Elias
Jabbour: A construção de um Estado de direito na China
O
desafio chinês que se inicia no final dos anos de 1970, com as reformas
econômicas, não se restringe ao desenvolvimento acelerado das forças
produtivas. Esse é somente um aspecto, central, do desafio da governança do
país em prover o país de capacidade para enfrentar as grandes tarefas que a
história e conjuntura impões, de forma constante. Um aspecto pouco discutido
fora da China é a formação inédita de um Estado de Direito cuja missão é
espelhar o nível de desenvolvimento das forças produtivas do país e entregar as
garantias legais para a manutenção do desenvolvimento econômico.
Simultaneamente
este Estado de direito também deve ser reflexo de uma economia onde diversas
formas de propriedade coexistem sob o comando da propriedade pública, assim
como deve estar apta a responder às mudanças rápidas que a sociedade chinesa
tem passado ao longo das décadas.
Em
resumo: a construção de um Estado de direito de tipo socialista é algo tão novo
na história do socialismo, quanto desafiador. Os processos envolvendo a
realização das “duas sessões” é o ápice deste processo, sendo a representação
popular um grande símbolo deste Estado de direito que cresce, se desenvolve e
entrega – ao contrário do Ocidente onde a justiça serve somente aos interesses
dos ricos e milionários e o povo não acredita mais na justiça e no próprio
Estado – cada vez mais confiança do povo chinês nas instituições que regem o
país.
O
presidente chinês Xi Jinping tem sido um grande elaborador sobre as grandes
ideias e noções que devem permear o processo de contínua construção deste
Estado de direito que garanta solidez à governança da China assim como
garantias legais ao livre desenvolvimento do país. A liderança do Partido
Comunista da China é o princípio básico deste processo.
Segundo
Xi Jinping que também é secretário-geral do Comitê Central do Partido Comunista
da China: “Introduzimos na Constituição que a liderança do PCCh é a
característica definidora do socialismo chinês, e melhoramos os sistemas para
assegurar que o Partido dê orientação à legislação, garanta a aplicação da lei,
apoie a Justiça, dê seu exemplo na observância da lei, fortalecendo a liderança
do Partido sobre a administração integral do país nos termos da lei. (…) Todos
os camaradas do Partido devem estar claramente cientes de que a promoção da
administração integral do país conforme a lei não visa enfraquecer a liderança
do Partido, mas sim fortalecê-la e melhorá-la. Devemos melhorar os sistemas e
os mecanismos de trabalho pelos quais o nosso Partido exerce a sua liderança
sobre a administração integral do país conforme a lei e promover a sua
institucionalização e o seu exercício baseado na lei, de modo a garantir a
efetiva implementação das linhas, diretrizes e políticas do Partido. Devemos
impulsionar simultaneamente a administração do país conforme a lei e a
administração do Partido conforme suas disciplinas e regulamentos, assegurando
que o Partido não apenas governe o país conforme a Constituição e a lei, como
também se administre a si mesmo estritamente de acordo com suas regras e
regulamentos internos”.
Ora,
para os comunistas desde a primeira experiência socialista da história da União
Soviética, a questão do poder político sempre foi central. As leis e
regulamentos de um país socialista devem garantir que esse poder não seja
subvertido. Ao contrário, deve ser fortalecido. Por outro lado, como sistema
social novo, construir as bases legais de funcionamento de uma sociedade não
mais regida pela centralidade da propriedade privada tem sido um exercício
desafiador. No caso chinês, por exemplo, este processo tem culminado na
elaboração e execução de planos com este objetivo.
Importante
notar que ao lado de garantir legalmente o poder político do Partido Comunista
da China como um pressuposto fundamental para a garantia da lei e da ordem no
país, a China tem inovado em matéria de Estado de direito. Em comparação com os
países capitalistas onde a lei e a ordem devem servir para justificar a
sacralidade da propriedade privada e manter o povo sob estrito controle, na
China o centro do Estado de direito deve ser justamente o povo e seus
interesses.
Xi
Jinping deixa isso muito claro: “O povo constitui a base mais ampla e sólida
para a administração integral do país conforme a lei, por isso, temos de
trabalhar pelo povo e apoiar-nos nele. Em todos os setores e em todo o processo
da nossa administração baseada na lei, devemos representar os interesses e a
vontade do povo, salvaguardar seus direitos e interesses e melhorar seu
bem-estar. Além disso, devemos garantir que o povo, sob a liderança do Partido,
administre, através de diversas formas e por diversos meios, os assuntos
estatais, incluindo os assuntos econômicos, culturais e sociais, e que ele, nos
termos da lei, goze de amplos direitos e liberdades e cumpra com seus deveres”.
Aqui,
neste caso não se trata somente de garantir que o povo tenha acesso a direitos
e deveres na construção da sociedade. Trata-se de garantir que o povo tenha
acesso ao próprio poder decisório do país. Por exemplo, as “duas sessões” é o
momento mais explícito deste processo.
Ao
contrário dos países capitalistas onde a força do dinheiro e da influência
econômica por um punhado de privilegiados contamina o poder e o direciona para
objetivos particulares, na China o processo legislativo tem refletido o
desenvolvimento de uma democracia socialista que garante ao povo poder de
decisão sobre grandes questões. Exemplo disso foi a consulta pública ampla para
a elaboração do 15º Plano Quinquenal que terá início no ano de 2026.
Portanto,
e em resumo, a construção de um Estado de direito na China é um desafio
constante tendo em vista a rápida mudança na base material do país e o aumento
do nível de complexidade da sociedade. Devemos reconhecer que a República
Popular da China tem conseguido, com êxito, desenvolver formas jurídicas de um
Estado de novo tipo, não comandado por uma minoria de ricos que orienta o país
a conter os anseios do povo, reprimindo com violência as espontâneas
manifestações populares e garantindo base legal para a violação da soberania
nacional de outros países e fazer a guerra.
A China
liderada pelo Partido Comunista da China é um grande laboratório de constante
exercício do poder popular. Xi Jinping, por sua vez personifica um processo
único de evolução humana baseada em um Estado de Direito orientado a servir os
interesses do povo, não dos ricos.
¨
A China e o poder de fogo da moderação. Por Fernando
Capotondo
Pequim
condenou o ataque ao Irã, acusou os Estados Unidos de serem “viciados em
guerra” e lançou uma intensa ofensiva diplomática. Por trás dessa postura,
acadêmicos chineses alertam que uma ordem internacional sustentada pela força
está condenada ao fracasso.
Em 28
de fevereiro, poucas horas depois do ataque dos Estados Unidos e de Israel ao
Irã, a agência de notícias Xinhua divulgou a primeira declaração do Ministério
das Relações Exteriores da China, pedindo a cessação imediata da ofensiva
militar e a retomada do diálogo e das negociações. “A soberania, a segurança e
a integridade territorial do Irã devem ser respeitadas”, foi a posição que
Pequim sustentou desde o início. Nada de novo sob o sol: os mesmos princípios
da Carta da ONU que os Estados Unidos assinaram e que, na prática, parecem ter
sido cuidadosamente arquivados.
“O
verdadeiro valor da força militar não reside no campo de batalha, mas em
prevenir a guerra”; “o mundo não deve voltar à lei da selva” e “os grandes
países não devem usar sua vantagem militar para lançar ataques arbitrários
contra outras nações”, afirmou o chanceler chinês Wang Yi durante uma rodada de
maratonas conversas que manteve nesta semana com seus homólogos da Rússia,
Israel, Irã, França, Omã e Emirados Árabes Unidos.
Wang
não fez mais do que reiterar a histórica defesa chinesa da soberania, da não
intervenção e do multilateralismo. Conceitos que, embora desfrutem de amplo
consenso internacional, no clima atual deram lugar a todo tipo de especulação
sobre supostas intenções ocultas de Pequim.
Nesse
cenário — e é um dado que poucos mencionam — a China pediu que os Estados
Unidos e o Irã retomem o quanto antes o diálogo sobre a questão nuclear.
Sobretudo depois que o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica
(AIEA), das Nações Unidas, insistiu que não existem evidências de que Teerã
tenha desenvolvido um programa nuclear armamentista “estruturado”. O governo
chinês foi além e, em um gesto que marcou distância de Washington, esclareceu
que “respeita o direito legítimo do Irã ao uso pacífico da energia atômica”.
Foi o que afirmou Mao Ning, porta-voz da chancelaria, em coletivas de imprensa
que a administração Trump provavelmente não ouviu ou escolheu ignorar.
Além
das gestões diplomáticas, que incluirão o envio do mediador Zhai Jun à região,
um detalhe que quase se perdeu no turbilhão dos primeiros boletins de guerra
foi a acusação lançada pelo Ministério da Defesa Nacional da China. “Os Estados
Unidos são viciados em guerra. Ao longo de seus 240 anos de história, estiveram
em guerra em todos os anos, exceto em 16. Têm 800 bases militares em mais de 80
países e são a principal causa da desordem internacional”, afirmou um porta-voz
ministerial. Isso ocorreu justamente quando a atenção da mídia se concentrava
na confirmação da morte do líder espiritual iraniano, o aiatolá Ali Khamenei —
um timing que dificilmente foi casual.
Para
entender melhor a posição chinesa, convém ouvir dois acadêmicos cujas vozes
raramente chegam ao Ocidente. O primeiro é Sun Degang, diretor do Centro de
Estudos do Oriente Médio da Universidade Fudan. De seu escritório em Xangai,
Sun ofereceu ao Global Times uma leitura mais estrutural do conflito. Segundo
ele, para Teerã a tecnologia nuclear não é um luxo ideológico, mas uma questão
de sobrevivência em um ambiente regional que percebe como hostil e
desequilibrado. Sem poder — ou sem querer — cruzar o limiar armamentista, o Irã
teria optado por desenvolver capacidades que funcionem como dissuasão implícita
diante de Israel e dos Estados Unidos.
No
fundo, a disputa não gira em torno de centrífugas, mas do poder de definir quem
estabelece o equilíbrio nuclear no Oriente Médio. A ambição tecnológica
iraniana desafia um status quo que Washington considera central para sua
arquitetura regional de alianças.
Já o
professor da Universidade de Assuntos Exteriores da China, Li Haidong, preferiu
olhar para o passado. Em conversa com o mesmo veículo, recordou que Washington
incentivou o programa nuclear iraniano nos anos 1950, quando Teerã era um
aliado estratégico, e que a retórica da não proliferação hoje é aplicada com
critérios variáveis, conforme o alinhamento geopolítico do momento. Na
avaliação dele, essa seletividade corroeu a credibilidade do regime
internacional de controle nuclear. Por trás das normas, sugeriu, opera uma
lógica de poder hegemônico.
Sun
acredita que o problema vai muito além do Irã. Se as potências começarem a
resolver disputas em nome da não proliferação por meio de ataques militares, o
sistema internacional entrará em um terreno perigosamente escorregadio. O
precedente poderia se espalhar rapidamente para outras zonas de tensão: a
fronteira entre Paquistão e Afeganistão, a guerra na Ucrânia ou a sempre
instável península coreana. Nesse cenário, adverte, a cooperação multilateral
perde peso e volta a se impor a lógica crua da competição entre potências.
Enquanto
isso, os meios de comunicação chineses endureceram o tom. Sustentaram que é
inaceitável que Estados Unidos e Israel tenham assassinado abertamente o líder
de uma nação soberana e incentivado uma mudança de regime, em um desprezo
explícito pelas normas básicas que regem as relações internacionais. Também
advertiram que o conflito já se projeta sobre países vizinhos como Bahrein,
Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Catar, enquanto um eventual fechamento do
Estreito de Ormuz ameaça desestabilizar o fornecimento mundial de energia.
O
governo chinês, por sua vez, escolheu a moderação. Não por falta de poder —
isso seria simplificar demais —, mas porque sustenta, talvez com alguma
ingenuidade ou talvez com uma lucidez que o tempo confirmará, que uma ordem
internacional sustentada pela força das armas está, cedo ou tarde, condenada ao
fracasso.
Em
tempos de insultos e bravatas, a prudência pode ser a forma mais sofisticada de
poder. Ainda que, claro, essa paciência possa se tornar frágil se o petróleo
começar a escassear (a China é destino de 80% das exportações de combustível
iraniano).
O
conflito, como já indicam algumas reportagens preliminares, está em pleno
desenvolvimento.
¨
Falta de interação entre EUA e China levará ao confronto
prejudicando o mundo, diz chanceler chinês
As
relações entre a China e os EUA afetam o mundo inteiro, a falta de interação só
levará a mal-entendidos e confrontos, prejudicando ainda mais o mundo, disse no
domingo (8) o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, em uma coletiva
de imprensa anual.
"A relação Estados
Unidos-China afeta
os interesses de muitas partes e tem implicações globais. Se os dois
países não interagirem entre si, isso só levará a mal-entendidos, julgamentos
errados, conflitos, confrontos e mais danos à paz", disse Wang Yi.
A China
e os EUA não podem mudar um ao outro, mas podem mudar o padrão de coexistência,
disse o chanceler chinês.
"Tanto
a China como os EUA são grandes Estados. Não podemos mudar um ao outro, mas
podemos mudar a maneira como vivemos juntos, nomeadamente mantendo o respeito
mútuo, defendendo os fundamentos da coexistência
pacífica e
buscando oportunidades para uma cooperação mutuamente benéfica", disse
ele.
Já
sobre a relação entre Moscou e Pequim, Wang Yi disse que os países no plano
estratégico são independentes e autônomos e mantêm um alto nível de confiança
mútua.
"China
e Rússia são estrategicamente independentes e autônomos [...]. A China e a
Rússia têm um alto grau de
confiança política mútua,
e sua relação é caracterizada pelo princípio 'costas com costas'", disse
ele.
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Questão de Taiwan é assunto da China e 'linha vermelha' não pode ser
ultrapassada, diz chanceler
A
questão de Taiwan é um assunto interno da China e constitui a base de seus
interesses mais fundamentais e essa "linha vermelha" não pode ser
ultrapassada, declarou no domingo o ministro das Relações Exteriores da China,
Wang Yi, durante coletiva de imprensa anual.
"A
questão de Taiwan diz respeito aos assuntos internos da China e é a base dos
interesses mais importantes da China. Essa linha vermelha não pode ser
ultrapassada nem violada", afirmou Wang Yi. O diplomata destacou que
o processo histórico de reunificação completa de Taiwan com a China é
irreversível.
Wang Yi
também declarou que a China jamais
permitirá que qualquer pessoa ou força separe Taiwan do país.
"Nunca mais permitiremos que qualquer indivíduo ou qualquer força volte a
separar da China Taiwan, que foi libertado há mais de 80 anos", afirmou.
A
coletiva de imprensa do chanceler chinês ocorre no âmbito da Quarta Sessão da
14ª Assembleia Popular Nacional, o mais alto órgão legislativo do país,
realizada em Pequim de 5 a 12 de março.
Pequim
considera Taiwan parte inalienável da República Popular da China, e o respeito
ao princípio de "uma só China" é condição obrigatória para que outros
países estabeleçam ou mantenham relações diplomáticas com o país.
As relações
oficiais entre o governo central da China e sua província insular foram
interrompidas em 1949, após as forças do Kuomintang, lideradas por Chiang
Kai-shek e derrotadas na guerra civil contra o Partido Comunista da
China,
se retirarem para Taiwan. Os contatos comerciais e informais entre a ilha e a
China continental foram retomados no final da década de 1980.
Desde o
início dos anos 1990, as partes passaram a se comunicar por meio de
organizações não governamentais: a Associação para o Desenvolvimento das
Relações através do Estreito de Taiwan, em Pequim, e a Fundação para
Intercâmbios através do Estreito, em Taipé.
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China defende cooperação igualitária com a América Latina
A
cooperação entre Pequim e os países da América Latina se baseia em respeito
mútuo e igualdade, e não deve sofrer interferência externa, afirmou o ministro
das Relações Exteriores da China, Wang Yi.
Segundo
o chanceler, os próprios países latino-americanos devem decidir como
usar seus recursos e com quem cooperar. Ele também destacou que a China
não busca cálculos geopolíticos nem interfere nos assuntos internos da
região.
Wang Yi
acrescentou que os países do Sul Global devem fortalecer a
coordenação para defender seus interesses e enfrentar o hegemonismo,
ressaltando que essas nações já representam mais de 40% da economia
mundial.
Fonte: A
Terra é Redonda/Brasil 247/Sputnik Brasil

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