Os
cachorros da ditadura
Estes
são o título e o subtítulo do livro mais recente de Marcelo Godoy. Esse
repórter tem a marca da boa estirpe da profissão: a obsessão pela informação,
pela pesquisa incansável, a checagem das fontes até o extremo das
possibilidades. Sua primeira pesquisa consumiu dez anos, de 2004 a 2014, e
resultou no premiado livro A Casa da Vovó – uma biografia do DOI-CODI
1969-1991. Ele trabalhou mais dez anos para entregar Cachorros. O autor diz que
aproveitou muita informação obtida na primeira pesquisa. Portanto, foram 20
anos de trabalho para produzir o novo livro, abrangente, caudaloso, às vezes
repetitivo, mas nunca monótono, de 550 páginas.
Recomenda-se
atenção para essa leitura. Primeiro, porque apesar de na capa o destaque ser
dado para o militante que se tornou espião do seu partido, o PCB (Partido
Comunista Brasileiro), na verdade ele é um dos personagens numa trama muito
mais ampla e complexa. Uma trama que envolve a trajetória histórica desse
partido desde sua origem no tenentismo dos anos 1930 até sua crise e
descaracterização na década de 1990.
Mas não
só isso. É ao mesmo tempo a narrativa de como os serviços secretos do Exército
(CIE), da Aeronáutica (CISA) e da Marinha (CENIMAR) se aplicaram em uma sanha
fanática para acompanhar, estudar, reprimir, torturar e matar os quadros e
dirigentes daquele partido. Essa atenção privilegiada, segundo o autor, se
devia ao fato de que os militares consideravam o PCB como a maior ameaça ao
regime em vigor, seja por sua doutrina, tática e estratégia, seja por sua
íntima ligação (e dependência política e material) com a União Soviética e o
Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Os militares consideravam o PCB
como instrumento de um poder estrangeiro infiltrado na sociedade brasileira.
Para combatê-lo, utilizavam todos os métodos, “até os legais”, diziam.
Nos
vinte anos de pesquisa, o autor realizou 34 entrevistas com militares e
policiais de órgãos de operações e informações; 9 entrevistas com outros
militares e policiais; 70 entrevistas com militantes do PCB e outros. Foram
realizadas pesquisas e consultas em 33 jornais, 48 sites e 13 filmes e
documentários. A pesquisa se estendeu a seis grandes arquivos, inclusive de
Portugal, Itália e Estados Unidos. E foram extraídas informações de cerca de
300 livros.
O texto
é ágil e passa de um tema a outro rapidamente como, por exemplo, do
desaparecimento de Rubens Paiva para o sequestro de Charles Elbrick, embaixador
dos Estados Unidos. E daí para a morte de Marighela e de Lamarca. O relato
refere a uma infinidade de nomes que aparecem e desaparecem num instante.
Voltam a aparecer mais adiante, ora por extenso, ora pelo prenome ou então só o
sobrenome, o que obriga o leitor a uma atenção especial para não perder o fio
da meada. Por exemplo, o agente do CISA, Antonio Pinto, num momento é Pirilo,
em outro, Azambuja. O seu cachorro, o militante que se tornaria quadro
dirigente do PCB, Theodoro de Mello Severino, será o agente Vinicius a serviço
do CISA.
Tanto
os militantes como os agentes da repressão usavam nomes de guerra. Por exemplo,
os torturadores do ex-deputado federal Marco Antonio Coelho eram os doutores
Edgar e Homero, na verdade os capitães do Exército André Pereira Leite Filho e
Otoniel Eugênio Aranha Filho, que mais adiante vão ser citados apenas como
doutor Edgar ou doutor Homero. O cruel capitão Ênio Pimentel da Silveira, chefe
do DOI de São Paulo, era o doutor Ney e assim aparecerá várias vezes. Para se
guiar nesse labirinto, o leitor pode fazer consultas no enorme índice
onomástico. Verá, por exemplo, que o dirigente Diógenes Arruda Câmara (citado
27 vezes) ora é referido por extenso, ora por Arruda Câmara, ora ainda, por
Arruda.
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O grande cenário
O
leitor impaciente vai demorar para chegar até a história do militante Mello
infiltrado nos mais relevantes postos da direção do PCB. Porque é da história
do PCB que o texto trata, especialmente a partir dos anos 1940, as idas e
vindas da linha política, a curta legalidade, a volta à clandestinidade, a
ilusão de estar próximo ao poder e o golpe militar de 1964. Trata da trajetória
do partido na clandestinidade sob a ditadura militar e também de suas relações
com o Partido Comunista da União Soviética, os cursos de formação de quadros em
Moscou, a ajuda financeira, o chamado “ouro de Moscou”. É também ali que se
refugiam os dirigentes para escapar do extermínio.
Sem
esquecer os solavancos históricos após a morte de Stalin e as denúncias de
Kruschov que abalaram o movimento comunista internacional, pondo em questão a
tática e a estratégia para a busca do socialismo.
É
notável que o autor não se refira ao grande racha que se deu no partido após
este alterar seu programa, mudar de nome (de Partido Comunista do Brasil para
Partido Comunista Brasileiro) e adotar o caminho pacífico para a conquista do
poder. Não há uma palavra sobre a decisão de dirigentes históricos liderados
por João Amazonas, Maurício Grabois e Pedro Pomar de conservarem o nome e a
doutrina do Partido, mantendo a continuidade da organização revolucionária, o
PCdoB.
Uma
importante qualidade do livro é que também conta a história dos serviços
secretos militares, permanentemente ocupados em se informar, tentar antecipar e
reprimir cada passo do partido. Do seu empenho em estudar a teoria
revolucionária. Para eles, a chave estava na teoria do italiano Gramsci e, como
contrapartida, tentavam disseminar, por todos os meios, ideias em oposição.
Surpreendidos pelo magistral trabalho produzido por um grupo de intelectuais em
torno do arcebispo Evaristo Arns, sobre os crimes da ditadura, Brasil Nunca
Mais, replicaram produzindo sua própria versão das ações da ditadura no livro
Orvil e nas peças de propaganda que chamaram de Terrorismo Nunca Mais.
Entretanto, fica evidente que a infiltração nos vários níveis e principalmente
na mais alta direção do PCB foi a sua principal arma de combate.
Ao cabo
de sua exaustiva pesquisa, o autor retrata com riqueza de detalhes, que chega
às vezes aos dias e às horas dos acontecimentos, cada passo do PCB e dos seus
algozes. Para chegar a esse resultado, foi ao encontro dos protagonistas, fez
sucessivas entrevistas, falou com eles presencialmente ou pela internet. Leu
tudo que lhe caiu nas mãos. Mergulhou nas narrativas dos dois lados.
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Os personagens
Talvez
o personagem mais destacado dessa história hedionda seja o agente cujo nome de
guerra era Pirilo. Fazia parte do CISA, o organismo de repressão da
Aeronáutica, militar reformado que se especializou obsessivamente no PCB. Seu
nome verdadeiro era Antonio Pinto, mas isso o autor desse livro só conseguirá
descobrir muito tempo mais tarde e após pesquisas exaustivas.
Pirilo
desenvolveu uma expertise parase relacionar com os militantes do partido que,
havendo sido presos, se viam diante de uma escolha fatal: ou morriam ou se
tornavam agentes infiltrados. No entanto, nas entrevistas com o autor, ele
sempre se defendeu dizendo hipocritamente que nunca torturou nem matou ninguém,
que isso era trabalho de outros, e que ele fazia o papel do policial
“bonzinho”.
Pirilo
era “dono” de vários cachorros, como eram chamados os que preferiram trair do
que morrer. Seu principal cachorro foi o alto dirigente do PCB Theodoro de
Mello Severino, preso em 1974 e que, por muitos anos, o manteve informado de
cada passo da direção do partido. O que resultou, entre outros prejuízos, na
morte ou desaparecimento de praticamente a maioria do Comitê Central e de
outros quadros partidários.
Mello,
que para o CISA era o agente Vinicius, passou de guarda-costas de Luis Carlos
Prestes a fazer o chamado trabalho de fronteira, isto é, responsável pela
produção de documentos e pela entrada e saída de militantes do país. Por causa
de suas delações, o jornal Voz Operária deixou de ser impresso no Brasil após o
sequestro e morte dos militantes envolvidos.
Era
como a raposa tomando conta do galinheiro. Só para dar um exemplo, enquanto era
responsável pelo trabalho de fronteira entregou Davi Capistrano, dirigente do
partido que voltava de Moscou e foi preso na chegada, morto e esquartejado na
Casa da Morte de Petrópolis.
Em
Moscou, Mello esteve sempre próximo e era de absoluta confiança de Prestes. E
também foi interlocutor de altos dirigentes do PCUS, o que permitia ao CISA
dividir informações sobre o partido soviético com a CIA dos Estados Unidos. Foi
promovido ao secretariado do comitê central, o mais alto posto na hierarquia do
partido.
Apelidado
de Pacato por seus modos calmos, era de uma habilidade e frieza
extraordinárias. Na cara de pau, conseguiu que Pirilo publicasse um artigo na
Tribuna de Debates do partido, assinando como Azambuja, sob o título de “O PCB
se burocratizou”. Mello conseguiu até infiltrar Pirilo nas assembleias do 9º.
Congresso do Partido. Foi tão competente que todas as suspeitas ou denúncias de
que era um infiltrado foram sempre repelidas vigorosamente por Prestes e outros
dirigentes. Não acreditaram nem quando uma reportagem de Expedito Filho na
revista Veja de 20/05/1992, intitulada “Na cabeça do PCB”, publicou entrevista
do sargento Marival Chaves, que participara dos grupos de torturadores. Nessa
entrevista, Marival contava que Mello era agente policial infiltrado.
O
partido só aceitou que era um traidor anos depois do final da ditadura militar.
Foi então excluído e teve cancelado seu salário, o “socorro vermelho”. Porém,
continuou sempre amigo e confidente de seu “dono”, o Pirilo, ou Azambuja, e
jamais soube que seu nome verdadeiro era Antonio Pinto.
Morreu
com 105 anos, sozinho, e ninguém foi ao seu enterro. No enterro de Antonio
Pinto, comparsas do CISA compareceram, mas nenhum registrou o nome na lista de
presentes. Nessa ocasião, a URSS havia deixado de existir e o que havia restado
do PCB passara a se chamar Partido Popular Socialista, PPS, fundado em 1992.
Fonte:
Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

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