Tempos
de antifeminismo: por que radicalizar as lutas feministas?
Que não
é fácil ser mulher em uma sociedade historicamente pavimentada pelo patriarcado
e pelo colonialismo não é exatamente uma novidade. As dificuldades se
manifestam em praticamente todos os espaços da vida social. No âmbito
doméstico, recaem sobre as mulheres as responsabilidades quase totais pelo
trabalho reprodutivo – aquele sem o qual nenhuma sociedade se sustenta – bem
como pelo trabalho doméstico e afetivo, que exige saúde mental, disposição e
tempo, muito tempo. Já na esfera pública, os obstáculos aparecem na dificuldade
de sermos escutadas, de ocuparmos posições de poder e tomada de decisão e,
sobretudo, de garantirmos algo que deveria ser elementar: o direito de
permanecermos vivas em uma sociedade que, cotidianamente, mobiliza diferentes
estratégias de controle, silenciamento e violência contra as mulheres.
Como
aponta Bianca Damacena em Vivas nos queremos (2023), ideologias patriarcais e
machistas organizam homens e mulheres em posições estruturalmente desiguais.
Essas ideologias operam de forma a conceder aos homens uma ampla margem de
permissividade, às vezes explícita, outras vezes velada, inclusive para
recorrerem à violência como forma de manutenção de seus privilégios – e muitas
vezes o fazem com sucesso (p.103).
Em
resposta a esse cenário, os movimentos feministas têm, há décadas, construído
formas de resistência e organização coletiva para ampliar sua voz e disputar
transformações estruturais. No Brasil, essas lutas se traduziram também em
conquistas institucionais importantes, como a Lei Maria da Penha (2006) e a Lei
do Feminicídio (2015), entre outras medidas que procuram reconhecer a
especificidade da violência de gênero e produzir mecanismos de proteção às
mulheres. Ainda assim, os índices de violência doméstica e feminicídio
permanecem alarmantes, indicando que as mudanças legais, embora fundamentais,
não são suficientes para alterar estruturas sociais profundamente enraizadas.
Essa
cartografia contemporânea também tem sido marcada, nos últimos anos, pela
ascensão de mulheres que se autointitulam antifeministas. Trata-se de figuras
públicas que negam a existência de desigualdades de gênero e se alinham a
discursos patriarcais sobre os papéis femininos e as funções que as mulheres
deveriam desempenhar na sociedade (Galetti, 2024). Há, entretanto, uma
contradição evidente: muitas dessas mulheres ocupam espaços na esfera pública,
trabalham, disputam eleições e exercem cargos políticos, posições que foram
historicamente conquistadas justamente pelas lutas feministas que elas buscam
deslegitimar.
Ainda
assim, discursos e práticas antifeministas têm encontrado aderência social e
dialogado com o fortalecimento de narrativas masculinistas, que procuram
recolocar as mulheres em posições tradicionais e subordinadas. Durante o
processo de escrita da minha tese de doutorado (defendida em 2024) essa questão
me acompanhava constantemente: como algumas mulheres podem negar que o simples
fato de nascermos mulheres já nos coloca em uma posição de desigualdade
estrutural? Nem é necessário um olhar particularmente sofisticado para perceber
isso. Basta viver em sociedade: conviver com homens em casa, na escola, na
universidade, no trabalho, nas relações afetivas. Essas interações são
atravessadas por diferentes formas de desigualdade e violência, muitas vezes
naturalizadas.
Ao
acompanhar os discursos e trajetórias de parlamentares eleitas pelo PSL –
posteriormente migradas para o PL – e analisar seus projetos de lei e
posicionamentos públicos, tornou-se evidente que há também um sistema de
recompensas e punições que regula a atuação dessas mulheres na política.
Enquanto permanecem alinhadas ao roteiro esperado, recebem apoio e
visibilidade. No entanto, quando rompem com esse script e passam a questionar
lideranças masculinas, são descartadas e ridicularizadas.
O caso
de Joyce Hasselmann é emblemático nesse sentido. Eleita deputada federal por
São Paulo com uma votação expressiva na esteira do bolsonarismo, ela
posteriormente entrou em conflito com o grupo político que a impulsionou. A
partir daí, tornou-se alvo de ataques, ridicularizações e campanhas de
deslegitimação, inclusive com ataques ao seu corpo e à sua imagem pública. Nas
eleições seguintes, não conseguiu sequer se eleger vereadora. Outro episódio
recente que ganhou visibilidade pública foi o da influenciadora brasileira
Cíntia Chagas. Conhecida por defender discursos associados a uma visão
tradicional de gênero no casamento, Cíntia denunciou seu então marido, o
deputado estadual Lucas Bove (PL), por violência doméstica. O casamento durou
cerca de três meses. Em setembro de 2024, ela registrou boletim de ocorrência
com base na Lei Maria da Penha, relatando ameaças, agressões psicológicas,
controle e comportamentos possessivos. A influencer mencionou em uma entrevista
que foi acolhida pelo movimento feminista, quem diria.
O caso
é particularmente revelador para compreender como determinadas narrativas sobre
submissão e papéis tradicionais de gênero são construídas e performadas no
espaço público, mas entram em choque com a materialidade da vida cotidiana. A
defesa de ideais de gênero tradicionais não implica necessariamente a aceitação
irrestrita de qualquer tipo de abuso. Há limites que, quando ultrapassados,
produzem rupturas. Essas fissuras evidenciam as contradições desse projeto
político e cultural, mostrando como as promessas de estabilidade e felicidade
associadas a determinados modelos de feminilidade frequentemente colidem com
experiências concretas de violência e desigualdade.
E é
justamente nessa materialidade da vida que a violência contra mulheres e
meninas se manifesta de forma brutal. Casos recentes de estupros coletivos,
ataques organizados contra meninas e feminicídios amplamente noticiados revelam
um cenário em que muitos homens se sentem autorizados a decidir quem pode viver
e quem pode morrer.
Para
compreender esse processo, Rita Segato (2014) mobiliza o conceito de “pedagogia
da crueldade”. Segundo a autora, a sociedade contemporânea produz formas de
treinamento social que nos tornam progressivamente insensíveis à dor alheia,
naturalizando a violência e transformando vidas humanas em algo descartável.
Essa pedagogia, funcional ao capitalismo patriarcal, ensina o desapego e
normaliza a crueldade como parte da vida social. Basta observar os comentários
em redes sociais quando casos de violência de gênero são noticiados: a
culpabilização das vítimas, a desconfiança sistemática sobre suas denúncias e a
banalização da violência revelam o quanto essa lógica está disseminada.
A
socióloga Heleieth Saffioti, ao analisar as relações entre gênero, poder e
violência, argumenta que o sexismo não é apenas uma ideologia, mas também uma
estrutura de poder cuja distribuição é profundamente desigual em detrimento das
mulheres (2004). Em suas palavras, é como se as mulheres fossem simbolicamente
“amputadas” em sua possibilidade de desenvolver plenamente a razão e exercer
poder na vida social.
É
justamente por isso que os movimentos feministas seguem sendo fundamentais.
Foram eles que tornaram visíveis violências antes naturalizadas, que
conquistaram direitos e que continuam denunciando as desigualdades estruturais
que atravessam nossas vidas. Ao longo da história, foram as mobilizações
feministas que impulsionaram transformações profundas: da luta pelo direito ao
voto feminino às mobilizações por igualdade no trabalho, da denúncia
sistemática da violência doméstica à construção de redes de acolhimento e
solidariedade entre mulheres. No Brasil e em diversas partes do mundo, foram as
organizações feministas que pressionaram para que a violência contra mulheres
deixasse de ser tratada como um assunto privado e passasse a ser reconhecida
como um problema público e político, impulsionando a criação de leis, políticas
públicas e mecanismos institucionais de proteção.
Mais
recentemente, assistimos também a novas formas de mobilização que ampliaram o
alcance dessas lutas. As marchas contra o feminicídio, as mobilizações do Ni
Una Menos na América Latina, as greves feministas internacionais e as campanhas
massivas de denúncia de assédio e violência demonstram que o feminismo segue
sendo um dos movimentos sociais mais potentes e transformadores do tempo
presente. Esses processos coletivos não apenas denunciam a violência, mas
também produzem novos vocabulários políticos para nomeá-la, tornando visíveis
experiências historicamente silenciadas.
É nesse
horizonte que o 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, reafirma seu
sentido histórico e político. Longe de ser apenas uma data simbólica, trata-se
de um momento de memória, mobilização e luta. Ocupar as ruas no 8 de março
significa inscrever no espaço público as demandas das mulheres, tornar visíveis
as violências que atravessam nossas vidas e afirmar que os direitos
conquistados foram fruto de organização coletiva e enfrentamento político. Mais
do que lembrar conquistas passadas, o 8 de março também nos convoca a ampliar
nossas pautas e fortalecer redes de solidariedade e resistência diante dos
desafios do presente.
Esse
chamado torna-se ainda mais urgente em um contexto marcado por reações
conservadoras e pela reorganização de discursos antifeministas. O crescimento
de comunidades masculinistas, de ideologias como as chamadas redpills e de
narrativas que apresentam os homens como supostas vítimas das transformações
sociais tem alimentado formas renovadas de misoginia. Esses discursos circulam
amplamente em ambientes digitais, reforçando ressentimentos, naturalizando
violências e produzindo pedagogias de ódio direcionadas especialmente contra
mulheres que reivindicam autonomia, igualdade e liberdade.
Esse
cenário revela que os avanços conquistados nas últimas décadas convivem com
reações cada vez mais organizadas contra os direitos das mulheres. A ampliação
de discursos antifeministas, o aumento das violências de gênero e a circulação
massiva de ideologias misóginas indicam que estamos diante de um momento
histórico em que não basta apenas defender conquistas já obtidas: é preciso
aprofundar as transformações.
Radicalizar
as pautas feministas, nesse sentido, não significa ir à raiz das desigualdades
que estruturam a sociedade. Significa questionar as bases sociais, econômicas e
culturais que sustentam a divisão sexual do trabalho, a naturalização da
violência e a hierarquia entre homens e mulheres. Significa também afirmar que
a luta contra a violência de gênero não pode se limitar a respostas individuais
ou punitivas, mas exige transformações profundas nas formas como educamos,
socializamos e organizamos nossas relações sociais.
Em um
contexto em que meninas e mulheres seguem sendo violentadas, silenciadas e
frequentemente culpabilizadas por agressões que sofrem, a continuidade e o
fortalecimento dos movimentos feministas tornam-se não apenas desejáveis, mas
indispensáveis. Como lembrava Louise Michel: “Cuidado com as mulheres quando se
sentem enojadas de tudo o que as rodeia e se levantam contra o velho mundo.
Nesse dia nascerá o novo mundo”.
Fonte:
Por Camila Galetti, para Le Monde

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