Rui
Abreu: Eleições - há espaço à esquerda de Lula?
Com a
devida distância da realidade e a alguns meses das eleições, as pesquisas vão
apresentando um provável quadro de reeleição presidencial no Brasil. A imagem
da presidência foi se recuperando na segunda metade do ano passado após alguns
movimentos erráticos do neofascismo nacional e internacional. Pedidos de
sanções, tarifas, tentativa do congresso blindar os crimes dos ricos e ataques
à soberania foram fortalecendo o governo mesmo num quadro de precariedade
econômica para a esmagadora maioria das famílias brasileiras que a isenção de
rendimentos até cinco mil reais pretende mitigar. Sucessivos nomes são
colocados em disputa com Lula e todos apresentam tendências de voto inferiores,
tendo o presidente mais ou menos vantagem em todos os cenários.
Neste
último ano de mandato em que são logicamente esperadas as melhores medidas da
governação e com o bolsonarismo atravessando uma crise de sucessão, será de
esperar uma reeleição menos apertada que a eleição? Lula não tem adversário à
altura?
Direita
e extrema direita vêm ensaiando diversas candidaturas presidenciais permitindo
vários governadores se perfilarem perante o grande capital como potenciais
representantes de seus interesses. De fenômenos populistas a oportunistas
eleitos na esteira de Bolsonaro passando por agrofascistas, vários nomes são
apresentados e consultados à sociedade e a resposta popular parece não deixar
margem para candidatos de direita sem a chancela do bolsonarismo. A potencial
candidatura de Tarcísio de Freitas é o caso mais visível e vem oscilando entre
a emancipação do carioca em relação à família Bolsonaro e a sua aceitação como
autêntico representante do ideário neofascista. Com a pré candidatura de Flávio
Bolsonaro o instinto de sobrevivência parece se impôr e Tarcísio acalma sua
ambição num quadro de reeleição fácil em São Paulo. 2030 é já ali.
Flávio
Bolsonaro parece assumir a tarefa de reagrupar em seu torno a liderança da
oposição, tarefa dificultada pelos sucessivos movimentos erráticos de seu irmão
Eduardo que vivendo nos EUA conseguiu criar mais dano à extrema direita que o
governo e a esquerda juntos. A imposição da vontade da família Bolsonaro nas
candidaturas de Outubro de 2026 tem trazido muitas contradições na extrema
direita envolvendo caciques locais e digitais. Os lugares a disputar para o
senado em Santa Catarina e até a candidatura de Flávio têm despontado oposição
interna, sendo Michelle Bolsonaro uma das figuras principais nessa disputa com
os filhos de Bolsonaro. Mas o ex presidente parece já ter decidido e serão seus
filhos a carregar a chama neofascista na contenda eleitoral. Respeitando a
tradição, quem não estiver de acordo será alvo a abater.
Entretanto
a direita do “neoliberalismo tradicional” mantém sua aspiração de candidatura
própria, afinal o bolsonarismo ainda não aprendeu a comer com garfo e faca e,
mais importante, tinha um plano de assassinato de dois dos seus. Mas o
neoliberalismo tem muitas dificuldades em ganhar eleições só com seu discurso.
Embora tenha incutido valores na sociedade, há muito que as teses neoliberais
têm dificuldade em penetrar numa classe trabalhadora esgotada de uma economia
que funciona contra si. Não por acaso o neofascismo vai assumindo o papel de
frente na defesa dos interesses dos bilionários, desviando para a agenda de
costumes o foco político, escondendo de forma mais eficaz a contradição entre o
Capital e o Trabalho.
No
lavar das cestas será na proposta de domínio social que estes interesses se
encontram, garantindo lucros cada vez maiores para o grande capital enquanto
submetem a população trabalhadora à agenda reacionária de domínio ideológico
neofascista. Figura maior desse encontro é o ex Ministro da Fazenda Paulo
Guedes que até hoje nem investigado foi pelos muitos crimes econômicos
cometidos contra a população brasileira. É um encontro de vontades das elites,
com Judiciário, com tudo. Um encontro que, para já, parece ser Flávio Bolsonaro
a estabelecer num provável segundo turno das eleições presidenciais, podendo o
primeiro turno ser povoado de candidaturas de direita que mobilizará mais o seu
campo político. A fragmentação de candidatos à direita potenciará mais a
votação no segundo turno em torno do seu fio condutor: o anti petismo, o voto
anti esquerda.
O
governo parece querer jogar parado, confiando nalgumas medidas com apoio
popular deixadas para o último ano de mandato e nos dados econômicos. Com taxa
de ocupação alta e com o crescimento econômico estável, Lula parece confiar na
economia para a sua reeleição. Pena é que estes indicadores não se transportam
para a vida das famílias trabalhadoras. Uma economia que é construída em cima
de baixos salários e precariedade não traz satisfação popular. O social
liberalismo já devia ter aprendido que as políticas neoliberais derrotam
governos. Bolsonaro, Trump, Biden são alguns exemplos recentes da derrota da
austeridade nas urnas. Biden chegou a ter taxas de desocupação históricas
atingindo baixos níveis só vistos no pós segunda grande guerra. Mas ocupação
não é emprego com perspectiva de carreira, salário valorizado e condições de
trabalho dignas. E o povo já sabe disso.
Para
arriscar mais a posição do governo, o colete de forças orçamental autoimposto
vai criando muitas dificuldades de funcionamento do Estado. As limitações que o
arcabouço fiscal trouxe vão ser determinantes para as eleições presidenciais.
Sem investimento público de monta, acerto salarial significativo e com
diminuição das prestações sociais do Estado, será difícil a classe trabalhadora
se rever nesse projeto, podendo o arcabouço fiscal per si derrotar Lula. A
austeridade é a criptonita eleitoral também do social liberalismo.
Também
as medidas populares a aprovar neste ano eleitoral podem estar colocadas em
causa pela oposição no congresso e pela antecipação do Capital. A tão esperada
medida de alteração da escala de trabalho 6×1 pode estar a ser ultrapassada
pelas decisões judiciais, em particular a Pejotização que tramita no STF, e
promete driblar um conjunto de direitos da classe trabalhadora — inclusive a
alteração da escala. O grupo de distribuição do interior paulista Savegnago já
anunciou o início da escala 5×2 a partir de fevereiro em todas as suas 65
unidades. O Capital antecipa-se contando para isso com seu mais ágil serviçal,
o Judiciário.
Com a
importância estratégica que o Brasil tem será de esperar que o império mais uma
vez tente influenciar as eleições de 2026. Perante a sede imperialista de
Trump, o Palácio do Planalto parece apostar na entrega prévia de recursos ao
império a fim de apaziguar sua gula territorial, um gênero de entreguismo
preventivo. Tática desajustada para a fase de hiperimperialismo que a casa
branca vem desenvolvendo, prevendo-se a interferência das big techs na
tentativa de influenciar a disputa eleitoral, pendendo o jogo para o
neofascismo. Cenários de golpe também não são desconsideráveis.
É este
quadro de disputa intensa que requer uma candidatura à esquerda de Lula. Ao
contrário do que o senso comum possa indicar, a fragmentação de candidaturas à
esquerda potencializaria o voto de esquerda e diminuiria as chances de vitória
do neofascismo. A esquerda está descrente do projeto de Lula, que é mais ou
menos a continuação da política surgida do golpe de 2016. A política de juros
muito altos, a legislação trabalhista de Temer e a consolidação do Brasil como
fazenda do mundo com seus custos sociais e ambientais tem trazido o governo
Lula 3 a um descrédito diante da esquerda, que pode levar a uma desmobilização
eleitoral. Uma candidatura de esquerda dinamizaria esse campo político e,
apesar do governo ser ruim, poderia ser uma alavancagem na votação
antifascista. Mesmo sabendo que as políticas neoliberais são a pavimentação do
descrédito do sistema e que só o neofascismo tem sabido capitalizar por
ausência de projetos de esquerda, Lula não é neofascista e no segundo turno a
responsabilidade política indica o voto nele.
Urge
ativar uma agenda de esquerda na sociedade brasileira que dispute politicamente
com o grande Capital a mente e alma da classe trabalhadora. As eleições de 2026
serão muito apertadas e o arcabouço fiscal pode derrotar Lula. Mas mesmo que
ganhe, a herança política ancorada no neoliberalismo trará grandes desafios à
esquerda e à classe trabalhadora no pós Lula, estando abertas as portas para o
neofascismo governar de forma duradoura se não houver uma alternativa clara de
esquerda a ebulir na sociedade brasileira.
• PSOL rejeita federação com o PT para as
eleições de outubro
diretório
nacional do PSOL rejeitou, em reunião neste sábado (7), a proposta de federação
com o PT para as eleições de outubro. No entanto, o partido decidiu abrir mão
de uma candidatura ao Planalto para apoiar já no primeiro turno a campanha para
reeleição de Lula para seu quarto mandato.
“O
Diretório Nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) aprovou resoluções
estratégicas que definem os rumos da legenda para o próximo ciclo eleitoral. O
partido formalizou, de modo unânime, o apoio à reeleição do presidente Lula e
confirmou a manutenção da federação com a Rede Sustentabilidade por mais quatro
anos”, diz nota divulgada pela sigla.
Segundo
o diretório nacional, a decisão de apoiar Lula ainda no primeiro turno, assim
como em 2022, é apresentada pela sigla como um desdobramento direto de sua
prioridade política: o enfrentamento à extrema-direita. Segundo a resolução
aprovada, o PSOL abdica de uma candidatura própria à Presidência para priorizar
a unidade dos setores populares.
No
entanto, a proposta de ingresso do PSOL na Federação Brasil da Esperança
(PT-PCdoB-PV) não foi aprovada pelo Diretório Nacional do PSOL.
“O tema
foi acolhido e, assim como os demais, debatido de modo democrático e amplo,
conforme nossa tradição partidária. Vamos seguir agora orientados pelas
decisões hoje tomadas, mas sempre com respeito a posições divergentes”, diz a
presidenta nacional do PSOL, Paula Coradi – leia a íntegra do texto ao final da
reportagem.
<><> Proposta
A
proposta de uma federação em torno da eleição de Lula foi feita no final de
fevereiro pelo presidente do PT, Edinho Silva, em reunião com parlamentares e
dirigentes do PSOL.
“O
Brasil vive um momento histórico de definição de futuro, os blocos partidários
darão a dinâmica da agenda do país; construir um bloco com o compromisso de
construção de uma agenda que signifique legado para o país é um grande acerto”,
afirmou Edinho à Fórum em meio às negociações.
Edinho
ainda falou da proposta feita ao PSOL e acabou rejeitada neste sábado. “O que
estamos propondo ao PSOL é isso, uma federação que se mova por uma agenda para
o Brasil, sem que o partido perca sua autonomia. A direita está se organizando
em federações, temos que fazer o mesmo, a história exige esse movimento”.
Nas
redes sociais, a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP), que participou da reunião com
Edinho reafirmou “a importância da frente eleitoral para derrotar a extrema
direita, apoiando a reeleição de Lula” e disse que a proposta de federação será
debatida pelo Diretório Nacional do PSOL.
“Em
relação ao convite para compor federação com o PT, reafirmei que o PSOL deve
tomar sua decisão na reunião do Diretório Nacional, que acontecerá no dia 07”,
disse na ocasião.
A
deputada, no entanto, ressaltou que sua posição pessoal é pela “preservação da
independência política e programática do psol, contrária à Federação”.
“A
unidade eleitoral e nas lutas não implica que nosso partido deve se diluir nem
abrir mão de sua própria identidade. Além disso, esta Federação significaria a
adoção de táticas eleitorais nos estados que contrariam nossa visão de mundo e
princípios programáticos”, afirmou.
A
deputada disse ainda ter “convicção” de que o PSOL vai superar a cláusula de
barreira e que acredita que a posição pela independência em outubro seja
majoritária no partido.
>>>>
PSOL aprova, por unanimidade, o apoio à reeleição de Lula em 2026
Partido
também definiu como meta a ampliação da bancada no Congresso Nacional
São
Paulo, 7 de março de 2026 – Em reunião realizada neste sábado (7), o Diretório
Nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) aprovou resoluções
estratégicas que definem os rumos da legenda para o próximo ciclo eleitoral. O
partido formalizou, de modo unânime, o apoio à reeleição do presidente Lula e
confirmou a manutenção da federação com a Rede Sustentabilidade por mais quatro
anos.
A
presidenta nacional do PSOL, Paula Coradi, destacou a condução democrática do
processo de escuta e debates para a realização desta reunião do Diretório
Nacional. “O que havia para ser debatido foi debatido de modo amplo e
democrático, com todas as tendências do partido colaborando com os temas
propostos. Agora, é unir forças para reeleger Lula e ampliar nossa bancada de
deputados federais dentro da federação PSOL-Rede”, comenta a dirigente
psolista.
A
decisão de apoiar Lula ainda no primeiro turno, assim como em 2022, é
apresentada pela sigla como um desdobramento direto de sua prioridade política:
o enfrentamento à extrema-direita. Segundo a resolução aprovada, o PSOL abdica
de uma candidatura própria à Presidência para priorizar a unidade dos setores
populares.
“O PSOL
assumiu a responsabilidade histórica de fortalecer a unidade das esquerdas para
resistir aos retrocessos e reconstruir o Brasil”, afirma o documento, que cita
o histórico de oposição aos governos Temer e Bolsonaro como base para a aliança
em 2026.
Os
dirigentes nacionais ressaltaram que o apoio não é apenas eleitoral, mas também
serão apresentadas contribuições ao programa de governo. O objetivo é combinar
a “amplitude necessária para isolar o bolsonarismo” com o engajamento em torno
de um projeto de país soberano.
Além da
disputa pelo Planalto, o PSOL definiu como meta central a alteração da
correlação de forças no Congresso Nacional. O partido teceu duras críticas à
atual composição do Legislativo, classificada como um “escritório político” de
interesses financeiros e do ruralismo.
A
estratégia para o próximo pleito foca na ampliação das bancadas de esquerda
para confrontar o bloco do Centrão e as alas conservadoras. “Ampliar as
bancadas de parlamentares combativos é uma necessidade para virar o jogo em
favor do andar de baixo”, destaca o texto.
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Renovação da Federação PSOL-Rede
Outro
ponto central do encontro foi a renovação da aliança com a Rede
Sustentabilidade. A cúpula do partido avaliou como positivo o balanço dos
últimos quatro anos, consolidando a federação como uma ferramenta estratégica
para superar a cláusula de barreira, garantindo assim uma manutenção
institucional e o acesso a recursos. Além disso, a preservação da parceria visa
fortalecer as bancadas e ampliar a representatividade federal e estadual,
preservando a autonomia política e a identidade de cada sigla dentro de uma
unidade programática.
A
resolução se encerra reforçando que o PSOL se consolida como uma identidade
política combativa, capaz de dialogar com diversos setores da sociedade e
oferecer uma alternativa de futuro para a esquerda brasileira.
A
proposta de ingresso do PSOL na Federação Brasil da Esperança (PT-PCdoB-PV) não
foi aprovada pelo Diretório Nacional do PSOL. “O tema foi acolhido e, assim
como os demais, debatido de modo democrático e amplo, conforme nossa tradição
partidária. Vamos seguir agora orientados pelas decisões hoje tomadas, mas
sempre com respeito a posições divergentes”, finaliza a presidenta nacional do
PSOL, Paula Coradi.
Fonte:
Outras Palavras/Fórum

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