"Obesidade
não se trata apenas de força de vontade", afirma especialista
A
obesidade atinge cerca de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo, segundo dados da
OMS (Organização Mundial da Saúde).
Uma
nova pesquisa global da Ipsos aponta que sete em cada dez (71%) pessoas vivendo
com a condição no Brasil sentem-se frequentemente ansiosas em relação ao
próprio estado de saúde devido ao seu peso.
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O que pode causar obesidade?
A
obesidade, no entanto, segundo especialistas, não se trata apenas de uma
questão de força de vontade.
Fábio
Carra, endocrinologista do Hospital Nove de Julho, explica que a regulação do
peso corporal é controlada por mecanismos biológicos complexos, incluindo
circuitos neuroendócrinos que regulam fome, saciedade e gasto energético,
muitos dos quais não estão sob controle consciente. “Quando tentamos perder
peso existem adaptações fisiológicas, como aumento do apetite e redução do
gasto energético, o que dificulta a manutenção da perda de peso,
independentemente da motivação individual. Nós não fomos feitos para perder
peso.”
O
especialista lembra que os principais mecanismos biológicos envolvidos na
obesidade incluem fatores como predisposição genética, alterações no hipotálamo
– uma região do nosso cérebro, resistência de alguns hormônios como a leptina –
hormônio associado à saciedade, aumento de hormônios intestinais (como grelina
e peptídeo YY) relacionados ao aumento do apetite, inflamação crônica de baixo
grau, alterações da microbiota intestinal e influência de fatores ambientais.
“O
corpo tende a defender um “set point” de adiposidade (obesidade), que é sempre
o nosso peso máximo, promovendo respostas fisiológicas que favorecem o reganho
de peso”, explica.
Ainda
de acordo com o endocrinologista, a visão de que obesidade é falta de esforço e
que basta mudar o estilo de vida para tratar obesidade pode restringir o acesso
a tratamentos baseados em evidências, como farmacoterapia e cirurgia
bariátrica, além de reforçar o estigma e a discriminação. “Essa abordagem
simplista ignora a complexidade biológica da doença, perpetua a ideia de culpa
individual e contribui para o sofrimento psicológico, menor adesão ao
tratamento e pior prognóstico. Além disso, o estigma associado à obesidade está
relacionado a piores desfechos em saúde, aumento do risco de depressão,
desistência de acompanhamento médico e perpetuação de desigualdades em saúde.”
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Obesidade e saúde mental
A
cultura de exposição nas redes sociais é um denominador global, não só
exclusivo do Brasil. Porém, quando vinculada principalmente a questões como
clima ou festas populares como o Carnaval, a demanda por questões estéticas faz
com que o corpo “ideal” se torne uma prioridade mais significativa aqui do que
em comparação a outros países.
Gustavo
Yamin Fernandes, psiquiatra do Hospital Samaritano Higienópolis, afirma que
essa tendência por medidas padrões pode funcionar como um fator negativo.
“A
ansiedade faz com que procuremos por comportamentos que nos acalmem e nos
tragam gratificação e recompensa de maneira mais imediata - a alimentação
inadequada que se transforma em compulsão é uma das mais frequentes, o que
acaba criando uma ambivalência - a demanda por cuidados alimentares, porém com
escapes compulsivos”, explica Fernandes.
Uma das
consequências deste processo, segundo o psiquiatra, é que o julgamento social
recorrente tende a ser internalizado. Ou seja, quando a pessoa passa a se
perceber sob constante avaliação negativa, isso impacta diretamente sua
autoestima e sua autoconfiança.
“Não se
trata apenas do receio de não atingir metas de peso, mas do temor de confirmar
estereótipos negativos já vivenciados socialmente - mesmo o julgamento cessando
ou não sendo algo constante, acaba sendo introjetado na pessoa em uma situação
de maior sensibilidade e ansiedade”, afirma.
Esse
medo, alerta o especialista em saúde mental, pode reduzir a iniciativa tanto
para iniciar como para manter tratamentos, pois cada tentativa passa a ser
emocionalmente carregada de expectativas e autocrítica. “A antecipação de um
possível insucesso gera evitamento — e o evitamento, por sua vez, perpetua o
problema”, diz.
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Qual o melhor caminho para tratar a obesidade sem prejudicar a saúde mental?
O
sistema de saúde tem papel central na quebra desse ciclo, assegura o
psiquiatra. Isso envolve adotar uma abordagem não estigmatizante, evitar
discursos moralizantes sobre peso e reconhecer a obesidade como condição
multifatorial, com componentes biológicos, psicológicos e sociais. “O
acolhimento deve priorizar metas realistas, reforço de pequenas conquistas e
separação clara entre valor pessoal e peso corporal. Quando o cuidado é
estruturado a partir do respeito e da validação, reduz-se o sentimento de culpa
e aumenta-se a probabilidade de adesão e de resultados sustentáveis a longo
prazo”, finaliza.
• "É doença e não falta de
vontade": médico diz o que perder 47 kg o ensinou
Hoje
tenho 47 anos. Durante muito tempo, achei que meu problema era falta de
disciplina. Eu já era médico, conhecia os mecanismos metabólicos, entendia a
teoria, dominava as diretrizes. Ainda assim, cheguei a pesar 126 quilos.
Mas o
número na balança não foi o que mais me marcou. O que realmente me preocupou
foi quando a obesidade deixou de ser sobre o espelho e passou a ser sobre
cansaço constante, inflamação silenciosa, compulsão alimentar e perda de
performance. Minha energia caiu. Minha clareza mental diminuiu. O apetite
parecia desproporcional à minha própria vontade.
Eu
vivia, na prática, o impacto da resistência insulínica, da fome aumentada, da
dificuldade real de controlar a ingestão alimentar. Foi ali que compreendi algo
definitivo: a obesidade não é vaidade. É fisiologia alterada.
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O dia em que parei de fingir
A
grande virada aconteceu por volta dos 33 anos. Não houve cena dramática. Houve
lucidez. Eu percebi que, se continuasse naquele caminho, perderia longevidade,
performance e autoridade. Falava sobre saúde, mas não estava conseguindo viver
plenamente o que ensinava.
O
pensamento foi simples e direto: ou eu assumo que isso é uma doença e trato
como tal, ou continuo fingindo que é apenas falta de disciplina.
Como
médico, viver a obesidade do outro lado gerou um conflito silencioso. Existe
culpa. Existe vergonha. Existe a sensação de incoerência. Você sabe o que
deveria fazer, mas isso não impede que a desregulação hormonal supere a sua
força racional. Foi nessa vivência que aprendi uma das maiores lições da minha
prática: o conhecimento não vence a desregulação hormonal. Empatia nasce quando
você sente na pele.
No
início, cometi o erro clássico do radicalismo. Treinava demais, comia de menos,
acreditava que a intensidade extrema sustentaria o processo. O corpo reagiu:
metabolismo reduzido, fome aumentada, cortisol elevado. Entendi, então, que a
obesidade não se vence com intensidade temporária. Se maneja com constância
estratégica.
O
processo não foi imediato. Foram cerca de três a quatro anos de tratamento
estruturado até atingir meu peso ideal. Hoje peso 79 quilos. Não houve milagre.
Houve estratégia, ajuste de rota, acompanhamento e constância.
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A obesidade é doença crônica – e exige manejo crônico
Ainda
existe resistência em enxergar a obesidade como doença. Ela continua sendo
associada à falta de vontade ou fraqueza moral. Mas trata-se de uma condição
crônica, assim como diabetes ou hipertensão. Não tem fim. Tem controle.
Quando
um paciente tenta emagrecer apenas na força de vontade, o corpo entra em modo
de defesa. A leptina cai, a grelina sobe, o gasto energético basal diminui. O
organismo interpreta a perda de peso como ameaça e luta biologicamente para
recuperar o peso perdido. O reganho não é fraqueza. É adaptação fisiológica.
As
medicações, como os análogos de GLP-1, não são milagre. São ferramentas
fisiológicas. Reduzem a fome, aumentam a saciedade, melhoram o controle
glicêmico e atuam no eixo neuro-hormonal do apetite. Em muitos casos moderados
a graves, a remissão sustentada é improvável sem intervenção medicamentosa
adequada. Assim como tratamos pressão alta de forma contínua, a obesidade
também pode exigir tratamento contínuo.
A
medicação isolada não resolve. O manejo sério e sustentável da obesidade se
apoia em quatro pilares inegociáveis:
1. Estratégia nutricional estruturada
2. Exercício físico inteligente com
preservação de massa magra
3. Terapêutica farmacológica quando indicada
4. Mentalidade de longo prazo.
Obesidade
não é projeto de verão. É manejo crônico.
Hoje,
não falo apenas como médico. Falo como alguém que vive o tratamento diariamente
há mais de uma década. Eu não "curei" minha obesidade. Eu a controlo.
E é isso que me permite energia, saúde, performance e coerência entre o que
ensino e o que pratico.
Obesidade
não é falha moral. É doença crônica. E existe tratamento.
• Obesidade ultrapassa desnutrição e
atinge 1 em 10 crianças no mundo
A
obesidade infantil superou a desnutrição e atinge 1 em 10 crianças no mundo,
segundo dados divulgados no Atlas Mundial da Obesidade 2026 para o Dia Mundial
da Obesidade, celebrado nesta quarta-feira (4).
Segundo
a Federação Mundial de Obesidade, cerca de 180 milhões de crianças em todo o
planeta viviam com obesidade em 2025 -- o equivalente a uma em cada dez.
Mantida a tendência atual, esse número pode chegar a 227 milhões até 2040.
O
relatório alerta ainda que mais de meio bilhão de crianças e adolescentes entre
5 e 19 anos estarão acima do peso nas próximas décadas. Com isso, ao menos 120
milhões de crianças em idade escolar hoje poderão apresentar sinais precoces de
doenças crônicas associadas ao índice de massa corporal (IMC) elevado, como
problemas cardiovasculares, hipertensão e diabetes.
O
Brasil é um dos países que apresentou os maiores índices de obesidade em 2025,
atingindo a sétima posição com o marco de 17 milhões de crianças e adolescentes
com a condição médica.
Para
Johanna Ralston, diretora-executiva da federação, os números revelam uma falha
coletiva no enfrentamento da doença. “Não é aceitável condenar uma geração
inteira à obesidade e a enfermidades crônicas, potencialmente fatais, que
frequentemente a acompanham”, afirmou.
Diante
do cenário, a Federação defende medidas consideradas urgentes, como a taxação
de bebidas açucaradas, restrições à publicidade de alimentos ultraprocessados
voltada ao público infantil e políticas que incentivem uma rotina mais ativa
para crianças e adolescentes.
Fonte:
CNN Brasil

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