terça-feira, 10 de março de 2026

Mirko Casale: as máscaras caídas do imperialismo

Diga-me como você reage e eu lhe direi quem você é.

Se as reações de mais de dois anos diante do genocídio israelense em Gaza já fizeram cair mais de uma máscara em todo o mundo, as reações atuais à agressão israelense-estadunidense contra o Irã são a prova de que, no Norte Global, aparece uma nova máscara por trás de cada uma que cai.

Vamos rever as melhores reações a esses eventos, ou melhor dizendo, as piores. Embora, nesses casos, costumam ser ditas coisas como: "Garanto que vocês ficarão surpresos", sinceramente, nesta ocasião, surpreender-se de verdade, duvido que vocês fiquem muito surpresos.

Aí vai!

<><> O Ataque contra o Irã (Reações reveladoras) - Tradução de Jair de Souza

Tempos difíceis para a imprensa que se orgulha de ser objetiva e independente, que anda distribuindo certificados de bom comportamento, ou calando-se quando outros meios são censurados repetidamente.

O ataque dos Estados Unidos e seu porta-aviões no Oriente Médio, que se autodenomina Israel, contra o Irã, abriu um novo e extenso capítulo no Grande Livro das Dubiedades Morais da Imprensa Hegemônica, que, se ainda não existe, alguém faria bem em escrever.

Embora muitos veículos de comunicação tenham tentado parecer objetivos em sua cobertura, falharam na tentativa, como apontaram diversos usuários de redes sociais. Tomemos os "exemplos" da BBC e do New York Times ao cobrirem o bombardeio israelense-estadunidense a uma escola iraniana, que deixou mais de 150 mortos, a grande maioria alunas do ensino fundamental, além de professores e familiares. Um crime que, se tivesse ocorrido em Londres, Nova York, Paris ou Berlim, teria merecido condenação inequívoca, assim como uma cobertura detalhada de cada vítima, incluindo seus nomes, idades, planos e sonhos para quando se tornassem adultas, sonhos que lhes foram roubados por Donald Trump e Benjamin Netanyahu.

No entanto, esses dois veículos de comunicação anglo-saxões supostamente imaculados, que se consideram o ápice do jornalismo mundial, estamparam suas manchetes informando com frases do tipo: "O Irã diz".., insinuando que poderia não ser verdade, que com esses iranianos, nunca se sabe, e "Ataque relatado"..., como duvidando de que o ataque realmente e, caso tivesse ocorrido, omitindo o misteriosíssimo dado sobre quem seriam seus autores.

Obviamente, não faltará quem venha a dizer que não poderiam dar a informação sem ter certeza, que como grandes profissionais deveriam esperar pela confirmação antes de publicar uma manchete com certeza. E isso seria algo a se considerar, se não fosse pelo fato de que, dois minutos depois, por assim dizer, abordaram de uma maneira completamente diferente um ataque iraniano que deixou várias vítimas israelenses.

Neste caso, ambos noticiaram o fato como certo, sem hesitação, nada dessa bobagem de "Israel diz que", e além disso, não omitiram o perpetrador, senão que o mencionaram sem qualquer tentativa de lançar dúvidas sobre a autoria.

Outro veículo de mídia altamente respeitado, The Guardian, em sua cobertura minuto a minuto, ao noticiar as condolências do presidente cubano ao povo e ao governo iranianos, afirmou que Miguel Díaz-Canel condenou... (E prestem muita atenção, pois o que vem a seguir é uma citação textual) "o que o mandatário denominou como o assassinato de Ali Khamenei".

Ah, como é? Mas eles duvidam que tenha sido um assassinato? O fato público e notório de que bombardear a residência do líder espiritual iraniano e tirar sua vida constitui, objetivamente, um assassinato não os convence totalmente, e então, eles esclarecem que um termo tão controverso quanto "assassinato" é meramente a discutível opinião do Chefe de Estado de Cuba? Inacreditável, não é? Bem, essa tem sido a tendência da mídia ultimamente, e espere, tem mais por vir.

Afinal, a grande mídia é um reflexo fiel dos poderes políticos e financeiros, e vice-versa. Neste caso, não nos concentraremos naqueles que justificam e apóiam abertamente Trump e Netanyahu, as Kaja Kalas e os Mark Ruttes deste mundo, porque não há nada aí a acrescentar que vocês já não saibam. O que vamos abordar são essas condenações que começam como firmes rejeições da agressão contra o Irã e que, em questão de segundos, se transformam em condenações do próprio Irã.

Sinal dos tempos de sequestro em que vive a política do Ocidente Coletivo e muito mais. Por exemplo, o Presidente do Governo espanhol, que, a bem da verdade, foi um dos poucos a condenar os ataques dentro do "jardim" europeu, o que também lhe valeu ataques verbais e ameaças, claro, de parte de Donald Trump, relativamente à utilização de bases estadunidenses em Espanha.

Veremos o que acontece agora. Se Madrid vai se manter firme em sua postura, ou se diz uma coisa em público e faz outra em privado, como já aconteceu nos passados meses em relação a Gaza. Mas também, a bem da verdade, a forma como o líder espanhol condenou o ataque contra o Irã sugere que o seu prestígio pessoal e político lhe preocupava muito mais do que garantir que a sua condenação tivesse repercussão.

Assim, Pedro Sánchez qualificou o ataque contra o Irã, sem mencionar os agressores, como perigoso e injustificado, mas na mesma frase declarou... (Sem que ninguém lhe tivesse perguntado), que, na sua opinião, o regime iraniano é odioso.

Curiosamente, nesses mesmos dias, nas suas redes sociais, voltou a criticar o Irã, acusando-o de atacar outros países da região do Golfo. No entanto, nessa mesma publicação, ele teve o cuidado de não expressar sua opinião sobre os sistemas de governo, a situação das mulheres e os padrões democráticos da Arábia Saudita ou do Kuwait. Vejam só! Talvez tenha se esquecido.

Um caso semelhante foi o do presidente chileno Gabriel Boric, que publicou um tweet expressando sua oposição ao ataque de Washington e Tel Aviv, e, também sem que ninguém lhe perguntasse, ele acabou dedicando 80% da publicação a rotular o Irã como um regime discriminatório, opressor e massacrador. Uma bela maneira de se opor aos bombardeios, não é? Conseguem imaginar? Por favor, parem de bombardear esse regime que discrimina, oprime e massacra. Tamanha atenção vão lhe dar com semelhante apelo!

Pessoalmente, acho muito difícil imaginar que, se Sánchez, Boric e outros que se expressaram de forma similar tivessem sido presidentes em, sei lá, setembro de 2001, ao condenaram os ataques terroristas às Torres Gêmeas, dois segundos depois, teriam esclarecido ao mesmo tempo que isso não significava que estavam se esquecendo dos crimes cometidos pela Casa Branca ao redor do mundo.

É verdade que vocês também não conseguem imaginar isso? E tenham certeza de que eles também não conseguem se imaginar nessa atitude. Como vêem, assim funcionam as coisas nas esferas do poder midiático e político no Norte Global.

Alguns abertamente entregues àquilo que as redes sociais já chamam de Coalizão Epstein, a Aliança Trump-Netanyahu; outros sendo cúmplices desses dois sujeitos, enquanto tentam manter as aparências para o consumo público; e, finalmente, um grupo que acredita estar sendo desafiador, quando, no fundo, intencionalmente ou não, acaba fazendo o jogo dos agressores. Porque estão mais preocupados com sua imagem pública do que em mudar qualquer coisa no planeta.

Hoje, a realidade é que a Coalizão Epstein lidera sozinha o que, até pouco tempo atrás, se vangloriava de ser a civilização do Ocidente Coletivo, o Primeiro Mundo, o Mundo Livre, ou o conjunto das democracias liberais.

E essa dupla com inclinações apocalípticas, que hoje cavalga por cima de todos eles, está disposta a fazer o que for preciso para garantir seus privilégios e impunidade pelo maior tempo possível.

Assim, cai mais uma máscara daqueles que sempre juraram compartilhar e defender uma série de valores como o direito internacional ou os direitos humanos, valores que eles agora contribuem a pisotear, de forma ativa ou passiva. E por trás dessa nova máscara que cai, surgirá outra, porque por trás de cada uma sempre resta algo novo a esconder e a descobrir.

>>>> A guerra se expande: enquanto bombardeiam o Irã, os EUA e Israel atacam ainda mais países. Por Ben Norton

guerra que os Estados Unidos e Israel iniciaram contra o Irã está se expandindo. Washington e Tel Aviv estão atacando cada vez mais países.A CIA está armando forças curdas aliadas no norte do Iraque, com planos de invadir o Irã.

Entretanto, Israel invadiu o Líbano e reimpos o bloqueio a Gaza.

Donald Trump agora está até mesmo ameaçando a Espanha, porque ela se recusa a apoiar sua guerra de agressão ilegal contra o Irã.

<><> Irã ataca bases militares dos EUA em toda a Ásia Ocidental.

Em resposta aos ataques conjuntos entre EUA e Israel, o Irã retaliou em legítima defesa, o que lhe é permitido pelo direito internacional.

Teerã atacou bases militares americanas em países vizinhos no oeste da Ásia.

<><> Os preços do petróleo disparam

Esse conflito fez com que o preço global do petróleo disparasse, já que a infraestrutura energética no Golfo Pérsico foi danificada.

Teerã prometeu fechar o Estreito de Ormuz, que a Administração de Informação Energética dos EUA (EIA) descreveu como " o ponto de estrangulamento mais importante do mundo para o trânsito de petróleo

Todos os dias, petróleo bruto equivalente a cerca de 20% do consumo mundial de petróleo passa por esse estreito canal, localizado bem próximo à costa do Irã.

Teerã fechou essencialmente o ponto de estrangulamento geoestratégico, ao anunciar que atacará qualquer embarcação que transitar pelo estreito.

<><> O Departamento de Estado dos EUA recomenda a evacuação do Oriente Médio

Ao mesmo tempo, o Departamento de Estado orientou os cidadãos americanos a evacuarem todos os países da região, emitindo alertas de "sérios riscos à segurança" para Bahrein, Egito, Irã, Iraque, Israel, Palestina ocupada, Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Catar, Arábia Saudita, Síria, Emirados Árabes Unidos e Iêmen.No entanto, o Departamento de Estado não está oferecendo apoio aos americanos que estão tentando fugir desses países.

<><> A CIA arma seus aliados curdos

Em vez de tentar estabilizar a situação, Trump está jogando lenha na fogueira.

A CNN noticiou que a CIA está armando mercenários curdos no nordeste do Iraque. Washington quer que eles atuem como representantes dos EUA, invadam o Irã e desestabilizem o governo iraniano.

Essa política provavelmente preocupa a Turquia, membro da OTAN, e pode levar Istambul a intervir militarmente também. A Turquia possui o segundo maior exército da OTAN, depois dos Estados Unidos.

Diversos veículos de comunicação, incluindo Axios Rudaw , confirmaram que Trump está ligando para líderes de grupos armados curdos no Iraque e pedindo que eles ajudem os EUA a atacar o Irã.

Tudo isso é profundamente irônico, porque Trump foi eleito com a promessa de ser um "presidente da paz" e de acabar com as guerras, não de iniciá-las.

Trump afirmou que sua guerra de agressão contra o Irã provavelmente continuará por "quatro a cinco semanas", embora tenha acrescentado que "poderá durar muito mais tempo" .

<><> Israel invade o Líbano e cerca Gaza

Entretanto, a guerra regional no Oriente Médio está se intensificando cada vez mais.

Israel aproveitou-se do caos para lançar uma invasão ao Líbano .

Tel Aviv espera reocupar o sul do Líbano. Israel ocupou essa região por quase duas décadas, após outra invasão em 1982, embora grupos de resistência locais tenham forçado sua saída em 2000.

Ao mesmo tempo, Israel reimpos o bloqueio a Gaza.

O abastecimento de alimentos em Gaza é muito limitado e dois milhões de palestinos podem morrer de fome em breve , alertou o The Guardian.

<><> Exército dos EUA atira em manifestantes no Paquistão e inicia operações no Equador

Em dezenas de países ao redor do mundo, pessoas foram às ruas protestar contra a guerra de agressão dos EUA e de Israel contra o Irã.

Soldados americanos atiraram contra manifestantes na cidade paquistanesa de Karachi, informou a Reuters.

Entretanto, o governo Trump lançou mais operações militares na América Latina.

O Comando Sul anunciou que forças militares dos EUA estão combatendo no Equador . Alegou que estão combatendo o "narcoterrorismo".

Em 3 de março, forças militares do Equador e dos Estados Unidos lançaram operações contra Organizações Terroristas Designadas no Equador. As operações são um exemplo poderoso do compromisso de parceiros na América Latina e no Caribe em combater o flagelo do narcoterrorismo.Juntos, estamos tomando medidas decisivas para enfrentar narcoterroristas que há muito tempo infligem terror, violência e corrupção a cidadãos em todo o hemisfério

No entanto, o governo do Equador, apoiado pelos EUA, está intimamente ligado ao narcotráfico.

O presidente de direita do Equador, Daniel Noboa, possui dupla cidadania americana e é um aliado próximo de Trump.

Noboa é filho do oligarca bilionário mais rico do Equador. Sua família é notória, pois inúmeras investigações constataram que a empresa Noboa está profundamente envolvida com o narcotráfico e contrabandeia cocaína regularmente em caixas de banana a partir de seus portos privados.

<><> Governo Trump impõe bloqueio petrolífero sufocante a Cuba

Enquanto o governo dos EUA trava múltiplas guerras no Oriente Médio e no Equador, está essencialmente travando uma guerra contra Cuba.

O jornal The New York Times admitiu que os militares dos EUA estão realizando um bloqueio naval a Cuba .

O governo Trump está estrangulando a pequena nação insular, impedindo-a de importar petróleo, numa tentativa de colapsar a economia de Cuba e derrubar seu governo revolucionário.

Esse bloqueio naval a Cuba continua mesmo enquanto os militares dos EUA estão ocupados bombardeando o Irã.

A Bloomberg noticiou que a Rússia tentou enviar um navio-tanque de petróleo para Cuba no final de fevereiro, mas os EUA forçaram a embarcação a retornar, deixando o país sem combustível.

<><> Trump detém o recorde de ter bombardeado mais países (10) do que qualquer outro presidente dos EUA

Trump, o autoproclamado “presidente da paz”, bombardeou 10 países — mais do que qualquer outro líder dos EUA.

Em seus dois mandatos como presidente, Trump bombardeou o Afeganistão, o Irã, o Iraque, a Líbia, a Nigéria, o Paquistão, a Somália, a Síria, a Venezuela e o Iêmen.

Somente em 2025, o primeiro ano de seu segundo mandato, Trump bombardeou sete países.

Na verdade, Trump iniciou sua guerra de agressão contra o Irã apenas algumas semanas depois de lançar uma organização que ele chama de "Conselho da Paz" , o que equivale a uma tentativa de substituir as Nações Unidas por um grupo privatizado controlado pelos EUA e pelo próprio Trump.

<><> Trump ameaça impor embargo comercial à Espanha

Enquanto tudo isso acontece, Trump também está ameaçando a Espanha.

Madri tem sido uma pedra no sapato de Washington. Seu governo de esquerda apoiou a Palestina e estreitou seus laços com a China .

Atualmente, a Espanha é o único Estado da União Europeia que se opôs abertamente à guerra dos EUA contra o Irã.

A Espanha condenou a guerra como uma “intervenção militar injustificada e perigosa” e uma clara “violação do direito internacional”. Madri fez um apelo veemente pela paz.

Trump exigiu que os países da Europa permitissem que os militares dos EUA usassem suas bases para atacar o Irã.

O Reino Unido, obedientemente, concedeu aos EUA acesso às bases militares britânicas .A Espanha, por outro lado, recusou. Aeronaves americanas foram obrigadas a deixar as bases espanholas .

Isso enfureceu Trump. Em uma coletiva de imprensa na Casa Branca em 3 de março, Trump criticou duramente Madri.

O presidente dos EUA ameaçou impor um embargo comercial à Espanha . Ele disse ter ordenado ao secretário do Tesouro, Scott Bessent, que cortasse as relações comerciais com o país europeu.

Caso a Espanha continue negando a Washington o acesso às suas bases, Trump prometeu usar a força militar para assumir o controle das instalações.

“A Espanha disse que não podemos usar a base deles. E tudo bem. Não precisamos. Poderíamos usar a base deles se quiséssemos. Poderíamos simplesmente voar até lá e usá-la. Ninguém vai nos dizer para não usá-la”, disse Trump.

Enquanto ameaçava a Espanha, Trump estava sentado ao lado do chanceler de direita da Alemanha, Friedrich Merz, um multimilionário que possui dois jatos particulares e anteriormente liderou a filial alemã da gigante de Wall Street, BlackRock.Um repórter presente na coletiva de imprensa da Casa Branca perguntou a Merz se ele apoiava a proposta do presidente americano de punir a Espanha. Merz respondeu que concordava . Ele se posicionou abertamente ao lado de Washington contra um membro da União Europeia.O governo alemão apoiou fortemente a guerra entre os EUA e Israel contra o Irã. Aliás, Merz argumentou que o Irã não deveria ser protegido pelo direito internacional .

A chamada "ordem baseada em regras" do Ocidente aparentemente só se aplica a certos países.

 

Fonte: Brasil 247/Geopolitical Economy Report

 

Nenhum comentário: