Governo
dos EUA pretende tomar o controle total das reservas de petróleo do Irã, diz
alto funcionário
O
governo do presidente dos EUA, Donald Trump, pretende obter controle total
sobre as reservas de petróleo do Irã, disse Jarrod Agen, diretor do Conselho
Nacional de Dominância Energética dos EUA.
"Ao
fim e ao cabo, não teremos que nos preocupar com esses problemas no
estreito de Ormuz porque
tiraremos todo o petróleo das mãos [das autoridades
iranianas]", disse Agen na Fox
News, respondendo a uma pergunta sobre o impacto do conflito no Irã sobre os
preços do petróleo.
Em 28
de fevereiro, os Estados Unidos e
Israel começaram a atacar alvos no Irã, incluindo Teerã, com destruição e mortes de
civis relatadas. O Irã está realizando ataques de retaliação a território
israelense, bem como a alvos militares dos EUA na região do Oriente Médio.
No
contexto da escalada do conflito, o transporte marítimo através do estreito de
Ormuz parou quase completamente e as seguradoras começaram a aumentar os
prêmios e revisar a cobertura do seguro em meio ao aumento de ameaças à
segurança. Essa passagem é uma rota de abastecimento fundamental para o
mercado mundial de petróleo e gás natural
liquefeito dos
países do Golfo, que representa cerca de 20% dos fornecimentos globais de
petróleo, produtos petrolíferos e GNL.
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Ormuz: a carta estratégica do Irã contra a sanha
petrolífera de Washington
As
guerras dos Estados Unidos para se apoderarem do petróleo se tornaram um tema
recorrente na política e diplomacia do país: desde o século 19, o conceito de
Destino Manifesto inclui a expansão territorial e o controle dos recursos
naturais, em especial do petróleo.
Durante
a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, o petróleo tornou-se um recurso
estratégico, e os Estados Unidos utilizaram seu controle sobre jazidas
petrolíferas para influenciar as estratégias militares de outros países.
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Hoje, o
petróleo continua sendo um fator-chave na política e na economia dos EUA, e o
país desenvolveu diversas estratégias para garantir seu acesso a esse recurso
vital.
Deve-se
considerar que o Irã dispõe da terceira reserva de
petróleo bruto mais importante do mundo, depois da Venezuela e da Arábia
Saudita. O país é também o quinto produtor da Organização de Países
Exportadores de Petróleo (OPEP), atrás da Rússia, da Arábia Saudita, do Iraque
e dos Emirados Árabes Unidos. Produz cerca de 3,3 milhões de barris diários, ou
seja, 11% do total dos 12 países que integram a OPEP, o equivalente a 4,5% do
bombeamento global.
As
reservas da Venezuela estão agora supervisionadas pelos EUA e a Arábia Saudita
é um país aliado de Washington, disposto inclusive a se envolver neste conflito
contra o Irã, seu rival no Golfo Pérsico.
O Irã é
um dos grandes abastecedores da China, para quem envia 90% de sua produção, o
que corresponde a 10% das compras de petróleo bruto chinesas. Obviamente, na
Estratégia de Segurança Nacional dos EUA figura o estrangulamento energético da
China, seu maior competidor global.
Sendo o
Irã um dos grandes abastecedores da China, é compreensível que Pequim tenha se
preocupado e exigido o “cessar imediato” das hostilidades.
O
Departamento de Justiça dos EUA apresentou uma ação judicial para tomar posse
legalmente de um petroleiro sancionado e de quase dois milhões de barris de
petróleo apreendidos ao largo da costa da Venezuela em dezembro — mais um passo
do governo de Donald Trump para reafirmar seu poder sobre o setor petrolífero
venezuelano após bombardear Caracas e sequestrar o mandatário Nicolás Maduro. É
a primeira ação apresentada por Washington para iniciar o processo legal com o
objetivo de assumir formalmente o controle de pelo menos um dos dez petroleiros
interceptados pelas autoridades estadunidenses desde o final do ano passado.
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O
governo de Trump propôs-se a controlar a produção, o refino e a distribuição
global do petróleo da Venezuela, e a decidir para onde fluem as receitas. Já
começou a suspender sanções abrangentes para permitir que empresas estrangeiras
operem na Venezuela e garantir a apropriação dos resultados de suas vendas.
É nesse
contexto que os EUA bombardearam o Irã. Além de derrubar o regime islâmico
iraniano e acabar com seu potencial bélico, interessava a Trump sobretudo se
apoderar do petróleo do país, assim como fez com Caracas, e assim controlar o
fluxo mundial do petróleo.
O Irã,
porém, não é a Venezuela — o que talvez não percebam na Casa Branca, mas sabem
muito bem em Israel. Netanyahu poderia ter dado esse passo há muito tempo, mas
o risco era elevado demais e considerou ser melhor que fosse assumido pelos
EUA, sobretudo porque desvia os olhares do genocídio em Gaza e na Cisjordânia.
Interessa muito a Netanyahu que esta crise, transformada em guerra aberta, se
estenda por toda a região, pelo menos como uma hecatombe econômica que faça
tremer os mercados e alcance lugares tão distantes como a China ou a União
Europeia.
Trump,
então, deixou cair definitivamente a máscara de pacificador mundial e abandonou
seu compromisso de evitar pela via diplomática que o Irã fabrique armas
nucleares.
Os
objetivos reais do ataque combinado lançado pelos EUA e Israel incluem ainda a
consolidação do Estado judeu como superpotência aliada no Oriente Médio, já sem
inimigos de peso na região, somado ao reforço do controle do fluxo mundial não
apenas de petróleo, mas de gás.
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Mercado em alerta
O que
os EUA temem é o dano que Teerã poderia causar ao tráfico de hidrocarbonetos no
Oriente Médio caso se veja sob uma ameaça existencial. Se o Irã atacar em
represália as jazidas petrolíferas de seus vizinhos do Golfo — e tem capacidade
para fazê-lo — ou fechar o estreito de Ormuz para a passagem dos petroleiros
árabes, asiáticos e ocidentais, a catástrofe estará garantida.
Não por
acaso, os mercados financeiros entraram em estado de choque diante da iminente
paralisia do Estreito de Ormuz. Com o Brent se aproximando da barreira dos 100
dólares antes da abertura da última segunda-feira (2), a comunidade
internacional observa com temor como esta escalada militar poderia se
transformar, em questão de horas, em uma crise inflacionária a níveis não
vistos desde os anos 1970, preveem analistas de Wall Street, e no início de um
reordenamento forçado do mercado energético global.
Saudita,
do Iraque, do Kuwait e dos Emirados Árabes Unidos dependem dessa via: não
existem rotas terrestres ou gasodutos com capacidade suficiente para compensar
um bloqueio desse estreito. (Imagem: NASA / Wikimedia Commons)
Especialistas
do J.P. Morgan e analistas do Barron’s advertem que, se as hostilidades se
mantiverem ou escalarem, o preço disparará rapidamente para a faixa de 100 a
150 dólares o barril. A combinação de uma operação de “mudança de regime” e a
represália imediata do Irã contra aliados dos EUA criou um prêmio de guerra sem
precedentes.
A maior
ameaça para a estabilidade econômica é o bloqueio do Estreito de Ormuz, por
onde transitam 20 milhões de barris de petróleo diários, o equivalente a 22% do
consumo mundial, além de 20% do gás liquefeito. Um bloqueio, ainda que parcial,
deixaria as refinarias da Ásia e da Europa sem fornecimento básico em questão
de dias. A capacidade de resposta da OPEP, liderada por Arábia Saudita e
Emirados Árabes Unidos, permite injetar entre dois e três milhões de barris de
petróleo adicionais por dia — o que será inútil se os mísseis iranianos
alcançarem os terminais de exportação de seus vizinhos ou se a passagem por
Ormuz permanecer minada.
Quase
todo o gás natural liquefeito (GNL) do Catar e o petróleo bruto da Arábia
Saudita, do Iraque, do Kuwait e dos Emirados Árabes Unidos dependem dessa via:
não existem rotas terrestres ou gasodutos com capacidade suficiente para
compensar um bloqueio desse estreito.
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O excremento do diabo
O
venezuelano Juan Pablo Pérez Alfonso, arquiteto da OPEP, previu em seu livro
fundamental Afogando-nos no
excremento do Diabo (1976) a cobiça e as pressões externas que iriam
cercar a exploração petrolífera na Venezuela, décadas antes de os EUA agredirem
o país e sequestrarem seu presidente.
O
especialista advertiu que as divisas estrangeiras obtidas com a venda do
petróleo bruto — chamado pelos indígenas pré-hispânicos de “excremento do
diabo” — só podiam ser empregadas em bens e serviços estrangeiros. “Estamos
obrigados a comprar coisas estranhas que, para trazer bom proveito, têm de
combinar-se habilmente com bens e serviços nacionais a fim de satisfazer as
verdadeiras necessidades dos venezuelanos.”
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Ofensiva de EUA e Israel contra o Irã repete roteiro da
guerra no Iraque
a
agressão militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã ganhou novos contornos,
alcançando o nível de tensão global. O assassinato do líder supremo Ali
Khamenei gerou uma onda de ataques em série que pressionam rotas energéticas do
comércio internacional — com o Estreito de Ormuz parcialmente paralisado e
navios retidos, fazendo o preço do petróleo disparar mundialmente.
Donald
Trump e os senhores da guerra vendem ao mundo a falácia de mais uma “operação
cirúrgica” — a outra foi contra a Venezuela — apresentada como inevitável para
garantir a segurança mundial. A ladainha foi repetida pelo chanceler alemão
Friedrich Merz que, após encontro com o presidente estadunidense,
disse compartilhar o desejo de se “livrar do regime iraniano”. Anteriormente,
diante do Conselho de Segurança Nacional, afirmou que o Irã é uma ameaça à
paz e à segurança.
A
máscara caiu e a Europa passa a defender abertamente ataques contra um país
soberano à revelia de todo o sistema do direito internacional, da Organização
das Nações Unidas (ONU) e de seu Conselho de Segurança, em nome da mudança de
regime. O argumento da segurança — entenda-se, a segurança israelense —
funciona como senha: não se trata de um risco concreto, mas de uma
justificativa para a agressão e tudo o que vem junto a ela — sanções,
bombardeios, assassinatos políticos e, por fim, a tentativa de reorganizar um
país inteiro a partir de fora.
Outros
argumentos contra o Irã aparecem dispersos na mídia e nos discursos de líderes
ocidentais: teocracia, atraso, violação de direitos humanos, direitos das
mulheres, falta de democracia. São slogans que anestesiam a opinião pública
enquanto o objetivo real avança: desorganizar um polo regional que limita
Israel, reposicionar correlações de força no Oriente Médio e reafirmar o
princípio que estrutura o imperialismo contemporâneo.
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Guerra preventiva, propaganda e fabricação da ameaça
O mundo
já viu esse enredo, mas com outro nome: Guerra no Iraque. Em 2003, também se
invocou a defesa da segurança internacional para justificar uma “guerra
preventiva” baseada em mentiras. O resultado foi a destruição de um Estado,
décadas de instabilidade regional e uma guerra cujas consequências ainda moldam
o Oriente Médio.
Há
outro paralelo histórico ainda mais dramático — e que Merz parece
fazer questão de varrer para debaixo do tapete: Gleiwitz, agosto de 1939,
quando o regime nazista encenou um ataque à estação de rádio alemã para
“provar” uma agressão polonesa que nunca existiu e, com isso, fabricar a
legitimidade política para invadir a Polônia, fato que desencadearia a Segunda
Guerra Mundial.
Temos,
portanto, uma engrenagem recorrente do poder: primeiro se produz a narrativa do
perigo, depois se apresenta a violência como resposta “obrigatória”,
“defensiva”, “inevitável”. É a alquimia da propaganda convertendo mentira em
ameaça e ameaça em licença para atacar quem não atacou.
Guerras
iniciadas sob mentira e arrogância raramente têm fim controlável. Elas se
espalham, atraem novos atores, transbordam fronteiras. Neste caso, a
tendência é novamente transformar o Oriente Médio em campo de
instabilidade permanente e exportar os efeitos, sobretudo
econômicos, para quem já vive sob vulnerabilidade.
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Mudança de regime e laboratórios de guerra
A
doutrina da “mudança de regime” pela força foi testada, refinada e exportada
durante décadas na América Latina, com golpes, guerras sujas, bloqueios e
terrorismo de Estado terceirizado patrocinado pelos Estados Unidos. Gaza
também se converteu, mais recentemente, em laboratório de devastação, desta vez
pelas mãos de Israel.
Mas é
uma ilusão acreditar que o mesmo roteiro se transplanta sem custo para o
território histórico do antigo império persa, com sua densidade institucional,
memória política e redes regionais.
A
Revolução Iraniana não produziu um poder concentrado em uma única figura que,
eliminada, derrubaria o edifício como um dominó. Ela instaurou um sistema
político complexo, com camadas de decisão e reprodução de autoridade que não se
resumem ao líder espiritual.
A morte
de Khamenei não equivale automaticamente, portanto, a “abrir
caminho” para um novo arranjo político. Não existe uma oposição nacional
pronta, coesa e capilarizada capaz de ocupar o vazio e assumir o controle do
país como se fosse um tabuleiro. Mesmo que comandos militares tenham sido
“decepados”, a engrenagem institucional não desaparece por decreto: há cadeias
de comando, mecanismos de recomposição e continuidade do Estado.
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Guerra regional, eixo da resistência e diplomacia sabotada
Israel,
por sua vez, depois de operar Gaza mais uma vez como laboratório de devastação
genocida, tenta expandir o raio de destruição para além do enclave. O alvo é o
chamado eixo da resistência, a rede político-militar articulada pelo Irã e
composta por Hezbollah no Líbano, Hamas e Jihad Islâmica Palestina, Ansar Allah
(houthis) no Iêmen, além de milícias xiitas no Iraque e grupos na Síria.
A
guerra contra o Irã, portanto, não é um episódio isolado. Ela funciona como
etapa de uma estratégia mais ampla: enfraquecer o principal polo regional capaz
de sustentar alianças, capacidade militar e articulação política que contrariam
os projetos do imperialismo estadunidense.
Há
ainda outra contradição devastadora. O chanceler russo Sergey Lavrov apontou
que, se Europa e Estados Unidos realmente temessem o desenvolvimento de armas
nucleares pelo Irã, o caminho jamais deveria ter sido a agressão
militar. Aliás, analistas russos são quase que unânimes em apontar que o
Ocidente deu a Teerã o argumento perfeito para – agora sim – desenvolver uma
bomba atômica. Afinal, países com armas nucleares não são bombardeados.
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Diplomacia como instrumento de guerra
Sob a
presidência de Trump, o direito internacional vem sendo rasgado diante do
mundo, que assiste em silêncio. O ápice desse processo foi a agressão ao Irã
enquanto ainda havia uma via diplomática em curso. Conversas em Viena
continuavam e havia sinais públicos de disposição iraniana para negociar.
Washington e Tel-Aviv, no entanto, utilizaram o diálogo como cortina de fumaça
para trair Teerã e assassinar Khamenei.
Torna-se
cada vez mais difícil sustentar, portanto, que o objetivo real dos Estados
Unidos era um acordo sobre o programa nuclear iraniano. Se fosse, a história
oferece uma prova incômoda: o entendimento costurado em 2009 com protagonismo
do Brasil, na figura de Celso Amorim, poderia ter sido aprofundado e
fiscalizado. Não foi.
Porque
a meta central sempre pareceu outra. Não se trata apenas de conter um suposto
programa nuclear ou garantir “segurança regional”. O objetivo é reduzir o poder
dissuasório do Irã, asfixiar sua economia e enfraquecer sua capacidade de
defesa diante das agressões contínuas de Israel.
Ao
mesmo tempo, busca-se abrir caminho para o controle de suas vastas reservas de
petróleo e neutralizar qualquer ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz, uma
das artérias energéticas mais estratégicas do planeta.
Mas o
cálculo vai ainda além. A guerra contra o Irã também responde a uma lógica
geopolítica mais ampla: conter a expansão da China, da Rússia e do Brics como
polos de poder em um mundo que se move, cada vez mais rapidamente, para além da
hegemonia dos Estados Unidos.
Fonte:
Sputnik Brasil/Estrategia.la/Diálogo do Sul Global

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