segunda-feira, 9 de março de 2026

A misoginia do campo psicanalítico no divã: uma convocação

As mensagens de whatsapp correm sem parar. Nos corredores das universidades e das instituições de psicanálise, mulheres conversam entre si. Entre áudios, textos e cafés, elas passam a se encontrar. “Tenho medo de falar disso em público, quem sairá perdendo sou eu, vocês sabem como o nosso campo rapidamente vai me chamar de a- histérica-que-seduziu-e-provocou, sozinha eu não dou conta.” Como resposta, em geral, outra colega diz: “Mas isso que aconteceu é muito sério, gente”. “Vão dizer que eu não estou me implicando e que sujeito em psicanálise nunca pode ser vítima, eu preciso da ajuda de vocês.” Como testemunhamos há anos, virão reações mais comuns e menos elaboradas: “moralistas”, “confusas”, “querem projeção”. Os relatos se avolumam mais e mais: assédios, tentativas de estupro, pactos masculinos, retiradas bruscas da camisinha. Eu estou louca? Ameaça a alunas, será que estou louca? Analistas que transam com pacientes que depois vão parar no divã de analistas mulheres (vão afirmar que existe consentimento sob transferência?), analista de clínica pública tendo caso com paciente, violência física contra a namorada após palestrar sobre a “importância do real e da dimensão subversiva do desejo”. Homens sendo chamados para falar da “moralização” da ideia de consentimento em eventos quando sabidamente estiveram em diversas situações em que foram abusivos. Homens que, teoricamente, leram e compreenderam o que Freud desenha em Totem e Tabu. Alguns desses colegas escrevem e dão aulas sobre gênero com suas vozes e atitudes fálicas: cínicos, perversos ou cindidos? Buscam dialogar com tais temas como forma de encobrirem o que fazem nos bastidores? Apresentam-se publicamente como “aliados da luta feminista” para poder perverter a cena nas relações de intimidade? Estudiosos das teorias de gênero e decoloniais. Todos extremamente letrados, inteligentes, mas incapazes de colocar sua divisão para jogo. O que, afinal, entendemos por castração? Há algo próprio do nosso campo e seus dispositivos de transmissão e prática que atualiza, blinda, justifica e ratifica violências machistas?

O campo da psicanálise, entre clínicas privadas ou coletivos públicos, universidades, grupos de estudo e demais dispositivos do histórico tripé de formação, tem constantemente produzido entre gerações uma política misógina difícil de ser tratada. À medida que as mulheres (psicanalistas, pesquisadoras ou pacientes) que têm passado por situações de violência, seja no campo privado ou no campo público, cometidas por esses homens, não conseguem espaços institucionais para se dizerem, produz-se um efeito persecutório e amedrontador que impedem as denúncias de ganharem endereçamento e possibilidade de interdição. O diagnóstico político das mulheres, quando feito, muitas vezes é degradado no debate público como sendo “fofoca das histéricas”, esse procedimento de invalidar nossas vozes é historicamente e sistematicamente repetido. O medo de processos por difamação, de perder trabalho, de ser excluída (em um meio no qual as relações pessoais e profissionais definem se se terá trabalho ou não: convites para aulas, indicações de pacientes etc.) não é exclusivo da psicanálise. No entanto, nos interessa pensar e lutar contra as especificidades do pacto da misoginia nesta prática clínica na qual acreditamos e à qual dedicamos nossas vidas.

No campo lacaniano, e não só, muitos textos sobre fim de análise são produzidos. Há um esforço contínuo em sustentar os rituais de passe e a importância da travessia do fantasma, mas ainda falta a pergunta: as análises têm produzido um tratamento da misoginia (ódio à mulher, ódio à negatividade, ódio à diferença) como epistemologicamente o campo promete? Se sim, por que tantos psicanalistas homens reconhecidos e legitimados por seus pares (re)produzem violência contra as mulheres? O que faremos com isso?

O feminismo interroga a psicanálise, com força histórica contundente e transnacional há pelo menos cinco décadas e trouxe à baila a palavra de ordem “o pessoal é político”, nos mostrando que aquilo que acontece no âmbito privado tem atravessamentos políticos, sociais e está dentro de estruturas de poder, interrogando homens que na vida pública, em reuniões e assembleias, palestram sobre desigualdades, injustiças e revoluções, mas em casa não lavam uma louça. A psicanálise também não pode se satisfazer com homens que arrotam a palavra “desejo” em palestras, mas desrespeitam o não de uma mulher, como se desejo e castração fossem palavras vazias que nada tivessem relação com experiências cotidianas. Assim, a teoria que deveria permitir a leitura da violência torna-se instrumento de sua negação.

O caráter tosco das histórias de analistas famosos que vão para a cama com pacientes e logo em seguida voltam para suas palestras ensinando que o analista se coloca na posição de objeto, mas não deve acreditar ser o “objeto que o paciente acredita que ele é”, torna o campo um circuito no qual teoria e práxis parecem campos cindidos, e que a política da castração vale pra todos, menos um, menos dois, menos três. Sabe-se lá quantos. O que faremos com isso? Em tempo: foram os próprios psicanalistas, a partir de questões teórico-clínicas, que definiram o interdito em relação a relacionar-se com pacientes. Se por nós foi colocada, por nós pode ser retirada. Bancamos a retirada desse interdito? Que horizonte ético estamos montando?

A pobreza teórica e política, a falta de imaginação e o amor-pelo-falo dominam a doença chamada patriarcado. O cânone, como todos os cânones modernos, sempre incapaz de dar conta das questões de nosso tempo, é invocado de maneira caricata para que o mundo permaneça no delírio no qual mulheres, povos subalternizados, feminizados e racializados, não “existam” e permaneçam desumanizados.

O “esquerdomachismo” e suas análises já ultrapassadas, com seus pensadores brancos e problemáticos, oferece um verniz pseudo-revolucionário em que tudo que não obedece a essa leitura (machista) do que é revolução e o lugar do antagonismo acabe caindo no balaio do “liberal”. Antes fosse apenas falta de rigor teórico… Esse método dá amparo a práticas regulares e deliberadas de violência, em que alunas jovens são seduzidas a orgias e “pegações” por professores, analistas “visitam” pacientes em casa, marcam “jantares” com elas e admitem, para seus parceiros-homens, “indicar transar com o analista como parte do tratamento”. Mulheres analistas a quem essas histórias chegam (sim, elas chegam) se sentem paralisadas diante do choque, tentam manter o sigilo analítico, proteger vítimas de assédio e abuso. Instituições patriarcais e racistas (escolas, polícia, universidades, justiça) falham em amparar quem sofre da violência misógina.

Nas redes sociais, a fragilidade dos machos faz com que se antecipem e corram para dizer “eu não”. Não se trata de elaborar uma lista de culpados – e estas existem, circulam e crescem –, mas olhar para uma questão estrutural. Nossa luta enquanto feministas é pela desnaturalização dessas violências em relações transferenciais e pela interrupção dos modos de proteção dos perpetradores misóginos por seus pares e instituições. Inclusive, é importante lembrar que a emancipação feminista, assim como as lutas antirracistas, são assunto de todo espectro político, esquerda, direita, isentões. Todos são possíveis abusadores segundo relatos de centenas de mulheres em todo país. Do jovem analista de unhas pintadas, blusas floridas, desconstruído, que usa saia ao velho burguês com sotaque de gringo, as histórias são de arrepiar, de enlouquecer.

Desejamos e gozamos de maneiras esquisitas e construímos dispositivos de escuta para que possamos chegar perto disso, de um jeito mais digno e menos assustado com nossas contradições, incoerências e hiâncias (vazios). Contudo, e quando estamos falando de posições que se contradizem e se revisam e quando estamos diante da instrumentalização da psicanálise para fazer o outro de objeto do meu gozo? Como iremos tratar a lógica patriarcal que opera no próprio campo, se ele frequentemente se utiliza das suas próprias teorias e conceitualizações para frear qualquer tratamento? Como tratar uma misoginia que se sofistica a cada geração? Ética e desejo parecem ter sido palavras roubadas, usurpadas e esvaziadas em nossos textos e espaços de discussão. Afinal, quando analistas se autorizam a atravessar limites éticos sob o pretexto da singularidade do desejo, o que se revela não é a subversão da psicanálise, mas sua captura pelo poder.

Os procedimentos por meio dos quais isso se efetiva não são invisíveis, mas estão invisibilizados. Cabe a nós trazer à cena o que disso não é visto e escutado, interrogando os pontos cegos que se produzem quando a teoria se apresenta como universal. Os consensos pelos quais a subordinação das mulheres foram acordados não podem mais ser naturalizados. Revisar teorias, criar novos paradigmas e debater de quem foram os corpos e os interesses dos que criaram a nossa epistemologia se faz urgente. Questionar a teoria é exercer a própria ética psicanalítica: interrogar os discursos, seus usos e os princípios de seu poder. Trata-se, afinal, de uma direção de tratamento.

É tempo do nosso campo entender como a ideologia sexista e misógina compõem um sistema de pensamento que tende a des-historicizar e despolitizar os procedimentos pelos quais essas mesmas ideologias são (re)produzidas. Trata-se de uma lógica que não se reduz ao ódio individual contra as mulheres, mas que opera por meio de discursos que fazem parecer naturais e biológicas diferenças que são, na verdade, históricas e sociais. Essas justificativas se sustentam em alegações frequentemente apresentadas como evidentes, ainda que não possam ser demonstradas. Nós, feministas na psicanálise, estamos em rede. Nós, feministas na psicanálise, aprendemos com nossas antepassadas e companheiras dos movimentos emancipatórios e propomos a ruptura total com o pacto misógino em nosso campo. Uma rede nacional se constroi, como em outros países da América Latina. Todas estão convidadas a interromper o silêncio enlouquecedor e coletivizar nosso conhecimento e ferramentas. Não estamos sozinhas, somos muitas e não nos calaremos mais.

 

Fonte:  Rede de Psicanalistas Feministas, em Le Monde

 

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