segunda-feira, 9 de março de 2026

Tempos de antifeminismo: por que radicalizar as lutas feministas?

Que não é fácil ser mulher em uma sociedade historicamente pavimentada pelo patriarcado e pelo colonialismo não é exatamente uma novidade. As dificuldades se manifestam em praticamente todos os espaços da vida social. No âmbito doméstico, recaem sobre as mulheres as responsabilidades quase totais pelo trabalho reprodutivo – aquele sem o qual nenhuma sociedade se sustenta – bem como pelo trabalho doméstico e afetivo, que exige saúde mental, disposição e tempo, muito tempo. Já na esfera pública, os obstáculos aparecem na dificuldade de sermos escutadas, de ocuparmos posições de poder e tomada de decisão e, sobretudo, de garantirmos algo que deveria ser elementar: o direito de permanecermos vivas em uma sociedade que, cotidianamente, mobiliza diferentes estratégias de controle, silenciamento e violência contra as mulheres.

Como aponta Bianca Damacena em Vivas nos queremos (2023), ideologias patriarcais e machistas organizam homens e mulheres em posições estruturalmente desiguais. Essas ideologias operam de forma a conceder aos homens uma ampla margem de permissividade, às vezes explícita, outras vezes velada, inclusive para recorrerem à violência como forma de manutenção de seus privilégios – e muitas vezes o fazem com sucesso (p.103).

Em resposta a esse cenário, os movimentos feministas têm, há décadas, construído formas de resistência e organização coletiva para ampliar sua voz e disputar transformações estruturais. No Brasil, essas lutas se traduziram também em conquistas institucionais importantes, como a Lei Maria da Penha (2006) e a Lei do Feminicídio (2015), entre outras medidas que procuram reconhecer a especificidade da violência de gênero e produzir mecanismos de proteção às mulheres. Ainda assim, os índices de violência doméstica e feminicídio permanecem alarmantes, indicando que as mudanças legais, embora fundamentais, não são suficientes para alterar estruturas sociais profundamente enraizadas.

Essa cartografia contemporânea também tem sido marcada, nos últimos anos, pela ascensão de mulheres que se autointitulam antifeministas. Trata-se de figuras públicas que negam a existência de desigualdades de gênero e se alinham a discursos patriarcais sobre os papéis femininos e as funções que as mulheres deveriam desempenhar na sociedade (Galetti, 2024). Há, entretanto, uma contradição evidente: muitas dessas mulheres ocupam espaços na esfera pública, trabalham, disputam eleições e exercem cargos políticos, posições que foram historicamente conquistadas justamente pelas lutas feministas que elas buscam deslegitimar.

Ainda assim, discursos e práticas antifeministas têm encontrado aderência social e dialogado com o fortalecimento de narrativas masculinistas, que procuram recolocar as mulheres em posições tradicionais e subordinadas. Durante o processo de escrita da minha tese de doutorado (defendida em 2024) essa questão me acompanhava constantemente: como algumas mulheres podem negar que o simples fato de nascermos mulheres já nos coloca em uma posição de desigualdade estrutural? Nem é necessário um olhar particularmente sofisticado para perceber isso. Basta viver em sociedade: conviver com homens em casa, na escola, na universidade, no trabalho, nas relações afetivas. Essas interações são atravessadas por diferentes formas de desigualdade e violência, muitas vezes naturalizadas.

Ao acompanhar os discursos e trajetórias de parlamentares eleitas pelo PSL – posteriormente migradas para o PL – e analisar seus projetos de lei e posicionamentos públicos, tornou-se evidente que há também um sistema de recompensas e punições que regula a atuação dessas mulheres na política. Enquanto permanecem alinhadas ao roteiro esperado, recebem apoio e visibilidade. No entanto, quando rompem com esse script e passam a questionar lideranças masculinas, são descartadas e ridicularizadas.

O caso de Joyce Hasselmann é emblemático nesse sentido. Eleita deputada federal por São Paulo com uma votação expressiva na esteira do bolsonarismo, ela posteriormente entrou em conflito com o grupo político que a impulsionou. A partir daí, tornou-se alvo de ataques, ridicularizações e campanhas de deslegitimação, inclusive com ataques ao seu corpo e à sua imagem pública. Nas eleições seguintes, não conseguiu sequer se eleger vereadora. Outro episódio recente que ganhou visibilidade pública foi o da influenciadora brasileira Cíntia Chagas. Conhecida por defender discursos associados a uma visão tradicional de gênero no casamento, Cíntia denunciou seu então marido, o deputado estadual Lucas Bove (PL), por violência doméstica. O casamento durou cerca de três meses. Em setembro de 2024, ela registrou boletim de ocorrência com base na Lei Maria da Penha, relatando ameaças, agressões psicológicas, controle e comportamentos possessivos. A influencer mencionou em uma entrevista que foi acolhida pelo movimento feminista, quem diria.

O caso é particularmente revelador para compreender como determinadas narrativas sobre submissão e papéis tradicionais de gênero são construídas e performadas no espaço público, mas entram em choque com a materialidade da vida cotidiana. A defesa de ideais de gênero tradicionais não implica necessariamente a aceitação irrestrita de qualquer tipo de abuso. Há limites que, quando ultrapassados, produzem rupturas. Essas fissuras evidenciam as contradições desse projeto político e cultural, mostrando como as promessas de estabilidade e felicidade associadas a determinados modelos de feminilidade frequentemente colidem com experiências concretas de violência e desigualdade.

E é justamente nessa materialidade da vida que a violência contra mulheres e meninas se manifesta de forma brutal. Casos recentes de estupros coletivos, ataques organizados contra meninas e feminicídios amplamente noticiados revelam um cenário em que muitos homens se sentem autorizados a decidir quem pode viver e quem pode morrer.

Para compreender esse processo, Rita Segato (2014) mobiliza o conceito de “pedagogia da crueldade”. Segundo a autora, a sociedade contemporânea produz formas de treinamento social que nos tornam progressivamente insensíveis à dor alheia, naturalizando a violência e transformando vidas humanas em algo descartável. Essa pedagogia, funcional ao capitalismo patriarcal, ensina o desapego e normaliza a crueldade como parte da vida social. Basta observar os comentários em redes sociais quando casos de violência de gênero são noticiados: a culpabilização das vítimas, a desconfiança sistemática sobre suas denúncias e a banalização da violência revelam o quanto essa lógica está disseminada.

A socióloga Heleieth Saffioti, ao analisar as relações entre gênero, poder e violência, argumenta que o sexismo não é apenas uma ideologia, mas também uma estrutura de poder cuja distribuição é profundamente desigual em detrimento das mulheres (2004). Em suas palavras, é como se as mulheres fossem simbolicamente “amputadas” em sua possibilidade de desenvolver plenamente a razão e exercer poder na vida social.

É justamente por isso que os movimentos feministas seguem sendo fundamentais. Foram eles que tornaram visíveis violências antes naturalizadas, que conquistaram direitos e que continuam denunciando as desigualdades estruturais que atravessam nossas vidas. Ao longo da história, foram as mobilizações feministas que impulsionaram transformações profundas: da luta pelo direito ao voto feminino às mobilizações por igualdade no trabalho, da denúncia sistemática da violência doméstica à construção de redes de acolhimento e solidariedade entre mulheres. No Brasil e em diversas partes do mundo, foram as organizações feministas que pressionaram para que a violência contra mulheres deixasse de ser tratada como um assunto privado e passasse a ser reconhecida como um problema público e político, impulsionando a criação de leis, políticas públicas e mecanismos institucionais de proteção.

Mais recentemente, assistimos também a novas formas de mobilização que ampliaram o alcance dessas lutas. As marchas contra o feminicídio, as mobilizações do Ni Una Menos na América Latina, as greves feministas internacionais e as campanhas massivas de denúncia de assédio e violência demonstram que o feminismo segue sendo um dos movimentos sociais mais potentes e transformadores do tempo presente. Esses processos coletivos não apenas denunciam a violência, mas também produzem novos vocabulários políticos para nomeá-la, tornando visíveis experiências historicamente silenciadas.

É nesse horizonte que o 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, reafirma seu sentido histórico e político. Longe de ser apenas uma data simbólica, trata-se de um momento de memória, mobilização e luta. Ocupar as ruas no 8 de março significa inscrever no espaço público as demandas das mulheres, tornar visíveis as violências que atravessam nossas vidas e afirmar que os direitos conquistados foram fruto de organização coletiva e enfrentamento político. Mais do que lembrar conquistas passadas, o 8 de março também nos convoca a ampliar nossas pautas e fortalecer redes de solidariedade e resistência diante dos desafios do presente.

Esse chamado torna-se ainda mais urgente em um contexto marcado por reações conservadoras e pela reorganização de discursos antifeministas. O crescimento de comunidades masculinistas, de ideologias como as chamadas redpills e de narrativas que apresentam os homens como supostas vítimas das transformações sociais tem alimentado formas renovadas de misoginia. Esses discursos circulam amplamente em ambientes digitais, reforçando ressentimentos, naturalizando violências e produzindo pedagogias de ódio direcionadas especialmente contra mulheres que reivindicam autonomia, igualdade e liberdade.

Esse cenário revela que os avanços conquistados nas últimas décadas convivem com reações cada vez mais organizadas contra os direitos das mulheres. A ampliação de discursos antifeministas, o aumento das violências de gênero e a circulação massiva de ideologias misóginas indicam que estamos diante de um momento histórico em que não basta apenas defender conquistas já obtidas: é preciso aprofundar as transformações.

Radicalizar as pautas feministas, nesse sentido, não significa ir à raiz das desigualdades que estruturam a sociedade. Significa questionar as bases sociais, econômicas e culturais que sustentam a divisão sexual do trabalho, a naturalização da violência e a hierarquia entre homens e mulheres. Significa também afirmar que a luta contra a violência de gênero não pode se limitar a respostas individuais ou punitivas, mas exige transformações profundas nas formas como educamos, socializamos e organizamos nossas relações sociais.

Em um contexto em que meninas e mulheres seguem sendo violentadas, silenciadas e frequentemente culpabilizadas por agressões que sofrem, a continuidade e o fortalecimento dos movimentos feministas tornam-se não apenas desejáveis, mas indispensáveis. Como lembrava Louise Michel: “Cuidado com as mulheres quando se sentem enojadas de tudo o que as rodeia e se levantam contra o velho mundo. Nesse dia nascerá o novo mundo”.

 

Fonte: Por Camila Galetti, para Le Monde

 

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