terça-feira, 10 de março de 2026

Rui Abreu: Eleições - há espaço à esquerda de Lula?

Com a devida distância da realidade e a alguns meses das eleições, as pesquisas vão apresentando um provável quadro de reeleição presidencial no Brasil. A imagem da presidência foi se recuperando na segunda metade do ano passado após alguns movimentos erráticos do neofascismo nacional e internacional. Pedidos de sanções, tarifas, tentativa do congresso blindar os crimes dos ricos e ataques à soberania foram fortalecendo o governo mesmo num quadro de precariedade econômica para a esmagadora maioria das famílias brasileiras que a isenção de rendimentos até cinco mil reais pretende mitigar. Sucessivos nomes são colocados em disputa com Lula e todos apresentam tendências de voto inferiores, tendo o presidente mais ou menos vantagem em todos os cenários.

Neste último ano de mandato em que são logicamente esperadas as melhores medidas da governação e com o bolsonarismo atravessando uma crise de sucessão, será de esperar uma reeleição menos apertada que a eleição? Lula não tem adversário à altura?

Direita e extrema direita vêm ensaiando diversas candidaturas presidenciais permitindo vários governadores se perfilarem perante o grande capital como potenciais representantes de seus interesses. De fenômenos populistas a oportunistas eleitos na esteira de Bolsonaro passando por agrofascistas, vários nomes são apresentados e consultados à sociedade e a resposta popular parece não deixar margem para candidatos de direita sem a chancela do bolsonarismo. A potencial candidatura de Tarcísio de Freitas é o caso mais visível e vem oscilando entre a emancipação do carioca em relação à família Bolsonaro e a sua aceitação como autêntico representante do ideário neofascista. Com a pré candidatura de Flávio Bolsonaro o instinto de sobrevivência parece se impôr e Tarcísio acalma sua ambição num quadro de reeleição fácil em São Paulo. 2030 é já ali.

Flávio Bolsonaro parece assumir a tarefa de reagrupar em seu torno a liderança da oposição, tarefa dificultada pelos sucessivos movimentos erráticos de seu irmão Eduardo que vivendo nos EUA conseguiu criar mais dano à extrema direita que o governo e a esquerda juntos. A imposição da vontade da família Bolsonaro nas candidaturas de Outubro de 2026 tem trazido muitas contradições na extrema direita envolvendo caciques locais e digitais. Os lugares a disputar para o senado em Santa Catarina e até a candidatura de Flávio têm despontado oposição interna, sendo Michelle Bolsonaro uma das figuras principais nessa disputa com os filhos de Bolsonaro. Mas o ex presidente parece já ter decidido e serão seus filhos a carregar a chama neofascista na contenda eleitoral. Respeitando a tradição, quem não estiver de acordo será alvo a abater.

Entretanto a direita do “neoliberalismo tradicional” mantém sua aspiração de candidatura própria, afinal o bolsonarismo ainda não aprendeu a comer com garfo e faca e, mais importante, tinha um plano de assassinato de dois dos seus. Mas o neoliberalismo tem muitas dificuldades em ganhar eleições só com seu discurso. Embora tenha incutido valores na sociedade, há muito que as teses neoliberais têm dificuldade em penetrar numa classe trabalhadora esgotada de uma economia que funciona contra si. Não por acaso o neofascismo vai assumindo o papel de frente na defesa dos interesses dos bilionários, desviando para a agenda de costumes o foco político, escondendo de forma mais eficaz a contradição entre o Capital e o Trabalho.

No lavar das cestas será na proposta de domínio social que estes interesses se encontram, garantindo lucros cada vez maiores para o grande capital enquanto submetem a população trabalhadora à agenda reacionária de domínio ideológico neofascista. Figura maior desse encontro é o ex Ministro da Fazenda Paulo Guedes que até hoje nem investigado foi pelos muitos crimes econômicos cometidos contra a população brasileira. É um encontro de vontades das elites, com Judiciário, com tudo. Um encontro que, para já, parece ser Flávio Bolsonaro a estabelecer num provável segundo turno das eleições presidenciais, podendo o primeiro turno ser povoado de candidaturas de direita que mobilizará mais o seu campo político. A fragmentação de candidatos à direita potenciará mais a votação no segundo turno em torno do seu fio condutor: o anti petismo, o voto anti esquerda.

O governo parece querer jogar parado, confiando nalgumas medidas com apoio popular deixadas para o último ano de mandato e nos dados econômicos. Com taxa de ocupação alta e com o crescimento econômico estável, Lula parece confiar na economia para a sua reeleição. Pena é que estes indicadores não se transportam para a vida das famílias trabalhadoras. Uma economia que é construída em cima de baixos salários e precariedade não traz satisfação popular. O social liberalismo já devia ter aprendido que as políticas neoliberais derrotam governos. Bolsonaro, Trump, Biden são alguns exemplos recentes da derrota da austeridade nas urnas. Biden chegou a ter taxas de desocupação históricas atingindo baixos níveis só vistos no pós segunda grande guerra. Mas ocupação não é emprego com perspectiva de carreira, salário valorizado e condições de trabalho dignas. E o povo já sabe disso.

Para arriscar mais a posição do governo, o colete de forças orçamental autoimposto vai criando muitas dificuldades de funcionamento do Estado. As limitações que o arcabouço fiscal trouxe vão ser determinantes para as eleições presidenciais. Sem investimento público de monta, acerto salarial significativo e com diminuição das prestações sociais do Estado, será difícil a classe trabalhadora se rever nesse projeto, podendo o arcabouço fiscal per si derrotar Lula. A austeridade é a criptonita eleitoral também do social liberalismo.

Também as medidas populares a aprovar neste ano eleitoral podem estar colocadas em causa pela oposição no congresso e pela antecipação do Capital. A tão esperada medida de alteração da escala de trabalho 6×1 pode estar a ser ultrapassada pelas decisões judiciais, em particular a Pejotização que tramita no STF, e promete driblar um conjunto de direitos da classe trabalhadora — inclusive a alteração da escala. O grupo de distribuição do interior paulista Savegnago já anunciou o início da escala 5×2 a partir de fevereiro em todas as suas 65 unidades. O Capital antecipa-se contando para isso com seu mais ágil serviçal, o Judiciário.

Com a importância estratégica que o Brasil tem será de esperar que o império mais uma vez tente influenciar as eleições de 2026. Perante a sede imperialista de Trump, o Palácio do Planalto parece apostar na entrega prévia de recursos ao império a fim de apaziguar sua gula territorial, um gênero de entreguismo preventivo. Tática desajustada para a fase de hiperimperialismo que a casa branca vem desenvolvendo, prevendo-se a interferência das big techs na tentativa de influenciar a disputa eleitoral, pendendo o jogo para o neofascismo. Cenários de golpe também não são desconsideráveis.

É este quadro de disputa intensa que requer uma candidatura à esquerda de Lula. Ao contrário do que o senso comum possa indicar, a fragmentação de candidaturas à esquerda potencializaria o voto de esquerda e diminuiria as chances de vitória do neofascismo. A esquerda está descrente do projeto de Lula, que é mais ou menos a continuação da política surgida do golpe de 2016. A política de juros muito altos, a legislação trabalhista de Temer e a consolidação do Brasil como fazenda do mundo com seus custos sociais e ambientais tem trazido o governo Lula 3 a um descrédito diante da esquerda, que pode levar a uma desmobilização eleitoral. Uma candidatura de esquerda dinamizaria esse campo político e, apesar do governo ser ruim, poderia ser uma alavancagem na votação antifascista. Mesmo sabendo que as políticas neoliberais são a pavimentação do descrédito do sistema e que só o neofascismo tem sabido capitalizar por ausência de projetos de esquerda, Lula não é neofascista e no segundo turno a responsabilidade política indica o voto nele.

Urge ativar uma agenda de esquerda na sociedade brasileira que dispute politicamente com o grande Capital a mente e alma da classe trabalhadora. As eleições de 2026 serão muito apertadas e o arcabouço fiscal pode derrotar Lula. Mas mesmo que ganhe, a herança política ancorada no neoliberalismo trará grandes desafios à esquerda e à classe trabalhadora no pós Lula, estando abertas as portas para o neofascismo governar de forma duradoura se não houver uma alternativa clara de esquerda a ebulir na sociedade brasileira.

•        PSOL rejeita federação com o PT para as eleições de outubro

diretório nacional do PSOL rejeitou, em reunião neste sábado (7), a proposta de federação com o PT para as eleições de outubro. No entanto, o partido decidiu abrir mão de uma candidatura ao Planalto para apoiar já no primeiro turno a campanha para reeleição de Lula para seu quarto mandato.

“O Diretório Nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) aprovou resoluções estratégicas que definem os rumos da legenda para o próximo ciclo eleitoral. O partido formalizou, de modo unânime, o apoio à reeleição do presidente Lula e confirmou a manutenção da federação com a Rede Sustentabilidade por mais quatro anos”, diz nota divulgada pela sigla.

Segundo o diretório nacional, a decisão de apoiar Lula ainda no primeiro turno, assim como em 2022, é apresentada pela sigla como um desdobramento direto de sua prioridade política: o enfrentamento à extrema-direita. Segundo a resolução aprovada, o PSOL abdica de uma candidatura própria à Presidência para priorizar a unidade dos setores populares.

No entanto, a proposta de ingresso do PSOL na Federação Brasil da Esperança (PT-PCdoB-PV) não foi aprovada pelo Diretório Nacional do PSOL.

“O tema foi acolhido e, assim como os demais, debatido de modo democrático e amplo, conforme nossa tradição partidária. Vamos seguir agora orientados pelas decisões hoje tomadas, mas sempre com respeito a posições divergentes”, diz a presidenta nacional do PSOL, Paula Coradi – leia a íntegra do texto ao final da reportagem.

<><>  Proposta

A proposta de uma federação em torno da eleição de Lula foi feita no final de fevereiro pelo presidente do PT, Edinho Silva, em reunião com parlamentares e dirigentes do PSOL.

“O Brasil vive um momento histórico de definição de futuro, os blocos partidários darão a dinâmica da agenda do país; construir um bloco com o compromisso de construção de uma agenda que signifique legado para o país é um grande acerto”, afirmou Edinho à Fórum em meio às negociações.

Edinho ainda falou da proposta feita ao PSOL e acabou rejeitada neste sábado. “O que estamos propondo ao PSOL é isso, uma federação que se mova por uma agenda para o Brasil, sem que o partido perca sua autonomia. A direita está se organizando em federações, temos que fazer o mesmo, a história exige esse movimento”.

Nas redes sociais, a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP), que participou da reunião com Edinho reafirmou “a importância da frente eleitoral para derrotar a extrema direita, apoiando a reeleição de Lula” e disse que a proposta de federação será debatida pelo Diretório Nacional do PSOL.

“Em relação ao convite para compor federação com o PT, reafirmei que o PSOL deve tomar sua decisão na reunião do Diretório Nacional, que acontecerá no dia 07”, disse na ocasião.

A deputada, no entanto, ressaltou que sua posição pessoal é pela “preservação da independência política e programática do psol, contrária à Federação”.

“A unidade eleitoral e nas lutas não implica que nosso partido deve se diluir nem abrir mão de sua própria identidade. Além disso, esta Federação significaria a adoção de táticas eleitorais nos estados que contrariam nossa visão de mundo e princípios programáticos”, afirmou.

A deputada disse ainda ter “convicção” de que o PSOL vai superar a cláusula de barreira e que acredita que a posição pela independência em outubro seja majoritária no partido.

>>>> PSOL aprova, por unanimidade, o apoio à reeleição de Lula em 2026

Partido também definiu como meta a ampliação da bancada no Congresso Nacional

São Paulo, 7 de março de 2026 – Em reunião realizada neste sábado (7), o Diretório Nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) aprovou resoluções estratégicas que definem os rumos da legenda para o próximo ciclo eleitoral. O partido formalizou, de modo unânime, o apoio à reeleição do presidente Lula e confirmou a manutenção da federação com a Rede Sustentabilidade por mais quatro anos.

A presidenta nacional do PSOL, Paula Coradi, destacou a condução democrática do processo de escuta e debates para a realização desta reunião do Diretório Nacional. “O que havia para ser debatido foi debatido de modo amplo e democrático, com todas as tendências do partido colaborando com os temas propostos. Agora, é unir forças para reeleger Lula e ampliar nossa bancada de deputados federais dentro da federação PSOL-Rede”, comenta a dirigente psolista.

A decisão de apoiar Lula ainda no primeiro turno, assim como em 2022, é apresentada pela sigla como um desdobramento direto de sua prioridade política: o enfrentamento à extrema-direita. Segundo a resolução aprovada, o PSOL abdica de uma candidatura própria à Presidência para priorizar a unidade dos setores populares.

“O PSOL assumiu a responsabilidade histórica de fortalecer a unidade das esquerdas para resistir aos retrocessos e reconstruir o Brasil”, afirma o documento, que cita o histórico de oposição aos governos Temer e Bolsonaro como base para a aliança em 2026.

Os dirigentes nacionais ressaltaram que o apoio não é apenas eleitoral, mas também serão apresentadas contribuições ao programa de governo. O objetivo é combinar a “amplitude necessária para isolar o bolsonarismo” com o engajamento em torno de um projeto de país soberano.

Além da disputa pelo Planalto, o PSOL definiu como meta central a alteração da correlação de forças no Congresso Nacional. O partido teceu duras críticas à atual composição do Legislativo, classificada como um “escritório político” de interesses financeiros e do ruralismo.

A estratégia para o próximo pleito foca na ampliação das bancadas de esquerda para confrontar o bloco do Centrão e as alas conservadoras. “Ampliar as bancadas de parlamentares combativos é uma necessidade para virar o jogo em favor do andar de baixo”, destaca o texto.

>>>> Renovação da Federação PSOL-Rede

Outro ponto central do encontro foi a renovação da aliança com a Rede Sustentabilidade. A cúpula do partido avaliou como positivo o balanço dos últimos quatro anos, consolidando a federação como uma ferramenta estratégica para superar a cláusula de barreira, garantindo assim uma manutenção institucional e o acesso a recursos. Além disso, a preservação da parceria visa fortalecer as bancadas e ampliar a representatividade federal e estadual, preservando a autonomia política e a identidade de cada sigla dentro de uma unidade programática.

A resolução se encerra reforçando que o PSOL se consolida como uma identidade política combativa, capaz de dialogar com diversos setores da sociedade e oferecer uma alternativa de futuro para a esquerda brasileira.

A proposta de ingresso do PSOL na Federação Brasil da Esperança (PT-PCdoB-PV) não foi aprovada pelo Diretório Nacional do PSOL. “O tema foi acolhido e, assim como os demais, debatido de modo democrático e amplo, conforme nossa tradição partidária. Vamos seguir agora orientados pelas decisões hoje tomadas, mas sempre com respeito a posições divergentes”, finaliza a presidenta nacional do PSOL, Paula Coradi.

 

Fonte: Outras Palavras/Fórum

 

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