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) informa uma queda de mais 23% na terça (3/3).

Ainda assim, Hellyer afirma que o Irã detém capacidade de ataque significativa para atingir "infraestrutura israelense, bases regionais americanas e aliados do Golfo, além de ameaçar os fluxos globais de energia através do Estreito de Ormuz".

"Mesmo uma paralisação limitada do Estreito pode trazer graves consequências para a economia global", destaca ele.

Cerca de 20% do petróleo do mundo passa através do Estreito. Agora, ele está efetivamente fechado pelo Irã, que prometeu atacar qualquer navio que tente transitar por ali.

O Irã pode enfrentar escassez de mísseis avançados e propelentes sólidos, mas Grajewski afirma que sua capacidade de lançar drones ainda é significativa.

Acredita-se que o país tenha produzido dezenas de milhares de drones de ataque Shahed kamikazes antes da guerra. Seu projeto foi exportado para a Rússia e até os Estados Unidos reproduziram alguns aspectos da sua tecnologia.

Eles também atendem a um objetivo estratégico além dos danos diretos. Eles "desgastam os sistemas de defesa aérea ao longo do tempo", forçando os adversários a gastar mísseis interceptadores de alto custo.

"Parte disso pretende exaurir as capacidades de interceptação", explica Grajewski.

"O Irã vem fazendo isso com UAVs [veículos aéreos não tripulados, na sigla em inglês] e drones. É algo que os russos também têm feito na Ucrânia."

Mas os Estados Unidos afirmam que os lançamentos de drones pelo Irã caíram em 73% desde o primeiro dia do conflito.

O Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS, na sigla em inglês), sediado em Tel Aviv (Israel), declarou que os Estados Unidos e Israel já realizaram mais de 2 mil ataques com múltiplas munições, enquanto o Irã lançou 571 mísseis e 1.391 drones, muitos dos quais foram interceptados.

Manter este nível de combate se tornará cada vez mais difícil para os dois lados, à medida que a guerra continua, defendem os especialistas.

<><> Conflito prolongado

O Irã também mantém uma das maiores forças armadas do Oriente Médio.

São cerca de 610 mil militares na ativa, segundo estimativa do relatório Balanço Militar de 2025, publicado pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês). Eles incluem:

  • 350 mil no exército regular; e
  • 190 mil no Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), que supervisiona os programas de mísseis e drones, além de muitas operações regionais.

O Irã também conta com uma rede de aliados regionais. Eles incluem os rebeldes houthis, no Iêmen, grupos armados do Iraque, o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, nos territórios ocupados.

Mas seu autodenominado Eixo da Resistência sofreu fortes baixas durante os combates que se espalharam pela região, após o ataque do Hamas a Israel em outubro de 2023.

Apesar das restrições atuais, o Irã tem experiência em suportar conflitos prolongados, segundo Grajewski. Sua resiliência data da Guerra Irã-Iraque (1980-1988), quando as cidades iranianas foram repetidamente atacadas, apesar da inferioridade convencional.

Mas a continuidade da estratégia iraniana pode depender da sua coesão interna.

"Realmente depende de como a elite política e de segurança permanece unida e se existem cismas", explica Grajewski. "Isso pode causar maior desarticulação, em termos de estratégia militar."

"Parece que os operadores de mísseis estão sob muita tensão e exaustão, o que causa imprecisões ou disparos acidentais contra alvos errados. Muitas operações são mais desorganizadas e existe um nível de exaustão."

E isso, combinado com os contínuos ataques às forças e estoques de mísseis do Irã, "poderá gerar uma escalada inadvertida".

<><> 'Escaladas maiores'

Nicole Grajewski destaca a Turquia, que declarou que as defesas aéreas da Otan destruíram um míssil balístico iraniano que se dirigia para o espaço aéreo turco na quarta-feira (4/3).

Vizinha do Irã, a Turquia buscou mediar as negociações entre o Irã e os Estados Unidos antes do início da guerra aérea no final de semana (28/2-1/3). O país alertou para que "todas as partes evitem tomar ações que gerem escaladas maiores".

Mas o objetivo principal do Irã é tornar as condições "tão intoleráveis" para os países vizinhos, que "possam potencialmente pressionar os Estados Unidos ou, pelo menos, tentar levar os EUA para um acordo mais negociado ou para o fim das hostilidades", explica Grajewski.

"Até aqui, não acho que isso terá sucesso, mas parece ser a aposta que o Irã tem no momento", destaca ela.

Mas esta aposta pode simplesmente sair pela culatra.

H. A. Hellyer afirma que os países do Golfo "podem decidir que, embora se oponham em princípio à guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, sua própria segurança, agora, está em risco, devido às represálias iranianas contra eles. E que, por isso, faz mais sentido apoiar a campanha americana, para pôr fim à ameaça imediata do Irã."

"Não acho que os países do Golfo já tenham chegado a este ponto, mas o tempo, neste particular, está acabando", conclui ele.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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