Apegos
ferozes: Encontros feministas latino-americanos
Em
julho de 1981, nos arredores de Bogotá, cerca de duzentas mulheres reuniram-se
no Primeiro Encontro Feminista da América Latina e do Caribe, um acontecimento
político de grande relevância para o feminismo regional por, ao menos, três
razões. Em primeiro lugar, por sua persistência ao longo do tempo: os Encontros
continuam sendo realizados até hoje, a cada dois ou três anos, em diferentes
países da América Latina e do Caribe. Em segundo lugar, porque neles se
condensaram debates centrais do feminismo da época – a autonomia do movimento,
a dupla militância, a definição de seu sujeito político, a visibilidade lésbica
e a violência – formulados a partir de uma perspectiva situada na realidade
latino-americana. Finalmente, porque os Encontros possibilitaram uma forma
particular de articulação feminista que contribuiu para imaginar uma comunidade
regional com um olhar próprio sobre os problemas do continente. Como assinalam
as acadêmicas e ativistas Sonia Álvarez, Elizabeth Friedman, Ericka Beckman,
Maylei Blackwell, Norma Chinchilla, Nathalie Lebon, Marisa Navarro e Marcela
Ríos Tobar (2003), esses espaços foram cruciais para “imaginar” comunidades
feministas latino-americanas, desafiar normas culturais nacionalistas e
masculinistas e criar uma gramática política feminista comum.
Embora
o Encontro de Bogotá tenha sido um acontecimento inovador, ele não constituiu
um fato isolado. Durante a década de 1970 realizaram-se diversas reuniões e
conferências de caráter transnacional que reuniram mulheres do continente,
muitas delas vinculadas a agendas acadêmicas ou a organismos multilaterais.
Nesse
contexto, o Encontro Feminista de 1981 destacou-se por reunir características
que o diferenciaram de outros espaços: seu caráter militante e autônomo em
relação aos Estados, aos governos, à academia e aos organismos internacionais;
a discussão horizontal; e a invenção de estratégias organizativas próprias.
Tratou-se de um espaço de reflexão entre feministas latino-americanas sobre sua
própria realidade, um lugar de reconhecimento mútuo.
O
feminismo latino-americano forjou-se nesses Encontros, que foram
simultaneamente resultado da confluência de dinâmicas locais e espaços de
criação de novas perspectivas, formas de ação e vínculos afetivos. Nos
Encontros circularam não apenas ideias, linguagens e valores, mas também
emoções compartilhadas, fundamentais para compreender a práxis feminista
regional. Nesse sentido, constituíram espaços onde se forjaram alianças
afetivas feministas a partir da vulnerabilidade e da resistência.
Nestas
páginas apresento algumas das discussões que ocorreram no momento em que os
Encontros começavam a tomar forma: os debates sobre o caráter que se pretendia
lhes conferir, sua relevância para a articulação de uma perspectiva feminista
latino-americana e as discussões em torno do sujeito do feminismo. Como se
chegou à realização do Encontro de Bogotá? O que distingue o “Encontro” de
outros fóruns internacionais? E o que representou essa modalidade de
articulação para os feminismos da região? Essas são algumas das perguntas que
organizam a análise, atenta tanto às discussões políticas quanto aos vínculos
afetivos gerados nesses espaços.
Estudar
a história das ações e do pensamento feminista não é tarefa simples. No caso
dos Encontros, e apesar de sua importância, a documentação produzida neles não
se encontra disponível de forma sistemática. “Faltam genealogias” – costuma-se
dizer – embora o pensamento feminista tenha sido particularmente prolífico ao
tentar traçá-las, nutrindo a ação política com o trabalho das gerações que nos
precederam. Uma antiga fábula feminista insiste em reivindicar as bruxas e seu
destino como emblema da sabedoria das mulheres cujos conhecimentos foram
reprimidos e invisibilizados (Fischer, 1995: 70). Assim como esses saberes, os
arquivos feministas tampouco são fáceis de localizar, apesar dos esforços de
militantes, grupos e projetos de documentação que preservam e organizam
entrevistas, atas de encontros, folhetos, documentos e fotografias que dão
testemunho das ações feministas. Começo, portanto, estas notas reconhecendo
esse trabalho de guardar, preservar, ordenar e publicar – muitas vezes de
maneira artesanal – realizado em alguns centros de documentação e, sobretudo,
aquele que militantes de diferentes lugares realizam espontaneamente.
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Encontro, feminista e latino-americano
A ideia
de realizar um Encontro Feminista da América Latina e do Caribe começou a tomar
forma a partir da experiência de algumas ativistas latino-americanas que
participaram da Tribuna do Ano Internacional da Mulher, realizada no México em
1975. Muitas delas retornaram com a convicção de que era necessário criar um
espaço próprio e autônomo, no qual as mulheres do continente pudessem refletir
coletivamente sobre sua condição e definir uma agenda feminista situada na
realidade do Sul. No entanto, essa ideia levou alguns anos para se concretizar.
O
primeiro grupo a retomar esse desafio foi o coletivo venezuelano La Conjura,
que propôs Caracas como sede de um encontro feminista latino-americano.
Diversos obstáculos, contudo, impediram que o Encontro fosse realizado naquele
país. Nesse contexto, a Colômbia surgiu como uma alternativa viável, dado o
dinamismo de seu movimento de mulheres, que rapidamente assumiu a organização
do evento.
Durante
as reuniões preparatórias, realizadas em diferentes cidades do país, foram
tomadas decisões-chave sobre o caráter do Encontro. A declaração elaborada
naquele momento reafirmava a autonomia da Coordenadora e estabelecia que todas
as participantes deveriam aceitar que sua participação se daria em caráter
pessoal. Entretanto, em reuniões posteriores, esses consensos foram
questionados – sobretudo por militantes de partidos políticos – e algumas
decisões passaram a ser tomadas por votação, prática que desde então gera
desconforto entre feministas.
Debateu-se
se deveria ser convocado um encontro amplo, que reunisse todas as mulheres
comprometidas com a libertação feminina, ou um encontro estritamente feminista;
e se a participação deveria manter-se a título individual. Houve avanços e
retrocessos, divisões internas e, em determinado momento, chegou-se a
considerar a possibilidade de realizar dois encontros paralelos. Finalmente,
acordou-se a realização de um único Encontro, em julho de 1981, em um espaço
cedido pelo Instituto Nacional de Estudos Sociais (INES), nos arredores de
Bogotá.
Apesar
dos conflitos, o processo levou à definição de princípios fundamentais que
marcariam os encontros posteriores: o caráter feminista do evento, a
participação individual, a autonomia em relação a partidos e organizações, a
construção coletiva não hierárquica e a ausência de painéis de especialistas.
Consolidou-se também a ideia de autofinanciamento e da necessidade de contar
com espaços físicos próprios para o debate entre feministas.
Essas
disputas, longe de serem meramente anedóticas, condensam dilemas conceituais
que acompanharam o feminismo latino-americano em sua constituição como
movimento político com voz e agenda próprias, ao menos em dois sentidos. Por um
lado, as tensões contribuíram para dar forma aos princípios organizativos que
passariam a caracterizar os Encontros. Por outro, instaurou-se o debate em
torno da “autonomia”, noção que nem todas compreendiam da mesma maneira. Assim,
ficou aberta a pergunta sobre o que significava construir um espaço político
próprio para debater a partir do feminismo, sem tutela partidária nem
subordinações estratégicas (Suaza Vargas, 2008; Armenta et al., 1981; Fischer,
2005).
Embora
essa disputa não fosse nova – nem exclusiva da região –, declarar-se feminista
em um contexto no qual boa parte das organizações de esquerda e populares
condenava o feminismo como um desvio pequeno-burguês, distante dos urgentes
problemas sociais e políticos latino-americanos, representava um dilema para
muitas militantes cuja trajetória pessoal as aproximava dessas correntes. Esse
conflito ficou claramente refletido nos debates do Encontro, especialmente no
ateliê “luta política”, no qual se expressaram diferentes posições sobre a
dupla militância, a relação entre luta feminista e anti-imperialismo e sobre
como articular classe e gênero na luta feminista (Boletín Internacional de las
Mujeres Isis, 1981: 30).
Ao
tentar elaborar uma síntese entre as diversas posições acerca da autonomia e da
dupla militância, a socióloga feminista dominicana Magaly Pineda recorda, por
contraste, sua experiência na Tribuna realizada no México em 1975 e destaca
enfaticamente a disposição ao encontro que se produzia em Bogotá:
Entendo
autonomia como um termo que implica uma luta na qual tomamos nossa iniciativa,
mas subordinada a um projeto social – não ao partido, mas a um projeto de
transformação, o projeto socialista ou de uma nova sociedade. Creio que, em
termos de nosso feminismo autônomo, essa continua sendo – e deve continuar
sendo – uma palavra-chave. Quanto à dupla militância, trata-se de uma questão
que não vamos resolver agora; inclusive, o mais rico de tudo isso é que aqui há
militantes falando de feminismo. Eu estava no México em 1975, senhoras!… e nos
dividimos entre políticas e feministas. Aqui estamos agora mulheres buscando
cada uma… (Cine Mujer, 1981).
Para
além das divergências, o Encontro de Bogotá representou, para aquelas que
participaram, uma abertura a uma nova forma de viver o feminismo e um
acontecimento político singular. Nancy Sternbach, Marysa Navarro, Patricia
Chuchryk e Sonia Álvarez (1994: 270) afirmam que, a partir desse encontro, as
feministas da América Latina perceberam a possibilidade de “criar uma linguagem
feminista própria e comum, que repercutiu nas perspectivas a partir das quais
cada grupo militava em seus próprios países”. O Encontro reafirmou que o
feminismo latino-americano não era uma importação do Norte global, mas uma
resposta às opressões interseccionais vividas na região. Ao mesmo tempo,
consolidou-se como um movimento amplo, diverso e em constante construção.
Após
esse primeiro momento, o conceito de autonomia adquiriu contornos cada vez mais
complexos e passou a ser questionado sob novas perspectivas: a
institucionalização do movimento, as ONGs, o financiamento internacional, a
academia e a participação em organismos estatais trouxeram novos desafios e
tensões. A institucionalização de algumas demandas feministas e a crescente
procura por saberes especializados sobre mulheres e gênero por parte de
organismos internacionais e governos nacionais impulsionaram modalidades de
ação que extrapolavam as formas tradicionais de militância.
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Apegos ferozes
Essa
breve revisão das memórias do momento de gestação dos Encontros permite
identificar alguns traços centrais para pensar seu lugar na genealogia dos
feminismos latino-americanos.
Primeiro,
o gesto de dar-se um nome. Lidas em seu contexto histórico, as palavras
“encontro”, “feminista” e “latino-americano” condensam disputas de sentido e
expressam uma definição política situada do feminismo na região, afirmando
desde o início sua especificidade e sua diversidade.
Segundo,
os Encontros estabeleceram uma relação explícita entre as lutas feministas e os
processos de transformação e libertação do continente. Desde Bogotá, marcou-se
uma diferença em relação aos feminismos da Europa e dos Estados Unidos –
inclusive aos feminismos socialistas – ao incorporar à agenda a crítica ao
imperialismo, às relações de subordinação global e às dívidas externas. Essas
questões passaram a integrar os Encontros desde suas primeiras edições.
Terceiro,
a pergunta pelo sujeito do feminismo: sua amplitude ou não; sua relação com
classe social, racismo e violências sociais; e a inclusão de mulheres
camponesas, trabalhadoras e de setores populares.
Por
fim, o problema da autonomia em relação aos partidos políticos, a
institucionalização, a dependência ou não de agências de financiamento e os
vínculos com o Estado constituem um núcleo problemático que permanece até o
presente.
Depois
de Bogotá, os Encontros continuaram sendo espaços de produção feminista.
Funcionaram como cenários de intensos debates entre correntes e grupos e como
arenas onde emergiram novas problemáticas. A própria noção de “encontro”
consolidou-se como um nó conceitual que articula uma forma de pensar o sujeito
político do feminismo e a trama de suas múltiplas determinações.,
Essa
trama é política, mas também afetiva: forja-se nas discussões, mas também nos
vínculos que nascem da vulnerabilidade e da resistência, da esperança e da
alegria, nesse movimento ondulante das emoções. Não por acaso, muitas
feministas relatam ter saído dos Encontros “surpreendidas” e “maravilhadas”.
Como assinala Sara Ahmed (2015), o assombro mantém vivo o desejo de continuar
buscando e abre a possibilidade de uma vida vivida com frescor. O testemunho de
uma participante do Encontro de Bertioga, realizado em 1985, condensa essa
experiência afetiva: “Escrever sobre aqueles dias é tentar transmitir uma
experiência vivida com grande emoção, para a qual temo não ter palavras
suficientes […] um não querer despedir-se, a expressão da energia, da alegria e
do afeto que se desenvolveram no encontro.”
Não são
apenas as experiências compartilhadas, portanto, mas também as emoções que
produzem proximidades e distâncias e que criam comunidades de afeto instáveis,
porém poderosas. Estar juntas, discutir inclusive com fúria, gerou um vínculo
afetivo que também se estende e se conecta com aquelas que vieram antes: “As
feministas nos encontramos umas às outras, não necessariamente porque tenhamos
percorrido os mesmos caminhos, mas porque reconhecemos nas histórias de outras
algo que sentimos em nosso próprio corpo” (Ahmed, 2021: 69).
Os
afetos constituem um componente fundamental da política feminista e contribuem
para a criação de uma linguagem política própria. Enquanto o patriarcado, o
capitalismo, as violências de Estado e o racismo representam a soma de
múltiplas formas de violência, os feminismos forjados nos Encontros – com suas
discussões, risos e danças, imagens e poesias – disputam o direito de pensar a
América Latina a partir de uma perspectiva feminista.
Fonte:
Por Alejandra Oberti, para a coluna da BVPS (Biblioteca Virtual do Pensamento
Social)

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