Novas
descobertas mudam o que sabemos sobre os maias
Durante
décadas, os antigos maias foram retratados como um povo que desapareceu
misteriosamente. Mas essa noção de decadência abrupta vem sendo substituída por
uma narrativa mais complexa e fascinante sobre resiliência e transformação.
Nesse
sentido, o mundo maia não está sendo "redescoberto", e sim
reinterpretado à luz de novas evidências. E, com isso, estão sendo revistas
ideias que pareciam fixas há décadas: quantas pessoas viviam nas terras baixas,
como os assentamentos eram organizados, o grau de conexão entre as cidades e o
campo. E também o que significa falar em "colapso" de uma civilização
quando os dados sugerem não um desaparecimento, mas sim continuidade,
realocação e adaptação.
Numa
reportagem recente publicada pelo jornal britânico The Guardian, Francisco
Estrada-Belli, professor do Instituto de Pesquisa Mesoamericana da Universidade
Tulane, nos EUA, recorda vividamente sua primeira visita às ruínas de Tikal,
quando ainda era uma criança. "Fiquei completamente hipnotizado",
relata. "Havia selva por todos os lados, animais e, depois, aqueles
templos enormes e majestosos."
A
experiência o impactou de tal forma que ele, quando adulto, acabaria dedicando
sua carreira a investigar e revelar os segredos dos maias.
Mais de
meio século depois daquela primeira viagem a Tikal, Estrada-Belli faz parte do
grupo de pesquisadores que está transformando nossa compreensão da civilização
mesoamericana.
O
estudo mais recente de Estrada-Belli, publicado no Journal of Archaeological
Science: Reports, estimou em cerca de 16 milhões a população maia durante o
Período Clássico Tardio (600–900 d.C.) – bem acima dos 7 a 11 milhões que se
acreditava terem vivido nas terras baixas.
"Esperávamos
um aumento modesto nas estimativas populacionais a partir de nossa análise
LiDAR de 2018, mas ver um aumento de 45% foi realmente surpreendente”, afirmou
Estrada-Belli na época, em comunicado da Universidade Tulane.
Segundo
o Guardian, se a estimativa estiver correta, ela significaria que a população
da região superava a da península Itálica no auge do Império Romano (que
ademais tinha o triplo de tamanho em território).
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Mapeamento por laser revela rede urbana oculta sob a selva
Grande
parte dessa mudança de perspectiva se deve ao uso da tecnologia LiDAR –
acrônimo para Light Detection and Ranging, ou Detecção e Medição de Distâncias
por Luz –, que permite mapear o terreno oculto sob a selva. Equipamentos
instalados em aviões emitem bilhões de pulsos de laser e atravessam a vegetação
até tocar o solo, gerando mapas tridimensionais que revelam estruturas
invisíveis a olho nu.
Segundo
relatou a National Geographic em 2024, o momento da descoberta teve algo de
cinematográfico. Em um escritório em Nova Orleans, Estrada-Belli observava
enquanto seu colega Marcello Canuto abria imagens aéreas e, com alguns cliques,
removia digitalmente a vegetação. Debaixo do que pareciam simples colinas havia
reservatórios, terraços agrícolas, canais de irrigação e enormes pirâmides
coroadas por complexos cerimoniais.
"Foi
como o que devem ter sentido os astrônomos quando olharam pela primeira vez
através do telescópio Hubble. Ali estava aquela vasta selva que todos
acreditavam estar quase vazia e, quando removemos digitalmente as árvores,
apareceram vestígios humanos por toda parte", afirmou à época o arqueólogo
e explorador da National Geographic Thomas Garrison.
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Cidades maias eram muito mais complexas do que se pensava
Os
novos mapas revelam que os assentamentos maias eram muito mais complexos e
interconectados do que se pensava. Os pesquisadores identificaram padrões de
construção semelhantes tanto em áreas urbanas quanto rurais: uma praça pública
central, geralmente associada ao controle da elite, cercada por zonas
residenciais.
Além
disso, quase todos os edifícios estavam a menos de cinco quilômetros de uma
dessas praças, o que sugere que até mesmo a população rural participava
ativamente da vida cívica e cerimonial.
Essa
conclusão desafia a antiga ideia de cidades maias cercadas por uma selva
praticamente vazia e revela, em vez disso, uma paisagem densamente ocupada e
conectada por estradas elevadas, infraestrutura hidráulica, campos agrícolas e
áreas úmidas manejadas de forma planejada.
Um
exemplo claro dessa rede urbana aparece em El Mirador, no norte da Guatemala,
uma das maiores cidades maias conhecidas. Ali, o LiDAR revelou que o que
pareciam colinas e caminhos naturais eram, na verdade, estradas elevadas e
estruturas monumentais que conectavam a cidade a mais de 400 assentamentos
vizinhos, formando uma vasta rede de comunicação.
Para
sustentar populações tão numerosas em um ambiente de solos pobres e ciclos
extremos de chuvas e secas, foram necessárias soluções igualmente monumentais.
Na região, desenvolveram-se sistemas agrícolas e hidráulicos altamente
sofisticados, com terraços, canais e reservatórios que permitiram manter a
produção de alimentos e gerenciar a água em condições ambientais difíceis — uma
infraestrutura cuja magnitude só agora começamos a compreender.
"Não
se podia alimentar tanta gente como faziam os antigos maias com o tipo de
agricultura de corte e queima que se utiliza hoje", explicou Canuto à
National Geographic.
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Reescrevendo o final do período clássico maia
A
capacidade de sustentar populações tão numerosas dependia de um equilíbrio
frágil entre infraestrutura, clima e organização social. Quando esse sistema
começou a se tensionar, as grandes cidades do período clássico passaram por
transformações. Durante décadas, esse processo foi interpretado simplesmente
como o "colapso" maia, mas cada vez mais pesquisadores propõem uma
pergunta diferente: em vez de "por que desapareceram?", "como
conseguiram sobreviver?".
Como
explicou Kenneth Seligson, professor de arqueologia na Universidade Estadual da
Califórnia, ao Guardian: "Já não falamos realmente em colapso, mas em
declínio, transformação e reorganização da sociedade e continuidade da cultura.
Mudanças semelhantes ocorreram em outros lugares, como Roma, e hoje quase
ninguém fala do grande colapso romano, porque essas sociedades ressurgiram de
diferentes formas, assim como ocorreu com os maias".
Essa
mudança de perspectiva também obriga a reinterpretar o fim das grandes cidades
clássicas. Quando Tikal ergueu sua última estela conhecida, no ano 869 d.C., a
cidade acumulava mais de 1.500 anos de desenvolvimento contínuo. O que se
seguiu não foi um desmoronamento repentino, mas um processo gradual de
reorganização: vários centros urbanos foram despovoados enquanto parte da
população se deslocava para regiões do norte e do sul. Cidades como Chichén
Itzá e Uxmal cresceram rapidamente, o que sugere — segundo os pesquisadores
citados — que muitos habitantes optaram por migrar e se adaptar a novas
condições em vez de permanecer em centros urbanos em declínio.
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Descendentes maias lutam por reconhecimento
Para
além da revisão histórica, como destaca o Guardian, essa nova compreensão do
mundo maia mostra que essa cultura não pertence apenas ao passado, mas segue
viva.
Hoje,
mais de 11 milhões de pessoas pertencentes a diversos povos maias e a outros
grupos indígenas da Mesoamérica vivem no México, Guatemala, Belize, El
Salvador, Honduras e Estados Unidos, e muitos deles fazem parte das populações
mais pobres do continente, apesar de descenderem de algumas das civilizações
mais sofisticadas da América pré-colombiana.
Na
Guatemala, onde a população maia representa oficialmente 44% dos habitantes —
embora por muito tempo identificar-se como maia tenha sido marcado por estigma
e discriminação — essas pesquisas também assumem uma dimensão política.
Como
explica Liwy Grazioso, ministra da Cultura e dos Esportes e arqueóloga
especializada em história maia: "Não é que os maias sejam melhores, ou que
sua antiga sociedade fosse superior à nossa, mas que, como seres humanos, são
iguais".
As
demandas atuais dos povos originários incluem o reconhecimento como nações
preexistentes, a autodeterminação territorial e um acesso mais equitativo a
recursos. Sonia Gutiérrez, a única mulher indígena no parlamento guatemalteco,
resume assim essa luta: "Não devemos ser vistos como um povo alheio, mas
como pessoas que vivem em nosso país, onde viveram nossos antepassados".
As
novas descobertas arqueológicas também questionam séculos de narrativas que
diminuíram as culturas indígenas. Grazioso lembra que, durante muito tempo,
circularam teorias pseudocientíficas segundo as quais seria mais provável que
os templos maias tivessem sido construídos por extraterrestres do que pelos
antepassados da população local.
Essas
ideias, sugere a deputada, cumprem uma função política: "Se privarmos os
maias atuais de seu passado glorioso, não teremos que lhes dar poder
hoje".
Mas a
disputa pela memória não é apenas simbólica. Ela também atravessa uma ferida
ainda aberta: a dos desaparecidos durante a guerra civil da Guatemala
(1960–1996). O confronto entre forças do governo e guerrilheiros, em sua
maioria de esquerda, deixou cerca de 200 mil mortos, majoritariamente maias, e
mais de 40 mil desaparecidos. A Comissão para o Esclarecimento Histórico
documentou 626 massacres cometidos por forças governamentais e atribuiu ao
Estado mais de 93% das violações de direitos humanos registradas.
No
laboratório da Fundação de Antropologia Forense da Guatemala, a tecnologia
volta a desempenhar um papel central, embora aplicada a outra forma de
arqueologia: a identificação de vítimas. Segundo o Guardian, a instituição
trabalha atualmente com 12.611 amostras de esqueletos e conseguiu identificar
quase 4 mil pessoas, principalmente por meio de análises de DNA.
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Patrimônio ameaçado pelo avanço do crime na floresta
Enquanto
novas tecnologias revelam a riqueza do mundo maia oculta sob a selva, esse
mesmo patrimônio enfrenta hoje ameaças urgentes. Os mapas e dados recentes
revelam marcas de saqueadores, madeireiros, grileiros e narcotraficantes que
avançam sobre a segunda maior floresta tropical da América, colocando em risco
inúmeros sítios ainda não estudados.
"O
Estado não tem recursos financeiros para proteger nosso patrimônio",
advertiu à National Geographic Marianne Hernández, presidente da fundação
Pacunam, que cuida do patrimônio maia. "Com os novos dados, ao menos
estamos descobrindo onde estão os sítios. Se tivéssemos um exército de
arqueólogos, poderíamos enviá-los para estudá-los antes que sejam
destruídos."
A
pressão é crescente: segundo a National Geographic, nas últimas duas décadas, a
Guatemala perdeu cerca de 20% de suas florestas primárias. Muitos dos sítios
recentemente identificados por meio do LiDAR já apresentam sinais de saque, em
uma corrida contra o tempo entre documentação e destruição.
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Lições para o presente
Talvez
a lição mais importante que emerge dessas descobertas seja sobre resiliência e
sustentabilidade. Os antigos maias desenvolveram métodos agrícolas que
sustentaram milhões de pessoas durante milhares de anos em um dos ambientes
mais desafiadores do planeta.
Como
observa Estrada-Belli: "Quando olhamos para as florestas centro-americanas
atuais, devemos ter em conta que os antigos humanos impactaram tudo. E todos
esses métodos foram sustentáveis durante milhares de anos".
Em
contraste, ele aponta que hoje utilizamos a terra "para a pecuária e para
monocultura de milho, que apenas destroem o solo. Temos muito a aprender".
Diferentemente
do que foi propagado por muito tempo, os maias foram uma civilização complexa,
que alcançou feitos extraordinários e manejou os recursos naturais em seu
entorno de uma forma que alguns pesquisadores consideram sustentáveis para a
época. E só estamos começando a reconstruir sua história agora. O legado dos
maias não está enterrado na selva; segue vivo em milhões de descendentes que
continuam lutando pelo reconhecimento de seu lugar legítimo na história e no
presente da América.
Fonte:
DW Brasil

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