A
misoginia do campo psicanalítico no divã: uma convocação
As
mensagens de whatsapp correm sem parar. Nos corredores das universidades e das
instituições de psicanálise, mulheres conversam entre si. Entre áudios, textos
e cafés, elas passam a se encontrar. “Tenho medo de falar disso em público,
quem sairá perdendo sou eu, vocês sabem como o nosso campo rapidamente vai me
chamar de a- histérica-que-seduziu-e-provocou, sozinha eu não dou conta.” Como
resposta, em geral, outra colega diz: “Mas isso que aconteceu é muito sério,
gente”. “Vão dizer que eu não estou me implicando e que sujeito em psicanálise
nunca pode ser vítima, eu preciso da ajuda de vocês.” Como testemunhamos há
anos, virão reações mais comuns e menos elaboradas: “moralistas”, “confusas”,
“querem projeção”. Os relatos se avolumam mais e mais: assédios, tentativas de
estupro, pactos masculinos, retiradas bruscas da camisinha. Eu estou louca?
Ameaça a alunas, será que estou louca? Analistas que transam com pacientes que
depois vão parar no divã de analistas mulheres (vão afirmar que existe
consentimento sob transferência?), analista de clínica pública tendo caso com
paciente, violência física contra a namorada após palestrar sobre a
“importância do real e da dimensão subversiva do desejo”. Homens sendo chamados
para falar da “moralização” da ideia de consentimento em eventos quando
sabidamente estiveram em diversas situações em que foram abusivos. Homens que,
teoricamente, leram e compreenderam o que Freud desenha em Totem e Tabu. Alguns
desses colegas escrevem e dão aulas sobre gênero com suas vozes e atitudes
fálicas: cínicos, perversos ou cindidos? Buscam dialogar com tais temas como
forma de encobrirem o que fazem nos bastidores? Apresentam-se publicamente como
“aliados da luta feminista” para poder perverter a cena nas relações de
intimidade? Estudiosos das teorias de gênero e decoloniais. Todos extremamente
letrados, inteligentes, mas incapazes de colocar sua divisão para jogo. O que,
afinal, entendemos por castração? Há algo próprio do nosso campo e seus
dispositivos de transmissão e prática que atualiza, blinda, justifica e
ratifica violências machistas?
O campo
da psicanálise, entre clínicas privadas ou coletivos públicos, universidades,
grupos de estudo e demais dispositivos do histórico tripé de formação, tem
constantemente produzido entre gerações uma política misógina difícil de ser
tratada. À medida que as mulheres (psicanalistas, pesquisadoras ou pacientes)
que têm passado por situações de violência, seja no campo privado ou no campo
público, cometidas por esses homens, não conseguem espaços institucionais para
se dizerem, produz-se um efeito persecutório e amedrontador que impedem as
denúncias de ganharem endereçamento e possibilidade de interdição. O
diagnóstico político das mulheres, quando feito, muitas vezes é degradado no
debate público como sendo “fofoca das histéricas”, esse procedimento de invalidar
nossas vozes é historicamente e sistematicamente repetido. O medo de processos
por difamação, de perder trabalho, de ser excluída (em um meio no qual as
relações pessoais e profissionais definem se se terá trabalho ou não: convites
para aulas, indicações de pacientes etc.) não é exclusivo da psicanálise. No
entanto, nos interessa pensar e lutar contra as especificidades do pacto da
misoginia nesta prática clínica na qual acreditamos e à qual dedicamos nossas
vidas.
No
campo lacaniano, e não só, muitos textos sobre fim de análise são produzidos.
Há um esforço contínuo em sustentar os rituais de passe e a importância da
travessia do fantasma, mas ainda falta a pergunta: as análises têm produzido um
tratamento da misoginia (ódio à mulher, ódio à negatividade, ódio à diferença)
como epistemologicamente o campo promete? Se sim, por que tantos psicanalistas
homens reconhecidos e legitimados por seus pares (re)produzem violência contra
as mulheres? O que faremos com isso?
O
feminismo interroga a psicanálise, com força histórica contundente e
transnacional há pelo menos cinco décadas e trouxe à baila a palavra de ordem
“o pessoal é político”, nos mostrando que aquilo que acontece no âmbito privado
tem atravessamentos políticos, sociais e está dentro de estruturas de poder,
interrogando homens que na vida pública, em reuniões e assembleias, palestram
sobre desigualdades, injustiças e revoluções, mas em casa não lavam uma louça.
A psicanálise também não pode se satisfazer com homens que arrotam a palavra
“desejo” em palestras, mas desrespeitam o não de uma mulher, como se desejo e
castração fossem palavras vazias que nada tivessem relação com experiências
cotidianas. Assim, a teoria que deveria permitir a leitura da violência torna-se
instrumento de sua negação.
O
caráter tosco das histórias de analistas famosos que vão para a cama com
pacientes e logo em seguida voltam para suas palestras ensinando que o analista
se coloca na posição de objeto, mas não deve acreditar ser o “objeto que o
paciente acredita que ele é”, torna o campo um circuito no qual teoria e práxis
parecem campos cindidos, e que a política da castração vale pra todos, menos
um, menos dois, menos três. Sabe-se lá quantos. O que faremos com isso? Em
tempo: foram os próprios psicanalistas, a partir de questões teórico-clínicas,
que definiram o interdito em relação a relacionar-se com pacientes. Se por nós
foi colocada, por nós pode ser retirada. Bancamos a retirada desse interdito?
Que horizonte ético estamos montando?
A
pobreza teórica e política, a falta de imaginação e o amor-pelo-falo dominam a
doença chamada patriarcado. O cânone, como todos os cânones modernos, sempre
incapaz de dar conta das questões de nosso tempo, é invocado de maneira
caricata para que o mundo permaneça no delírio no qual mulheres, povos
subalternizados, feminizados e racializados, não “existam” e permaneçam
desumanizados.
O
“esquerdomachismo” e suas análises já ultrapassadas, com seus pensadores
brancos e problemáticos, oferece um verniz pseudo-revolucionário em que tudo
que não obedece a essa leitura (machista) do que é revolução e o lugar do
antagonismo acabe caindo no balaio do “liberal”. Antes fosse apenas falta de
rigor teórico… Esse método dá amparo a práticas regulares e deliberadas de
violência, em que alunas jovens são seduzidas a orgias e “pegações” por
professores, analistas “visitam” pacientes em casa, marcam “jantares” com elas
e admitem, para seus parceiros-homens, “indicar transar com o analista como
parte do tratamento”. Mulheres analistas a quem essas histórias chegam (sim,
elas chegam) se sentem paralisadas diante do choque, tentam manter o sigilo
analítico, proteger vítimas de assédio e abuso. Instituições patriarcais e
racistas (escolas, polícia, universidades, justiça) falham em amparar quem
sofre da violência misógina.
Nas
redes sociais, a fragilidade dos machos faz com que se antecipem e corram para
dizer “eu não”. Não se trata de elaborar uma lista de culpados – e estas
existem, circulam e crescem –, mas olhar para uma questão estrutural. Nossa
luta enquanto feministas é pela desnaturalização dessas violências em relações
transferenciais e pela interrupção dos modos de proteção dos perpetradores
misóginos por seus pares e instituições. Inclusive, é importante lembrar que a
emancipação feminista, assim como as lutas antirracistas, são assunto de todo
espectro político, esquerda, direita, isentões. Todos são possíveis abusadores
segundo relatos de centenas de mulheres em todo país. Do jovem analista de
unhas pintadas, blusas floridas, desconstruído, que usa saia ao velho burguês
com sotaque de gringo, as histórias são de arrepiar, de enlouquecer.
Desejamos
e gozamos de maneiras esquisitas e construímos dispositivos de escuta para que
possamos chegar perto disso, de um jeito mais digno e menos assustado com
nossas contradições, incoerências e hiâncias (vazios). Contudo, e quando
estamos falando de posições que se contradizem e se revisam e quando estamos
diante da instrumentalização da psicanálise para fazer o outro de objeto do meu
gozo? Como iremos tratar a lógica patriarcal que opera no próprio campo, se ele
frequentemente se utiliza das suas próprias teorias e conceitualizações para
frear qualquer tratamento? Como tratar uma misoginia que se sofistica a cada
geração? Ética e desejo parecem ter sido palavras roubadas, usurpadas e
esvaziadas em nossos textos e espaços de discussão. Afinal, quando analistas se
autorizam a atravessar limites éticos sob o pretexto da singularidade do
desejo, o que se revela não é a subversão da psicanálise, mas sua captura pelo
poder.
Os
procedimentos por meio dos quais isso se efetiva não são invisíveis, mas estão
invisibilizados. Cabe a nós trazer à cena o que disso não é visto e escutado,
interrogando os pontos cegos que se produzem quando a teoria se apresenta como
universal. Os consensos pelos quais a subordinação das mulheres foram acordados
não podem mais ser naturalizados. Revisar teorias, criar novos paradigmas e
debater de quem foram os corpos e os interesses dos que criaram a nossa
epistemologia se faz urgente. Questionar a teoria é exercer a própria ética
psicanalítica: interrogar os discursos, seus usos e os princípios de seu poder.
Trata-se, afinal, de uma direção de tratamento.
É tempo
do nosso campo entender como a ideologia sexista e misógina compõem um sistema
de pensamento que tende a des-historicizar e despolitizar os procedimentos
pelos quais essas mesmas ideologias são (re)produzidas. Trata-se de uma lógica
que não se reduz ao ódio individual contra as mulheres, mas que opera por meio
de discursos que fazem parecer naturais e biológicas diferenças que são, na
verdade, históricas e sociais. Essas justificativas se sustentam em alegações
frequentemente apresentadas como evidentes, ainda que não possam ser
demonstradas. Nós, feministas na psicanálise, estamos em rede. Nós, feministas
na psicanálise, aprendemos com nossas antepassadas e companheiras dos
movimentos emancipatórios e propomos a ruptura total com o pacto misógino em
nosso campo. Uma rede nacional se constroi, como em outros países da América
Latina. Todas estão convidadas a interromper o silêncio enlouquecedor e
coletivizar nosso conhecimento e ferramentas. Não estamos sozinhas, somos
muitas e não nos calaremos mais.
Fonte: Rede de Psicanalistas Feministas, em Le Monde

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