terça-feira, 10 de março de 2026

"Obesidade não se trata apenas de força de vontade", afirma especialista

A obesidade atinge cerca de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo, segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Uma nova pesquisa global da Ipsos aponta que sete em cada dez (71%) pessoas vivendo com a condição no Brasil sentem-se frequentemente ansiosas em relação ao próprio estado de saúde devido ao seu peso.

<><> O que pode causar obesidade?

A obesidade, no entanto, segundo especialistas, não se trata apenas de uma questão de força de vontade.

Fábio Carra, endocrinologista do Hospital Nove de Julho, explica que a regulação do peso corporal é controlada por mecanismos biológicos complexos, incluindo circuitos neuroendócrinos que regulam fome, saciedade e gasto energético, muitos dos quais não estão sob controle consciente. “Quando tentamos perder peso existem adaptações fisiológicas, como aumento do apetite e redução do gasto energético, o que dificulta a manutenção da perda de peso, independentemente da motivação individual. Nós não fomos feitos para perder peso.”

O especialista lembra que os principais mecanismos biológicos envolvidos na obesidade incluem fatores como predisposição genética, alterações no hipotálamo – uma região do nosso cérebro, resistência de alguns hormônios como a leptina – hormônio associado à saciedade, aumento de hormônios intestinais (como grelina e peptídeo YY) relacionados ao aumento do apetite, inflamação crônica de baixo grau, alterações da microbiota intestinal e influência de fatores ambientais.

“O corpo tende a defender um “set point” de adiposidade (obesidade), que é sempre o nosso peso máximo, promovendo respostas fisiológicas que favorecem o reganho de peso”, explica.

Ainda de acordo com o endocrinologista, a visão de que obesidade é falta de esforço e que basta mudar o estilo de vida para tratar obesidade pode restringir o acesso a tratamentos baseados em evidências, como farmacoterapia e cirurgia bariátrica, além de reforçar o estigma e a discriminação. “Essa abordagem simplista ignora a complexidade biológica da doença, perpetua a ideia de culpa individual e contribui para o sofrimento psicológico, menor adesão ao tratamento e pior prognóstico. Além disso, o estigma associado à obesidade está relacionado a piores desfechos em saúde, aumento do risco de depressão, desistência de acompanhamento médico e perpetuação de desigualdades em saúde.”

<><> Obesidade e saúde mental

A cultura de exposição nas redes sociais é um denominador global, não só exclusivo do Brasil. Porém, quando vinculada principalmente a questões como clima ou festas populares como o Carnaval, a demanda por questões estéticas faz com que o corpo “ideal” se torne uma prioridade mais significativa aqui do que em comparação a outros países.

Gustavo Yamin Fernandes, psiquiatra do Hospital Samaritano Higienópolis, afirma que essa tendência por medidas padrões pode funcionar como um fator negativo.

“A ansiedade faz com que procuremos por comportamentos que nos acalmem e nos tragam gratificação e recompensa de maneira mais imediata - a alimentação inadequada que se transforma em compulsão é uma das mais frequentes, o que acaba criando uma ambivalência - a demanda por cuidados alimentares, porém com escapes compulsivos”, explica Fernandes.

Uma das consequências deste processo, segundo o psiquiatra, é que o julgamento social recorrente tende a ser internalizado. Ou seja, quando a pessoa passa a se perceber sob constante avaliação negativa, isso impacta diretamente sua autoestima e sua autoconfiança.

“Não se trata apenas do receio de não atingir metas de peso, mas do temor de confirmar estereótipos negativos já vivenciados socialmente - mesmo o julgamento cessando ou não sendo algo constante, acaba sendo introjetado na pessoa em uma situação de maior sensibilidade e ansiedade”, afirma.

Esse medo, alerta o especialista em saúde mental, pode reduzir a iniciativa tanto para iniciar como para manter tratamentos, pois cada tentativa passa a ser emocionalmente carregada de expectativas e autocrítica. “A antecipação de um possível insucesso gera evitamento — e o evitamento, por sua vez, perpetua o problema”, diz.

<><> Qual o melhor caminho para tratar a obesidade sem prejudicar a saúde mental?

O sistema de saúde tem papel central na quebra desse ciclo, assegura o psiquiatra. Isso envolve adotar uma abordagem não estigmatizante, evitar discursos moralizantes sobre peso e reconhecer a obesidade como condição multifatorial, com componentes biológicos, psicológicos e sociais. “O acolhimento deve priorizar metas realistas, reforço de pequenas conquistas e separação clara entre valor pessoal e peso corporal. Quando o cuidado é estruturado a partir do respeito e da validação, reduz-se o sentimento de culpa e aumenta-se a probabilidade de adesão e de resultados sustentáveis a longo prazo”, finaliza.

•        "É doença e não falta de vontade": médico diz o que perder 47 kg o ensinou

Hoje tenho 47 anos. Durante muito tempo, achei que meu problema era falta de disciplina. Eu já era médico, conhecia os mecanismos metabólicos, entendia a teoria, dominava as diretrizes. Ainda assim, cheguei a pesar 126 quilos.

Mas o número na balança não foi o que mais me marcou. O que realmente me preocupou foi quando a obesidade deixou de ser sobre o espelho e passou a ser sobre cansaço constante, inflamação silenciosa, compulsão alimentar e perda de performance. Minha energia caiu. Minha clareza mental diminuiu. O apetite parecia desproporcional à minha própria vontade.

Eu vivia, na prática, o impacto da resistência insulínica, da fome aumentada, da dificuldade real de controlar a ingestão alimentar. Foi ali que compreendi algo definitivo: a obesidade não é vaidade. É fisiologia alterada.

<><> O dia em que parei de fingir

A grande virada aconteceu por volta dos 33 anos. Não houve cena dramática. Houve lucidez. Eu percebi que, se continuasse naquele caminho, perderia longevidade, performance e autoridade. Falava sobre saúde, mas não estava conseguindo viver plenamente o que ensinava.

O pensamento foi simples e direto: ou eu assumo que isso é uma doença e trato como tal, ou continuo fingindo que é apenas falta de disciplina.

Como médico, viver a obesidade do outro lado gerou um conflito silencioso. Existe culpa. Existe vergonha. Existe a sensação de incoerência. Você sabe o que deveria fazer, mas isso não impede que a desregulação hormonal supere a sua força racional. Foi nessa vivência que aprendi uma das maiores lições da minha prática: o conhecimento não vence a desregulação hormonal. Empatia nasce quando você sente na pele.

No início, cometi o erro clássico do radicalismo. Treinava demais, comia de menos, acreditava que a intensidade extrema sustentaria o processo. O corpo reagiu: metabolismo reduzido, fome aumentada, cortisol elevado. Entendi, então, que a obesidade não se vence com intensidade temporária. Se maneja com constância estratégica.

O processo não foi imediato. Foram cerca de três a quatro anos de tratamento estruturado até atingir meu peso ideal. Hoje peso 79 quilos. Não houve milagre. Houve estratégia, ajuste de rota, acompanhamento e constância.

<><> A obesidade é doença crônica – e exige manejo crônico

Ainda existe resistência em enxergar a obesidade como doença. Ela continua sendo associada à falta de vontade ou fraqueza moral. Mas trata-se de uma condição crônica, assim como diabetes ou hipertensão. Não tem fim. Tem controle.

Quando um paciente tenta emagrecer apenas na força de vontade, o corpo entra em modo de defesa. A leptina cai, a grelina sobe, o gasto energético basal diminui. O organismo interpreta a perda de peso como ameaça e luta biologicamente para recuperar o peso perdido. O reganho não é fraqueza. É adaptação fisiológica.

As medicações, como os análogos de GLP-1, não são milagre. São ferramentas fisiológicas. Reduzem a fome, aumentam a saciedade, melhoram o controle glicêmico e atuam no eixo neuro-hormonal do apetite. Em muitos casos moderados a graves, a remissão sustentada é improvável sem intervenção medicamentosa adequada. Assim como tratamos pressão alta de forma contínua, a obesidade também pode exigir tratamento contínuo.

A medicação isolada não resolve. O manejo sério e sustentável da obesidade se apoia em quatro pilares inegociáveis:

1.       Estratégia nutricional estruturada

2.       Exercício físico inteligente com preservação de massa magra

3.       Terapêutica farmacológica quando indicada

4.       Mentalidade de longo prazo.

Obesidade não é projeto de verão. É manejo crônico.

Hoje, não falo apenas como médico. Falo como alguém que vive o tratamento diariamente há mais de uma década. Eu não "curei" minha obesidade. Eu a controlo. E é isso que me permite energia, saúde, performance e coerência entre o que ensino e o que pratico.

Obesidade não é falha moral. É doença crônica. E existe tratamento.

•        Obesidade ultrapassa desnutrição e atinge 1 em 10 crianças no mundo

A obesidade infantil superou a desnutrição e atinge 1 em 10 crianças no mundo, segundo dados divulgados no Atlas Mundial da Obesidade 2026 para o Dia Mundial da Obesidade, celebrado nesta quarta-feira (4).

Segundo a Federação Mundial de Obesidade, cerca de 180 milhões de crianças em todo o planeta viviam com obesidade em 2025 -- o equivalente a uma em cada dez. Mantida a tendência atual, esse número pode chegar a 227 milhões até 2040.

O relatório alerta ainda que mais de meio bilhão de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos estarão acima do peso nas próximas décadas. Com isso, ao menos 120 milhões de crianças em idade escolar hoje poderão apresentar sinais precoces de doenças crônicas associadas ao índice de massa corporal (IMC) elevado, como problemas cardiovasculares, hipertensão e diabetes.

O Brasil é um dos países que apresentou os maiores índices de obesidade em 2025, atingindo a sétima posição com o marco de 17 milhões de crianças e adolescentes com a condição médica.

Para Johanna Ralston, diretora-executiva da federação, os números revelam uma falha coletiva no enfrentamento da doença. “Não é aceitável condenar uma geração inteira à obesidade e a enfermidades crônicas, potencialmente fatais, que frequentemente a acompanham”, afirmou.

Diante do cenário, a Federação defende medidas consideradas urgentes, como a taxação de bebidas açucaradas, restrições à publicidade de alimentos ultraprocessados voltada ao público infantil e políticas que incentivem uma rotina mais ativa para crianças e adolescentes.

 

Fonte: CNN Brasil

 

Nenhum comentário: