segunda-feira, 9 de março de 2026

Governo dos EUA pretende tomar o controle total das reservas de petróleo do Irã, diz alto funcionário

O governo do presidente dos EUA, Donald Trump, pretende obter controle total sobre as reservas de petróleo do Irã, disse Jarrod Agen, diretor do Conselho Nacional de Dominância Energética dos EUA.

"Ao fim e ao cabo, não teremos que nos preocupar com esses problemas no estreito de Ormuz porque tiraremos todo o petróleo das mãos [das autoridades iranianas]", disse Agen na Fox News, respondendo a uma pergunta sobre o impacto do conflito no Irã sobre os preços do petróleo.

Em 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel começaram a atacar alvos no Irã, incluindo Teerã, com destruição e mortes de civis relatadas. O Irã está realizando ataques de retaliação a território israelense, bem como a alvos militares dos EUA na região do Oriente Médio.

No contexto da escalada do conflito, o transporte marítimo através do estreito de Ormuz parou quase completamente e as seguradoras começaram a aumentar os prêmios e revisar a cobertura do seguro em meio ao aumento de ameaças à segurança. Essa passagem é uma rota de abastecimento fundamental para o mercado mundial de petróleo e gás natural liquefeito dos países do Golfo, que representa cerca de 20% dos fornecimentos globais de petróleo, produtos petrolíferos e GNL.

¨      Ormuz: a carta estratégica do Irã contra a sanha petrolífera de Washington

As guerras dos Estados Unidos para se apoderarem do petróleo se tornaram um tema recorrente na política e diplomacia do país: desde o século 19, o conceito de Destino Manifesto inclui a expansão territorial e o controle dos recursos naturais, em especial do petróleo.

Durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, o petróleo tornou-se um recurso estratégico, e os Estados Unidos utilizaram seu controle sobre jazidas petrolíferas para influenciar as estratégias militares de outros países.

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Hoje, o petróleo continua sendo um fator-chave na política e na economia dos EUA, e o país desenvolveu diversas estratégias para garantir seu acesso a esse recurso vital.

Deve-se considerar que o Irã dispõe da terceira reserva de petróleo bruto mais importante do mundo, depois da Venezuela e da Arábia Saudita. O país é também o quinto produtor da  Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), atrás da Rússia, da Arábia Saudita, do Iraque e dos Emirados Árabes Unidos. Produz cerca de 3,3 milhões de barris diários, ou seja, 11% do total dos 12 países que integram a OPEP, o equivalente a 4,5% do bombeamento global.

As reservas da Venezuela estão agora supervisionadas pelos EUA e a Arábia Saudita é um país aliado de Washington, disposto inclusive a se envolver neste conflito contra o Irã, seu rival no Golfo Pérsico.

O Irã é um dos grandes abastecedores da China, para quem envia 90% de sua produção, o que corresponde a 10% das compras de petróleo bruto chinesas. Obviamente, na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA figura o estrangulamento energético da China, seu maior competidor global.

Sendo o Irã um dos grandes abastecedores da China, é compreensível que Pequim tenha se preocupado e exigido o “cessar imediato” das hostilidades.

O Departamento de Justiça dos EUA apresentou uma ação judicial para tomar posse legalmente de um petroleiro sancionado e de quase dois milhões de barris de petróleo apreendidos ao largo da costa da Venezuela em dezembro — mais um passo do governo de Donald Trump para reafirmar seu poder sobre o setor petrolífero venezuelano após bombardear Caracas e sequestrar o mandatário Nicolás Maduro. É a primeira ação apresentada por Washington para iniciar o processo legal com o objetivo de assumir formalmente o controle de pelo menos um dos dez petroleiros interceptados pelas autoridades estadunidenses desde o final do ano passado.

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O governo de Trump propôs-se a controlar a produção, o refino e a distribuição global do petróleo da Venezuela, e a decidir para onde fluem as receitas. Já começou a suspender sanções abrangentes para permitir que empresas estrangeiras operem na Venezuela e garantir a apropriação dos resultados de suas vendas.

É nesse contexto que os EUA bombardearam o Irã. Além de derrubar o regime islâmico iraniano e acabar com seu potencial bélico, interessava a Trump sobretudo se apoderar do petróleo do país, assim como fez com Caracas, e assim controlar o fluxo mundial do petróleo.

O Irã, porém, não é a Venezuela — o que talvez não percebam na Casa Branca, mas sabem muito bem em Israel. Netanyahu poderia ter dado esse passo há muito tempo, mas o risco era elevado demais e considerou ser melhor que fosse assumido pelos EUA, sobretudo porque desvia os olhares do genocídio em Gaza e na Cisjordânia. Interessa muito a Netanyahu que esta crise, transformada em guerra aberta, se estenda por toda a região, pelo menos como uma hecatombe econômica que faça tremer os mercados e alcance lugares tão distantes como a China ou a União Europeia.

Trump, então, deixou cair definitivamente a máscara de pacificador mundial e abandonou seu compromisso de evitar pela via diplomática que o Irã fabrique armas nucleares.

Os objetivos reais do ataque combinado lançado pelos EUA e Israel incluem ainda a consolidação do Estado judeu como superpotência aliada no Oriente Médio, já sem inimigos de peso na região, somado ao reforço do controle do fluxo mundial não apenas de petróleo, mas de gás.

<><> Mercado em alerta

O que os EUA temem é o dano que Teerã poderia causar ao tráfico de hidrocarbonetos no Oriente Médio caso se veja sob uma ameaça existencial. Se o Irã atacar em represália as jazidas petrolíferas de seus vizinhos do Golfo — e tem capacidade para fazê-lo — ou fechar o estreito de Ormuz para a passagem dos petroleiros árabes, asiáticos e ocidentais, a catástrofe estará garantida.

Não por acaso, os mercados financeiros entraram em estado de choque diante da iminente paralisia do Estreito de Ormuz. Com o Brent se aproximando da barreira dos 100 dólares antes da abertura da última segunda-feira (2), a comunidade internacional observa com temor como esta escalada militar poderia se transformar, em questão de horas, em uma crise inflacionária a níveis não vistos desde os anos 1970, preveem analistas de Wall Street, e no início de um reordenamento forçado do mercado energético global.

Saudita, do Iraque, do Kuwait e dos Emirados Árabes Unidos dependem dessa via: não existem rotas terrestres ou gasodutos com capacidade suficiente para compensar um bloqueio desse estreito. (Imagem: NASA / Wikimedia Commons)

Especialistas do J.P. Morgan e analistas do Barron’s advertem que, se as hostilidades se mantiverem ou escalarem, o preço disparará rapidamente para a faixa de 100 a 150 dólares o barril. A combinação de uma operação de “mudança de regime” e a represália imediata do Irã contra aliados dos EUA criou um prêmio de guerra sem precedentes.

A maior ameaça para a estabilidade econômica é o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde transitam 20 milhões de barris de petróleo diários, o equivalente a 22% do consumo mundial, além de 20% do gás liquefeito. Um bloqueio, ainda que parcial, deixaria as refinarias da Ásia e da Europa sem fornecimento básico em questão de dias. A capacidade de resposta da OPEP, liderada por Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, permite injetar entre dois e três milhões de barris de petróleo adicionais por dia — o que será inútil se os mísseis iranianos alcançarem os terminais de exportação de seus vizinhos ou se a passagem por Ormuz permanecer minada.

Quase todo o gás natural liquefeito (GNL) do Catar e o petróleo bruto da Arábia Saudita, do Iraque, do Kuwait e dos Emirados Árabes Unidos dependem dessa via: não existem rotas terrestres ou gasodutos com capacidade suficiente para compensar um bloqueio desse estreito.

<><> O excremento do diabo

O venezuelano Juan Pablo Pérez Alfonso, arquiteto da OPEP, previu em seu livro fundamental Afogando-nos no excremento do Diabo (1976) a cobiça e as pressões externas que iriam cercar a exploração petrolífera na Venezuela, décadas antes de os EUA agredirem o país e sequestrarem seu presidente.

O especialista advertiu que as divisas estrangeiras obtidas com a venda do petróleo bruto — chamado pelos indígenas pré-hispânicos de “excremento do diabo” — só podiam ser empregadas em bens e serviços estrangeiros. “Estamos obrigados a comprar coisas estranhas que, para trazer bom proveito, têm de combinar-se habilmente com bens e serviços nacionais a fim de satisfazer as verdadeiras necessidades dos venezuelanos.”

¨      Ofensiva de EUA e Israel contra o Irã repete roteiro da guerra no Iraque

a agressão militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã ganhou novos contornos, alcançando o nível de tensão global. O assassinato do líder supremo Ali Khamenei gerou uma onda de ataques em série que pressionam rotas energéticas do comércio internacional — com o Estreito de Ormuz parcialmente paralisado e navios retidos, fazendo o preço do petróleo disparar mundialmente.

Donald Trump e os senhores da guerra vendem ao mundo a falácia de mais uma “operação cirúrgica” — a outra foi contra a Venezuela — apresentada como inevitável para garantir a segurança mundial. A ladainha foi repetida pelo chanceler alemão Friedrich Merz que, após encontro com o presidente estadunidense, disse compartilhar o desejo de se “livrar do regime iraniano”. Anteriormente, diante do Conselho de Segurança Nacional, afirmou que o Irã é uma ameaça à paz e à segurança.

A máscara caiu e a Europa passa a defender abertamente ataques contra um país soberano à revelia de todo o sistema do direito internacional, da Organização das Nações Unidas (ONU) e de seu Conselho de Segurança, em nome da mudança de regime. O argumento da segurança — entenda-se, a segurança israelense — funciona como senha: não se trata de um risco concreto, mas de uma justificativa para a agressão e tudo o que vem junto a ela — sanções, bombardeios, assassinatos políticos e, por fim, a tentativa de reorganizar um país inteiro a partir de fora.

Outros argumentos contra o Irã aparecem dispersos na mídia e nos discursos de líderes ocidentais: teocracia, atraso, violação de direitos humanos, direitos das mulheres, falta de democracia. São slogans que anestesiam a opinião pública enquanto o objetivo real avança: desorganizar um polo regional que limita Israel, reposicionar correlações de força no Oriente Médio e reafirmar o princípio que estrutura o imperialismo contemporâneo.

<><> Guerra preventiva, propaganda e fabricação da ameaça 

O mundo já viu esse enredo, mas com outro nome: Guerra no Iraque. Em 2003, também se invocou a defesa da segurança internacional para justificar uma “guerra preventiva” baseada em mentiras. O resultado foi a destruição de um Estado, décadas de instabilidade regional e uma guerra cujas consequências ainda moldam o Oriente Médio.

Há outro paralelo histórico ainda mais dramático — e que Merz parece fazer questão de varrer para debaixo do tapete: Gleiwitz, agosto de 1939, quando o regime nazista encenou um ataque à estação de rádio alemã para “provar” uma agressão polonesa que nunca existiu e, com isso, fabricar a legitimidade política para invadir a Polônia, fato que desencadearia a Segunda Guerra Mundial.

Temos, portanto, uma engrenagem recorrente do poder: primeiro se produz a narrativa do perigo, depois se apresenta a violência como resposta “obrigatória”, “defensiva”, “inevitável”. É a alquimia da propaganda convertendo mentira em ameaça e ameaça em licença para atacar quem não atacou.

Guerras iniciadas sob mentira e arrogância raramente têm fim controlável. Elas se espalham, atraem novos atores, transbordam fronteiras. Neste caso, a tendência é novamente transformar o Oriente Médio em campo de instabilidade permanente e exportar os efeitos, sobretudo econômicos, para quem já vive sob vulnerabilidade.

<><> Mudança de regime e laboratórios de guerra 

A doutrina da “mudança de regime” pela força foi testada, refinada e exportada durante décadas na América Latina, com golpes, guerras sujas, bloqueios e terrorismo de Estado terceirizado patrocinado pelos Estados Unidos. Gaza também se converteu, mais recentemente, em laboratório de devastação, desta vez pelas mãos de Israel.

Mas é uma ilusão acreditar que o mesmo roteiro se transplanta sem custo para o território histórico do antigo império persa, com sua densidade institucional, memória política e redes regionais.

A Revolução Iraniana não produziu um poder concentrado em uma única figura que, eliminada, derrubaria o edifício como um dominó. Ela instaurou um sistema político complexo, com camadas de decisão e reprodução de autoridade que não se resumem ao líder espiritual.

A morte de Khamenei não equivale automaticamente, portanto, a “abrir caminho” para um novo arranjo político. Não existe uma oposição nacional pronta, coesa e capilarizada capaz de ocupar o vazio e assumir o controle do país como se fosse um tabuleiro. Mesmo que comandos militares tenham sido “decepados”, a engrenagem institucional não desaparece por decreto: há cadeias de comando, mecanismos de recomposição e continuidade do Estado.

<><> Guerra regional, eixo da resistência e diplomacia sabotada 

Israel, por sua vez, depois de operar Gaza mais uma vez como laboratório de devastação genocida, tenta expandir o raio de destruição para além do enclave. O alvo é o chamado eixo da resistência, a rede político-militar articulada pelo Irã e composta por Hezbollah no Líbano, Hamas e Jihad Islâmica Palestina, Ansar Allah (houthis) no Iêmen, além de milícias xiitas no Iraque e grupos na Síria.

A guerra contra o Irã, portanto, não é um episódio isolado. Ela funciona como etapa de uma estratégia mais ampla: enfraquecer o principal polo regional capaz de sustentar alianças, capacidade militar e articulação política que contrariam os projetos do imperialismo estadunidense.

Há ainda outra contradição devastadora. O chanceler russo Sergey Lavrov apontou que, se Europa e Estados Unidos realmente temessem o desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã, o caminho jamais deveria ter sido a agressão militar. Aliás, analistas russos são quase que unânimes em apontar que o Ocidente deu a Teerã o argumento perfeito para – agora sim – desenvolver uma bomba atômica. Afinal, países com armas nucleares não são bombardeados.

<><> Diplomacia como instrumento de guerra 

Sob a presidência de Trump, o direito internacional vem sendo rasgado diante do mundo, que assiste em silêncio. O ápice desse processo foi a agressão ao Irã enquanto ainda havia uma via diplomática em curso. Conversas em Viena continuavam e havia sinais públicos de disposição iraniana para negociar. Washington e Tel-Aviv, no entanto, utilizaram o diálogo como cortina de fumaça para trair Teerã e assassinar Khamenei.

Torna-se cada vez mais difícil sustentar, portanto, que o objetivo real dos Estados Unidos era um acordo sobre o programa nuclear iraniano. Se fosse, a história oferece uma prova incômoda: o entendimento costurado em 2009 com protagonismo do Brasil, na figura de Celso Amorim, poderia ter sido aprofundado e fiscalizado. Não foi.

Porque a meta central sempre pareceu outra. Não se trata apenas de conter um suposto programa nuclear ou garantir “segurança regional”. O objetivo é reduzir o poder dissuasório do Irã, asfixiar sua economia e enfraquecer sua capacidade de defesa diante das agressões contínuas de Israel.

Ao mesmo tempo, busca-se abrir caminho para o controle de suas vastas reservas de petróleo e neutralizar qualquer ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz, uma das artérias energéticas mais estratégicas do planeta.

Mas o cálculo vai ainda além. A guerra contra o Irã também responde a uma lógica geopolítica mais ampla: conter a expansão da China, da Rússia e do Brics como polos de poder em um mundo que se move, cada vez mais rapidamente, para além da hegemonia dos Estados Unidos.

 

Fonte: Sputnik Brasil/Estrategia.la/Diálogo do Sul Global

 

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