Descoberta
de proteína revela por que câncer de pâncrea espalha rápido
Um
estudo conduzido por pesquisadores brasileiros revelou um dos mecanismos que
tornam o câncer de pâncreas um dos mais agressivos e difíceis de tratar. A
pesquisa, publicada neste mês de fevereiro na revista científica Molecular and
Cellular Endocrinology, mostrou que uma proteína chamada periostina age
diretamente no ambiente do tumor, facilitando a invasão das células cancerosas
pelos nervos e tecidos vizinhos e aumentando o risco de metástase, a
disseminação da doença para outras partes do corpo.
A
periostina é uma proteína de “reconstrução” do corpo, normalmente produzida
quando há lesões ou inflamações. Ela ajuda a reorganizar os tecidos e a
cicatrizar feridas. Porém, no caso do câncer, essa mesma função acaba sendo
usada pelo tumor para abrir caminho e se espalhar com mais facilidade.
O
trabalho foi realizado no Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID),
um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão apoiados pela FAPESP, e teve
como primeiro autor o pesquisador Carlos Alberto de Carvalho Fraga, com
coordenação científica do professor Helder Takashi Imoto Nakaya, da
Universidade de São Paulo e do Einstein Israelite Hospital. A equipe analisou
dezenas de amostras de tumores para entender como a periostina influencia o
comportamento das células ao redor do tumor.
Células
conhecidas como células pancreáticas estreladas, que ajudam a estruturar o
tecido do pâncreas, foram observadas produzindo altos níveis de periostina
quando estavam próximas às regiões onde o tumor invadia nervos. Esse processo é
chamado de invasão perineural e é um dos fatores que conferem ao câncer de
pâncreas sua agressividade típica, já que ao seguir os nervos o tumor encontra
caminhos que facilitam seu crescimento e sua propagação precoce.
Os
pesquisadores explicam que, ao liberar essa proteína, o tumor consegue
reorganizar a matriz extracelular, ou seja, a rede de proteínas e fibras que
envolve as células tornando o tecido mais favorável à infiltração das células
cancerosas. Essa reorganização ajuda o câncer a “escapar” das defesas do corpo
e abre rotas alternativas para que ele se espalhe com mais rapidez.
Essa
descoberta é especialmente relevante porque pode apontar caminhos para novas
estratégias de tratamento. A periostina pode se tornar um "marcador
biológico" que indica quais tumores têm maior capacidade de invasão, e
também um alvo terapêutico para medicamentos que bloqueiem sua ação, reduzindo
a habilidade do câncer de avançar. Pesquisas em outros tipos de câncer já
exploram formas de interferir na periostina para dificultar a progressão
tumoral.
O
câncer de pâncreas é um dos tipos com maior letalidade entre os tumores
sólidos. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer, embora não seja dos
mais comuns, ele está entre os que mais causam mortes, com estimativa de cerca
de 13 mil óbitos por ano no Brasil. Isso acontece porque a doença muitas vezes
só é diagnosticada em estágios avançados, quando já se espalhou pelo corpo e se
torna mais difícil de tratar.
Jorge
Sabbaga, diretor do Departamento de Oncologia Gastrointestinal do Instituto do
Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), ressaltou em nota para a USP que
compreender como o tumor interage com os tecidos ao redor é fundamental para
melhorar o prognóstico dos pacientes. A identificação da periostina como um
elemento ativo na invasão do câncer de pâncreas representa um avanço importante
nessa direção e pode orientar a criação de terapias mais personalizadas,
eficazes e menos agressivas, com foco na biologia específica do tumor.
Essa
linha de pesquisa ainda está em suas fases iniciais, e estudos clínicos serão
necessários para testar novos tratamentos baseados nesses achados, mas a
descoberta da periostina como fator-chave do avanço tumoral oferece uma nova
perspectiva para lidar com a doença.
• USP descobre rede genética capaz de
prever a progressão da hepatite para câncer de fígado
Pesquisadores
da Universidade de São Paulo (USP) descobriram um conjunto de genes capaz de
indicar como a hepatite viral pode evoluir no organismo, desde o grau de
inflamação no fígado até o risco de desenvolvimento de câncer hepático. A rede
genética foi chamada de “neuroimunoma” e conecta o sistema nervoso ao sistema
imunológico, tornando-se um biomarcador para acompanhar a gravidade da doença.
O
estudo contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
(FAPESP) e foi publicado na revista científica Journal of Medical Virology. A
pesquisa analisou mais de 1.800 amostras de bancos de dados públicos de países
como Estados Unidos, Itália, China, Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e
Taiwan.
Foram
examinados tecidos do fígado e células do sangue de pacientes infectados por
diferentes vírus da hepatite. Segundo o coordenador da pesquisa, Otávio
Cabral-Marques, professor da Faculdade de Medicina da USP, a primeira
descoberta chamou atenção.
“Nossa
primeira descoberta foi que as células de defesa no sangue de pacientes com
hepatite começam a expressar genes que são tipicamente associados ao sistema
nervoso. Isso mostra que, em vez de operarem como dois sistemas independentes,
eles parecem estar muito integrados”, explicou.
A
análise utilizou técnicas de aprendizado de máquina para avaliar como esses
genes se comportam ao longo da progressão da doença. Os cientistas observaram
que, à medida que a hepatite avança para o câncer de fígado, o chamado
carcinoma hepatocelular, ocorre uma desregulação desses genes, com alguns
passando a ser mais ou menos expressos.
“Esse
conjunto de genes pode vir a se tornar um biomarcador da progressão da doença.
Há mudanças claras entre os estágios iniciais e avançados do tumor, o que
permite monitorar o agravamento da hepatite viral”, afirmou o cientista de
dados Adriel Leal Nóbile, bolsista da FAPESP.
Entre
os genes identificados, destacam-se NRG1 e DBH. O DBH está ligado à produção de
noradrenalina, neurotransmissor associado à resposta ao estresse. De acordo com
os pesquisadores, isso pode indicar uma relação entre estresse e crescimento do
tumor.
“O DBH
é um gene associado à produção de noradrenalina. Isso indica que a via ligada
ao estresse é potencializada no ambiente do tumor avançado, mostrando uma
possível relação bidirecional entre o estresse e o crescimento do tumor”, disse
Nóbile.
A
pesquisa também encontrou associação entre genes do neuroimunoma e transtornos
mentais, como depressão e ansiedade. Embora o estudo não tenha medido
diretamente a gravidade dessas condições em pacientes com hepatite, os autores
apontam que há evidências de ligação entre alterações neuroimunes e
manifestações psiquiátricas.
“Sabe o
conceito de psicossomática segundo o qual o corpo seria influenciado pela
mente? Com o neuroimunoma mostramos que não é só uma interferência do sistema
nervoso no sistema imune. É uma rede muito conectada”, afirmou Cabral-Marques.
Além da
hepatite, os pesquisadores acreditam que essa conexão entre sistema nervoso e
imunológico pode estar presente em outras doenças crônicas.
Segundo
a Organização Mundial de Saúde (OMS), a hepatite viral é a segunda principal
causa infecciosa de morte no mundo, responsável por cerca de 1,3 milhão de
óbitos por ano. A doença é considerada sistêmica, pois pode afetar diferentes
órgãos além do fígado.
“Futuramente,
o neuroimunoma pode servir como um marcador tanto para prever a gravidade da
doença hepática quanto para indicar possíveis complicações psiquiátricas, tão
frequentes em pessoas com hepatite. Assim, seria possível comprovar de forma
mais assertiva a relação desses sintomas com uma base biológica, e não apenas
emocional”, afirmou Nóbile.
Fonte:
Correio Braziliense

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