Nicolau
Maquiavel e a participação popular
Talvez
um dos principais fundamentos do pensamento de Nicolau Maquiavel passe pela
necessidade da unificação italiana ou, pelo menos, pela compreensão da
necessidade de haver um governo comum para as províncias da península itálica.
No
capítulo final de O príncipe, Nicolau Maquiavel afirma: “Consideradas, pois,
todas as coisas acima expostas, e pensando comigo mesmo se no presente na
Itália corriam tempos para honrar um novo príncipe, e se havia matéria que
desse ocasião a um prudente e virtuoso para aqui introduzir forma que trouxesse
honra a ele e bem ao conjunto dos homens dela, parece-me concorrerem tantas
coisas a favor de um príncipe novo, que nem sei se houve jamais um tempo mais
apto para tal”.
Diante
das tensões que marcavam a região, Nicolau Maquiavel visualiza a necessidade de
uma figura que pudesse unificar a Itália. Para tanto, Nicolau Maquiavel
apresentou de forma original uma formulação que permitiu compreender o
exercício do governar, sendo sua obra “fundamental para pensar tanto o Estado
quanto a liberdade e, acima de tudo, a relação entre ambos”.
Nicolau
Maquiavel procura mostrar a política não como emanação de escolhas divinas, mas
como consequência das escolhas e das ações humanas. Maquiavel, diante da ideia
de que “as coisas do mundo são de tal modo governadas, pela fortuna e por
Deus”, afirmava: “porque o nosso livre-arbítrio não foi extinto, julgo poder
ser verdadeiro que a fortuna seja árbitra de metade das nossas ações, mas que
ela também nos deixa governar a outra metade, ou quase”.
Com sua
obra, Nicolau Maquiavel “desnuda inteiramente o poder. Ao mostrá-lo como uma
construção secular, despoja-se das roupagens religiosas e ideológicas que o
sacralizavam diante dos olhos do povo e suscitavam sua obediência e veneração”.
Dessa forma, ele “inaugura, no alvorecer da filosofia política moderna, a
reflexão sobre o Estado, entendido este, naturalmente, não como qualquer tipo
de ordem política – que, num sentido amplo remontaria aos inícios da sociedade
humana –, mas como a forma política específica que surgem com o advento da
sociedade burguesa e seus traços definitórios: expropriação dos produtores,
‘separação’ da economia e da política, e constituição de uma esfera privada que
se distingue da pública”.
Essa
formulação, na medida em que apontava para um poder soberano com direitos quase
absolutos, excluía a participação popular como sujeito de transformação, ou
seja, não apontava para uma mobilização das classes subalternas como parte do
processo de unificação.
Nicolau
Maquiavel, no capítulo 24 do Livro II dos Comentários sobre a primeira década
de Tito Lívio, “defende que a força real de um estado depende da participação
popular, o qual por sua vez só surge quando há liberdade de manifestação”. Essa
posição parece se expressar na defesa que faz de uma “milícia republicana
baseada no recrutamento em massa”. Contudo, é preciso olhar de forma mais
precisa como se daria essa participação “em massa” e inclusive como se
constituía o povo.
Nicolau
Maquiavel escreveu sua obra em um período de desenvolvimento do modo de
produção capitalista e de superação das relações de produção feudais. Os
Estados nacionais, nesse período, “apenas começavam a exercer a longa hegemonia
que marcaria a modernidade e a ideia de Estado constitucional ainda precisaria
esperar uns bons séculos para aparecer e se consolidar”.
Esse
ideal de um Estado que garantisse a liberdade política nasceu na Renascença e
foi, em parte, a partir dele que o liberalismo se gestou “como o pensamento
político dominante no ocidente a partir da segunda metade do século XVIII”.
Em
Nicolau Maquiavel, os agentes de transformação são as elites militares e
monárquicas, tendo o povo o papel de apoiar ou reconhecer suas ações. Ou
melhor, o povo seria um setor a ser ganho para os projetos elitista, ou mesmo
ser iludido, pois seu apoio seria necessário para a execução de qualquer
projeto de poder ou de Estado. Nas palavras de Maquiavel, “é necessário a um
príncipe ter o povo por amigo; de outra maneira, não tem remédio na
adversidade”. O raciocínio de Maquiavel leva à conclusão de “que a arte de bem
governar exige apoiar-se no povo”. Contudo, o papel de protagonistas caberia às
várias parcelas das elites.
Quando
discute o “principado civil”, Nicolau Maquiavel afirma: “O principado é causado
ou pelo povo ou pelos grandes, consoante seja uma ou outra dessas partes que
tem a ocasião: porque os grandes, vendo que não podem resistir ao povo, começam
a dirigir a reputação para um deles e fazem-no príncipe a fim de poderem, à sua
sombra, saciar o apetite deles; o povo, também, vendo que não pode resistir aos
grandes, dirige a reputação para um só e o faz príncipe, para ser defendido
pela sua autoridade”.
Nas
linhas seguintes aponta para as fragilidades de um governo eleito pelo povo e
de outro eleito pelos “grandes”. Destaca, todavia, que “a finalidade do povo é
mais honesta que a dos grandes, querendo estes oprimir e aquele não ser
oprimido”. Em suas reflexões, afirma que, “do povo inimigo, um príncipe não
pode jamais precaver-se, por serem demasiados; dos grandes, pode precaver-se,
por serem poucos”.
Mas,
ainda que aponte para o elemento positivo que significa o apoio do povo, deixa
claro que o mais importante é aquele que vem dos “grandes”. Segundo ele, “os
grandes, quando inimigos, deve temer não só ser abandonado, mas também que eles
venham contra ele: porque, existindo neles mais visão e mais astúcia,
antecipam-se sempre para se salvar e procuram posicionar-se junto de quem
esperam que vença”.
Nesse
sentido, afirma: “Deve, portanto, alguém que se torne príncipe mediante o apoio
do povo mantê-lo como amigo, o que lhe será fácil, visto ele não lhe pedir
senão para não ser oprimido. Mas alguém que, contra o povo, se torne príncipe
com apoio dos grandes, deve antes de qualquer outra coisa procurar ganhar o
povo, o que lhe será fácil, desde que tome a sua proteção; e como os homens,
quando lhes faz bem quem acreditavam fazer-lhes mal, se vinculam mais ao seu
benfeitor, o povo torna-se mais benevolente para com ele do que se tivesse sido
conduzido ao principado com o seu apoio”.
Em
outro capítulo, a respeito do desprezo e do ódio, Nicolau Maquiavel comenta
“que um príncipe deve ter as conjuras em pouca conta, desde que o povo queira
bem, mas quando ele for seu inimigo e lhe tiver ódio, deve temer tudo e todos.
Os Estados bem ordenados e os príncipes sábios têm com toda a diligência
pensado em não exasperar os grandes e satisfazer o povo e mantê-lo contente”.
Nesse
caso, o que está em jogo é a constituição de um governo com os grandes ou, pelo
menos, com seu apoio, da mesma forma que se conquista a estima e o apoio do
povo. Maquiavel então reafirmar “que um príncipe deve estimar os grandes, mas
não se fazer odiar pelo povo”.
Para
Nicolau Maquiavel, há uma certa naturalidade na exploração de classes, em suas
formulações teóricas demonstrando a importâncias das elites na manutenção do
poder. Para Maquiavel, “o mundo sempre foi, de certa forma, habitado por homens
que sempre têm paixões iguais; e sempre houve quem serve e quem ordena, e quem
serve de má vontade e quem serve de boa vontade, e quem se rebela e se rende”.
Pode-se
concluir dessas reflexões que, “enquanto prevalecerem as condições observadas
por Nicolau Maquiavel, a soberania só pode ser garantida se houver a unificação
das forças da comunidade em torno de um, e necessariamente apenas um, poder
armado em determinado território”. O príncipe seria o representante desse
poder.
O
projeto de Estado presente nas proposições de Nicolau Maquiavel quanto à
unificação italiana, seguindo os passos de outros pensadores anteriores, como
Dante Alighieri, e avançando criticamente em alguns pontos, não apontava para a
possibilidade de participação ativa dos setores pobres e populares. O “povo” ao
qual Maquiavel demonstra alguma simpatia parece ser muito mais os setores
médios da sociedade que eram desprezados pelas elites do que a parcela mais
pauperizada da sociedade.
Em
Nicolau Maquiavel, as multidões seriam chamadas a votar ou simplesmente apoiar
os governantes, legitimando suas ações, fosse pelo medo, fosse pela estima.
Era, portanto, a variante de um projeto de elites políticas, econômicas e
militares, que temiam as ações das multidões e, principalmente, tinham no
controle do Estado seu principal objetivo.
Fonte:
Por Michel Goulart da Silva, em Outras Palavras

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