terça-feira, 10 de março de 2026

Trump não deve conseguir mudar o regime no Irã só com bombardeios, diz especialista

Uma semana após os primeiros bombardeios dos Estados Unidos contra o Irã, o conflito no Golfo entrou em uma fase marcada pela incerteza e pela escalada de tensões.

Mesmo com a morte de seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei - morto na primeira onda de ataques dos EUA e de Israel -, o regime iraniano parece ter conseguido estabelecer um grau de resistência e capacidade de reação.

Os ataques iniciais, anunciados pelo presidente americano, Donald Trump, como parte de uma estratégia para provocar uma mudança de regime em Teerã, desencadearam uma série de respostas militares iranianas que ampliaram o risco de um confronto prolongado.

Desde então, a região tem assistido a um ciclo contínuo de ofensivas aéreas, disparos de mísseis e retaliações direcionadas a alvos americanos, israelenses e, mais recentemente, de países vizinhos.

As repercussões internacionais são amplas. Países como o Brasil têm buscado manter posições de equilíbrio diplomático, condenando a violação da soberania iraniana, mas evitando alinhamentos diretos.

No plano econômico, o conflito já afeta mercados globais, com oscilações no preço do petróleo e alertas sobre possíveis impactos no comércio mundial de fertilizantes e outros insumos estratégicos.

A BBC News Brasil conversou com Ronaldo Carmona, doutor em Geopolítica pela Universidade de São Paulo e professor da cátedra na Escola Superior de Guerra para avaliar como o conflito avançou nestes primeiros sete dias e quais as perspectivas para os próximos passos.

Ele avalia o potencial de expansão da guerra, o papel das potências globais e as implicações militares e estratégicas para países como o Brasil.

>>>> Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

·        Estamos caminhando para uma semana depois dos primeiros bombardeios. Como o sr. define o que se viu e o que se sabe do conflito até o momento?

Ronaldo Carmona - Olha, passada uma semana, talvez o principal a destacar seja que ainda não se vislumbra o fim do conflito, sobretudo caso se mantenha o objetivo estratégico que o Trump proclamou ao início dos bombardeios naquele primeiro vídeo que ele falou que o objetivo era uma mudança de regime.

Creio que os Estados Unidos ainda estão longe desse objetivo, porque o conflito militar propriamente dito é um conflito "trocado" de parte a parte.

Já era previsto que o Irã tinha uma capacidade militar bastante importante e sobretudo nessa área de mísseis e drones.

Nessa fase, os ataques dos Estados Unidos consistiram basicamente de ataques aéreos e de mísseis, sendo os aéreos principalmente a partir das bases americanas e de plataformas navais. Há dois grupos de porta-aviões instalados, então há uma força militar também robusta que os Estados Unidos mobilizaram.

Só que o Irã também está mostrando uma capacidade de reação muito grande.

Então, esse é o quadro. Ao fim de uma semana, a gente não enxerga o final do conflito.

·        Essa questão da mudança de regime. Logo de início, muitos especialistas disseram que apenas por bombardeio, só pelo poderio aéreo, uma mudança de regime, historicamente não seria provável. O senhor concorda com isso?

Carmona - Sim, claro. Primeiro, pelo aspecto de 'vamos mudar um poder'. No caso, eles estão propondo mudar radicalmente as forças políticas que dirigem o Estado iraniano. Isso implica mesmo numa tomada de poder, e a tomada de poder implica você colocar tropas no solo, ou seja, você realmente realizar uma campanha para uma segunda fase, que é a deposição do poder político propriamente.

Só que não vejo isso [acontecendo], não vejo esse horizonte, não considero plausível. Então, não é possível ainda ter um prognóstico para o final dessa guerra.

·        Já tivemos a retaliação do Irã contra outros países da região, especialmente os do Golfo, e agora tivemos um ataque ao Azerbaijão. É um sinal de uma expansão maior da guerra?

Carmona - Parece que o que o Irã tem primordialmente atacado objetivos militares. O território de Israel, por um lado, e, por outro lado, alvos militares americanos.

Os alvos militares americanos incluem tanto as instalações militares, as diversas bases que eles possuem ao longo do Golfo Pérsico em especial, mas também locais de concentração de americanos e de oficiais de inteligência que por vezes se instalam em locais de natureza civil.

Mas, claro, estamos falando de uma guerra. Guerra é uma mobilização militar de alta intensidade, que também gera erros de parte a parte. Vimos no início da guerra essa história do colégio de meninas [atingido no Irã].

Então, quando você tem uma saraivada de mísseis é evidente que parte deles vão ter a sua capacidade degradada, seja por ações cibernéticas, seja mesmo por erros no sistema inicial do míssil. Esse tipo de coisa acontece.

·        Muito se falou nos últimos anos e até décadas que os combates iriam evoluir para uma guerra mais voltada para o ciberconflito, para os ataques cibernéticos contra infraestruturas etc. Mas estamos vendo uma guerra quase 'tradicional', não?

Carmona - Tem um certo exagero nisso, né? Esse debate sobre a mudança da natureza da guerra é uma coisa eu sempre digo que comporta alguns exageros retóricos.

Sempre tem alguém que fala de uma nova forma de guerra como se ela substituísse as antigas e, na verdade, elas coexistem. E coexistem em métodos novos, fruto inclusive do desenvolvimento tecnológico, com, digamos assim, a boa e a velha artilharia, como é o caso agora.

·        Nesse cenário todo, como é que o Brasil se equilibra tanto do ponto de vista militar e diplomático?

Carmona - O Brasil mantém uma equidistância. Ele condenou fortemente a agressão, ou seja, a violação da soberania do Irã. O Brasil tem essa posição, que é uma posição de princípio. Mas o Brasil não é parte desse conflito, nem deseja ser.

As repercussões para nós aparentemente são mais de natureza econômica, relacionadas às oscilações do preço do petróleo e os derivados disso, inclusive no que diz respeito à importação de fertilizantes. Tem alguns algumas derivações econômicas. A própria economia mundial pode entrar em recessão.

Mas nós podemos falar de uma forma mais ampla dos ensinamentos em termos militares. Tanto o episódio da Venezuela quanto o do Irã mostram que um país precisa possuir capacidade de se defender, de dissuadir uma agressão, mesmo de uma potência militarmente superior a você. Isso é uma lição que o Brasil tem a tirar.

·        O sr. acha que a dissuasão nuclear vai ganhar força de novo?

Carmona - Esse debate já acontece solto, vide, por exemplo, na Alemanha. Hoje tem um forte debate sobre criar a capacidade nuclear, assim como essa semana o [presidente francês Emmanuel] Macron propôs esse "guarda-chuva nuclear", embora seja um cara, como diria Trump, já no finalzinho de seu mandato.

Por um lado, você tem essa visão européia que vê a Rússia como seu inimigo principal e busca se armar para uma hipótese de conflito com a Rússia. Essa é a visão europeia hoje, incluindo o Reino Unido.

Já do ponto de vista do Sul global, eu diria que a percepção que há é exatamente essa de que as fragilidades militares implicam em riscos para o poder político nacional, para o status quo de um país, à medida que ele pode ser coagido a uma ação de mudança de regime. Isso é o que tem mostrado a prática dessa doutrina Trump.

·        No caso venezuelano, explorando muito a fragilidade interna da própria posição chavista...

Carmona - Ah, sim, sim, jogando com o jogo político interno.

·        E a posição da China?

Carmona - Duas questões sobre a China: primeiro, no que diz respeito ao conflito em si, a China condena muito fortemente. Aliás, em termos similiares ao que o Brasil, condenando a agressão ao direito internacional, a violação da autonomia dos povos, autodeterminação dos povos.

Agora, a China, obviamente, não pode se envolver diretamente no conflito, até porque a ela não interessa o prolongamento do conflito, por várias razões.

Primeiro, porque ela ainda trabalha com um cenário em que é preciso ter um ambiente internacional de paz ou, digamos, não conflitivo para favorecer a sua ascensão. Essa é a análise dos chineses. E obviamente, ela jamais se meteria militarmente no terreno. Isso não é o perfil da China.

·        O presidente Trump disse que o conflito deveria durar 3 a 4 semanas, talvez um pouco mais. É possível fazer esse tipo de cálculo ou ele estava sendo otimista?

Carmona - Eu acho que isso revela que o Trump espera uma campanha militar intensa por parte das forças dos Estados Unidos.

Fala-se que as forças americanas estacionadas lá nessa campanha contra o Irã "queimam" o equivalente a US$ 1 bilhão por dia. Ou seja, é um esforço substancial.

E eu imagino que os Estados Unidos pensem em prosseguir a guerra nas próximas semanas exatamente para buscar o seu objetivo estratégico que é degradar as capacidades do Irã a ponto de ter uma desestabilização do poder político, tenha isso o formato que tiver.

¨      "Irã não é a Venezuela; a missão carece de objetivos e sua base legal é frágil”, diz Leon Panetta, ex-chefe do Pentágono

O ex-chefe do Pentágono: "A população precisa se levantar, mas isso não está acontecendo. Isso aumenta a probabilidade de que alguns membros do regime permaneçam no poder."

Leon Panetta emite três alertas: "O Irã não é a Venezuela; os curdos são incapazes de invadi-lo; a falta de objetivos claros e justificativas legais enfraquece os EUA." Em seguida, o ex-chefe do Pentágono e da CIA adverte a Itália: "Preparem-se para o risco de ataques com mísseis ou terroristas."

>>>> Eis a entrevista.

·        A guerra é legal sem a aprovação do Parlamento?

Congresso detém o poder sobre o orçamento; terá de se envolver, de uma forma ou de outra. Devemos ter cuidado para não prejudicar os nossos homens e mulheres que estão a lutar, mas, ao mesmo tempo, temos a responsabilidade de garantir que exista um objetivo e uma estratégia claros nesta guerra, algo que não temos agora.

·        Isso viola o direito internacional?

A falta de envolvimento do Congresso e o fato de o presidente não ter esclarecido os fundamentos da intervenção enfraquecem sua legalidade.

·        Qual é a missão?

Isso não foi explicado ao povo americano. Inicialmente, o presidente declarou que se tratava de uma mudança de regime; depois, o Secretário de Defesa o contradisse, dizendo que o alvo eram os mísseis e o programa nuclear. Em seguida, o Secretário de Estado afirmou que a intervenção foi desencadeada porque Israel estava prestes a atacar. Outros disseram que havia uma ameaça de ação preventiva por parte do Irã, mas o Pentágono negou. O povo americano e o mundo têm o direito de saber o que estamos tentando alcançar.

·        Os bombardeios não são suficientes para mudar o regime?

Não, também não tivemos sucesso no Iémen. A população precisa de se insurgir, mas isso não está a acontecer. Isto torna muito provável que alguns membros do regime se mantenham no poder.

·        Hoje ele confirmou que apoiava a invasão curda.

Este é outro problema fundamental: a falta de planejamento. Se ele queria que os curdos interviessem, deveria tê-los preparado durante meses com armas, liderança e apoio político dentro do Irã. Nada disso aconteceu.

·        Eles não estão prontos para derrubar o regime?

Trabalhei bastante com os curdos e os conheço bem. Não acredito que eles possam, de repente, formar um exército para invadir o Irã e derrubar o regime, especialmente considerando a resistência interna e o risco de guerra civil.

·        Trump quer escolher um novo líder para o Irã. Será que ele conseguirá replicar o modelo venezuelano?

Não, não, não. O Irã não é a Venezuela. Estamos lidando com um regime que está no poder há vários anos, com forte controle sobre o que acontece no país. Eles têm um plano de sucessão claro e o regime escolherá o novo líder. Certamente não vão ligar para Trump em busca de conselhos.

·        Então, a guerra está destinada a continuar?

É provável que se nomeie o filho de Khamenei, mas é preciso ter em mente que a Guarda Revolucionária e as Forças Armadas continuarão a liderar o processo para garantir que os linha-dura permaneçam no poder no Irã. É o que a inteligência prevê, e esse é o resultado mais provável.

·        Resistir o máximo possível para tornar o preço da guerra insuportável?

Trump já não conta com o apoio da maioria dos americanos. Se continuar assim, continuará a perdê-lo, enquanto as consequências econômicas se tornarão cada vez mais graves. Em algum momento, ele encontrará uma saída, declarando-se vencedor, seja qual for a situação real.

·        Deveria a Itália lançar as bases?

Sempre foi um bom aliado. Espero que continue sendo, para garantir o apoio necessário aos nossos soldados. Isso não significa que a guerra tenha uma missão, um objetivo ou um método correto, mas devemos proteger a vida dos nossos soldados.

·        Estamos em risco de ataques terroristas ou atentados a bomba?

Sim, é um perigo que precisamos levar em consideração. O Irã está lançando mísseis por todo o Oriente Médio e contra o Chipre. Não me surpreenderia se o alvo fosse vocês. O Irã tem potencial para isso.

¨      Teerã vai responder a ataques: 'Quanto maior a pressão, mais forte a resposta', diz presidente do Irã

Embora o Irã mantenha "relações fraternas" com os países vizinhos, se for atacado a partir de seu território, Teerã "responderá à agressão", declarou o presidente Masoud Pezeshkian à agência de notícias Tasnim.

Ele afirmou que os EUA estão tentando semear a discórdia entre o Irã e os países do Golfo.

"Se um ataque ou agressão for cometido contra nosso território a partir de qualquer país, seremos obrigados a responder a esses ataques", disse Pezeshkian, segundo sua assessoria de imprensa.

Ao mesmo tempo, o presidente iraniano enfatizou que isso não implica qualquer animosidade em relação a esse país, nem significa que desejam causar sofrimento ao seu povo. Pezeshkian também criticou os Estados Unidos e Israel pelas baixas civis em Gaza.

"Os EUA e Israel não têm vergonha de matar tantas crianças? Não têm vergonha de terem assassinado mais de 50 mil crianças em Gaza?", questionou retoricamente o presidente iraniano. Pezeshkian reiterou que o Irã nunca cedeu facilmente à chantagem, à injustiça ou à agressão, nem jamais cederá.

"Nos mantemos firmes contra aqueles que atacam nosso país e responderemos com força", enfatizou.

O presidente pediu desculpas aos afetados pela tensão na região. Ele também destacou as "relações fraternas com os países da região" e a necessidade de "permanecer unidos" para "não permitir que os EUA e Israel, enganando os países da região, os coloquem uns contra os outros".

"Apesar de todos os problemas e dificuldades no Irã, todo o nosso povo — independentemente de partidos políticos, grupos ou correntes — se levantará contra o inimigo e não cederá um centímetro sequer de nosso território", concluiu.

No dia 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel lançaram uma operação militar em larga escala contra o Irã. Como resultado do ataque israelense-americano, muitas pessoas foram mortas, incluindo o aiatolá Ali Khamenei e vários oficiais de alta patente. Teerã, por sua vez, respondeu com ataques ao território israelense e a alvos militares dos EUA na região.

¨      Especialista: guerra contra o Irã poderia ser catastrófica para o meio ambiente no golfo Pérsico

Um incidente envolvendo petroleiros no estreito de Ormuz pode causar um grande derramamento de petróleo e grave dano ao ecossistema do Golfo, alertou o ambientalista Paul Abi Rached à Sputnik, destacando que a escalada militar ameaça a biodiversidade da região, expondo a hipocrisia ocidental.

Qualquer incidente envolvendo um grande número de petroleiros no estreito de Ormuz poderia levar a um enorme derramamento de petróleo, causando potencialmente uma séria poluição ao ecossistema marinho do golfo Pérsico, afirma Paul Abi Rached, presidente da associação ambiental libanesa Terra, à Sputnik.

"Não se trata apenas de poluição marinha, mas também da crise global de perda de biodiversidade", diz ele, acrescentando que as guerras interrompem os mecanismos de proteção ambiental e destroem habitats naturais.

região do golfo Pérsico é um ambiente marinho relativamente fechado, o que torna a situação ainda mais complexa, pois requer muito tempo para se recuperar de desastres ambientais, acrescenta Abi Rached.

Isso evidencia a hipocrisia ocidental, observa o especialista — os EUA e a União Europeia (UE) falam sobre proteção ambiental, mas assim que isso entra em conflito com seus interesses geopolíticos, todo o assunto é deixado de lado.

"Se a escalada militar na região do golfo Pérsico continuar por um período prolongado, os riscos ambientais poderão se tornar extremamente graves", conclui.

 

Fonte: BBC News Mundo/La Repubblica/Sputnik Brasil

 

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