Bolsonaro
enxovalhado: Vorcaro o chama de 'Beócio'
Após a
apreensão dos aparelhos celulares de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master
envolvido na polêmica Operação Compliance Zero e preso em São Paulo nessa
quarta-feira (4), foram reveladas algumas das mensagens trocadas entre o
banqueiro e sua namorada, Martha Graeff, nas quais Vorcaro se refere ao
ex-presidente Jair Bolsonaro como “beócio”.
A
mensagem em questão data de 13 de julho de 2024, e, na ocasião, Vorcaro
comentava sobre uma postagem feita por Bolsonaro no Instagram.
Ele
disse a Graeff: “O pior de ontem foi o [sic] bolsonaro [ter] postado. Recebi
mais de mil msgs [no] instagram. Idiota.” A publicação se tratava de uma
reportagem do jornal O Globo sobre a compra de R$ 500 milhões em títulos do
Banco Master pela Caixa Econômica Federal e a demissão de gerentes da Caixa
responsáveis por barrar a operação considerada “arriscada”.
Vorcaro
disse, na mesma ocasião, ter recebido ligações de seus aliados políticos, como
Ciro Nogueira, e lamentou não poder “tirar do ar” a reportagem. Ele acreditava
que Bolsonaro havia republicado a notícia por pensar que seria “ligada ao PT
[Partido dos Trabalhadores]”.
O
episódio ocorria em meio às investigações da Polícia Federal que apuravam
delitos como organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição
financeira e lavagem de capitais relacionados a Vorcaro. Na terceira fase da
Compliance Zero, a operação realizou novas buscas e apreensões, além de prisões
de envolvidos no caso do ex-banqueiro.
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O que significa 'beócio'?
Com
origem na Grécia Antiga, “beócio” remonta aos habitantes da antiga Beócia,
região ao norte da Ática, que engloba Atenas ao longo do Mar Egeu.
Na
cultura ateniense, os “beócios” eram conhecidos como um povo rústico, pouco
sofisticado e pouco intelectual — características usadas como contraponto
àquelas pelas quais Atenas ficou conhecida, como cidade do conhecimento, da
filosofia e da tradição artística.
O
adjetivo consolidou o sentido pejorativo que já tinha na Grécia Antiga,
relacionado a pessoas ignorantes ou obtusas, de “baixa capacidade intelectual”,
embora não seja uma gíria muito comum.
A
Beócia, situada entre a Eubeia e Corinto, tinha cultura agrária e militar. De
lá vieram nomes conhecidos da cultura grega, como o poeta Píndaro e Plutarco,
historiador e filósofo platônico de Delfos, originário da Beócia.
Apesar
disso, a região passou a ser retratada como lar de brutos e ignorantes na
literatura ateniense.
Na obra
do dramaturgo Aristófanes, conhecido pela tradição da Comédia Antiga grega, os
beócios são apresentados de forma caricatural, como rústicos e pouco refinados
culturalmente, além de materialistas e intelectualmente limitados, ainda que a
descrição tenha caráter humorístico. Em sua peça Os Acarnenses (425 a.C.), eles
são representados como vendedores simples de produtos agrícolas.
• Vorcaro cita 'batidas de [André]
Esteves' em mensagem a Moraes, mas Globo blinda dono do BTG; entenda
No
vazamento seletivo que revelou a troca de mensagens entre o ministro Alexandre
de Moraes e Daniel Vorcaro em 17 de novembro, dia da primeira prisão do
banqueiro pela Polícia Federal (PF), aparece uma misteriosa referência a André
Esteves, que foi ignorada por Malu Gaspar na coluna que revelou os prints da
conversa nesta sexta-feira (6).
Em 24
de dezembro de 2025 – em meio aos ataques da mídia que miravam, além de Moraes,
Dias Toffoli e Ailton de Aquino, diretor de fiscalização do Banco Central – o
editor-chefe da Fórum, Renato Rovai, revelou que a fonte de Malu Gaspar seria
justamente André Esteves, o todo poderoso dono do BTG Pactual, que travava uma
guerra contra Vorcaro na Faria Lima, que foi levada à Brasília.
“André
Esteves passa a ver então os dedos de Xandão na sua disputa contra o Master. E
começa a operar na surdina a disseminação dos tais boatos da Faria Lima contra
o ministro. O Master sofre a intervenção do Banco Central e em tese tudo
estaria resolvido. Mas não. André Esteves começa a achar que Alexandre de
Moraes iria se vingar dele. É aí que entra a divulgação do contrato do banco de
Vorcaro no blog de O Globo”, conta Rovai em seu blog às vésperas do Natal.
Amigo
íntimo e ex-sócio de Paulo Guedes, avalista da candidatura de Jair Bolsonaro
(PL) junto ao sistema financeiro em 2018, Esteves havia recebido dias antes, em
17 de dezembro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), alçado pelo pai como
pré-candidato ao Planalto, em sua mansão em São Paulo.
Segundo
o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, Flávio teve uma “longa conversa”
com Esteves, um dos principais articuladores políticos da Faria Lima, no mesmo
dia em que encontrou cerca de 40 agentes do sistema financeiro na capital
paulista. O filho de Bolsonaro também busca novos encontros com banqueiros para
viabilizar sua pré-candidatura junto aos endinheirados, que haviam embarcado no
plano da chamada terceira via, colocando Tarcísio Gomes de Freitas
(Republicanos) como o anti-Lula em 2026.
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'Batidas de Esteves'
Nos
prints das mensagens divulgadas nesta sexta-feira, após Moraes negar as
conversas com Vorcaro no dia da prisão do banqueiro, Malu Gaspar ignora a
citação a André Esteves, sem colocar o controlador do BTG no contexto.
Às
20h48, pouco mais de uma hora antes de ser preso no aeroporto de Guarulhos,
onde tentava embarcar para Malta com destino a Dubai, Vorcaro conta a Moraes
que fez o anúncio do aporte de R$ 3 bilhões da Fictor Holding Financeira no
Master.
“Foi.
Seria melhor na sexta junto com os gringos, mas foi o que deu pra fazer dentro
da situação. Acho que pode inibir”, diz Vorcaro.
Em
seguida, o dono do Master sinaliza a disputa frontal com Esteves, que é
ignorado pela jornalista da Globo.
“Amanhã
começam as batidas do Esteves [André Esteves, dono do BTG Pactual)”, diz
Vorcaro, que foi preso em seguida.
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Mídia blinda André Esteves
Quem
acompanha o caso pela mídia liberal vê Vorcaro como uma espécie de Dom Quixote
de La Mancha, da obra clássica de Miguel Cervantes, combatendo gigantes moinhos
de vento, que tentam pintar com as faces de Moraes e Dias Toffoli.
No
entanto, a face blindada pelos jornalões foi levada, desde maio deste ano,
pelos ventos do noticiário da mídia liberal, que antes disso conhecia o
verdadeiro inimigo de Daniel Vorcaro na guerra travada na Faria Lima – e
estendida aos bastidores da politicalha conduzida por lobistas de alto calibre
político do Centrão, da direita e da ultradireita.
Em 7 de
abril, a Folha esmiuçou em reportagem que a “compra do Master abre guerra de
banqueiros e causa divisão política em Brasília“.
“Aliados
de Daniel Vorcaro e de André Esteves disseminam nos bastidores da capital
versões distintas sobre a operação”, diz o texto sobre a face oculta da guerra
propositalmente esquecida nos dias atuais.
No
texto, a Folha coloca de um lado “o bilionário de Belo Horizonte” que “ganhou
fama e expandiu suas conexões empresariais e políticas por meio de um estilo de
vida considerado extravagante, com festas luxuosas, viagens exclusivas e
financiamento de eventos, dos quais personagens influentes do país se tornaram
frequentadores”.
De
outro, “André Esteves, 56, chairman e sócio sênior do BTG Pactual, que se
consolidou como um dos principais banqueiros do país desde o início da década
de 1990 por um estilo arrojado de fazer negócios e discreto no trato pessoal”,
mostrando claramente que lado o clã Frias, donos do PagBank na Faria Lima, se
colocavam.
A
reportagem ainda traz um organograma, feito a partir de “relatos de
empresários, políticos, lobistas e autoridades”, que coloca Vorcaro no centro
de uma rede de figuras do Centrão e do bolsonarismo: Ciro Nogueira (PP-PI),
Flávia “ex-Arruda” Péres, Celina Leão (PP-DF), Ibaneis Rocha (MDB-DF), Antônio
Rueda (União), Fabio Faria (PP), Hugo Motta (Republicanos) e até mesmo
Alexandre de Moraes, citando que o “escritório de advocacia da esposa e dos
filhos do ministro do STF foi contratado pelo banco” – a mesma informação
divulgada recentemente por Malu Gaspar em tom sensacionalista.
Segundo
a Folha, Esteves teria a seu lado o ex-AGU de Jair Bolsonaro, Bruno Bianco,
contratado pelo banqueiro em 2023 para fazer a ponte com outro ex-ministro,
Fabio Faria, que “presta serviços de relações institucionais para o BTG” –
entenda-se lobby.
O
ministro Gilmar Mendes é citado como “um dos principais interlocutores do
banqueiro do BTG em Brasília, e os dois trocam avaliações informais sobre o
país com frequência há anos”.
O
jornal ainda cita que “Esteves hoje tem boa relação com Fernando Haddad,
ministro da Fazenda, mas está distante do presidente Lula”, que, segundo o
jornal, “incomodou-se com críticas públicas feitas pelo banqueiro ao governo
mesmo após ter sido recebido três vezes no ano passado, o que fez com que a
relação esfriasse”.
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Joio do trigo
N’O
Globo – e no seu braço de mercado, o jornal Valor – a guerra entre Vorcaro e
Esteves era amplamente conhecida e noticiada até maio de 2025. No entanto, a
disputa era tratada como uma negociação entre banqueiros para salvar “passivos
do banco que ficarem de fora da compra feita pelo BRB“.
“A
carteira do Master está sendo analisada por grandes bancos, incluindo o BTG,
que tem interesse em papéis menos ilíquidos e de precificação mais difícil,
como precatórios e direitos creditórios. Se de fato o banco de André Esteves
ficar com essa parte do Master, os recursos do FGC seriam usados pelo BTG para
‘administrar e gerir’ esses passivos. Isso evitaria contaminação do balanço do
BTG. O banco de André Esteves já utilizou recursos do FGC quando comprou o
banco Pan, da Caixa”, diz texto publicado no dia 17 de abril.
A
reportagem tratava da negociata entre banqueiros para salvar a parte “saudável”
do banco, que entregaria ao estatal BRB apenas a parte podre – que também foi
adquirida pela RioPrevidência, de Cláudio Castro (PL-RJ), e do Amapá
Previdência (Amprev), presidido por Jocildo Silva Lemos, que afirma ter
assumido o comando do fundo por “convite” de Davi Alcolumbre (União-AP).
O Globo
diz ainda que o Fundo Garantidor de Crédito, abastecido pelos bancos com
dinheiros de correntistas e investidores para salvar instituições falidas –
como está sendo no caso do agora liquidado Master, com estimados R$ 41 bilhões
-, poderia “liberar até R$ 20 bilhões para a operação com o Master, mas talvez
seja criado algum desconto para pagamento dos CDBs, que oferecem 140% do CDI”.
Após
negar, em 2 de abril, um um acordo para adquirir parte dos ativos do Master, o
banco de André Esteves anunciou em 27 de maio R$ 1,5 bilhão em ativos ao BTG
Pactual e se comprometeu a destinar esses recursos para sua instituição.
“O
banco, que obteve no início do mês um empréstimo de cerca de R$ 4 bilhões do
Fundo Garantidor de Créditos (FGC), ganha assim algum fôlego enquanto busca uma
solução definitiva para sua crise de liquidez”, diz reportagem do Valor
Econômico, da Globo, relatando com polidez a manobra em andamento para tentar
empurrar a parte podre do Master para o BRB, enquanto Esteves comprava, com
dinheiro do FCG, a parte saudável do banco.
“Segundo
o BTG, serão adquiridas as participações de Vorcaro na Light (15,17%) e na
Méliuz (8,12%), além de outros ativos. O banco cita ‘aquisição de imóveis,
créditos, direitos creditórios, outras ações listadas em percentuais inferiores
a 5% e participações societárias privadas detidas, direta ou indiretamente’,
por Vorcaro”, segue a reportagem, sobre a compra por Esteves de ações de
empresas privatizadas.
Misteriosamente,
após o BTG adquirir a parte boa do Master, o nome de André Esteves na guerra da
Faria Lima sumiu dos jornais da mídia liberal.
Esteves
só seria citado novamente em 18 de novembro por Lauro Jardim, no mesmo O Globo.
Na nota, divulgada um dia depois da prisão do banqueiro e da liquidação do
Master pelo BC, o colunista da Globo afirma que “pessoas próximas a Daniel
Vorcaro passaram as últimas horas atirando em dois personagens poderosos: o
ministro Fernando Haddad e o banqueiro André Esteves, dono do BTG Pactual”, na
mesma metodologia e, provavelmente, com as mesmas “fontes sigilosas” de Malu
Gaspar.
“Creditam
aos dois o revés de Vorcaro, preso ontem à noite no aeroporto de Guarulhos,
quando tentava embarcar num jato particular para o exterior. Vorcaro, a
propósito, contratou o advogado Walfrido Warde para defendê-lo. Bruno Bianco,
ex-AGU de Jair Bolsonaro, também integra o time de defesa do banqueiro”, diz o
texto n’O Globo.
• Vorcaro tinha 'fila de pagamento' de
autoridades, indica PF
A
Polícia Federal identificou mensagens que indicariam a existência de uma “fila
de pagamentos” a autoridades supostamente organizada pelo banqueiro Daniel
Vorcaro, proprietário do Banco Master. Os diálogos foram encontrados em
aparelhos apreendidos durante as investigações e envolveriam trocas de
mensagens com seu operador financeiro e cunhado, Fabiano Zettel, segundo
Daniela Lima, do UOL.
Investigadores
tiveram acesso a conversas nas quais Zettel encaminhava a Vorcaro listas de
débitos e cobrava orientações sobre quem deveria receber primeiro. O material
sugere que o banqueiro indicava quais pagamentos deveriam ter prioridade e
quais poderiam aguardar.
De
acordo com pessoas próximas à investigação, o conteúdo das mensagens mostra que
o critério de prioridade estaria relacionado ao grau de proximidade entre
Vorcaro e as autoridades que receberiam os recursos. Em alguns diálogos, o
banqueiro teria indicado que determinados destinatários poderiam esperar mais
tempo para receber.
Os
investigadores também afirmam que aparecem nas conversas nomes de
parlamentares, principalmente do Senado, mencionados nas trocas de mensagens
entre Vorcaro e Zettel.
Um dos
trechos analisados pela Polícia Federal envolve um pedido relacionado a um
servidor do Banco Central. Na mensagem, Fabiano Zettel escreveu: “Belline
cobrando. Paga?”. Daniel Vorcaro respondeu: “Claro”.
Belline
era servidor de carreira do Banco Central e ocupava uma posição de chefia na
área responsável pela fiscalização bancária. De acordo com a Polícia Federal,
ele estaria incluído na folha de pagamentos atribuída ao dono do banco Master.
As
conversas recuperadas pelos investigadores apresentam semelhanças com diálogos
já citados em decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
Na decisão divulgada na véspera, o magistrado determinou uma nova prisão de
Vorcaro e de seu cunhado Fabiano Zettel, além de dois servidores públicos.
Segundo
a decisão judicial, esses servidores estariam envolvidos em ações de
intimidação contra adversários do grupo investigado. Entre os alvos das ameaças
estariam jornalistas.
Desde
janeiro a Polícia Federal e o Ministério Público Federal avaliam que já existem
indícios suficientes para a abertura de uma investigação separada. Essa nova
frente apuraria suspeitas de corrupção e possível compra de apoio parlamentar
no Congresso Nacional, especialmente no Senado.
Fonte:
JB

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