A
pesquisadora que estuda o mercado de trabalho das mães solo no Brasil: 'Ganham
40% menos que pais casados'
A
pesquisadora Mariene Ramos cresceu cercada de mães solo — mulheres que criam
seus filhos sem o apoio de um parceiro ou parceira.
Nascida
em Ponte Alta do Bom Jesus, cidade com pouco mais de 4 mil habitantes no
interior do Tocantins, Mariene se mudou com a família para o Distrito Federal
aos 7 anos, por motivo de doença de um irmão mais novo.
Após o
falecimento deste irmão e com o pai aposentado precocemente por um acidente de
trabalho, sua mãe passou a complementar a renda da família cuidando dos filhos
de vizinhas em Novo Gama, cidade goiana da periferia de Brasília.
"Passei
cerca de três anos morando com amigos da família para poder estudar, enquanto
meus pais trabalhavam no setor de chácaras de Brasília", lembra Mariene,
que antes disso estudou em escola rural, onde alunos de diversas idades
convivem em uma mesma série.
"Quando
mudamos para o Novo Gama, eu já tinha 13 para 14 anos, e ajudava minha mãe com
essa dinâmica, de deixar e buscar criança na escola, de fazer comida",
conta a pesquisadora, hoje com 36 anos.
"Eu
eu via a luta daquelas mulheres. A maioria eram domésticas, nem todas eram mães
solo — mas muitas eram. Enquanto outras eram casadas, mas não podiam contar com
os maridos, por questões como o vício em bebida, então, na prática, se tornavam
meio mães solo também."
Com pai
e mãe que não concluíram o ensino fundamental, Mariene se formou no ensino
médio, tornou-se funcionária pública e completou duas faculdades, de gestão
pública e jornalismo.
Nesse
meio tempo, porém, tornou-se ela mesma uma mãe solo — tema que decidiu estudar
em seu mestrado em políticas públicas no Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea).
"Sem
rede de apoio, após me mudar do Novo Gama para Brasília para o mestrado,
precisei levar minha filha para muitas das aulas", lembra Mariene.
"Todas as aulas à noite, eu levava, então, no aniversário dela de 14 anos,
ela estava em uma aula de Econometria junto comigo."
"Foi
aí que me deu mais vontade ainda de estudar sobre esse tema", conta a
pesquisadora, destacando a importância do assunto em um momento em que o Brasil
passou a ter maioria de domicílios chefiados por mulheres.
Desde
2022, elas passaram à frente dos homens na chefia dos lares brasileiros,
tornando-se responsáveis por 52% dos domicílios.
Nos
lares monoparentais — aqueles onde apenas um adulto vive com os filhos, sem a
presença de um cônjuge — a chefia feminina chega a 92%, segundo estudo do
Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a
partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
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Menos renda e formalização, mais serviço doméstico
Coorientada
pelos pesquisadores Carlos Corseuil e Marcos Hecksher, a pesquisa de mestrado
de Mariene traça um retrato de como trabalham as mães que criam seus filhos
sozinhas no Brasil, a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, de 2022.
No
estudo, a pesquisadora considera como mães solo as mulheres chefes de
domicílio, com filhos e sem cônjuge. Em 2022, o Brasil somava mais de 10,9
milhões de mães solo responsáveis por domicílio, o equivalente à população
total de países como Portugal ou Bélgica.
"Os
estudos sobre mães solo no Brasil hoje são muito escassos", observa
Mariene.
"Sempre
ouvimos falar de penalidade pela maternidade, mas tratando as mulheres como um
grupo homogêneo — mas elas não são iguais."
Penalidades
pela maternidade são desvantagens profissionais e econômicas que mulheres
enfrentam no mercado de trabalho após se tornarem mães, incluindo menor
probabilidade de contratação ou promoção e percepção de menor competência, que
se expressam, por exemplo, em rendimentos mais baixos.
Em
2022, mães solo tinham o menor rendimento médio (R$ 2.322) entre os arranjos
familiares, quase 40% abaixo dos pais com cônjuge (R$ 3.869) e 11,5% inferior à
renda média das mães com cônjuge — pessoas com cônjuge contam ainda com o
rendimento do parceiro para compor a renda familiar.
"As
mães solo não sofrem penalidade apenas no rendimento, elas sofrem também na
questão da precariedade do trabalho", observa Mariene.
Em
2022, o grupo apresentava uma taxa de ocupação de 50,2%, inferior aos pais com
cônjuges (81%) e às mães com cônjuge (53,2%).
Elas
também tinham a menor taxa de contribuição previdenciária (28,3%),
significativamente inferior aos pais com cônjuge (54,8%) e mesmo às mães com
cônjuge (34,7%).
"Essa
baixa cobertura previdenciária representa uma vulnerabilidade de longo prazo
para as mães solo, comprometendo a segurança social na velhice ou em situações
de incapacidade", destaca a autora do estudo.
Analisando
a população ocupada por setores da atividade econômica, Mariene observa que há
uma concentração de mães solo em setores historicamente desvalorizados e
marcados por baixos salários, como serviços domésticos (21,9%).
O
percentual de mães solo trabalhando como empregadas domésticas é
significativamente superior ao das mães com cônjuge (11,8%) e quase 27 vezes
maior que o dos pais com cônjuge (0,8%).
"Isso
reforça a hipótese de que as mães solo estão confinadas em setores com menores
remunerações", destaca a pesquisadora, em sua dissertação.
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Baixa escolaridade e 'geração sanduíche'
A
escolaridade é um fator importante para compreender essa precária inserção das
mães solo no mercado de trabalho.
Pouco
mais de 55% têm, no máximo, o ensino médio incompleto, percentual superior ao
de pais com cônjuge (46,6%), mães com cônjuge (39,9%) e mulheres sem filhos
(47,9%), ficando atrás apenas dos pais solo (61,4%).
E
apenas 13,7% das mães solo concluíram o ensino superior, abaixo das mulheres
sem filhos (22,1%) e também das mães com cônjuge (19,9%).
Mariene
destaca, porém, que a escolaridade não explica tudo, e que é preciso levar em
conta também a discriminação sofrida pelas mães solo no mercado de trabalho.
"Muitas
vezes, o empregador supõe que aquela pessoa vai ter menos disponibilidade,
menos flexibilidade e vai render menos", observa a pesquisadora.
"Então,
ela acaba não conseguindo ocupar cargos mais altos ou ocupa aqueles com salário
um pouco mais baixo."
Analisando
o perfil racial, 62% das mães solo são negras, sendo 14% pretas e 47% pardas,
enquanto 37% são brancas e 2% de outras raças ou cor. O percentual de pessoas
negras no grupo é superior ao do conjunto de pais solo (60%), mães com cônjuge
(59%), pais com cônjuge (56%) e mulheres sem filhos (50%).
Mariene
destaca ainda a questão da "geração sanduíche" — mulheres
pressionadas simultaneamente pelo cuidado de filhos e de pais idosos.
No caso
das mães solo, 33,5% residem em domicílios com pessoas acima de 60 anos. Essa
proporção é mais que o dobro das mães com cônjuge (15,7%) e supera
significativamente a dos pais com cônjuge (19,4%).
"Esses
idosos podem representar uma rede de apoio, mas também podem precisar da ajuda
dessa mãe, então, muitas delas vivem uma jornada dupla de cuidado, ou uma
jornada tripla", diz a pesquisadora.
Por
fim, ela observa que 57% das mães solo recebem algum tipo de benefício social
do Estado, proporção substancialmente superior à dos pais com cônjuge (19%) e
também superior à das mães com cônjuge (34%), dos pais solo (49,9%) e das
mulheres sem filhos (48,6%).
A
pesquisadora destaca que isso é consequência direta da falha do mercado de
trabalho em absorver adequadamente a mão de obra dessas mulheres.
"Como
essas mães não estão conseguindo receber [através do trabalho] um rendimento
que consiga arcar com suas despesas, o Estado acaba tendo que entrar com
benefícios", afirma.
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Creches e qualificação profissional
Para
mudar esse quadro, Mariene defende que é preciso aumentar a oferta de creches
em tempo integral no país.
Um
estudo recente da ONG Todos pela Educação mostrou que, em 2024, apenas 41,2%
das crianças de até 3 anos eram atendidas por creches no país — ainda distante
da meta de 50% estabelecida pelo Plano Nacional de Educação (PNE).
Entre
os mais pobres, 30,6% das crianças eram atendidas, enquanto entre as mais
ricas, a taxa chegava a 60%.
O
levantamento também mostrou que quase 2,3 milhões de crianças de até 3 anos
estavam fora da creche em 2024, por dificuldades de acesso, como falta de vagas
ou de unidades próximas.
A
pesquisadora do Ipea diz ainda que é preciso reconhecer o tempo de cuidado
dessas mães, debate que vem ganhando espaço no Brasil, a partir da aprovação da
Política Nacional de Cuidado.
Estudo
do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São
Paulo (Made-USP), com base em dados da Pnad Contínua de 2019, mostra que,
somadas as horas remuneradas e não remuneradas, as mulheres brasileiras
trabalham em média 58,1 horas semanais, ante 50,3 horas dos homens.
A carga
de trabalho não remunerado das mulheres chega a 21,3 horas semanais, mais do
que o dobro das 8,8 horas masculinas, "configurando uma jornada total
equivalente a uma escala 7x0: todos os dias da semana, sem folga",
destacam os pesquisadores do Made, em estudo lançado neste domingo (8/3), por
ocasião do Dia Internacional da Mulher.
Por
fim, Mariene defende ainda que é preciso investir na qualificação profissional
das mães solo, para que um maior número delas possa obter renda suficiente por
meio do trabalho. Mas, para isso, ela reforça novamente a importância da oferta
de creches, para que essas mães possam estudar e trabalhar.
"Hoje,
eu entendo minha mãe como uma política pública ambulante", brinca a
pesquisadora, sobre o trabalho de sua mãe como cuidadora dos filhos de
vizinhas. "Naquela época, eu não entendia assim, mas, hoje, entendo que é
isso."
"Precisamos
olhar para essas mulheres — essa maioria de mulheres nas chefias de lar, essas
11 milhões de mães solo. Não se trata mais de um grupo marginal, mas de uma
transformação estrutural do país", considera a pesquisadora.
"Quando
o mercado e as políticas públicas se ajustam a essa realidade, toda a economia
ganha", diz Mariene.
"Precisamos
inseri-las no mercado de trabalho, não de forma assistencialista, mas para que
elas consigam viver do seu próprio trabalho."
Fazendo
isso, afirma a pesquisadora, será possível ter uma próxima geração, que são os
filhos dessas mulheres, talvez com menos dificuldades.
"Eu
furei essa bolha: me tornei servidora pública, fiz mestrado, e pretendo
continuar esse estudo no doutorado. Mas, para que mais pessoas possam furar a
bolha, é preciso trazer essas mulheres, essas mães, para um mercado de trabalho
menos precário."
Fonte:
BBC News Brasil

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