segunda-feira, 9 de março de 2026

Guerra desestabiliza internamente países do Oriente Médio

À medida que avança a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, aumentam os episódios secundários de instabilidade ao redor do Oriente Médio. Os países da região lidam com níveis crescentes de violência dentro das próprias fronteiras, enquanto sistemas políticos e relações comunitárias são colocados à prova. 

"O Oriente Médio está em chamas", escreveu nesta semana Mohamed Chtatou, professor da Universidade Mohammed V, em Rabat, Marrocos, em um artigo publicado no Times of Israel. "Não com um único incêndio, mas com uma constelação de focos simultâneos que respondem, alimentam-se e se espalham com sua própria lógica."

Para vários pesquisadores do European Council on Foreign Relations (ECFR, na sigla em inglês), que assinaram uma análise conjunta nesta semana, "o Oriente Médio e além estão mergulhados em novas convulsões violentas, e uma escalada mais ampla pode estar logo adiante." Eles apontaram que não haverá vitória fácil para nenhuma força política na guerra que se amplifica sobre a região.

<><> A delicada posição do Iraque

Após Israel assassinar o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, houve vários dias de protestos em frente à embaixada dos EUA em Bagdá, no Iraque. Os protestos se tornaram violentos, e observadores acreditam que muitos dos manifestantes foram enviados ou incentivados a comparecer por grupos paramilitares alinhados ao Irã.

As forças paramilitares atacaram bases e aeroportos dos EUA em todo o Iraque, inclusive na região semiautônoma do Curdistão iraquiano. As tensões no Curdistão iraquiano aumentaram ainda mais recentemente, após relatos de que os Estados Unidos planejavam apoiar curdos iranianos em uma possível insurgência dentro do Irã. 

Partidos curdos iranianos de oposição mantêm escritórios no Curdistão iraquiano — já bombardeados pelo Irã —, mas esses partidos negaram que combatentes estivessem atravessando a fronteira para dentro do país persa.

"Os ataques em províncias de maioria curda no Oeste, incluindo ataques contra guardas de fronteira e posições de segurança interna, sugerem que uma desestabilização periférica pode estar em andamento", escreveu Muaz al‑Abdullah, gerente de pesquisa sobre o Oriente Médio no projeto Armed Conflict Location & Event Data (ACLED), nos EUA. 

Ele apontou para o risco de instabilidade doméstica prolongada, com possíveis implicações mais amplas para a dinâmica de segurança regional.

Tudo isso coloca os líderes curdos iraquianos em uma posição delicada. Eles têm sido rápidos em afirmar que o Curdistão iraquiano não fará parte desse conflito.

Ainda assim, os rumores sobre uma insurgência curda iraniana só ampliam tensões antigas entre o Curdistão iraquiano e o governo federal em Bagdá. A cooperação entre os dois lados se vê frequentemente atravessada por conflitos sobre temas sensíveis, como receitas do petróleo e direitos curdos.

O governo federal iraquiano tem vários políticos xiitas que apoiam o Irã. Uma percepção das autoridades curdas iraquianas, que têm a própria força militar no Norte, como fonte de apoio a uma insurgência no país vizinho, traria riscos de segurança.

<><> Repressão no Bahrein

No Bahrein, protestos contra os ataques dos Estados Unidos e Israel se tornaram violentos. Civis foram presos por publicar mensagens na internet contra a guerra e supostamente expressar simpatia pelo Irã.

Como outros países do Golfo, a monarquia reprime a maioria das formas de dissenso político. Diferentemente de outros na região, porém, a família real do Bahrein é sunita, enquanto estimativas sugerem que pouco mais de 50% da população seja xiita.

O país viu grandes manifestações pró‑democracia em 2011, durante a Primavera Árabe. As autoridades responderam com repressão severa, e as forças de uma iniciativa de segurança liderada pela Arábia Saudita, hoje conhecida como Comando Militar Unificado, entraram no país para ajudar a conter os protestos.

Não está claro se as mesmas forças atuaram novamente no Bahrein nesta semana, a fim de controlar os protestos.

<><> Tensões comunitárias no Líbano

A guerra também intensifica o impasse entre o governo do Líbano e o Hezbollah, grupo militante armado alinhado ao Irã. Israel bombardeou nesta semana o país vizinho em resposta a ataques lançados pela milícia, que é também uma força política e social no país.

Israel e Estados Unidos exigiram o desarmamento do Hezbollah, que resistiu. O governo libanês também quer que o grupo entregue as armas, em parte para evitar novas incursões ou bombardeios retaliatórios por parte de Israel. No entanto, o exército nacional libanês não tem força suficiente para facilitar o processo.

Após o Hezbollah lançar foguetes contra Israel na segunda-feira, provocando uma grande resposta israelense, o governo libanês proibiu qualquer atividade militar do grupo. Até agora evitado, um confronto direto entre o exército libanês e a milícia parece cada vez mais provável.

Na sociedade, aumentam também as tensões. Observadores relatam que uma porção maior dos libaneses hoje se opõem ao Hezbollah, incluindo na comunidade xiita.

"A solidariedade quase unânime com a ‘resistência' (Hezbollah) deu lugar à raiva diante de uma escalada considerada tão inútil quanto suicida", escreveu o jornal libanês L'Orient Today, ao reportar sobre as famílias xiitas forçadas a buscar abrigo em Beirute, depois que Israel ordenou evacuações em uma vasta área do sul do Líbano. 

Previstas para maio, as eleições libanesas também poderão ser adiadas por causa da guerra no Oriente Médio.

<><> Mais por vir?

Para o analista Mohammed Albasha, a reação mais forte entre grupos xiitas deverá vir daqueles que viam Khamenei como autoridade religiosa.

"Para muitos, o líder supremo não é apenas uma figura política. Ele está ligado a um sistema sagrado," afirmou, apontando para o peso emocional e religioso da sua morte.

Na sua visão, Hezbollah e algumas milícias iraquianas podem empurrar o Líbano e o Iraque para um confronto regional mais profundo. Já no Bahrein, na Arábia Saudita e no Kuwait, grupos xiitas têm menos probabilidade de desafiar governos diretamente, embora perturbações de pequena escala por elementos marginais não possam ser descartadas.

¨      Presidente do Irã descarta rendição e se desculpa com vizinhos

Com a guerra no Oriente Médio entrando na segunda semana, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou que Teerã jamais se renderá a Israel ou aos Estados Unidos.

Em discurso transmitido pela televisão estatal no sábado (07/03), Pezeshkian chamou a rendição incondicional exigida pelo presidente dos EUA, Donald Trump, de "um sonho que eles deveriam levar para o túmulo".

Na véspera, o chefe da Casa Branca condicionara um acordo com o Irã à rendição completa do país persa. "Depois disso, e da seleção de um líder ou líderes excelentes e aceitáveis, nós, muitos de nossos maravilhosos e corajosos aliados e parceiros, trabalharemos incansavelmente para trazer o Irã de volta da beira da destruição, tornando-o economicamente maior, melhor e mais forte do que nunca", escreveu na própria rede social.

Pezeshkian é um dos três membros de um conselho de liderança interina que governa o Irã após a morte do aiatolá Ali Khamenei, que ocupava o posto de líder supremo.

O presidente também pareceu tentar aplacar a tensão com países vizinhos pelos ataques da última semana, mesmo enquanto mísseis e drones iranianos seguiam em direção a Estados árabes do Golfo.

"Devo pedir desculpas em meu próprio nome e em nome do Irã aos países vizinhos que foram atacados pelo Irã", afirmou.

Seu discurso sugeriu que a liderança política de Teerã não consegue exercer controle total sobre as forças armadas da República Islâmica. A Guarda Revolucionária, que controla os mísseis balísticos que atingem Israel e outros alvos, respondia apenas a Khamenei e aparentemente escolhe os próprios alvos à medida que o conflito se amplia.

"De agora em diante, eles (as Forças Armadas) não devem atacar países vizinhos nem disparar mísseis contra eles, a menos que sejamos atacados por esses países. Acho que devemos resolver isso por meio da diplomacia."

Horas depois, uma nova ofensiva interrompeu voos no Aeroporto Internacional de Dubai, atingiu uma importante instalação petrolífera saudita e obrigou pessoas a buscar abrigo repetidas vezes no Bahrein.

Por sua vez, Israel anunciou uma nova onda de ataques de larga escala contra Teerã, em resposta a ataques iranianos. O aeroporto de Mehrabad, considerado o mais movimentado do país, foi atingido.

<><> Países vizinhos são alvos de ataque mesmo após declaração de presidente do Irã

Ao menos quatro nações do Oriente Médio registraram ofensivas e explosões neste sábado (07/03), após o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, ter pedido desculpas aos vizinhos e prometido que a Guarda Revolucionária só iria atacar em resposta a eventuais disparos contra eles.

No Iraque, membros da Guarda Revolucionária afirmaram ter lançado uma ofensiva contra "grupos separatistas" na região do Curdistão. Segundo a agência AFP, drones atacaram posições pertencentes a três partidos curdos iranianos, sem causar vítimas. 

"Se grupos separatistas na região [do Curdistão] empreenderem qualquer ação contra a integridade territorial do Irã, iremos esmagá-los", acrescentou o exército iraniano. A região autônoma do Curdistão iraquiano é uma base de apoio para vários grupos rebeldes curdos iranianos, que já foram alvo de ataques do Irã, que os acusa de servir os interesses ocidentais ou israelitas. 

Já no Catar, o governo local afirmou, também neste sábado, ter interceptado um míssil, logo após jornalistas da AFP relatarem fortes explosões sobre os céus de Doha. O país é aliado dos Estados Unidos. De acordo com as autoridades cataris, o míssil tinha o território do Catar como alvo.

Os Emirados Árabes Unidos (EAU), por sua vez, informaram, também neste sábado, terem sofrido novos ataques com mísseis e drones. "As defesas aéreas dos Emirados Árabes Unidos estão atualmente respondendo a ameaças de mísseis e drones provenientes do Irã", indicou o Ministério da Defesa local em um comunicado no X.

"Os ruídos que se ouvem são o resultado dos Sistemas de Defesa Antiaérea interceptando mísseis e drones", acrescentou.

Também foram registradas fortes explosões em Manama, capital do Bahrein.

¨      Irã criou drones 'suicidas' de baixo custo para provocar caos no Oriente Médio

O presidente Donald Trump afirmou que os mísseis e a indústria de mísseis do Irã seriam "totalmente aniquilados" quando os Estados Unidos iniciaram os ataques aéreos contra o país no último sábado (28/2), mas não mencionou os drones iranianos.

Seis dias depois, o Irã lançou mais de 2.000 drones de baixo custo contra alvos em todo o Oriente Médio, em uma tentativa de sobrecarregar as defesas e semear o caos na região.

Esses drones "kamikaze", chamados de Shahed, carregam explosivos que detonam com o impacto e podem causar danos significativos. O ataque mais letal contra forças americanas até o momento se deu com um drone que atingiu uma base no Kuwait, matando seis soldados dos Estados Unidos.

A maioria dos ataques teve como alvo aliados dos EUA no Golfo Pérsico, países que abrigam, em maior ou menor grau, militares e equipamentos americanos. Mas também atingiram embaixadas, infraestrutura energética essencial, aeroportos comerciais e hotéis de luxo.

Alguns ataques ocorreram em cidades densamente povoadas, provocando medo nas ruas e nos governos dos países do Golfo Pérsico. Alguns especialistas dizem que isso pode fazer parte de uma estratégia iraniana para "impor o terror" e pressionar os EUA a encerrar o conflito.

Um vídeo verificado pela BBC mostra um drone iraniano descendo em alta velocidade antes de atingir o que parece ser uma instalação de radar no quartel-general da Quinta Frota da Marinha dos EUA em Manama, capital do Bahrein, lançando destroços pelo ar e colapsando a estrutura.

Outro vídeo dos Emirados Árabes Unidos mostra um drone se chocando contra um hotel em Palm Jumeirah, o luxuoso arquipélago artificial de Dubai, gerando uma enorme bola de fogo e um estrondo que reverberou pela cidade.

Os ataques com drones ao setor de energia na região têm sido particularmente impactantes. A maior refinaria de petróleo da Arábia Saudita, em Ras Tanura, na costa do Golfo Pérsico, interrompeu a produção após um incêndio causado por destroços de um drone interceptado.

No Catar, o maior terminal de exportação de gás natural liquefeito do mundo também foi fechado após ser alvejado por drones iranianos.

¨      Custo baixo, engenharia potente

Os drones estão causando danos consideráveis ​​em toda a região, considerando seu design simples e custo de produção relativamente baixo. O drone de longo alcance Shahed-136, fabricado no Irã, tem um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o equivalente a R$ 106,2 mil a R$ 266 mil.

Ao contrário de muitos drones comerciais, o Shahed não pode ser operado remotamente enquanto está no ar. Em vez disso, ele é pré-programado antes do lançamento para seguir uma rota definida até um alvo, utilizando um sistema de navegação por satélite. Com um alcance máximo de 2.500 km, ele poderia voar de Teerã a Atenas, por exemplo.

Embora não seja particularmente rápido, especialmente quando comparado a mísseis balísticos, o perfil fino do drone e sua capacidade de voar em baixa altitude dificultam sua detecção por radares e sistemas de alerta centrados na ameaça de mísseis.

<><> Modelo copiado pela Rússia e pelos Estados Unidos

Esse drone foi amplamente utilizado pela Rússia na guerra da Ucrânia para atingir cidades densamente povoadas e usinas de energia, com efeitos devastadores. O Irã exportou drones Shahed para seu aliado nos últimos anos, e os russos agora também estão produzindo suas próprias variantes baseadas no projeto iraniano.

Mick Mulroy, ex-fuzileiro naval americano, oficial paramilitar da CIA e subsecretário-adjunto de Defesa para o Oriente Médio, disse à BBC News que os drones "provaram ser altamente eficazes" em conflitos anteriores, tanto que os EUA desenvolveram sua própria versão.

Os EUA não divulgaram quantos drones foram produzidos, mas dados sobre a quantidade que o Irã está lançando sobre seus inimigos estão sendo divulgados.

Os Emirados Árabes Unidos afirmam que mais de mil drones iranianos foram disparados contra o país até o momento, e 71 conseguiram ultrapassar as defesas estatais.

Mas cada interceptação tem um preço. Os drones podem ser abatidos de diversas maneiras, incluindo o uso de dispositivos especializados de interferência GPS e sistemas de armas a laser, mas muitos estão sendo abatidos por mísseis disparados de caças ou sistemas de mísseis lançados da terra, com alto custo.

Quando o Irã atacou Israel com centenas de drones em 2024, o Reino Unido teria usado caças da RAF para abater alguns drones com mísseis que custam cerca de £ 200 mil cada (cerca de R$ 1,4 milhões na cotação atual).

Forçar os EUA e seus aliados a utilizarem seus estoques de interceptores faz parte da estratégia iraniana de implantação de drones e mísseis, de acordo com Nicholas Carl, especialista em Irã do centro de pesquisa American Enterprise Institute.

Mas Carl afirmou que o regime também está tentando "impor terror e pressão psicológica" aos EUA e seus parceiros regionais para pressionar Donald Trump por um acordo de cessar-fogo.

Não se sabe por quanto tempo o Irã conseguirá manter essa pressão. Acredita-se que o país tenha produzido em massa dezenas de milhares de drones Shahed antes da guerra, mas não se sabe o quanto desse estoque permanece intacto após dias de ataques dos EUA e de Israel.

Imagens divulgadas na segunda-feira pela agência de notícias Fars, afiliada à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, mostram fileiras de drones no que parece ser um bunker subterrâneo. Mas não se sabe quando o vídeo foi gravado.

Na quinta-feira, o almirante Cooper disse que o número de drones lançados pelo Irã caiu 83% desde o primeiro dia de combates, enquanto o uso de mísseis balísticos diminuiu 90%.

"O Irã está com dificuldades para manter seus ataques com mísseis e drones, e isso pode se tornar ainda mais difícil nos próximos dias, à medida que a pressão militar dos EUA e de Israel persistir", acrescentou Carl.

 

Fonte: DW Brasil/BBC News 

 

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