segunda-feira, 9 de março de 2026

Romi M. Bencke: Bancada Cristã - a tomada do Estado e o ódio às mulheres

A relação entre religião e política no Brasil sempre foi marcada por elevada permeabilidade. Desde o período colonial até a contemporaneidade, instituições religiosas atuam como agentes relevantes na conformação de valores morais, na organização da sociedade civil e na disputa por influência sobre políticas públicas. Embora essa presença não seja nova, nas últimas décadas ela assume formas renovadas, mais explícitas e institucionalizadas, revelando a capacidade adaptativa das organizações religiosas diante das transformações do campo político.

Nesse contexto, em 22 de outubro de 2025, o Congresso Nacional aprovou o regime de urgência para o projeto que cria a Bancada Cristã na Câmara dos Deputados, iniciativa apresentada conjuntamente pelas Frentes Parlamentares Evangélica e Católica Apostólica Romana. O pedido foi aprovado por 398 votos favoráveis e 30 contrários. Caso a proposta seja aprovada, a Bancada Cristã passará a ter direito a voz e voto no Colégio de Líderes, além de outras prerrogativas institucionais relevantes, como a influência direta sobre a definição da agenda legislativa.

Dois argumentos principais foram mobilizados para justificar a criação da Bancada. O primeiro sustenta que aproximadamente 80% da população brasileira se declara cristã. O segundo invoca a garantia constitucional da liberdade de manifestação da fé. Nenhum desses argumentos, contudo, é suficientemente consistente para fundamentar a institucionalização de uma bancada religiosa com poder formal de interferir na definição de prioridades do Parlamento. A representatividade numérica de uma identidade religiosa não autoriza sua tradução automática em representação política confessional, assim como a liberdade religiosa não implica o direito de capturar estruturas estatais para a promoção de agendas morais particulares.

Na esteira dessa proposição, ao longo de 2025, diversos municípios apresentaram e aprovaram projetos de lei que autorizam o uso da Bíblia como livro didático ou paradidático em escolas públicas e privadas. Municípios como Joinville (SC), Divinópolis (MG), Belo Horizonte (MG) e Rio Branco (AC), e os estados do Rio Grande do Norte e do Ceará, adotaram iniciativas dessa natureza. O principal argumento mobilizado é o de que a Bíblia teria exercido forte influência na formação da civilização ocidental. Foram rejeitadas, entretanto, emendas que propunham a inclusão de textos sagrados de outras tradições religiosas — como a Torá, o Alcorão, o Livro dos Espíritos, além de cantos e narrativas de religiões de matriz africana e de povos originários — evidenciando o caráter seletivo e excludente dessas propostas.

Esses exemplos ilustram a persistente e assimétrica relação entre religião e política no Brasil. Ainda que essa relação seja historicamente constituída, sua configuração atual revela novas estratégias de ocupação do espaço público, legitimadas por discursos de defesa da moral, da identidade cultural e da liberdade religiosa.

<><> Alianças intercristãs e reconfigurações do campo religioso-político

Entre as estratégias contemporâneas de ampliação da influência religiosa na política, destaca-se a aproximação e a formação de alianças pontuais entre grupos que, até poucas décadas atrás, se percebiam como adversários. Trata-se, sobretudo, da convergência entre diferentes movimentos pentecostais, oriundas de variadas denominações evangélicas, e o movimento carismático católico romano.

Historicamente, a disputa pelo chamado “mercado religioso” incentivou a demarcação de fronteiras doutrinárias e simbólicas entre essas correntes. No âmbito da representação política, autoridades católicas passaram a interpretar o avanço evangélico como ameaça ao status, ainda que extraoficial, da Igreja Católica como “igreja dos brasileiros”. Nessa lógica, os privilégios historicamente naturalizados pela hegemonia católica não eram percebidos como problema democrático, mas como expressão legítima de uma tradição nacional.

Por muito tempo, parte significativa da produção intelectual e do debate público operou com uma dicotomia simplificadora: de um lado, um catolicismo progressista, democrático e comprometido com os direitos humanos; de outro, um evangelicalismo conservador, autoritário e antidemocrático. Essa leitura invisibilizou tanto o papel de organizações católicas tradicionalistas, como a Tradição, Família e Propriedade (TFP), quanto às contribuições históricas de protestantes para a defesa da laicidade do Estado, a organização sindical e a educação popular.

Nesse cenário polarizado foi, sobretudo, o movimento feminista não religioso e a teologia feminista que demonstraram maior acuidade analítica ao perceber que, quando estão em jogo a autonomia das mulheres e a igualdade de gênero, o cristianismo institucionalizado — em suas versões católica romana, ortodoxa ou protestante — tende a convergir na defesa de uma moral patriarcal. Essa moral atua como princípio ordenador destinado a conter aquilo que é interpretado como caos social decorrente das reivindicações feministas por igualdade jurídica, controle sobre o próprio corpo, participação política, liberdade sexual e direito a uma vida livre de violência.

<><> Plataforma político-religiosa, guerra espiritual e bem público

Na segunda metade do século XXI, intensificam-se os discursos religiosos estruturados em torno da noção de guerra espiritual. Segundo essa perspectiva, os processos de secularização nas sociedades ocidentais estariam corroendo valores considerados fundamentais de uma suposta moral cristã. A guerra espiritual, nesse sentido, não se limita a uma metáfora teológica, mas opera como dispositivo mobilizador para ações políticas concretas, orientadas ao enfrentamento das transformações culturais associadas à modernidade.

Nesse enquadramento, proliferam narrativas de perseguição aos cristãos e de ameaça à liberdade religiosa. Os alvos privilegiados desses discursos são a ideia de uma sociedade plural e diversa, além dos movimentos que sustentam a pluralidade, como o feminista, o antirracista, os movimentos socioambientais, os de defesa dos direitos das pessoas LGBTQIA+, e os movimentos anticapitalistas. Esses atores são compreendidos pela direita cristã como responsáveis pela desintegração da ordem social.

É nesse contexto que católicos e evangélicos (protestantes) passam a estabelecer alianças estratégicas com o objetivo declarado de enfrentar o mal que, segundo essa narrativa, estaria corroendo as estruturas morais do Ocidente. A proposta de criação de uma Bancada Cristã deve ser compreendida à luz desse cenário mais amplo. Ela constitui uma cruzada moral institucionalizada, conduzida por meios formais e democráticos, contra agendas interpretadas pela direita cristã como ameaças existenciais.

No século XXI, essas alianças deixam de se organizar prioritariamente em torno de disputas doutrinárias e passam a se estruturar a partir da ideia de que o cristianismo, em suas múltiplas expressões, seria o principal provedor e guardião da identidade cultural ocidental. Essa reconfiguração desloca o foco da concorrência religiosa para a ação política coordenada.

<><> A Declaração de Manhattan como plataforma transnacional

Um marco relevante, ainda pouco conhecido no debate público brasileiro, dessa convergência intercristã é a “Declaração de Manhattan: um chamado à consciência cristã”, lançada em 2009, nos Estados Unidos e assinada por cerca de 150 lideranças, incluindo bispos católicos romanos, cristãos ortodoxos, pastores evangélicos e intelectuais cristãos.

A Declaração pode ser interpretada como uma plataforma político-religiosa de alcance transnacional, voltada à orientação da ação pública de lideranças religiosas conservadoras e de atores políticos com vinculação confessional. O documento está estruturado em três grandes eixos: vida, casamento e liberdade religiosa.

No preâmbulo, as lideranças signatárias se apresentam como herdeiras de cristãos da Antiguidade que teriam confrontado a tirania do Império Romano, combatendo práticas como o infanticídio e a servidão. O texto reivindica ainda o papel dos mosteiros na preservação da Bíblia, da arte e da cultura ocidentais, menciona bulas papais dos séculos XVI e XVII que condenaram a escravidão. O documento recupera o papel de figuras como John Wesley e William Wilberforce na luta contra o tráfico de pessoas escravizadas. Ao mobilizar esse repertório histórico, a Declaração constrói uma narrativa de autoridade moral destinada a legitimar sua atuação contemporânea no espaço público.

No eixo da vida, o documento afirma que, apesar de um suposto sentimento público pró-vida nos Estados Unidos, o governo da época — liderado por Barack Obama — promoveria uma ideologia favorável à legalização do aborto. Critica a decisão da Suprema Corte no caso Roe v. Wade (1973). Para os signatários da Declaração, a decisão da Suprema Corte americana é interpretada como a retirada da proteção legal do nascituro. Aborto, eutanásia, suicídio assistido e pesquisas com embriões são enquadrados como expressões de uma “cultura da morte”, legitimada pelo Estado.

No eixo do casamento, apenas a união entre homem e mulher é reconhecida como válida. O casamento é apresentado como instituição central para a saúde, a educação e o bem-estar social. A dissolução da chamada cultura matrimonial é associada ao surgimento de patologias sociais, entre as quais se incluem o divórcio e as uniões entre pessoas do mesmo sexo.

No eixo da liberdade religiosa, o documento afirma que somente Deus é senhor da consciência cristã. A partir disso, reivindica que indivíduos e instituições religiosas não sejam obrigados a agir de modo contrário às suas convicções morais. Direitos como o aborto legal e seguro e o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo são reinterpretados como violações da liberdade religiosa daqueles que se opõem a essas práticas. Políticas antidiscriminatórias são descritas como restrições ao livre exercício da religião. O texto invoca explicitamente o direito à desobediência civil diante de leis consideradas “anti-vida”.

Embora elaborada em 2009 e situada no contexto político norte-americano, a Declaração de Manhattan pode ser lida como uma plataforma exportável e de pretensão atemporal, especialmente em razão da capilaridade das instituições religiosas e da diversidade de interesses econômicos e políticos que financiam a direita cristã em diferentes países.

<><> Bem público, liberdade religiosa e ódio às mulheres

Um aspecto central dessa plataforma é a redefinição do conceito de bem público. Ele deixa de ser compreendido como resultado do equilíbrio entre direitos fundamentais em uma sociedade plural e passa a ser identificado com políticas públicas que reforçam concepções restritivas de vida, família e sexualidade. Trata-se de um bem público particularista, ancorado em uma moral religiosa específica e apresentado como universal.

De modo semelhante, a liberdade religiosa é reinterpretada de forma absolutizada e hierarquizada, desvinculada de sua interdependência com outros direitos fundamentais. Em vez de garantir a convivência entre diferentes crenças e convicções em um Estado laico, ela é mobilizada como instrumento político para bloquear direitos sexuais e reprodutivos e para legitimar práticas discriminatórias.

É nesse ponto que se torna possível compreender o sentido da expressão “ódio às mulheres” no contexto das alianças político-religiosas. Não se trata apenas de atitudes individuais de misoginia, mas de uma estrutura simbólica e institucional que opera para restringir a autonomia das mulheres, controlar seus os corpos e deslegitimar suas reivindicações por igualdade. Esse ódio manifesta-se na oposição sistemática ao direito ao aborto legal e seguro, na resistência à educação sexual, na naturalização da violência de gênero e na exclusão das mulheres dos espaços de poder e decisão.

A possibilidade de criação de uma Bancada Cristã no Congresso Nacional deve, portanto, ser analisada à luz dessa configuração mais ampla. O fortalecimento da democracia brasileira exige o enfrentamento transparente e crítico da histórica permeabilidade entre religião e política. Não é compatível com um regime democrático que critérios de vinculação religiosa ou de conservadorismo moral orientem a ocupação de cargos públicos estratégicos, como as indicações para o Supremo Tribunal Federal. Enquanto persistirem alianças político-religiosas que, sob o discurso do bem público e da liberdade religiosa, perpetuam a subordinação estrutural e o ódio às mulheres, a democracia permanecerá incompleta.

¨      Feminicídio no Brasil: O que está por trás dos números recordes? Por Arlindenor Pedro

Precisei resolver uma questão administrativa e tive que passar algumas horas nas dependências de um distrito policial em um município do Estado do Rio de Janeiro. Durante o tempo em que estive ali, algo me chamou, profundamente, a atenção: o fluxo constante de mulheres que entravam na delegacia para registrar denúncias.

Eram, em sua maioria, jovens. E, muitas, visivelmente abaladas, relatando violências cometidas por seus companheiros, namorados, ex-parceiros. Um desfile silencioso de dor e de coragem, também. Todas apelavam para a Lei Maria da Penha e, por ela, eram acolhidas naquele espaço policial.

Dias depois, me deparei com a publicação de uma pesquisa do Ministério da Justiça, que apontava um dado estarrecedor. Quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil vítimas de feminicídio.

A leitura desse dado me transportou imediatamente à cena que presenciei na delegacia. Naquele momento, entendi, com mais nitidez que a violência contra mulheres não é exceção. É estrutural.

Esses números não são meros acidentes estatísticos. Eles não apontam para uma “onda de violência” momentânea. Revelam algo muito mais profundo: a falência da forma social que organiza nossas relações, nossos afetos e nossas subjetividades.

Um fato que precisa ser analisado com maior profundidade, e fora dos clichês moralistas a que a mídia nos submete. A partir dessa experiência concreta, comecei a me perguntar: O que esse número revela, de fato? Que tipo de sociedade permite que mulheres sejam assassinadas todos os dias apenas por serem mulheres? E, mais que isso: Por que esse número segue crescendo?

Os dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) confirmam uma tendência brutal. Em 2025, o país alcançou a marca recorde de 1.470 feminicídios, a maior desde que a lei passou a registrá-los. Foram 1.459 casos em 2024, 1.449 em 2023, 1.451 em 2022. A média de quatro mulheres mortas por dia se mantém com uma constância que grita.

Além disso, o Mapa Nacional da Violência de Gênero mostra que, só no primeiro semestre de 2025, já haviam sido registrados 718 feminicídios e 34 mil casos de estupro. Não é difícil imaginar o perfil predominante dessas vítimas: mulheres jovens, negras e periféricas, aquelas que vivem em lugares em que o Estado raramente chega com proteção, mas sempre aparece com repressão.

A filósofa Leni Wissen, em um texto marcante publicado em 2025, propõe uma leitura instigante da violência masculina como sintoma da crise do sujeito moderno. Segundo ela, o homem foi educado para ser autônomo, forte, invulnerável. Sua identidade foi construída em oposição à dependência, à fragilidade :ou seja, ao feminino. Mas à medida que a realidade concreta desmorona sob o peso da crise social, econômica e afetiva, esse sujeito entra em colapso.

E, o que acontece quando alguém formado para exercer controle absoluto percebe que perdeu o controle de tudo? Leni Wissen responde: Ele entra em desespero. E o desespero, muitas vezes, vira violência. A mulher se torna o alvo simbólico. Ela representa tudo aquilo que o homem foi ensinado a reprimir em si mesmo, e que agora odeia ver refletido no outro. O feminicídio, nesse quadro, aparece como uma afirmação perversa de potência em uma vida marcada pela impotência real.

Essa leitura, já perturbadora em si, se torna ainda mais devastadora quando aplicada ao Brasil. Aqui, o capitalismo, um capitalismo retardatário e periférico, nunca cumpriu suas promessas de inclusão, cidadania ou estabilidade. Como destaca o teórico alemão Robert Kurz, vivemos sob uma modernização negativa, que destrói sem construir, precariza sem reorganizar.

Em um país marcado por desigualdade estrutural, racismo sistêmico e colapso das redes de proteção social, a crise do sujeito masculino assume contornos explosivos. A masculinidade tradicional não desaparece. Ela se transforma em ressentimento, raiva, agressividade difusa. E, o corpo da mulher se torna o campo de batalha dessa frustração.

A filósofa Roswitha Scholz oferece, nesse caso, outra chave analítica decisiva. Segundo ela, o capitalismo se estrutura a partir de uma dissociação entre o valor (associado ao masculino, à produção) e a reprodução (associada ao feminino, ao cuidado, ao corpo). Essa cisão foi naturalizada pela modernidade patriarcal e se torna ainda mais violenta em tempos de colapso.

No Brasil, essa dissociação se traduz em abandono. O feminino dissociado é descartável, violável, disponível. E quando se recusa a cumprir esse papel, quando rompe com a obediência, quando tenta sair de uma relação abusiva, vira alvo da violência letal. O feminicídio é, muitas vezes, a punição final por uma tentativa de liberdade.

Enquanto a violência cresce, uma transformação silenciosa também acontece. As mulheres estão se tornando o pilar econômico de muitas famílias. Dados recentes indicam que mais da metade dos lares brasileiros é chefiada por mulheres, e que grande parte dessas chefias ocorre sem a presença de um parceiro homem.

Essa mudança se deve à maior participação feminina no mercado de trabalho e, também, à crise prolongada do emprego formal, à queda da renda masculina e à substituição de funções patriarcais tradicionais por estratégias de sobrevivência feminina.

O paradoxo é cruel. As mulheres acumulam sobre si o peso do cuidado, do sustento e ainda se tornam vítimas da violência daqueles que não suportam sua autonomia crescente.

De acordo com o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM 2025), as mulheres chefes de família são maioria entre os mais pobres, enfrentam os maiores índices de informalidade e recebem, em média, cerca de 22% menos que os homens. Mesmo assim, sustentam seus lares, muitas vezes, sozinhas.

Esse deslocamento econômico não foi acompanhado por uma reconfiguração simbólica das relações de poder. O homem perde o “lugar de provedor”, mas não perde o privilégio social da dominação. E quando se sente ameaçado em seu poder, a resposta pode ser violenta e fatal

Cada feminicídio é mais do que um crime, é um sinal de alerta de uma sociedade em ruínas. O silêncio diante desses assassinatos é ensurdecedor, e em certa medida, cúmplice.

Não se trata apenas de “educar para o respeito”, nem de criar leis mais rígidas (a Lei Maria da Penha já é avançada). Trata-se de questionar radicalmente o modelo de masculinidade que o capitalismo produziu. E, que, agora, implodiu. Trata-se de repensar o que significa ser homem, ser mulher, ser sujeito em um mundo onde os vínculos sociais, afetivos e econômicos estão sendo corroídos. A cada dia, quatro mulheres são assassinadas no Brasil por seus companheiros ou ex-companheiros. Elas morrem por existirem

E nós, o que estamos dispostos a fazer com essa verdade?

 

Fonte: Outras Palavras/JB

 

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