Conheça
a história da primeira mulher indicada ao cargo de General do Exército
Brasileiro
Pela
primeira vez em sua história, o Exército Brasileiro indicou uma mulher ao posto
de general de Brigada. “Tenho consciência da responsabilidade, um
reconhecimento pelo trabalho que foi realizado ao longo de todos esses anos
desde o meu ingresso nas Forças Armadas”, comenta a Coronel-médica Cláudia Lima
Gusmão Cacho, 57 anos, em entrevista exclusiva ao Correio. Ao longo de três
décadas de carreira, a militar construiu uma trajetória de destaque na área de
saúde da Força e aguarda a nomeação pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
que deve ocorrer em 31 de março.
Formada
em medicina pela Universidade de Pernambuco (UPE), Cláudia começou o curso
ainda aos 16 anos. Especializou-se em pediatria e iniciou a vida militar em
1996, período em que a presença feminina nas Forças Armadas ainda engatinhava.
À época, entrou como oficial temporária no 42º Batalhão de Infantaria
Motorizada, em Goiânia. Dois anos depois, em 1998, ingressou na Escola de Saúde
do Exército (EsSex) como oficial de carreira, após aprovação no Curso de
Formação de Oficiais Médicos, dando início à sua trajetória vitoriosa na
corporação.
A
coronel comentou o episódio histórico e falou sobre o início da carreira no
Exército e na medicina. “Isso traz uma visibilidade maior para nós mulheres do
Exército. Então, está sendo uma boa experiência, bem interessante.”
O
pioneiristmo não é apenas do generalato. Com a nova função, ela assume como a
primeira diretora do Hospital Militar de Área de Brasília (Hmab), unidade
onde ocupava o cargo de subdiretora.
“Assim como em Natal (RN), e em Campo Grande (MS), acabei sendo a primeira
diretora dessas duas organizações”, responde com naturalidade e esperança de
quem tem visto mais mulheres em cargos de chefia nos últimos anos.
“As
Forças Armadas vêm se adaptando e aumentando essa força feminina, e a tendência
é aumentar”, pontua. “As mulheres vêm entrando e desenvolvendo as atividades
com competência, temos mulheres paraquedistas, guerreiras de céu, pilotos de
helicóptero, mulheres em cargos de direção, tudo isso é gradual e está
acontecendo naturalmente”.
<><>
Trajetória
Casada
com o general de Divisão Jorge Augusto Ribeiro Cacho, a coronel é mãe de duas
filhas: Maria Gabriela, 32, e Ana Beatriz, 20, que seguiu os passos da mãe e
está no 2º semestre de medicina. O apreço pela carreira militar surgiu de forma
espontânea, após abraçar a oportunidade de servir como oficial temporário, em
1996. Ela também menciona sua personalidade disciplinada e organizada como
características que influenciaram sua escolha. “Quando entrei no Exército, uma
das especialidades que precisavam era a pediatria. Eu também já era casada com
um militar e me considerava uma pessoa disciplinada. Então, foi fácil me
adaptar”, conta.
O gosto
pela medicina começou ainda na infância, enquanto acompanhava os pais no
comércio da família. “Meus pais eram donos de uma farmácia e eu gostava de ler
as receitas das medicações. Foi isso que me levou à medicina”, explica.
Ingressou
na Faculdade de Medicina ainda adolescente, aos 16 anos, mas com a certeza de
que essa seria a sua vocação. A pediatria foi a tão sonhada residência e a
porta de entrada para o Exército que, na época, apresentava demanda por
pediatras na instituição. A necessidade desses cargos ocorre porque os
hospitais militares atendem não só aos servidores, mas também aos dependentes,
incluindo crianças.
Além de
plantões e consultórios, ela exerceu atividades administrativas de destaque no
campo da saúde. Em quase 30 anos de carreira, dirigiu o Hospital de Guarnição
de Natal e o Hospital Militar de Área de Campo Grande, além de ocupar o posto
de subdiretora do Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro. Chefiou a
Divisão de Perícias Médicas da Inspetoria de Saúde do Comando Militar do
Nordeste e atuou como adjunta da Inspetoria de Saúde do Comando da 9ª Região
Militar.
Na sua
jornada, ela não deixou de lado a formação intelectual. Concluiu o Curso de
Aperfeiçoamento na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), em 2007, e o
Curso de Comando e Estado-Maior de Serviços na Escola de Comando e Estado-Maior
do Exército (ECEME), em 2013. Possui pós-graduação em Administração Hospitalar
e MBA em Gestão Estratégica de Saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
Tamanho
esforço e dedicação renderam-lhe condecorações relevantes, como a Medalha
Militar de Prata, a Medalha do Pacificador, a Medalha Marechal Hermes de Bronze
com uma Coroa, a Medalha Marechal Osório — O Legendário, a Ordem do Mérito
Militar no grau de oficial e o Distintivo de Comando Dourado.
<><>
Papel essencial
Na
manga da farda da coronel, bordado com o nome “selva” chama a atenção e traz
marcas de uma experiência que moldou a atuação da médica. O distintivo denota a
formação e atuação de Cacho junto a comunidades na Amazônia brasileira.
A
atuação das equipes de saúde das Forças Armadas é estratégica para regiões
amazônicas de difícil acesso, entre elas municípios que dependem integralmente
dos serviços de saúde fornecidos pelos militares. “Essa é uma ação muito
importante que o Exército faz, de levar esse apoio de saúde a essas populações
mais distantes que têm menos acesso às grandes cidades”, conta. “Então, vai
médico, dentista, farmacêutico”.
Sem
acesso por vias terrestres, essas ações utilizam-se de embarcações para montar
hospitais de campanha e, até, de aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB).
Para a coronel-médica, a experiência é um dos maiores exemplos da importância
do papel do Exército para o país.
“Quando
você está fazendo uma ação daquela, você está servindo ao teu país, àquela
população necessitada, e isso é muito gratificante para a gente. Sempre me
considerei feliz por poder participar e ajudar de alguma forma”, comenta.
<><>
Múltiplas esferas
Médica,
militar, gestora, mãe, esposa e filha. Em quase três décadas, o maior desafio
da coronel é centrado em encontrar o equilíbrio entre tantas esferas que
constituem uma só mulher. A necessidade de adaptação é requisito obrigatório na
vida de um militar. Com mudanças frequentes de cidades e postos, reinventar-se
é quase rotina, mas nada que a profissional não consiga tirar de letra.
“No meu
caso, eu e o meu esposo somos militares, mas nem todos os casos são assim. Tem
parte de nossos filhos também, que deixam os amigos, deixam escolas, mudam de
escolas”, relata. “É difícil, tem que ter paciência, mas conseguimos”.
Nada
disso seria possível, destaca a militar, sem o apoio da família. “É uma família
muito unida, apesar delas [as filhas] não estarem mais morando conosco, mas a
gente sempre conversou bastante e elas entendem, ficaram superfelizes com a
indicação para general”, relata. O dia oficial da nomeação promete ser de
festa, com a presença das filhas e da mãe, além de familiares que se programam
para estar em Brasília na data e aqueles que, mesmo de longe, estão sempre
perto.
<><>
Como ocorre a promoção
A
disputa pelo generalato ocorre de acordo com a turma de ingresso, no caso da
nova general, os grupos que entraram em 1997 e 1998. Ao longo da trajetória na
carreira, os oficiais passam por avaliações frequentes, sobretudo aqueles que
ocupam algum cargo de comando. Além dela, outros nove coronéis médicos,
incluindo homens e mulheres, estiveram elegíveis à votação.
Após
esse filtro, uma votação é realizada pelo Alto Comando. São três reuniões
durante o ano para decidir os indicados ao generalato de acordo com o número de
postos disponíveis. Além do desempenho individual, cada patente exige um tempo
específico de trabalho para ter direito à promoção. No caso de Cláudia, ela
pertence à turma que entrou em 1998, o que contabiliza 28 anos de serviço.
• Mulheres dão a volta por cima e
tornam-se empreendedoras das próprias vidas
"O
que mudou minha vida foram a assistência psicológica e os cursos de
capacitação. Sem apoio e qualificação profissional, eu não iria me
reerguer". O desabafo é de Luciene Alves dos Santos, 42 anos, sobrevivente
de um ciclo de violência doméstica que, hoje, está à frente do Instituto
Mulheres Criativas, projeto na Estrutural responsável por qualificar mais de 3
mil mulheres, oferecendo, gratuitamente, suporte jurídico, acolhimento
emocional e, acima de tudo, uma profissão.
Em
2025, o Distrito Federal registrou mais de 2 mil casos de violência contra a
mulher, incluindo agressões físicas, psicológicas, morais, sexuais e
patrimoniais, conforme dados da Secretaria da Mulher (SMDF). Para mostrar que é
possível se fortalecer e romper esse ciclo, o Correio conta histórias de
pessoas, como Luciene, que venceram e inspiram outras mulheres a superar essa
mazela.
Diferentemente
de um discurso ainda muito propagado, a permanência de muitas mulheres em
relacionamentos abusivos não é uma escolha, mas uma armadilha sustentada por
dois pilares: as dependências emocional e financeira. Nesse contexto, o
instituto liderado por Luciene atua, justamente, no desmonte dessas algemas por
meio dos projetos Cozinha Criativa e Costura Criativa.
"Trabalhamos
para que elas saiam daqui direto para a linha de produção. Dia desses, uma
aluna com oito filhos, que saiu da violência, conquistou uma vaga em uma
padaria apresentando nossa carta de recomendação e provando sua técnica",
orgulha-se a fundadora e gestora do projeto.
<><> Resgate da identidade
A
jornada de reconstrução, porém, exige mais do que técnica; exige o resgate da
identidade. A psicóloga jurídica Paola Luduvice explica que o acompanhamento
especializado é vital. "Serve para reconstruir sua condição de sujeito:
nomear a violência, desmontar a culpa, fortalecer a autoestima e ampliar o
campo de decisões", diz a especialista.
No
instituto, esse fortalecimento ocorre em rodas de conversa e parcerias com
universidades, nas quais o trauma é tratado como um obstáculo a ser transposto.
Luciene observa a mudança no semblante, visto que muitas chegam sem conseguir
falar, apenas chorando, por acreditarem que a culpa da agressão é delas. Ao
final do processo, a transformação é visível. Elas se tornam empreendedoras de
suas próprias vidas, seja em empresas parceiras ou vendendo o que produzem em
suas casas para garantir o sustento dos filhos.
Apesar
dos avanços da Lei Maria da Penha, Luciene aponta gargalos que o Estado ainda
não resolveu, como a escassez de creches. Ela defende que o apoio psicológico
deveria ser uma prioridade imediata e obrigatória por lei, tanto para a mãe
quanto para os filhos, que, muitas vezes, são usados como moeda de troca
emocional pelo abusador.
Segundo
a SMDF, desde 29 de outubro de 2025, a capital federal elenca como política
pública prioritária a luta contra a violência contra a mulher. Segundo a pasta,
houve um aumento nos investimentos feitos pelo GDF, de R$ 10,3 milhões em 2020
para R$ 86,9 milhões em 2024.
Entre
as medidas listadas para auxiliar as vítimas de um relacionamento abusivo,
estão: acolhimento, atendimentos psicológicos, programas sociais e programas de
qualificação profissional. Atualmente, fazem parte dos espaços de acolhimento a
Casa Abrigo, Casa da Mulher Brasileira e os Espaços Acolher que, juntos,
receberam mais de 6 mil mulheres em 2025.
Questionada
sobre a disponibilidade de vagas em creches, a secretária de Educação, Hélvia
Paranaguá, declarou que a rede pública de ensino do DF dispõe, atualmente, de
um excedente de mais de 3 mil vagas não preenchidas. Ao Correio, a gestora
explicou que o governo tem trabalhado para zerar a fila de espera, mas enfrenta
uma resistência cultural de parte das famílias.
"Essa
situação ocorre porque muitos pais optam por cuidados domésticos com as
crianças, especialmente nos primeiros anos de vida. A oferta de vagas deve
existir, e o Estado a garante, tanto em creches próprias quanto através do
programa Cartão Creche", pontuou a secretária.
<><>
Encorajamento
"Acorda,
mulher, nunca esqueça o quanto você é completa e especial." Assim Dória
Freitas, 56, começa seu programa de rádio Mulher Ativa, todas as manhãs de
sábado. A moradora de Samambaia conta que a ideia nasceu após ter vivenciado
anos de violência doméstica, em dois relacionamentos diferentes. Com duas horas
de duração, o programa conta com três quadros fixos, que abordam os temas de
saúde mental, educação e direito, todos acompanhados de profissionais
responsáveis por orientar as ouvintes em caminhos que possam fortalecê-las.
"O
programa virou referência, e muitas mulheres foram salvas graças às informações
que passamos por aqui", comenta a comunicadora. No caso de Dória, o fôlego
para romper o silêncio partiu da literatura e do autoconhecimento. "Meu
algoz não aceitava que eu buscasse ajuda psicológica, alegando que eu tinha ele
e não precisava de mais ninguém. Busquei ler escondida e assistir a vídeos
sobre tipos de relacionamentos e condutas. Logo tratei de buscar meios para
cair fora", recorda.
Durante
30 anos, a apresentadora da rádio foi casada com um homem alcoólatra e
agressivo. A relação a invalidou ao ponto de ser descrita por conhecidos como
"viúva de marido vivo". "Eu tinha que trabalhar, cuidar dos
nossos três filhos e ainda cuidar dele", contou. Quando, finalmente,
separou-se, Dória carregava uma bagagem de sofrimento que a tornou, em suas
próprias palavras, uma "vítima fácil" para um perfil abusivo.
Em
2014, quando trabalhava como merendeira, ela conheceu um policial do batalhão
escolar. O que começou com uma paixão avassaladora logo se revelou um pesadelo
de manipulação. "Eu pensava que tinha encontrado o homem certo. Iniciamos
o relacionamento com ele me tratando muito bem, fazendo juras de amor e me
prometendo o mundo", conta.
O
encanto não demorou para acabar. Os abusos físicos e psicológicos ficavam cada
vez piores, chegando ao ponto de o agressor fazer um contrato de submissão.
"Era uma lista com 12 itens que eu tinha de decorar. Caso eu esquecesse
algum, sofria algum castigo que poderia ser físico, mental ou até sexual",
relata.
Embora
admita que a cura total é um processo demorado e, por vezes, doloroso, sua
postura hoje é de vigilância e encorajamento. O recado de quem sobreviveu para
contar a história e ajudar outras a fazerem o mesmo é direto e urgente:
"Largue tudo. Nada é mais importante do que a sua vida. Se você continuar,
eles chegam ao ponto de matar". O programa de Dória é transmitido todos os
sábados, das 8h às 10h, pela Ativa FM e pelo Instagram da comunicadora:
@doriafreitascomunicadora.
Para o
advogado criminalista Lourival Tenório, é importante que mulheres em
relacionamentos abusivos procurem apoio de pessoas de confiança, assim que se
derem conta de que sofreram qualquer tipo de violência", aconselha. Ele
também comenta que, em contextos mais graves, ligar para a polícia é o ideal.
<><>
Qualificação
Segundo
a psicóloga Paola Luduvice, mulheres em um ciclo de violência enfrentam
diversos empecilhos antes de conseguirem a liberdade. Ela comenta que a
pergunta que ecoa na sociedade, muitas vezes carregada de julgamento, costuma
ser: "Por que ela não vai embora?".
Para a
psicóloga, o questionamento precisa ser invertido. "É preciso mudar a
pergunta para 'em que condições essa permanência é produzida?' e trabalhar em
cima disso", enfatiza a profissional, lembrando que a violência doméstica
não se sustenta apenas por agressões físicas, mas também por medo, dependência
econômica e amorosa, isolamento social e desqualificação.
Luciene
suportou os abusos pelo medo de ser colocada para fora de casa com seu filho
recém-nascido. "Ele foi o meu primeiro namorado, meu marido e pai dos meus
filhos. É uma pressão absurda que faz com que as mulheres não consigam romper o
laço. Eu me sentia culpada por dar um basta naquela situação", conta.
Paola
comenta que esse tipo de relato é comum, ainda mais quando o casal possui
filhos. "Esse medo é real e reflete desigualdades estruturais. Por isso,
quando possível, a independência financeira tem impacto direto na saúde mental
dessas mulheres", alerta
Foi
depois de uma tentativa de estupro que Luciene denunciou o agressor e pediu uma
medida protetiva. Por meio de incentivos, começou a frequentar sessões de
psicologia e a se qualificar em cursos técnicos do Sebrae, Senac e Senai, até
se especializar em gestão de negócios. "No Instituto Mulheres Criativas,
elas nos procuram por meio do Craes e dos pontos de política pública da cidade,
mas geralmente, vêm por indicação de uma amiga, porque viu na tevê ou no
Instagram", orienta.
Para
Lúcia Erineta, 56, a rede de apoio das amigas e o caminho da qualificação
também mudaram sua vida. Em 2008, ela uniu forças para denunciar o então
companheiro por tentativa de feminicídio após o incentivo de uma amiga, que lhe
ofereceu, inclusive, um lar. "Eu estava muito machucada. Ela cuidou de mim
e conseguiu um advogado para que eu pudesse concluir o divórcio", diz. A
ajuda recebida a motivou a retomar os estudos, fazer cursos profissionalizantes
e ingressar na graduação de enfermagem.
Lúcia
se tornou ativa na defesa dos direitos das mulheres e passou a acolher aquelas
que viveram situações semelhantes à sua. Juntas, formaram o Instituto Mulheres
Feminicídio Não (IMFN-AME).
Na
prática, o instituto opera em frentes que unem proteção imediata e capacitação
a longo prazo, realizando desde o acompanhamento de vítimas a delegacias e
fóruns até a promoção de cursos e palestras de conscientização em escolas e
espaços públicos. "Promovemos a reeducação social de homens e mulheres
para romper definitivamente o ciclo da violência e garantir o direito à
vida", destaca Lúcia.
Fonte:
Correio Braziliense

Nenhum comentário:
Postar um comentário