segunda-feira, 9 de março de 2026

Apegos ferozes: Encontros feministas latino-americanos

Em julho de 1981, nos arredores de Bogotá, cerca de duzentas mulheres reuniram-se no Primeiro Encontro Feminista da América Latina e do Caribe, um acontecimento político de grande relevância para o feminismo regional por, ao menos, três razões. Em primeiro lugar, por sua persistência ao longo do tempo: os Encontros continuam sendo realizados até hoje, a cada dois ou três anos, em diferentes países da América Latina e do Caribe. Em segundo lugar, porque neles se condensaram debates centrais do feminismo da época – a autonomia do movimento, a dupla militância, a definição de seu sujeito político, a visibilidade lésbica e a violência – formulados a partir de uma perspectiva situada na realidade latino-americana. Finalmente, porque os Encontros possibilitaram uma forma particular de articulação feminista que contribuiu para imaginar uma comunidade regional com um olhar próprio sobre os problemas do continente. Como assinalam as acadêmicas e ativistas Sonia Álvarez, Elizabeth Friedman, Ericka Beckman, Maylei Blackwell, Norma Chinchilla, Nathalie Lebon, Marisa Navarro e Marcela Ríos Tobar (2003), esses espaços foram cruciais para “imaginar” comunidades feministas latino-americanas, desafiar normas culturais nacionalistas e masculinistas e criar uma gramática política feminista comum.

Embora o Encontro de Bogotá tenha sido um acontecimento inovador, ele não constituiu um fato isolado. Durante a década de 1970 realizaram-se diversas reuniões e conferências de caráter transnacional que reuniram mulheres do continente, muitas delas vinculadas a agendas acadêmicas ou a organismos multilaterais.

Nesse contexto, o Encontro Feminista de 1981 destacou-se por reunir características que o diferenciaram de outros espaços: seu caráter militante e autônomo em relação aos Estados, aos governos, à academia e aos organismos internacionais; a discussão horizontal; e a invenção de estratégias organizativas próprias. Tratou-se de um espaço de reflexão entre feministas latino-americanas sobre sua própria realidade, um lugar de reconhecimento mútuo.

O feminismo latino-americano forjou-se nesses Encontros, que foram simultaneamente resultado da confluência de dinâmicas locais e espaços de criação de novas perspectivas, formas de ação e vínculos afetivos. Nos Encontros circularam não apenas ideias, linguagens e valores, mas também emoções compartilhadas, fundamentais para compreender a práxis feminista regional. Nesse sentido, constituíram espaços onde se forjaram alianças afetivas feministas a partir da vulnerabilidade e da resistência.

Nestas páginas apresento algumas das discussões que ocorreram no momento em que os Encontros começavam a tomar forma: os debates sobre o caráter que se pretendia lhes conferir, sua relevância para a articulação de uma perspectiva feminista latino-americana e as discussões em torno do sujeito do feminismo. Como se chegou à realização do Encontro de Bogotá? O que distingue o “Encontro” de outros fóruns internacionais? E o que representou essa modalidade de articulação para os feminismos da região? Essas são algumas das perguntas que organizam a análise, atenta tanto às discussões políticas quanto aos vínculos afetivos gerados nesses espaços.

Estudar a história das ações e do pensamento feminista não é tarefa simples. No caso dos Encontros, e apesar de sua importância, a documentação produzida neles não se encontra disponível de forma sistemática. “Faltam genealogias” – costuma-se dizer – embora o pensamento feminista tenha sido particularmente prolífico ao tentar traçá-las, nutrindo a ação política com o trabalho das gerações que nos precederam. Uma antiga fábula feminista insiste em reivindicar as bruxas e seu destino como emblema da sabedoria das mulheres cujos conhecimentos foram reprimidos e invisibilizados (Fischer, 1995: 70). Assim como esses saberes, os arquivos feministas tampouco são fáceis de localizar, apesar dos esforços de militantes, grupos e projetos de documentação que preservam e organizam entrevistas, atas de encontros, folhetos, documentos e fotografias que dão testemunho das ações feministas. Começo, portanto, estas notas reconhecendo esse trabalho de guardar, preservar, ordenar e publicar – muitas vezes de maneira artesanal – realizado em alguns centros de documentação e, sobretudo, aquele que militantes de diferentes lugares realizam espontaneamente.

<><> Encontro, feminista e latino-americano

A ideia de realizar um Encontro Feminista da América Latina e do Caribe começou a tomar forma a partir da experiência de algumas ativistas latino-americanas que participaram da Tribuna do Ano Internacional da Mulher, realizada no México em 1975. Muitas delas retornaram com a convicção de que era necessário criar um espaço próprio e autônomo, no qual as mulheres do continente pudessem refletir coletivamente sobre sua condição e definir uma agenda feminista situada na realidade do Sul. No entanto, essa ideia levou alguns anos para se concretizar.

O primeiro grupo a retomar esse desafio foi o coletivo venezuelano La Conjura, que propôs Caracas como sede de um encontro feminista latino-americano. Diversos obstáculos, contudo, impediram que o Encontro fosse realizado naquele país. Nesse contexto, a Colômbia surgiu como uma alternativa viável, dado o dinamismo de seu movimento de mulheres, que rapidamente assumiu a organização do evento.

Durante as reuniões preparatórias, realizadas em diferentes cidades do país, foram tomadas decisões-chave sobre o caráter do Encontro. A declaração elaborada naquele momento reafirmava a autonomia da Coordenadora e estabelecia que todas as participantes deveriam aceitar que sua participação se daria em caráter pessoal. Entretanto, em reuniões posteriores, esses consensos foram questionados – sobretudo por militantes de partidos políticos – e algumas decisões passaram a ser tomadas por votação, prática que desde então gera desconforto entre feministas.

Debateu-se se deveria ser convocado um encontro amplo, que reunisse todas as mulheres comprometidas com a libertação feminina, ou um encontro estritamente feminista; e se a participação deveria manter-se a título individual. Houve avanços e retrocessos, divisões internas e, em determinado momento, chegou-se a considerar a possibilidade de realizar dois encontros paralelos. Finalmente, acordou-se a realização de um único Encontro, em julho de 1981, em um espaço cedido pelo Instituto Nacional de Estudos Sociais (INES), nos arredores de Bogotá.

Apesar dos conflitos, o processo levou à definição de princípios fundamentais que marcariam os encontros posteriores: o caráter feminista do evento, a participação individual, a autonomia em relação a partidos e organizações, a construção coletiva não hierárquica e a ausência de painéis de especialistas. Consolidou-se também a ideia de autofinanciamento e da necessidade de contar com espaços físicos próprios para o debate entre feministas.

Essas disputas, longe de serem meramente anedóticas, condensam dilemas conceituais que acompanharam o feminismo latino-americano em sua constituição como movimento político com voz e agenda próprias, ao menos em dois sentidos. Por um lado, as tensões contribuíram para dar forma aos princípios organizativos que passariam a caracterizar os Encontros. Por outro, instaurou-se o debate em torno da “autonomia”, noção que nem todas compreendiam da mesma maneira. Assim, ficou aberta a pergunta sobre o que significava construir um espaço político próprio para debater a partir do feminismo, sem tutela partidária nem subordinações estratégicas (Suaza Vargas, 2008; Armenta et al., 1981; Fischer, 2005).

Embora essa disputa não fosse nova – nem exclusiva da região –, declarar-se feminista em um contexto no qual boa parte das organizações de esquerda e populares condenava o feminismo como um desvio pequeno-burguês, distante dos urgentes problemas sociais e políticos latino-americanos, representava um dilema para muitas militantes cuja trajetória pessoal as aproximava dessas correntes. Esse conflito ficou claramente refletido nos debates do Encontro, especialmente no ateliê “luta política”, no qual se expressaram diferentes posições sobre a dupla militância, a relação entre luta feminista e anti-imperialismo e sobre como articular classe e gênero na luta feminista (Boletín Internacional de las Mujeres Isis, 1981: 30).

Ao tentar elaborar uma síntese entre as diversas posições acerca da autonomia e da dupla militância, a socióloga feminista dominicana Magaly Pineda recorda, por contraste, sua experiência na Tribuna realizada no México em 1975 e destaca enfaticamente a disposição ao encontro que se produzia em Bogotá:

Entendo autonomia como um termo que implica uma luta na qual tomamos nossa iniciativa, mas subordinada a um projeto social – não ao partido, mas a um projeto de transformação, o projeto socialista ou de uma nova sociedade. Creio que, em termos de nosso feminismo autônomo, essa continua sendo – e deve continuar sendo – uma palavra-chave. Quanto à dupla militância, trata-se de uma questão que não vamos resolver agora; inclusive, o mais rico de tudo isso é que aqui há militantes falando de feminismo. Eu estava no México em 1975, senhoras!… e nos dividimos entre políticas e feministas. Aqui estamos agora mulheres buscando cada uma… (Cine Mujer, 1981).

Para além das divergências, o Encontro de Bogotá representou, para aquelas que participaram, uma abertura a uma nova forma de viver o feminismo e um acontecimento político singular. Nancy Sternbach, Marysa Navarro, Patricia Chuchryk e Sonia Álvarez (1994: 270) afirmam que, a partir desse encontro, as feministas da América Latina perceberam a possibilidade de “criar uma linguagem feminista própria e comum, que repercutiu nas perspectivas a partir das quais cada grupo militava em seus próprios países”. O Encontro reafirmou que o feminismo latino-americano não era uma importação do Norte global, mas uma resposta às opressões interseccionais vividas na região. Ao mesmo tempo, consolidou-se como um movimento amplo, diverso e em constante construção.

Após esse primeiro momento, o conceito de autonomia adquiriu contornos cada vez mais complexos e passou a ser questionado sob novas perspectivas: a institucionalização do movimento, as ONGs, o financiamento internacional, a academia e a participação em organismos estatais trouxeram novos desafios e tensões. A institucionalização de algumas demandas feministas e a crescente procura por saberes especializados sobre mulheres e gênero por parte de organismos internacionais e governos nacionais impulsionaram modalidades de ação que extrapolavam as formas tradicionais de militância.

<><> Apegos ferozes

Essa breve revisão das memórias do momento de gestação dos Encontros permite identificar alguns traços centrais para pensar seu lugar na genealogia dos feminismos latino-americanos.

Primeiro, o gesto de dar-se um nome. Lidas em seu contexto histórico, as palavras “encontro”, “feminista” e “latino-americano” condensam disputas de sentido e expressam uma definição política situada do feminismo na região, afirmando desde o início sua especificidade e sua diversidade.

Segundo, os Encontros estabeleceram uma relação explícita entre as lutas feministas e os processos de transformação e libertação do continente. Desde Bogotá, marcou-se uma diferença em relação aos feminismos da Europa e dos Estados Unidos – inclusive aos feminismos socialistas – ao incorporar à agenda a crítica ao imperialismo, às relações de subordinação global e às dívidas externas. Essas questões passaram a integrar os Encontros desde suas primeiras edições.

Terceiro, a pergunta pelo sujeito do feminismo: sua amplitude ou não; sua relação com classe social, racismo e violências sociais; e a inclusão de mulheres camponesas, trabalhadoras e de setores populares.

Por fim, o problema da autonomia em relação aos partidos políticos, a institucionalização, a dependência ou não de agências de financiamento e os vínculos com o Estado constituem um núcleo problemático que permanece até o presente.

Depois de Bogotá, os Encontros continuaram sendo espaços de produção feminista. Funcionaram como cenários de intensos debates entre correntes e grupos e como arenas onde emergiram novas problemáticas. A própria noção de “encontro” consolidou-se como um nó conceitual que articula uma forma de pensar o sujeito político do feminismo e a trama de suas múltiplas determinações.,

Essa trama é política, mas também afetiva: forja-se nas discussões, mas também nos vínculos que nascem da vulnerabilidade e da resistência, da esperança e da alegria, nesse movimento ondulante das emoções. Não por acaso, muitas feministas relatam ter saído dos Encontros “surpreendidas” e “maravilhadas”. Como assinala Sara Ahmed (2015), o assombro mantém vivo o desejo de continuar buscando e abre a possibilidade de uma vida vivida com frescor. O testemunho de uma participante do Encontro de Bertioga, realizado em 1985, condensa essa experiência afetiva: “Escrever sobre aqueles dias é tentar transmitir uma experiência vivida com grande emoção, para a qual temo não ter palavras suficientes […] um não querer despedir-se, a expressão da energia, da alegria e do afeto que se desenvolveram no encontro.”

Não são apenas as experiências compartilhadas, portanto, mas também as emoções que produzem proximidades e distâncias e que criam comunidades de afeto instáveis, porém poderosas. Estar juntas, discutir inclusive com fúria, gerou um vínculo afetivo que também se estende e se conecta com aquelas que vieram antes: “As feministas nos encontramos umas às outras, não necessariamente porque tenhamos percorrido os mesmos caminhos, mas porque reconhecemos nas histórias de outras algo que sentimos em nosso próprio corpo” (Ahmed, 2021: 69).

Os afetos constituem um componente fundamental da política feminista e contribuem para a criação de uma linguagem política própria. Enquanto o patriarcado, o capitalismo, as violências de Estado e o racismo representam a soma de múltiplas formas de violência, os feminismos forjados nos Encontros – com suas discussões, risos e danças, imagens e poesias – disputam o direito de pensar a América Latina a partir de uma perspectiva feminista.

 

Fonte: Por Alejandra Oberti, para a coluna da BVPS (Biblioteca Virtual do Pensamento Social)

 

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