Jaldes
Meneses: Fascismo histórico e novo fascismo
Prestes
a completar 100 dias de seu segundo governo, pouco antes do fim de abril do ano
passado – após o feito político inegável de uma campanha eleitoral na qual
logrou, além de derrotar um partido democrata em crise de identidade, escapar
de um processo de prisão por sedição graças à incúria atávica das instituições
dos Estados Unidos (antes tão louvadas pela consciência ingênua liberal) –, o
presidente Donald Trump declarou, altissonante, em entrevista à revista The
Atlantic, pouco depois de ter assinado decretos de indulto para 1500
participantes da histórica invasão ao Capitólio de 6 de janeiro de 2021: que no
primeiro mandato couberam-lhe “duas coisas” – “governar o país e sobreviver” –,
como se estivesse reconhecendo o terreno hostil. Agora, porém, “eu governo o
país e o mundo”.
Ressoa
na sentença trumpiana algo do megalomaníaco desafio a si mesmo do colonialista
inglês Cecil Rhodes: “Eu anexaria os planetas se pudesse”, epígrafe da segunda
parte de Origens do totalitarismo, sobre o Imperialismo (Hannah Arendt).
Donald
Trump também insinuou a possibilidade de um terceiro mandato –algo vedado pela
Vigésima Segunda Emenda à Constituição, que limita um presidente a dois
mandatos. Ao fazê-lo, esboçou o cenário de um golpe de Estado inédito na
história dos Estados Unidos, que poderia, em tese, desencadear uma segunda
Guerra Civil e, em última instância, levar à instalação de uma ditadura
bonapartista.
Como se
sabe desde as páginas clássicas de Marx, trata-se de um modelo de poder
personalista e autoritário que se eleva acima das classes em conflito,
simulando uma arbitragem unipessoal e providencial. Eis, quem diria?, o cenário
possível não de uma república latino-americana, mas do país da mitológica
“democracia” celebrada há dois séculos pela prosa ideológica
liberal-conservadora.
Mas,
para o autodeclarado dono do mundo, constituir-se ditador do próprio Estado não
bastava; seria muito pouco. Em outra declaração, em que desancava o direito
internacional, só havia um limite ao seu poder: “a minha própria moralidade, a
minha própria mente”.
Estas
declarações colocam as instituições americanas às voltas com o espectro de uma
“contrarrevolução” de extrema direita, que assombrava o pensamento de um Alexis
de Tocqueville como o futuro da Europa – razão de seu elogio aos Estados Unidos
oitocentistas. Era o medo de que a busca por igualdade, própria da luta de
classes europeia, degenerasse em novo despotismo. A hipótese de um despotismo
trumpiano testaria os limites dessas teorias.
Por
décadas, as ciências sociais dominantes sustentaram a tese de que o fascismo e
o nazismo históricos decorriam do atraso de países com culturas tradicionais,
que ingressaram tardiamente na corrida imperialista clássica, em fins do século
XIX e início do XX.
Tanto a
Alemanha quanto a Itália eram interpretadas como “vias tardias” do capitalismo,
nações que construíram o Estado nacional e se industrializaram por meio de
“revoluções passivas” – transformações capitalistas conduzidas “por cima”, sem
ruptura revolucionária ampla e sem uma burguesia revolucionária plenamente
constituída. A Alemanha unificou-se apenas em 1871, e a Itália em 1861,
consolidando Estados que preservaram estruturas sociais arcaicas, ao mesmo
tempo que desenvolviam as forças produtivas do capitalismo.
Segundo
essa visão, ambos os países não realizaram reformas estruturais profundas, como
uma reforma agrária abrangente, que democratizasse a propriedade e quebrasse o
poder da aristocracia agrária. Parafraseando obras influentes, como as de
Barrington Moore Jr. e Alexander Gerschenkron, estas seriam as origens do
“drama” da ditadura e da tendência ao “eclipse da democracia” nestes países.
No caso
alemão, em particular, argumentava-se que se construiu uma base econômica
capitalista avançada e tecnologicamente sofisticada, mas sobre alicerces
políticos e sociais pré-modernos, sem as sólidas bases democráticas, cultura
cívica e tradição liberal que teriam sido consolidadas em nações como a
Inglaterra ou a França.
Neste
sentido, a chamada “via prussiana” de modernização – discutida por marxistas
clássicos como Vladímir Lênin e György Lukács –, caracterizada pelo comando do
Estado e pela aliança entre a burguesia industrial nascente e a velha
aristocracia agrária junker, teria transformado a Alemanha numa espécie de
“nação dissidente” do caminho liberal ocidental.
Como
resultado dessa trajetória singular, floresceu uma linha intelectual de viés
culturalista e essencialista, que atribuía ao país raízes nacionais-populares
específicas, distintas e muitas vezes antagônicas aos valores universalistas da
cultura europeia dominante. Esta perspectiva cunhou o conceito do “caminho
singular” (Sonderweg) da história alemã, buscando suas origens em uma linhagem
intelectual que passava pela filosofia romântica e organicista de Schelling,
pelo historicismo particularista de Johann Gottfried von Herder, pela crítica
radical à modernidade e pelo niilismo de Nietzsche, e culminava na tese da
“decadência do Ocidente” de Oswald Spengler. Aqui, a “decadência” deve ser
entendida como o declínio da modernidade europeia racionalista, universalista e
“decadente”, e não como um juízo sobre o vigor da cultura popular germânica.
Pelo contrário, para pensadores como Oswald Spengler, os mitos, identidades e a
suposta vitalidade orgânica teutônicas representavam o antídoto, e não o
veneno, para essa decadência civilizacional.
Ambas
as interpretações – a estrutural-econômica, focada no atraso e nas contradições
da modernização, e a histórico-cultural, centrada na singularidade identitária
–, apesar de suas diferenças, convergiam ao apresentar o nazismo e o fascismo
histórico como vias distintas e antagônicas à do liberalismo clássico.
Daí
decorria um corolário quase axiomático: nos Estados Unidos, onde o capitalismo
avançado se desenvolvera sob a égide inquestionável do liberalismo político e
econômico, o sistema estaria imune às tentações da tirania fascista,
considerada um mal-estar específico de sociedades desequilibradas ou “doentes”.
Se essa
explicação histórica é útil para compreender a ascensão e queda do fascismo na
primeira metade do século XX, lanço neste artigo a hipótese de que tal matriz
causal específica já esgotou seus efeitos explicativos para o presente.
Encontramo-nos, no século XXI, diante de novas causalidades e de um fenômeno
politicamente distinto, embora familiar em seu ethos: um “novo fascismo”.
Esta
categoria merece aprofundamento, pois não se trata de uma réplica epigonal do
modelo histórico. Em sentido profundo, movimentos como o Make America Great
Again (MAGA) nos Estados Unidos, e o bolsonarismo no Brasil, integram essa nova
onda internacional, que emerge em contextos radicalmente diversos dos anos
1920-30.
Para
compreendê-los, a “caixa de ferramentas” conceitual de autores que estudaram o
fascismo histórico, como Antonio Gramsci (especialmente nos Cadernos do
Cárcere) e Palmiro Togliatti, permanece
útil – não para replicar mecanicamente um checklist de características, mas
para ajudar a iluminar os processos de “crise orgânica” e falência da
representação política que abrem espaço para soluções autoritárias em
sociedades capitalistas maduras.
No
entanto, é crucial reconhecer que atendem a processos de gênese e se manifestam
em contextos aparentemente parecidos à primeira vista, mas distintos em sua
essência: o fascismo histórico e o novo fascismo nascem em fases distintas do
capitalismo e se utilizam de tecnologias, linguagens e estratégias de
mobilização comparáveis (nunca equivalentes), mas estruturalmente
diferenciados.
Esses
pensadores demonstraram que o “Estado ampliado” – categoria que engloba a
sociedade civil, as instituições culturais e os aparelhos privados de hegemonia
– carrega sempre, em seu seio, os germes do autoritarismo. O fascismo, novo ou
histórico, funciona frequentemente como uma espécie de “lado B”, uma força de
reserva reacionária das classes dominantes, pronta a ser acionada ou tolerada
em momentos de crise hegemônica profunda, quando a política tradicional entra
em colapso e a ordem liberal não consegue mais mediar os conflitos ou garantir
sua própria reprodução.
Há,
contudo, uma novidade crucial. Na literatura clássica, eram consideradas
vulneráveis ao fascismo principalmente sociedades de “capitalismo tardio” ou
periféricas, como Itália, Alemanha ou Brasil, marcadas por modernizações
truncadas.
Atualmente,
a ascensão de figuras como Donald Trump nos Estados Unidos coloca em xeque essa
tese e sugere que o fenômeno fascista é mais universal e imanente ao
capitalismo, podendo emergir no próprio coração do capitalismo liberal avançado
e globalizado, como uma característica patológica e endógena de suas crises, e
não como um atributo exclusivo de formações históricas “atrasadas”.
No
cotidiano, na sociabilidade e na psique do capitalismo avançado estão os germes
do novo fascismo. O escritor Umberto Eco, em seu conhecido ensaio O fascismo
eterno (1995), tangencia essa questão ao descrever um “fascismo cotidiano” ou
“ur-fascismo”, uma tentação autoritária plástica que não vem apenas “sobre nós”
como um regime formal, mas também “de dentro de nós”, podendo se ambientar e
proliferar mesmo nas democracias liberais consolidadas no pós-guerra.
De
forma convergente, pensadores pós-estruturalistas, após os movimentos de 1968,
lançaram a tese da existência de um “microfascismo” disseminado nas próprias
estruturas microfísicas de poder do capitalismo do welfare state – um fascismo
do “avanço” e da sociedade de controle (das redes sociais), e não mais apenas
do “atraso” e da sociedade disciplinar.
Tais
“novos fascismos” não representam uma força “revolucionária” ou antagônica ao
sistema econômico capitalista, mas exatamente o inverso: uma força
contrarrevolucionária e profundamente reacionária que, sentindo a ordem
tradicional de privilégios e hierarquias ameaçada por mudanças culturais e
sociais, recorre a métodos que vão da desinformação massiva e do lawfare a
ações terroristas e insurrecionais, negando a política deliberativa para
restaurar uma hierarquia social mítica e excluir os considerados “diferentes”.
Considerar
os novos fascismos, como o trumpismo, o bolsonarismo, ou o Vox ou o Chega, na
Espanha e Portugal, entre outros,como forças “antissistema” ou “populistas”
conduz a uma perigosa subestimação de seu caráter catastrófico e de seu
profundo enraizamento em setores das elites econômicas e das instituições do
próprio capitalismo financeiro e digital do século XXI. O famoso “ovo da
serpente” está incubado exatamente no seio das instituições da “democracia
liberal” dos grandes países centrais, alimentado pela desigualdade extrema,
pela crise ecológica e pelo colapso dos futuros coletivos.
Essa
corrupção endógena das “democracias liberais” nos países imperialistas, com os
Estados Unidos à frente, pode ser pensada, nos termos que Políbio – o
historiador da decadência dos gregos e do mundo helenístico sob o domínio de
Roma – descreveu como anaciclose (o ciclo de degeneração das constituições).
Este
processo vai além de um mero viés econômico ou da busca pelo lucro; trata-se de
uma degeneração moral e política intrínseca a um “modelo de negócio”
civilizacional, com raízes na natureza patológica de uma esfera pública
colonizada pelo capital, que produz isolamento, ressentimento e uma crise de
sentido que as formas políticas tradicionais já não conseguem processar. É
nesta falha sistêmica que o novo fascismo encontra seu terreno fértil.
Fonte:
A Terra é Redonda

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