segunda-feira, 9 de março de 2026

Frei Betto: Feminicídio e Igreja Católica - como discursos e doutrinas legitimam a violência contra a mulher

O Brasil segue entre os países que registra o maior número de assassinatos de mulheres no mundo. A cada dia, em média, quatro são mortas em razão do gênero, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O feminicídio — crime tipificado em 2015 — é o estágio final de um ciclo de violências sustentado por desigualdades históricas, culturais e simbólicas. 

Embora as causas sejam múltiplas, especialistas afirmam que estruturas patriarcais profundamente enraizadas continuam a legitimar a subordinação feminina, tanto no espaço privado quanto no público. Nesse contexto, instituições sociais de grande influência, como a Igreja Católica, tornam-se parte fundamental do debate.

A Igreja Católica tem papel central na formação cultural do país desde o período colonial. Sua presença vai além da esfera religiosa. Alcança a educação, a política e a moral social. Ao mesmo tempo em que desenvolve ações relevantes de assistência social e defesa da vida, mantém uma posição rígida quanto ao papel das mulheres em sua hierarquia: elas são oficialmente impedidas de exercer o sacerdócio. A justificativa teológica se baseia na tradição e na interpretação de que Jesus teria escolhido apenas homens como apóstolos, argumento reiterado pelo Vaticano ao longo dos séculos.

Para os críticos, essa exclusão não é apenas simbólica. Ao impedir mulheres de ocupar posições de autoridade espiritual, a Igreja reforça uma lógica da hierarquia de gênero que ecoa para além dos muros do templo.

“Quando uma instituição que prega valores morais universais sustenta a ideia de que mulheres não podem liderar espiritualmente, contribui para a naturalização da desigualdade”, avalia a socióloga Maria Clara Azevedo, pesquisadora das questões de gênero. Segundo ela, não se trata de responsabilizar diretamente a Igreja pelo feminicídio, mas de reconhecer como discursos e práticas institucionais moldam mentalidades.

O feminicídio, em grande parte dos casos, ocorre no ambiente doméstico e é cometido por parceiros ou ex-parceiros. Antes da morte, há quase sempre um histórico de violência psicológica, física ou simbólica. Nesse percurso, a ideia de posse sobre o corpo e a vida da mulher aparece como elemento recorrente. É justamente nesse ponto que a crítica feminista se conecta ao debate religioso: a persistência de narrativas que associam a mulher à obediência, ao sacrifício e ao silêncio pode dificultar a ruptura de relações abusivas.

A Igreja Católica vive hoje tensões internas sobre o papel feminino. Embora mulheres sejam maioria entre fiéis e responsáveis por grande parte do trabalho pastoral, continuam afastadas das decisões centrais. O papa Francisco deu sinais de abertura ao permitir maior participação feminina em cargos administrativos no Vaticano, mas manteve intacta a proibição da ordenação sacerdotal. Para teólogas feministas, trata-se de um limite estrutural. “Enquanto o poder sacramental for exclusivamente masculino, a igualdade será sempre parcial”, afirma a teóloga Ivone Gebara.

Representantes da Igreja argumentam, porém, que a doutrina não implica inferioridade. Em documentos oficiais, o Vaticano sustenta que homens e mulheres têm “dignidade igual, mas funções diferentes”. Essa distinção é questionada por setores da sociedade civil que veem nela uma forma sofisticada de segregação. Em um país onde mulheres ainda lutam por igualdade salarial, segurança e representação política, a manutenção de espaços exclusivamente masculinos em instituições de grande influência simbólica é questionável e reprovável.

O enfrentamento do feminicídio exige políticas públicas eficazes, educação sobre igualdade de gênero e transformação cultural profunda. Nesse processo, o diálogo com instituições religiosas é essencial. Reconhecer sua influência não significa negar sua importância social, mas convocá-las à reflexão crítica sobre seus limites. Em um Brasil marcado por cruzes nos altares e o número cada vez maior de mulheres nas estatísticas de mortes violentas, a pergunta que permanece é até que ponto tradições podem ser preservadas quando colidem com o direito fundamental à vida e à dignidade.

Entre o altar, que ainda exclui, e o túmulo, que se multiplica, está o desafio de romper estruturas que, direta ou indiretamente, continuam a dizer às mulheres qual é e qual não deve ser o lugar delas.

A escolha da bispa Sarah Mullally, de 63 anos, para chefiar a Igreja Anglicana no Reino Unido, em outubro de 2025, representa um dos momentos mais significativos da história recente do cristianismo ocidental. Mais do que uma decisão administrativa ou espiritual, esse gesto simboliza uma ruptura com séculos de tradição patriarcal que associaram liderança religiosa exclusivamente à figura masculina. A presença feminina no mais alto cargo da Igreja confronta não apenas estruturas internas, mas também valores culturais profundamente enraizados na sociedade britânica.

Desde a autorização para a ordenação de mulheres como sacerdotes e, posteriormente, como bispas, a Igreja Anglicana vive tensões constantes. Setores conservadores aceitaram essas mudanças de forma relutante, muitas vezes criando mecanismos paralelos para evitar a autoridade feminina. Agora, a eleição de uma mulher como líder máxima, contudo, ultrapassou qualquer possibilidade de acomodação simbólica. Para grupos abertamente machistas, isso foi visto como uma “traição” à tradição, provocando reações intensas, que vão desde boicotes internos até ameaças de ruptura institucional.

Essas reações não se limitaram ao campo religioso. Parlamentares conservadores, comentaristas e formadores de opinião alinhados a visões patriarcais tendem a explorar o tema como sinal de decadência moral ou submissão da Igreja a pautas progressistas. Ao mesmo tempo, a eleição fortalece movimentos feministas e setores reformistas, que enxergam no gesto um avanço histórico na luta por igualdade de gênero.

A ruptura causada pelos machistas na Igreja Anglicana, embora barulhenta, também revela um paradoxo: ao resistirem à liderança feminina, esses grupos expõem a fragilidade de uma fé sustentada mais por hierarquias de poder do que por princípios espirituais. A eleição de uma mulher divide a Igreja Anglicana, mas obriga o Reino Unido a rever seu atual conservadorismo político.

¨      Além das Flores: a luta das mulheres na Rússia e na América Latina

O Dia Internacional da Mulher, celebrado anualmente em 8 de março, transcende a mera formalidade de uma data comemorativa e se consolida como um símbolo da luta histórica por direitos, equidade e respeito. As raízes da data estão profundamente ligadas aos movimentos trabalhistas e feministas do final do século 19 e início do século 20, desde a marcha de 15 mil mulheres em Nova York, em 1908, até a greve histórica das trabalhadoras russas em 1917. Naquele momento, uma série de protestos denunciou as precárias condições de trabalho, a escassez de alimentos e o envolvimento da Rússia na Primeira Guerra Mundial, sob o lema “Pão e Paz”, marcando um ponto crucial na história das mulheres.

É importante lembrar que, de acordo com o calendário juliano então vigente na Rússia, a greve teve início em 23 de fevereiro — data que corresponde ao 8 de março no calendário gregoriano, hoje adotado internacionalmente como o Dia Internacional da Mulher. Décadas depois, em 1975, a data foi oficialmente reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje, o 8 de março permanece como um lembrete de que cada direito conquistado pelas mulheres foi fruto de mobilização e resistência — um marco que deve ser lembrado não apenas uma vez ao ano, mas de forma permanente.

<><> Brasil

O Brasil carrega uma marcante trajetória de luta. O país viu avanços fundamentais como a conquista do voto feminino em 1932 e os avanços da Constituição de 1988, que garantiu a igualdade de gênero perante a lei. Mais recentemente, em 2006, a sanção da Lei Maria da Penha tornou-se um pilar no combate à violência doméstica. Por isso, o 8M brasileiro mantém a perspectiva de reconhecimento e valorização das mulheres.

A celebração brasileira é marcada por uma dualidade entre o caráter festivo difundido socialmente e o político e reivindicativo. Nas ruas, o movimento 8M mobiliza multidões em atos organizados por movimentos feministas e sindicatos. As pautas são urgentes, como o combate ao feminicídio — uma mulher é vítima a cada seis horas no país —, a luta por igualdade salarial — em média, as mulheres ganham 22% a menos que os homens em funções semelhantes — e a defesa dos direitos reprodutivos.

Na política, as mulheres ocupam apenas 17,7% das cadeiras no Congresso Nacional. Soma-se a isso a dupla jornada de trabalho, sob a qual elas dedicam cerca de 10 horas semanais a mais do que os homens às tarefas domésticas.

O 8 de março no Brasil representa a força da resistência de vozes diversas — mulheres negras, indígenas, periféricas e trabalhadoras rurais — que seguem em busca de uma sociedade onde a igualdade não seja apenas uma letra morta na lei, mas uma realidade cotidiana. A data expõe no país as contradições de uma sociedade que avançou em direitos, mas que ainda convive com desigualdades profundas.

<><> América Latina

Em outros países da América Latina, o Dia Internacional da Mulher também é celebrado no dia 8 de março. Entretanto, a luta pelos direitos das mulheres é muito mais do que uma data no calendário: cada país possui suas próprias mobilizações ao longo do ano. Ao impulsionar movimentos feministas, esse dia se transformou em um poderoso grito por direitos e justiça, onde a cor roxa do feminismo se faz símbolo onipresente nas ruas.

O epicentro dessa transformação pode ser apontado na Argentina, berço do movimento Ni Una Menos (Nem Uma a Menos, em tradução livre), que em 3 de junho de 2015 deu voz à indignação contra o feminicídio e a violência de gênero na América Latina. As marchas em Buenos Aires que ocorrem no dia 8 de março são massivas, unindo gerações na defesa das conquistas feministas e na resistência a qualquer retrocesso.

O movimento Marea Verde, também argentino, com seus lenços verdes, simboliza a luta pela legalização do aborto e pela autonomia reprodutiva, influenciando fortemente países como o Chile, que se destacou por intervenções artísticas e performances impactantes, como Um Violador em Teu Caminho, criada no final de 2019. Já no México, a urgência da luta contra o feminicídio e os desaparecimentos de mulheres impulsiona manifestações marcadas pela ocupação simbólica de espaços públicos.

No Paraguai, o Paro de Mujeres (Greve de Mulheres) reúne mobilizações no 8 de março para reivindicar direitos e denunciar desigualdades, a violência de gênero e injustiças sociais. Na Colômbia, marchas são realizadas nas principais cidades do país, celebrando conquistas e também chamando atenção para a proteção de líderes sociais e mulheres em zonas de conflito.

É fundamental reconhecer que o 8 de março na América Latina possui um caráter profundamente interseccional, abordando não apenas questões de gênero, mas também a defesa de territórios indígenas e camponeses, a busca por memória e justiça para vítimas de conflitos e ditaduras e o reconhecimento do trabalho doméstico não remunerado. Para países com significativas populações afrodescendentes, como Colômbia, República Dominicana e Honduras, o 25 de julho — Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha — complementa o 8 de março ao destacar a luta contra o racismo que atravessa a vida dessas mulheres.

Portanto, o 8 de março na região é marcado por mobilização, memória e reivindicação. Os contrastes sociais presentes nos diferentes países revelam que, apesar de avanços importantes, a América Latina ainda enfrenta índices alarmantes de violência e desigualdade de gênero. A verdadeira celebração da data está no compromisso contínuo de transformar as estruturas que ainda impedem as mulheres de ocupar plenamente todos os espaços da vida social, política e econômica.

<><> Rússia

Na Rússia, cada menina, sem exceção, espera pelo dia 8 de março e sabe exatamente qual feriado é comemorado nesse dia. Claro, inicialmente essa data tinha a mesma ideia original que em todo o mundo — a proteção dos direitos, a afirmação da liderança feminina no desenvolvimento da sociedade e a compreensão de que o progresso das mulheres é parte do progresso do mundo. Mas na consciência coletiva russa contemporânea, o 8M se consolidou, antes de tudo, como o “dia da mulher” no sentido mais amplo e cotidiano. Não é, de forma alguma, um dia de mobilização em massa e de simbologia de rua, habitual na América Latina. Para os russos, este é o dia de celebrar a mulher como figura em geral. No centro estão a beleza, a feminilidade e a ternura, embora por trás dessa suavidade externa, de uma forma ou de outra, também estejam implícitas a força e a fortitude de espírito. De forma geral, ainda assim, os traços femininos das moças é que vêm para o primeiro plano.

Seja uma menina de três anos, uma estudante, uma mãe cansada ou uma avó de 97 anos, não há exceção: o 8 de março na nação russa é um feriado para qualquer mulher. Parece que o país inteiro, neste dia, ajusta o foco nelas, como se o cotidiano pausasse por um instante suas preocupações para reconhecer publicamente a existência e a importância de cada representante do sexo feminino. Em Moscou, essa atenção ganha uma forma especialmente visível num detalhe que se repete literalmente a cada passo: homens com flores. As flores são, provavelmente, o principal atributo do feriado, um símbolo quase inevitável. Isso é particularmente expressivo no metrô: você entra e é como se a cidade inteira estivesse se deslocando com buquês nas mãos, como se cada vagão transportasse pequenas declarações e gestos de atenção, para casa, para o trabalho, para um encontro, para uma visita. Se quiser ver isso, definitivamente procure por vídeos nas redes sociais, e perceberá a dimensão do que acontece.

Neste dia, há sempre presentes, surpresas, reservas em restaurantes, promoções e ofertas especiais. Muitos homens se esforçam para organizar uma homenagem para suas esposas. Muitas mulheres esperam por este dia com antecipação, porque sabem que ele traz um tipo especial de atenção, socialmente estabelecido. E ninguém fica sem homenagem: se não tem marido, namorado ou parceiro, certamente haverá um pai, colegas, um chefe, um professor, um departamento universitário, um grupo de estudo. Em algum lugar e de alguém, certamente virão palavras calorosas, uma flor, um chocolate ou uma mensagem. Para os homens, a regra é se preparar para este dia com especial cuidado. Não basta apenas parabenizar. É importante escolher o presente certo, cobrir a mulher de atenção e criar para ela uma verdadeira festa. Muitos estrangeiros expressam opiniões diferentes sobre esses “caprichos” da cultura russa, mas o fato é um fato. As moças eslavas sempre esperam pela festa vinda dos homens neste dia.

Para muitas pessoas, o 8 de março é um feriado tão importante quanto o aniversário ou o Ano Novo. E quando as russas precisam explicar aos estrangeiros que dia é comemorado no 8 de março, acredite, ficam simplesmente perplexas, pois para a população russa este é um feriado que toda pessoa conhece. Você não encontrará um único russo que não saiba o que exatamente se comemora nesse dia. Assim, o 8M russo se torna um espelho cultural: por um lado, ele afasta a data das suas origens mais combativas e, por outro, a transforma num raro consenso social, num dia em que o reconhecimento das mulheres, de todas, sem exceção, se torna visível e quase impossível de ignorar. Assim, o 8M russo se torna um espelho cultural: por um lado, ele afasta a data das suas origens mais combativas e, por outro, a transforma num raro consenso social, num dia em que o reconhecimento das mulheres, de todas, sem exceção, se torna visível e quase impossível de ignorar.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

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