terça-feira, 10 de março de 2026

Como Guerra do Irã coloca em xeque as ambições da China

A China não está sendo afetada diretamente pela guerra no Oriente Médio — até agora. Mas está sentindo as ondas de choque. No curto prazo, o país tem reservas de petróleo suficientes para vários meses. E, depois disso, Pequim poderá pedir ajuda para a vizinha Rússia. Mas a China irá calcular o que isso pode significar a longo prazo, não apenas para os seus investimentos no Oriente Médio, mas também para suas ambições globais.

No início de março, milhares de delegados do Partido Comunista Chinês estão reunidos em Pequim para discutir o rumo a ser tomado pela segunda maior economia do mundo, que continua enfrentando baixos níveis de consumo, uma prolongada crise imobiliária e uma enorme dívida interna. Pela primeira vez desde 1991, o governo chinês reduziu suas expectativas de crescimento econômico, apesar do seu rápido desenvolvimento em alta tecnologia e indústrias renováveis.

A China pode ter esperado que a exportação fosse a saída para os seus problemas econômicos. Mas o país passou um ano travando uma guerra comercial com os Estados Unidos. Agora, Pequim enfrenta a perspectiva de convulsões no Oriente Médio, que oferece as suas principais rotas de navegação e abastece grande parte das suas necessidades de energia.

Quanto mais tempo se arrastar a guerra, maiores serão os prejuízos, especialmente se o tráfego pelo Estreito de Ormuz permanecer bloqueado. "Um período prolongado de turbulência e insegurança no Oriente Médio prejudicará outros setores importantes para a China", segundo Philip Shetler-Jones, do centro de estudos britânico Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança (Rusi, na sigla em inglês).

Ele destaca que "as economias africanas, por exemplo, têm se beneficiado de fluxos constantes e substanciais de capitais do Golfo". "Se a onda de investimentos desaparecer, haverá o risco de aumento da instabilidade, o que prejudica a sustentabilidade dos interesses chineses maiores e de longo prazo." Ou seja, a pegada global da China faz com que seus investimentos e mercados além do Oriente Médio também fiquem vulneráveis à continuidade da guerra. E, como tantos outros países, a China está atenta a este novo período de imprevisibilidade. "Acho que a China pensa da mesma forma que todo mundo", segundo o professor Kerry Brown, do King's College de Londres. "Qual é o plano de jogo? Certamente, os americanos não entraram nisso sem um planejamento. Mas, como todo mundo, provavelmente eles também estão pensando 'oh, meu Deus, eles realmente entraram nisso sem plano nenhum'", prossegue Brown. "'Certo, não queremos ser arrastados para isso, como não queremos ser arrastados para nada, mas também precisamos fazer algo.'"

<><> Amigos não tão próximos

Muitos no Ocidente sempre consideraram o Irã "aliado" da China. E, com certeza, os dois países têm sido amigáveis entre si. A última viagem para o exterior do ex-líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026), foi para Pequim, em 1989. Ele chegou a ser fotografado na Grande Muralha da China. A parceria entre os dois países se aprofundou quando Xi Jinping visitou Teerã em 2016. E ambos assinaram uma parceria estratégica de 25 anos em 2021. A China prometeu investir US$ 400 bilhões (cerca de R$ 2,1 trilhões) no Irã ao longo de 25 anos. Em troca, o Irã manteria o fluxo de petróleo para Pequim. Mas analistas acreditam que apenas uma fração daquele dinheiro chegou aos iranianos. E o fluxo de petróleo foi mantido.

A China importou do Irã 1,38 milhão de barris de petróleo por dia em 2025, segundo o Centro de Política Energética Global. O volume representa cerca de 12% do total das importações chinesas de petróleo bruto. Grande parte deste volume teria sido remarcada como de origem malaia, para ocultar sua origem.

O centro de pesquisa da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, publicou um relatório afirmando que há mais de 46 milhões de barris de petróleo iraniano em armazenagem flutuante na Ásia. E existe ainda mais em armazenagem restrita, aguardando liberação da alfândega, nos portos chineses de Dalian e Zhoushan, onde há tanques alugados pela empresa National Iranian Oil Company. Existem também acusações de vendas de armas entre os dois países.

A China nega ter vendido a Teerã mísseis de cruzeiros antinavios, mas a inteligência americana acusou Pequim de apoiar o programa iraniano de mísseis balísticos, treinando engenheiros e fornecendo componentes. Grupos defensores dos direitos humanos afirmam que a brutal repressão do Irã contra manifestantes e críticos do regime foi alimentada pela tecnologia chinesa de vigilância e reconhecimento facial fornecida por Pequim. Com tudo isso, pode parecer que os dois países são grandes amigos. As manchetes dos tabloides chegaram a reunir a China e o Irã em um "eixo da revolta", ao lado da Coreia do Norte e da Rússia.

Os quatro países desejam questionar a ordem mundial liderada pelos Estados Unidos. Mas, na verdade, seu relacionamento é transacional. "Não há motivos reais, sejam eles culturais ou ideológicos, para que a China tenha amizade com o Irã", segundo o professor Brown. "O Irã, em alguns momentos, serviu bem à estratégia chinesa de quase 'dividir para conquistar', por ser uma irritação constante para os Estados Unidos", explica ele. "Por isso, acho que existem principalmente razões negativas para a China querer manter relações com o Irã, mais do que positivas. Esta é uma base muito frágil para um relacionamento e funcionou até certo ponto. Mas não era uma relação muito profunda", afirma o professor.

A China não considera suas "alianças" da mesma forma que o Ocidente. O país não assina tratados de defesa mútua e não virá correndo em auxílio ao seu aliado. Na verdade, Pequim pretende ficar de fora de qualquer tipo de conflito.

<><> China observa

Isso não significa que a China não esteja profundamente preocupada com o que está acontecendo no Oriente Médio. Pequim emitiu uma condenação tênue e previsível ao conflito, convocando um cessar-fogo entre as partes. O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, afirmou ser "inaceitável que os Estados Unidos e Israel lancem ataques contra o Irã... ainda mais para assassinar flagrantemente o líder de um país soberano e instigar a mudança do regime."

A verdade é que as ações de Washington na Venezuela, em janeiro, e agora no Irã destacaram os limites das parcerias dos dois países com a China. Nas duas ocasiões, Pequim se manteve à margem como observador, incapaz de ajudar os países que se encontram na sua órbita.

A China tenta se posicionar como "contrabalanço responsável" aos Estados Unidos, explica Philip Shetler-Jones, mas, "em termos de equilíbrio militar, os EUA demonstram o que realmente significa ser uma superpotência, que é a capacidade de forçar resultados em qualquer cenário pelo mundo". Para ele, Pequim não é "uma superpotência do mesmo nível", apesar do seu poderio econômico. "A China não está preparada para proteger seus amigos contra este tipo de ação, mesmo se quisesse."

Para combater estas preocupações, Xi continuará se posicionando como um líder global estável e previsível, em contraste com Donald Trump. "O argumento da China será que Donald Trump, mais uma vez, demonstrou além de qualquer dúvida a extensão da hipocrisia ocidental e do discurso do Ocidente sobre a ordem internacional liberal", afirma o professor Steve Tsang, diretor do Instituto China da Escola de Estudos Africanos e Orientais (SOAS, na sigla em inglês) da Universidade de Londres.

As paralisações do fornecimento de energia e das viagens aéreas causadas por este conflito terão "ramificações econômicas muito maiores no Sul Global do que no Ocidente", segundo Tsang. "Alguns países sofrerão falta de alimentos em alguns meses... e serão países do Sul Global. Também estamos observando a ruptura da aliança ocidental, com o Reino Unido e a Espanha sendo escolhidos para críticas."

Pequim também pode observar uma possibilidade de ajudar a mediar os diálogos com outros países. O ministro do Exterior Wang Yi já conversou com seus homólogos de Omã e da França. A China anunciou que irá destacar um enviado especial para o Oriente Médio.

<><> A iminente visita de Trump

A China também pisa com cautela porque um dos maiores fatores para o país é o intempestivo presidente americano, que deve chegar a Pequim para uma reunião muito aguardada ainda este mês. Nenhuma das críticas chinesas aos ataques israelenses e americanos ao Irã foi dirigida diretamente a Donald Trump, o que pode facilitar um pouco os apertos de mãos durante o encontro. Alguns especularam se a visita ainda vai mesmo acontecer. Mas existem sinais de que ela continua programada. Autoridades dos dois lados devem se reunir para discutir a viagem, segundo a agência de notícias Reuters.

Para Shetler-Jones, a China pode considerar esta oportunidade como uma chance de "procurar indicações" sobre como Trump pode reagir a outros pontos de conflito, como a questão de Taiwan, a ilha autogovernada reivindicada por Pequim. "À medida que esta guerra se mostrar impopular, ela poderá contribuir para a tendência cada vez maior de 'restrição' na política externa e de segurança dos Estados Unidos. Se for colocada em ação por um governo futuro, esta tendência poderá oferecer à China maior liberdade para buscar seus interesses na sua própria região e no planeta como um todo", afirma ele.

A crise atual apresenta a alguns na China a oportunidade de rotular Washington como país promotor de guerras, algo que o Exército de Libertação Popular chinês já fez nas redes sociais. Mas ter um agente tão "disfuncional e imprevisível" pode ser uma fonte de inquietação para Pequim, segundo Brown. "Não acho que a China queira um mundo dominado pelos EUA, mas eles certamente não querem um mundo em que os Estados Unidos sejam um participante tão instável", conclui o professor.

¨      Como Rússia e China, aliados do Irã, se movimentam e calculam perdas e ganhos no atual conflito?

Com o Reino Unido permitindo que os Estados Unidos usem suas bases aéreas para ataques "defensivos" durante a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, a atenção se voltou para o tipo de apoio que o Irã poderia receber de países supostamente aliados.

Rússia e a China mantêm laços diplomáticos, comerciais e militares com a República Islâmica do Irã, mas o conflito atual deve deixar claro até que ponto esses países estão dispostos a apoiá-la.

<><> Apoio ruidoso mas limitado da Rússia

A resposta da Rússia aos ataques conjuntos dos EUA e de Israel contra o Irã foi ruidosa, mas limitada, sinalizando indignação e solidariedade ao Irã, ao mesmo tempo em que evitou medidas que pudessem colocar a Rússia diretamente no confronto, analisou Sergei Goryashko, da BBC News Rússia. O porta-voz do governo da Rússia, Dmitry Peskov, falou em "profunda decepção" com o fato de que, apesar das negociações entre os EUA e o Irã, a situação tenha "degenerado em agressão aberta". Segundo Peskov, a Rússia mantém contato constante com a liderança iraniana e com os países do Golfo afetados pela escalada do conflito.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia condenou o que chamou de "agressão não provocada" contra o Irã por parte dos EUA e de Israel e denunciou o que considera assassinatos políticos e a "caça" aos líderes de Estados soberanos. No domingo, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, enviou condolências ao presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, pela morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, chamando o episódio de "violação cínica da moralidade humana e do direito internacional". Ainda assim, a Rússia evitou críticas pessoais ao presidente dos EUA, Donald Trump, e continua a expressar gratidão pelos esforços de mediação americanos em relação à Ucrânia.

Questionado na segunda-feira (2/3) sobre como a Rússia poderia agora confiar nos EUA, Peskov respondeu que a Rússia "antes de mais nada confia apenas em si mesma" e defende seus próprios interesses. Esses interesses ajudam a explicar por que o apoio russo ao Irã permanece em grande parte retórico, embora o Irã tenha se tornado um dos aliados mais próximos da Rússia desde a invasão em larga escala da Ucrânia, fornecendo drones e auxiliando a Rússia a desenvolver formas de contornar as sanções ocidentais, afirmou Goryashko.

O Irã também se encaixa na visão da Rússia de uma ordem multipolar, na qual os direitos dos Estados são mais importantes do que os direitos humanos, e os governos exercem amplo controle interno. A queda de um regime desse tipo representaria um golpe para esse modelo. Ao mesmo tempo, a Rússia já demonstrou não estar disposta a assumir riscos excessivos por seus parceiros, seja na Venezuela, na Síria ou durante a guerra de 12 dias entre Israel e Irã em 2025. Além de estar profundamente envolvida na Ucrânia e parecer não estar disposta e possivelmente nem apta a oferecer mais do que apoio diplomático e cooperação técnico-militar.

O tratado de parceria estratégica entre Rússia e Irã, assinado em (17/1/25), não chega a configurar um pacto de defesa mútua. A Rússia e o Irã se comprometeram a compartilhar informações, realizar exercícios conjuntos e "garantir a segurança regional", mas não prometeram defender um ao outro em caso de ataque. Os laços econômicos entre os dois países também são modestos, e o comércio permanece na faixa de US$ 4 bilhões a US$ 5 bilhões (cerca de R$ 20 bilhões a R$ 25 bilhões).

Já os vínculos militares e industriais estão em expansão. Em fevereiro, o jornal britânico Financial Times informou sobre um acordo de grande porte pelo qual a Rússia forneceria ao Irã sistemas portáteis de defesa aérea Verba no valor de € 500 milhões (cerca de R$ 2,7 bilhões).

O Irã recebeu aeronaves de treinamento Yak-130 e helicópteros de ataque Mi-28 e aguarda a entrega de caças Su-35, embora a Rússia ainda não tenha fornecido os sistemas Verba. O uso de drones Shahed, de fabricação iraniana, alterou significativamente as táticas das forças russas na frente ucraniana. No ano passado, contudo, a Rússia ampliou rapidamente sua própria produção de drones, reduzindo a dependência de armamentos iranianos. Para a Rússia, o Irã é importante demais para ser abandonado, mas não importante o suficiente para que a Rússia entre em guerra por ele. Esse cálculo pode mudar, mas, por ora, a intervenção russa tende a permanecer, em grande medida, restrita ao discurso.

<><> O apoio econômico chinês ao Irã

A China condenou com veemência a morte do aiatolá iraniano Ali Khamenei, e historicamente se opõe à estratégia dos EUA de promover mudanças de regime em diferentes partes do mundo. No centro do vínculo entre China e Irã está uma parceria econômica mutuamente benéfica, explica Shawn Yuan, do Global China Unit, do serviço mundial da BBC. A China é o maior parceiro comercial do Irã e seu principal comprador de petróleo.

Apesar de anos de duras sanções impostas pelos EUA ao Irã, a China se manteve como a principal tábua de salvação econômica do governo iraniano, adquirindo grandes volumes de petróleo iraniano a preços com desconto por meio de uma rede das chamadas "frotas fantasmas", embarcações registradas de forma fraudulenta para contornar sanções e transportar petróleo.

Em 2025, por exemplo, a China comprou mais de 80% do petróleo exportado pelo Irã, e as receitas obtidas com essas compras ajudaram o país a estabilizar sua economia e a financiar gastos com defesa, mesmo com o fechamento dos mercados ocidentais. Um acordo estratégico de 25 anos assinado em 2021 consolidou a relação, com a promessa de centenas de bilhões de dólares em investimentos chineses em infraestrutura e telecomunicações no Irã.

<><> A 'estratégia de longo prazo' da China

Historicamente, a abordagem da China diante das tensões entre Irã e Israel e entre Irã e EUA tem sido de contenção estratégica. Durante escaladas anteriores, incluindo a guerra de 12 dias entre Israel e Irã em 2025, a China defendeu reiteradamente "moderação", ao mesmo tempo em que atribuiu a responsabilidade à "interferência externa", uma referência pouco disfarçada à política dos EUA, afirma Yuan, da BBC.

Em confrontos anteriores entre Irã e Israel, a China atuou como escudo diplomático do Irã, usando seu poder de veto, ou a ameaça de usá-lo, para atenuar resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU). No entanto, nunca ofereceu intervenção militar direta. Segundo Yuan, a estratégia da China sempre foi deixar os EUA interferirem no Oriente Médio desde que não provoquem um colapso regional total que impulsione os preços globais do petróleo. Mas um regime pró-Ocidente no Irã representaria uma derrota geopolítica catastrófica para a China, já que o Irã não apenas fornece energia, como também atua como contrapeso político relevante à influência americana na região.

O Irã é membro do Brics (agrupamento formado por 11 países, incluindo o Brasil) e da Organização para a Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês) e funciona como elo geográfico fundamental entre a Ásia Central, o Cáucaso e o Oriente Médio.

Enquanto o Brasil, a China e a Rússia condenaram oficialmente, a ação conjunta entre norte-americanos e israelenses, outros integrantes do Brics, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Índia, não condenaram os bombardeios de Israel e dos EUA, mas condenaram, por sua vez, os ataques com mísseis realizados pelo Irã contra bases norte-americanas localizadas nos países do Golfo Pérsico.

Um interlocutor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por sua vez, disse à BBC News Brasil não acreditar que o bloco vá adotar algum tipo de posição conjunta sobre o assunto. Segundo ele, fatores como as atuais dimensões da crise e a liderança indiana do bloco, neste ano, inviabilizariam um posicionamento semelhante ao do ano anterior.

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que a atual crise no Irã expõe contradições do processo de expansão do grupo e coloca em xeque a capacidade de ação coletiva de um grupo de países com interesses geopolíticos tão distintos.

Um colapso da República Islâmica poderia enfraquecer a credibilidade dos mecanismos multilaterais que a Rússia e a China vêm tentando fortalecer.

Sem uma invasão em larga escala do Irã por EUA e Israel, as estruturas políticas e militares do país tendem a permanecer. A China deve adotar sua habitual "estratégia de longo prazo", buscando estabelecer relações com quem vier a assumir o posto de Khamenei na liderança do Irã, enquanto a Rússia procurará suas próprias oportunidades.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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