segunda-feira, 9 de março de 2026

Descoberta de proteína revela por que câncer de pâncrea espalha rápido

Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros revelou um dos mecanismos que tornam o câncer de pâncreas um dos mais agressivos e difíceis de tratar. A pesquisa, publicada neste mês de fevereiro na revista científica Molecular and Cellular Endocrinology, mostrou que uma proteína chamada periostina age diretamente no ambiente do tumor, facilitando a invasão das células cancerosas pelos nervos e tecidos vizinhos e aumentando o risco de metástase, a disseminação da doença para outras partes do corpo.

A periostina é uma proteína de “reconstrução” do corpo, normalmente produzida quando há lesões ou inflamações. Ela ajuda a reorganizar os tecidos e a cicatrizar feridas. Porém, no caso do câncer, essa mesma função acaba sendo usada pelo tumor para abrir caminho e se espalhar com mais facilidade.

O trabalho foi realizado no Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão apoiados pela FAPESP, e teve como primeiro autor o pesquisador Carlos Alberto de Carvalho Fraga, com coordenação científica do professor Helder Takashi Imoto Nakaya, da Universidade de São Paulo e do Einstein Israelite Hospital. A equipe analisou dezenas de amostras de tumores para entender como a periostina influencia o comportamento das células ao redor do tumor.

Células conhecidas como células pancreáticas estreladas, que ajudam a estruturar o tecido do pâncreas, foram observadas produzindo altos níveis de periostina quando estavam próximas às regiões onde o tumor invadia nervos. Esse processo é chamado de invasão perineural e é um dos fatores que conferem ao câncer de pâncreas sua agressividade típica, já que ao seguir os nervos o tumor encontra caminhos que facilitam seu crescimento e sua propagação precoce.

Os pesquisadores explicam que, ao liberar essa proteína, o tumor consegue reorganizar a matriz extracelular, ou seja, a rede de proteínas e fibras que envolve as células tornando o tecido mais favorável à infiltração das células cancerosas. Essa reorganização ajuda o câncer a “escapar” das defesas do corpo e abre rotas alternativas para que ele se espalhe com mais rapidez.

Essa descoberta é especialmente relevante porque pode apontar caminhos para novas estratégias de tratamento. A periostina pode se tornar um "marcador biológico" que indica quais tumores têm maior capacidade de invasão, e também um alvo terapêutico para medicamentos que bloqueiem sua ação, reduzindo a habilidade do câncer de avançar. Pesquisas em outros tipos de câncer já exploram formas de interferir na periostina para dificultar a progressão tumoral.

O câncer de pâncreas é um dos tipos com maior letalidade entre os tumores sólidos. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer, embora não seja dos mais comuns, ele está entre os que mais causam mortes, com estimativa de cerca de 13 mil óbitos por ano no Brasil. Isso acontece porque a doença muitas vezes só é diagnosticada em estágios avançados, quando já se espalhou pelo corpo e se torna mais difícil de tratar.

Jorge Sabbaga, diretor do Departamento de Oncologia Gastrointestinal do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), ressaltou em nota para a USP que compreender como o tumor interage com os tecidos ao redor é fundamental para melhorar o prognóstico dos pacientes. A identificação da periostina como um elemento ativo na invasão do câncer de pâncreas representa um avanço importante nessa direção e pode orientar a criação de terapias mais personalizadas, eficazes e menos agressivas, com foco na biologia específica do tumor.

Essa linha de pesquisa ainda está em suas fases iniciais, e estudos clínicos serão necessários para testar novos tratamentos baseados nesses achados, mas a descoberta da periostina como fator-chave do avanço tumoral oferece uma nova perspectiva para lidar com a doença.

•        USP descobre rede genética capaz de prever a progressão da hepatite para câncer de fígado

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) descobriram um conjunto de genes capaz de indicar como a hepatite viral pode evoluir no organismo, desde o grau de inflamação no fígado até o risco de desenvolvimento de câncer hepático. A rede genética foi chamada de “neuroimunoma” e conecta o sistema nervoso ao sistema imunológico, tornando-se um biomarcador para acompanhar a gravidade da doença.

O estudo contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e foi publicado na revista científica Journal of Medical Virology. A pesquisa analisou mais de 1.800 amostras de bancos de dados públicos de países como Estados Unidos, Itália, China, Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e Taiwan.

Foram examinados tecidos do fígado e células do sangue de pacientes infectados por diferentes vírus da hepatite. Segundo o coordenador da pesquisa, Otávio Cabral-Marques, professor da Faculdade de Medicina da USP, a primeira descoberta chamou atenção.

“Nossa primeira descoberta foi que as células de defesa no sangue de pacientes com hepatite começam a expressar genes que são tipicamente associados ao sistema nervoso. Isso mostra que, em vez de operarem como dois sistemas independentes, eles parecem estar muito integrados”, explicou.

A análise utilizou técnicas de aprendizado de máquina para avaliar como esses genes se comportam ao longo da progressão da doença. Os cientistas observaram que, à medida que a hepatite avança para o câncer de fígado, o chamado carcinoma hepatocelular, ocorre uma desregulação desses genes, com alguns passando a ser mais ou menos expressos.

“Esse conjunto de genes pode vir a se tornar um biomarcador da progressão da doença. Há mudanças claras entre os estágios iniciais e avançados do tumor, o que permite monitorar o agravamento da hepatite viral”, afirmou o cientista de dados Adriel Leal Nóbile, bolsista da FAPESP.

Entre os genes identificados, destacam-se NRG1 e DBH. O DBH está ligado à produção de noradrenalina, neurotransmissor associado à resposta ao estresse. De acordo com os pesquisadores, isso pode indicar uma relação entre estresse e crescimento do tumor.

“O DBH é um gene associado à produção de noradrenalina. Isso indica que a via ligada ao estresse é potencializada no ambiente do tumor avançado, mostrando uma possível relação bidirecional entre o estresse e o crescimento do tumor”, disse Nóbile.

A pesquisa também encontrou associação entre genes do neuroimunoma e transtornos mentais, como depressão e ansiedade. Embora o estudo não tenha medido diretamente a gravidade dessas condições em pacientes com hepatite, os autores apontam que há evidências de ligação entre alterações neuroimunes e manifestações psiquiátricas.

“Sabe o conceito de psicossomática segundo o qual o corpo seria influenciado pela mente? Com o neuroimunoma mostramos que não é só uma interferência do sistema nervoso no sistema imune. É uma rede muito conectada”, afirmou Cabral-Marques.

Além da hepatite, os pesquisadores acreditam que essa conexão entre sistema nervoso e imunológico pode estar presente em outras doenças crônicas.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a hepatite viral é a segunda principal causa infecciosa de morte no mundo, responsável por cerca de 1,3 milhão de óbitos por ano. A doença é considerada sistêmica, pois pode afetar diferentes órgãos além do fígado.

“Futuramente, o neuroimunoma pode servir como um marcador tanto para prever a gravidade da doença hepática quanto para indicar possíveis complicações psiquiátricas, tão frequentes em pessoas com hepatite. Assim, seria possível comprovar de forma mais assertiva a relação desses sintomas com uma base biológica, e não apenas emocional”, afirmou Nóbile.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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