segunda-feira, 9 de março de 2026

Conheça a história da primeira mulher indicada ao cargo de General do Exército Brasileiro

Pela primeira vez em sua história, o Exército Brasileiro indicou uma mulher ao posto de general de Brigada. “Tenho consciência da responsabilidade, um reconhecimento pelo trabalho que foi realizado ao longo de todos esses anos desde o meu ingresso nas Forças Armadas”, comenta a Coronel-médica Cláudia Lima Gusmão Cacho, 57 anos, em entrevista exclusiva ao Correio. Ao longo de três décadas de carreira, a militar construiu uma trajetória de destaque na área de saúde da Força e aguarda a nomeação pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que deve ocorrer em 31 de março.

Formada em medicina pela Universidade de Pernambuco (UPE), Cláudia começou o curso ainda aos 16 anos. Especializou-se em pediatria e iniciou a vida militar em 1996, período em que a presença feminina nas Forças Armadas ainda engatinhava. À época, entrou como oficial temporária no 42º Batalhão de Infantaria Motorizada, em Goiânia. Dois anos depois, em 1998, ingressou na Escola de Saúde do Exército (EsSex) como oficial de carreira, após aprovação no Curso de Formação de Oficiais Médicos, dando início à sua trajetória vitoriosa na corporação.

A coronel comentou o episódio histórico e falou sobre o início da carreira no Exército e na medicina. “Isso traz uma visibilidade maior para nós mulheres do Exército. Então, está sendo uma boa experiência, bem interessante.”

O pioneiristmo não é apenas do generalato. Com a nova função, ela assume como a primeira diretora do Hospital Militar de Área de Brasília (Hmab), unidade onde  ocupava o cargo de subdiretora. “Assim como em Natal (RN), e em Campo Grande (MS), acabei sendo a primeira diretora dessas duas organizações”, responde com naturalidade e esperança de quem tem visto mais mulheres em cargos de chefia nos últimos anos.

“As Forças Armadas vêm se adaptando e aumentando essa força feminina, e a tendência é aumentar”, pontua. “As mulheres vêm entrando e desenvolvendo as atividades com competência, temos mulheres paraquedistas, guerreiras de céu, pilotos de helicóptero, mulheres em cargos de direção, tudo isso é gradual e está acontecendo naturalmente”. 

<><> Trajetória

Casada com o general de Divisão Jorge Augusto Ribeiro Cacho, a coronel é mãe de duas filhas: Maria Gabriela, 32, e Ana Beatriz, 20, que seguiu os passos da mãe e está no 2º semestre de medicina. O apreço pela carreira militar surgiu de forma espontânea, após abraçar a oportunidade de servir como oficial temporário, em 1996. Ela também menciona sua personalidade disciplinada e organizada como características que influenciaram sua escolha. “Quando entrei no Exército, uma das especialidades que precisavam era a pediatria. Eu também já era casada com um militar e me considerava uma pessoa disciplinada. Então, foi fácil me adaptar”, conta.

O gosto pela medicina começou ainda na infância, enquanto acompanhava os pais no comércio da família. “Meus pais eram donos de uma farmácia e eu gostava de ler as receitas das medicações. Foi isso que me levou à medicina”, explica.

Ingressou na Faculdade de Medicina ainda adolescente, aos 16 anos, mas com a certeza de que essa seria a sua vocação. A pediatria foi a tão sonhada residência e a porta de entrada para o Exército que, na época, apresentava demanda por pediatras na instituição. A necessidade desses cargos ocorre porque os hospitais militares atendem não só aos servidores, mas também aos dependentes, incluindo crianças. 

Além de plantões e consultórios, ela exerceu atividades administrativas de destaque no campo da saúde. Em quase 30 anos de carreira, dirigiu o Hospital de Guarnição de Natal e o Hospital Militar de Área de Campo Grande, além de ocupar o posto de subdiretora do Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro. Chefiou a Divisão de Perícias Médicas da Inspetoria de Saúde do Comando Militar do Nordeste e atuou como adjunta da Inspetoria de Saúde do Comando da 9ª Região Militar.

Na sua jornada, ela não deixou de lado a formação intelectual. Concluiu o Curso de Aperfeiçoamento na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), em 2007, e o Curso de Comando e Estado-Maior de Serviços na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), em 2013. Possui pós-graduação em Administração Hospitalar e MBA em Gestão Estratégica de Saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Tamanho esforço e dedicação renderam-lhe condecorações relevantes, como a Medalha Militar de Prata, a Medalha do Pacificador, a Medalha Marechal Hermes de Bronze com uma Coroa, a Medalha Marechal Osório — O Legendário, a Ordem do Mérito Militar no grau de oficial e o Distintivo de Comando Dourado.

<><> Papel essencial

Na manga da farda da coronel, bordado com o nome “selva” chama a atenção e traz marcas de uma experiência que moldou a atuação da médica. O distintivo denota a formação e atuação de Cacho junto a comunidades na Amazônia brasileira.

A atuação das equipes de saúde das Forças Armadas é estratégica para regiões amazônicas de difícil acesso, entre elas municípios que dependem integralmente dos serviços de saúde fornecidos pelos militares. “Essa é uma ação muito importante que o Exército faz, de levar esse apoio de saúde a essas populações mais distantes que têm menos acesso às grandes cidades”, conta. “Então, vai médico, dentista, farmacêutico”. 

Sem acesso por vias terrestres, essas ações utilizam-se de embarcações para montar hospitais de campanha e, até, de aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB). Para a coronel-médica, a experiência é um dos maiores exemplos da importância do papel do Exército para o país. 

“Quando você está fazendo uma ação daquela, você está servindo ao teu país, àquela população necessitada, e isso é muito gratificante para a gente. Sempre me considerei feliz por poder participar e ajudar de alguma forma”, comenta. 

<><> Múltiplas esferas 

Médica, militar, gestora, mãe, esposa e filha. Em quase três décadas, o maior desafio da coronel é centrado em encontrar o equilíbrio entre tantas esferas que constituem uma só mulher. A necessidade de adaptação é requisito obrigatório na vida de um militar. Com mudanças frequentes de cidades e postos, reinventar-se é quase rotina, mas nada que a profissional não consiga tirar de letra. 

“No meu caso, eu e o meu esposo somos militares, mas nem todos os casos são assim. Tem parte de nossos filhos também, que deixam os amigos, deixam escolas, mudam de escolas”, relata. “É difícil, tem que ter paciência, mas conseguimos”. 

Nada disso seria possível, destaca a militar, sem o apoio da família. “É uma família muito unida, apesar delas [as filhas] não estarem mais morando conosco, mas a gente sempre conversou bastante e elas entendem, ficaram superfelizes com a indicação para general”, relata. O dia oficial da nomeação promete ser de festa, com a presença das filhas e da mãe, além de familiares que se programam para estar em Brasília na data e aqueles que, mesmo de longe, estão sempre perto. 

<><> Como ocorre a promoção 

A disputa pelo generalato ocorre de acordo com a turma de ingresso, no caso da nova general, os grupos que entraram em 1997 e 1998. Ao longo da trajetória na carreira, os oficiais passam por avaliações frequentes, sobretudo aqueles que ocupam algum cargo de comando. Além dela, outros nove coronéis médicos, incluindo homens e mulheres, estiveram elegíveis à votação.

Após esse filtro, uma votação é realizada pelo Alto Comando. São três reuniões durante o ano para decidir os indicados ao generalato de acordo com o número de postos disponíveis. Além do desempenho individual, cada patente exige um tempo específico de trabalho para ter direito à promoção. No caso de Cláudia, ela pertence à turma que entrou em 1998, o que contabiliza 28 anos de serviço.

•        Mulheres dão a volta por cima e tornam-se empreendedoras das próprias vidas

"O que mudou minha vida foram a assistência psicológica e os cursos de capacitação. Sem apoio e qualificação profissional, eu não iria me reerguer". O desabafo é de Luciene Alves dos Santos, 42 anos, sobrevivente de um ciclo de violência doméstica que, hoje, está à frente do Instituto Mulheres Criativas, projeto na Estrutural responsável por qualificar mais de 3 mil mulheres, oferecendo, gratuitamente, suporte jurídico, acolhimento emocional e, acima de tudo, uma profissão.

Em 2025, o Distrito Federal registrou mais de 2 mil casos de violência contra a mulher, incluindo agressões físicas, psicológicas, morais, sexuais e patrimoniais, conforme dados da Secretaria da Mulher (SMDF). Para mostrar que é possível se fortalecer e romper esse ciclo, o Correio conta histórias de pessoas, como Luciene, que venceram e inspiram outras mulheres a superar essa mazela.

Diferentemente de um discurso ainda muito propagado, a permanência de muitas mulheres em relacionamentos abusivos não é uma escolha, mas uma armadilha sustentada por dois pilares: as dependências emocional e financeira. Nesse contexto, o instituto liderado por Luciene atua, justamente, no desmonte dessas algemas por meio dos projetos Cozinha Criativa e Costura Criativa. 

"Trabalhamos para que elas saiam daqui direto para a linha de produção. Dia desses, uma aluna com oito filhos, que saiu da violência, conquistou uma vaga em uma padaria apresentando nossa carta de recomendação e provando sua técnica", orgulha-se a fundadora e gestora do projeto.

<><>  Resgate da identidade

A jornada de reconstrução, porém, exige mais do que técnica; exige o resgate da identidade. A psicóloga jurídica Paola Luduvice explica que o acompanhamento especializado é vital. "Serve para reconstruir sua condição de sujeito: nomear a violência, desmontar a culpa, fortalecer a autoestima e ampliar o campo de decisões", diz a especialista. 

No instituto, esse fortalecimento ocorre em rodas de conversa e parcerias com universidades, nas quais o trauma é tratado como um obstáculo a ser transposto. Luciene observa a mudança no semblante, visto que muitas chegam sem conseguir falar, apenas chorando, por acreditarem que a culpa da agressão é delas. Ao final do processo, a transformação é visível. Elas se tornam empreendedoras de suas próprias vidas, seja em empresas parceiras ou vendendo o que produzem em suas casas para garantir o sustento dos filhos.

Apesar dos avanços da Lei Maria da Penha, Luciene aponta gargalos que o Estado ainda não resolveu, como a escassez de creches. Ela defende que o apoio psicológico deveria ser uma prioridade imediata e obrigatória por lei, tanto para a mãe quanto para os filhos, que, muitas vezes, são usados como moeda de troca emocional pelo abusador.

Segundo a SMDF, desde 29 de outubro de 2025, a capital federal elenca como política pública prioritária a luta contra a violência contra a mulher. Segundo a pasta, houve um aumento nos investimentos feitos pelo GDF, de R$ 10,3 milhões em 2020 para R$ 86,9 milhões em 2024.

Entre as medidas listadas para auxiliar as vítimas de um relacionamento abusivo, estão: acolhimento, atendimentos psicológicos, programas sociais e programas de qualificação profissional. Atualmente, fazem parte dos espaços de acolhimento a Casa Abrigo, Casa da Mulher Brasileira e os Espaços Acolher que, juntos, receberam mais de 6 mil mulheres em 2025.

Questionada sobre a disponibilidade de vagas em creches, a secretária de Educação, Hélvia Paranaguá, declarou que a rede pública de ensino do DF dispõe, atualmente, de um excedente de mais de 3 mil vagas não preenchidas. Ao Correio, a gestora explicou que o governo tem trabalhado para zerar a fila de espera, mas enfrenta uma resistência cultural de parte das famílias.

"Essa situação ocorre porque muitos pais optam por cuidados domésticos com as crianças, especialmente nos primeiros anos de vida. A oferta de vagas deve existir, e o Estado a garante, tanto em creches próprias quanto através do programa Cartão Creche", pontuou a secretária.

<><> Encorajamento

"Acorda, mulher, nunca esqueça o quanto você é completa e especial." Assim Dória Freitas, 56, começa seu programa de rádio Mulher Ativa, todas as manhãs de sábado. A moradora de Samambaia conta que a ideia nasceu após ter vivenciado anos de violência doméstica, em dois relacionamentos diferentes. Com duas horas de duração, o programa conta com três quadros fixos, que abordam os temas de saúde mental, educação e direito, todos acompanhados de profissionais responsáveis por orientar as ouvintes em caminhos que possam fortalecê-las.

"O programa virou referência, e muitas mulheres foram salvas graças às informações que passamos por aqui", comenta a comunicadora. No caso de Dória, o fôlego para romper o silêncio partiu da literatura e do autoconhecimento. "Meu algoz não aceitava que eu buscasse ajuda psicológica, alegando que eu tinha ele e não precisava de mais ninguém. Busquei ler escondida e assistir a vídeos sobre tipos de relacionamentos e condutas. Logo tratei de buscar meios para cair fora", recorda.

Durante 30 anos, a apresentadora da rádio foi casada com um homem alcoólatra e agressivo. A relação a invalidou ao ponto de ser descrita por conhecidos como "viúva de marido vivo". "Eu tinha que trabalhar, cuidar dos nossos três filhos e ainda cuidar dele", contou. Quando, finalmente, separou-se, Dória carregava uma bagagem de sofrimento que a tornou, em suas próprias palavras, uma "vítima fácil" para um perfil abusivo.

Em 2014, quando trabalhava como merendeira, ela conheceu um policial do batalhão escolar. O que começou com uma paixão avassaladora logo se revelou um pesadelo de manipulação. "Eu pensava que tinha encontrado o homem certo. Iniciamos o relacionamento com ele me tratando muito bem, fazendo juras de amor e me prometendo o mundo", conta.

O encanto não demorou para acabar. Os abusos físicos e psicológicos ficavam cada vez piores, chegando ao ponto de o agressor fazer um contrato de submissão. "Era uma lista com 12 itens que eu tinha de decorar. Caso eu esquecesse algum, sofria algum castigo que poderia ser físico, mental ou até sexual", relata.

Embora admita que a cura total é um processo demorado e, por vezes, doloroso, sua postura hoje é de vigilância e encorajamento. O recado de quem sobreviveu para contar a história e ajudar outras a fazerem o mesmo é direto e urgente: "Largue tudo. Nada é mais importante do que a sua vida. Se você continuar, eles chegam ao ponto de matar". O programa de Dória é transmitido todos os sábados, das 8h às 10h, pela Ativa FM e pelo Instagram da comunicadora: @doriafreitascomunicadora.

Para o advogado criminalista Lourival Tenório, é importante que mulheres em relacionamentos abusivos procurem apoio de pessoas de confiança, assim que se derem conta de que sofreram qualquer tipo de violência", aconselha. Ele também comenta que, em contextos mais graves, ligar para a polícia é o ideal.

<><> Qualificação

Segundo a psicóloga Paola Luduvice, mulheres em um ciclo de violência enfrentam diversos empecilhos antes de conseguirem a liberdade. Ela comenta que a pergunta que ecoa na sociedade, muitas vezes carregada de julgamento, costuma ser: "Por que ela não vai embora?".

Para a psicóloga, o questionamento precisa ser invertido. "É preciso mudar a pergunta para 'em que condições essa permanência é produzida?' e trabalhar em cima disso", enfatiza a profissional, lembrando que a violência doméstica não se sustenta apenas por agressões físicas, mas também por medo, dependência econômica e amorosa, isolamento social e desqualificação.

Luciene suportou os abusos pelo medo de ser colocada para fora de casa com seu filho recém-nascido. "Ele foi o meu primeiro namorado, meu marido e pai dos meus filhos. É uma pressão absurda que faz com que as mulheres não consigam romper o laço. Eu me sentia culpada por dar um basta naquela situação", conta.

Paola comenta que esse tipo de relato é comum, ainda mais quando o casal possui filhos. "Esse medo é real e reflete desigualdades estruturais. Por isso, quando possível, a independência financeira tem impacto direto na saúde mental dessas mulheres", alerta

Foi depois de uma tentativa de estupro que Luciene denunciou o agressor e pediu uma medida protetiva. Por meio de incentivos, começou a frequentar sessões de psicologia e a se qualificar em cursos técnicos do Sebrae, Senac e Senai, até se especializar em gestão de negócios. "No Instituto Mulheres Criativas, elas nos procuram por meio do Craes e dos pontos de política pública da cidade, mas geralmente, vêm por indicação de uma amiga, porque viu na tevê ou no Instagram", orienta.

Para Lúcia Erineta, 56, a rede de apoio das amigas e o caminho da qualificação também mudaram sua vida. Em 2008, ela uniu forças para denunciar o então companheiro por tentativa de feminicídio após o incentivo de uma amiga, que lhe ofereceu, inclusive, um lar. "Eu estava muito machucada. Ela cuidou de mim e conseguiu um advogado para que eu pudesse concluir o divórcio", diz. A ajuda recebida a motivou a retomar os estudos, fazer cursos profissionalizantes e ingressar na graduação de enfermagem.

Lúcia se tornou ativa na defesa dos direitos das mulheres e passou a acolher aquelas que viveram situações semelhantes à sua. Juntas, formaram o Instituto Mulheres Feminicídio Não (IMFN-AME).

Na prática, o instituto opera em frentes que unem proteção imediata e capacitação a longo prazo, realizando desde o acompanhamento de vítimas a delegacias e fóruns até a promoção de cursos e palestras de conscientização em escolas e espaços públicos. "Promovemos a reeducação social de homens e mulheres para romper definitivamente o ciclo da violência e garantir o direito à vida", destaca Lúcia.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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