terça-feira, 10 de março de 2026

Estresse na adolescência pode causar mudanças permanentes no cérebro

Situações estressantes vividas na adolescência tendem a provocar alterações mais profundas e duradouras no cérebro do que quando ocorrem na vida adulta. Um estudo feito em ratos na USP (Universidade de São Paulo) identificou um dos mecanismos neurológicos por trás dessa diferença, oferecendo novas pistas sobre a origem de transtornos psiquiátricos como depressão e esquizofrenia.

Os pesquisadores comprovaram que a exposição ao estresse na adolescência pode interferir no equilíbrio dos neurônios, comprometendo a maturação de redes neurais e aumentando a vulnerabilidade a disfunções cerebrais que podem persistir até a vida adulta. Os resultados foram publicados na revista Cerebral Cortex.

A pesquisa, apoiada pela Fapesp, demonstrou que o estresse na adolescência provoca mudanças permanentes nos circuitos do córtex pré-frontal, região cerebral responsável pelo controle emocional e função cognitiva.

De acordo com os pesquisadores, traumas nessa fase da vida desregulam o equilíbrio entre sinais de excitação e inibição no cérebro, comprometendo a estabilidade funcional do órgão. Já em roedores adultos, o cérebro mostrou maior resiliência, com mecanismos de recuperação que tornaram os efeitos do estresse mais passageiros.

“Estudos epidemiológicos já haviam demonstrado que o impacto do estresse severo é mais profundo na adolescência. Em nosso trabalho, comprovamos que ele causa desequilíbrio na comunicação entre células cerebrais nas duas fases da vida. No entanto, como o cérebro adolescente ainda está em formação, não há proteção suficiente contra esse impacto”, explica Felipe Gomes, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e coordenador do estudo.

Na pesquisa, ratos machos foram submetidos a um protocolo de estresse ao longo de dez dias consecutivos, com choques nas patas e restrição de movimento. Os experimentos foram realizados em dois grupos distintos: animais entre 31 e 40 dias de vida (fase da adolescência) e na fase adulta (de 65 a 74 dias).

Em seguida, os cientistas analisaram, nos dois grupos, alterações de curto e longo prazo na atividade de neurônios excitatórios (piramidais glutamatérgicos) e inibitórios (interneurônios GABAérgicos), ambos presentes no córtex pré-frontal medial.

Nos ratos adolescentes, o estresse provocou um aumento persistente na atividade dos neurônios excitatórios e alterou de forma duradoura o funcionamento dos inibitórios. O resultado foi um desequilíbrio prolongado, como se o cérebro estivesse acelerado, sem “um freio funcionando”. Foi observado também que, embora a força dos sinais inibitórios tenha retornado ao estado normal, o padrão de disparo permaneceu irregular, o que compromete o controle neural.

Nos adultos, contudo, o estresse causou apenas uma redução temporária na atividade dos interneurônios inibitórios, sem gerar a hiperexcitabilidade observada nos adolescentes. Isso permitiu que o sistema se reequilibrasse após o período de estresse.

“O estudo também mostrou que o mau funcionamento dos interneurônios afetou os ritmos elétricos cerebrais. Nos adolescentes, houve uma redução duradoura nas oscilações gama, fundamentais para processos cognitivos superiores, como atenção e memória de trabalho, e que estão prejudicadas na esquizofrenia. Já nos adultos, o estresse reduziu temporariamente as oscilações teta, que regulam a comunicação entre o córtex e outras regiões, como o hipocampo. A recuperação desse ritmo sugere que a conectividade cerebral foi restabelecida”, conta Gomes.

<><> Mecanismos neurais

Estudos anteriores do mesmo grupo já haviam mostrado que o estresse na adolescência pode induzir comportamentos semelhantes aos da esquizofrenia, enquanto o estresse na vida adulta teria a provocar alterações mais associadas à depressão.

“Nosso trabalho avança ao revelar os mecanismos neurais por trás dessas diferenças, mostrando que o momento da vida em que o estresse ocorre é determinante para o tipo e a duração das alterações nos circuitos do córtex pré-frontal”, afirma Flávia Alves Verza, que investiga o tema em seu pós-doutorado, apoiado pela Fapesp.

“Conseguimos aprofundar esse entendimento ao caracterizar o impacto do estresse em diferentes períodos da vida sobre tipos de células distintas no córtex pré-frontal, região frequentemente afetada em transtornos psiquiátricos”, completa Gomes.

Além de compartilharem a exposição ao estresse como um fator de risco comum, cerca de 40% dos genes de risco para esquizofrenia também estão associados à depressão. “Dessa forma, o novo estudo contribuiu para a hipótese de que um indivíduo geneticamente vulnerável pode desenvolver esquizofrenia se exposto a traumas na adolescência, enquanto o mesmo trauma na vida adulta pode desencadear depressão. Os resultados reforçam a importância de estratégias preventivas voltadas aos jovens, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade emocional”, afirma o pesquisador.

•        Atividade cerebral de bebês ajuda a desvendar o cérebro humano

Os primeiros anos de vida são decisivos para o desenvolvimento do cérebro humano. Nesse período, conexões neurais se formam em ritmo acelerado e moldam como aprendemos, nos comunicamos e nos relacionamos ao longo da vida. Mas a ciência ainda investiga como esses mecanismos se desenvolvem e impactam no crescimento de uma criança. Foi o que fizeram pesquisadores do Brasil, da África do Sul e dos Estados Unidos, em um estudo publicado na revista Imaging Neuroscience.

A equipe monitorou a atividade cerebral de mais de 800 crianças por meio de um EEG (eletroencefalograma), o que os permitiu acompanhar a organização neural em uma escala de tempo inferior a um segundo, enquanto os pequenos brincavam ou assistiam a vídeos. Os resultados apontam que bebês com idades entre 3 meses e 2 anos têm redes neurais semelhantes às de adultos.

“Isso sugere que as arquiteturas funcionais básicas do cérebro em grande escala já estão presentes no início da vida, embora sejam refinadas e ajustadas ao longo do desenvolvimento”, explica a neurocientista Priyanka Ghosh, autora-correspondente do estudo, em entrevista por e-mail à Agência Einstein.

Nos pequenos, porém, os mecanismos cerebrais se alternam rapidamente entre diferentes “modos de funcionamento”, mesmo em repouso. Esses instantes foram nomeados no artigo como “microestados”.

“Acreditamos que cada configuração de microestado do EEG represente uma rede global do cérebro, potencialmente ligada a um tipo específico de processamento funcional (auditivo, visual, atencional etc.)”, relata Ghosh, que atua como pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Northeastern, nos Estados Unidos. “A rápida sucessão e mudança entre os estados cerebrais dominantes refletem a capacidade do cérebro de alternar entre redes funcionais de grande escala a cada momento.”

Na prática, isso significa que o vai-e-vem de uma função para a outra é o que provavelmente permite às crianças perceberem o ambiente em que estão, reagirem a estímulos e aprenderem funções novas continuamente.

<><> Desenvolvimento dentro de curvas esperadas

Compreender como o cérebro se organiza nos primeiros anos de vida é mais do que uma curiosidade científica: esse conhecimento pode ajudar profissionais de saúde e de educação, por exemplo, a identificarem precocemente sinais de que algo não está dentro do esperado. Quanto mais cedo essas diferenças são percebidas, maiores são as chances de oferecer apoio e tratamento eficientes.

“Os resultados são interessantes porque nos permitem distinguir nos exames o que faz parte do processo de maturação esperado para a criança, em uma curva típica de desenvolvimento cerebral daquilo que pode ser um sinal de desvio”, analisa a neurologista pediátrica Leticia Soster, do Einstein Hospital Israelita. “Trajetórias fora desse intervalo esperado podem acabar funcionando como um marcador de atipia do neurodesenvolvimento.”

Alterações pontuais fazem parte do crescimento infantil, e existe uma amplitude da variação daquilo que é considerado “típico” no desenvolvimento neural. Mas quando essas ocorrências são persistentes, elas devem ser tratadas como pontos de atenção. Esse tipo de referência pode ajudar a tornar os diagnósticos mais precisos, evitando alardes desnecessários e perda de sinais precoces de alterações no desenvolvimento cerebral.

Contudo, apenas olhar para os resultados do EEG não basta para chegar a um diagnóstico de problema no neurodesenvolvimento. Outros exames neurológicos devem ser considerados, além do acompanhamento regular de cada caso. “Os sinais clínicos iniciais de alterações são extremamente sutis, e existe um grupo dessas características cognitivas que está muito associado ao contexto”, observa Soster. Isso significa que uma criança que está sempre irritada, por exemplo, pode não estar dormindo bem ou ter outros fatores que expliquem seu comportamento, e não necessariamente alguma condição neuroatípica.

<><> Expectativas no longo prazo

Ao classificar os microestados do EEG como representações de diferentes redes cerebrais, os autores ressaltam que cada dimensão funcional segue um ritmo próprio de maturação, com padrões específicos de mudança ao longo dos primeiros dois anos de vida. Essa diferenciação permite pensar o desenvolvimento cerebral como um conjunto de trajetórias parcialmente independentes, em vez de um único eixo de “atraso” ou “normalidade”.

Por meio dessa lógica, o estudo sugere que intervenções poderiam ser pensadas de forma mais direcionada, levando em conta quais sistemas ou funções estão seguindo trajetórias atípicas. Em vez de estratégias genéricas, o mapeamento das dinâmicas cerebrais abre espaço para ações mais precisas, focadas em dimensões específicas do desenvolvimento que apresentem maior vulnerabilidade.

Embora os autores não defendam aplicações clínicas imediatas, o trabalho aponta para um futuro em que classificações funcionais do desenvolvimento cerebral podem ajudar a orientar intervenções mais ajustadas à diversidade. “Isso poderia facilitar a identificação de bebês com trajetórias cerebrais atípicas, estratificar riscos e monitorar se uma intervenção está ou não mudando a trajetória do paciente”, avalia a médica do Einstein.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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