terça-feira, 10 de março de 2026

A máquina retórica do discurso moral

Um discurso tem se repetido nos momentos de crise política da história brasileira: o combate à corrupção como imperativo moral supremo. Cabe lembrar que o discurso moral sempre é verdadeiro, mas a prática cotidiana pode estar completamente dissociada do discurso, como na famosa hipocrisia dos fariseus descrita na Bíblia. Esse discurso moralista é a ferramenta predileta da elite (na verdade, oligarquia econômica e midiática), para justificar aquilo que ela sempre executou quando perde o jogo democrático eleitoral: o golpe de Estado.

O combate à corrupção é um valor inquestionável na sociedade. Por outro lado, a corrupção real, sistêmica e estrutural do Brasil, desde as Capitanias Hereditárias, é o sistema onde uma minúscula oligarquia (elite de super ricos), historicamente avessa à meritocracia e à livre concorrência, se apropria do Estado e dos recursos nacionais para manter seus privilégios seculares. Essa oligarquia, acostumada a governar para si, desenvolveu uma narrativa poderosa para camuflar e legitimar seus privilégios e dominação: o discurso moral.

A Proclamação da Independência, de autoria do herdeiro direto do poder colonial, foi um movimento de afastamento das ameaças liberais e republicanas que poderiam surgir de uma independência popular. Décadas depois, a Proclamação da República, em 1889, longe de ser uma revolução cívica, foi um golpe militar de oligarquias agrárias e elites insatisfeitas com o Império, mantendo intactas as estruturas de concentração de riqueza e a consequente desigualdade social geradora da pobreza.

O século XX segue na mesma toada. Getúlio Vargas, ao criar as bases de um Estado social e industrial, tornou-se o maior alvo dessa elite oligárquica. Suas conquistas – a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a criação da Justiça do Trabalho, da Petrobrás, do BNDES, e a instituição do salário-mínimo – representavam uma afronta à ordem oligárquica de concentração de riqueza, pois repartiam renda, direitos e poder simbólico com a classe trabalhadora.

Eleito democraticamente em 1951, Getúlio Vargas foi perseguido e difamado, sob campanha feroz da “imprensa conservadora” (da oligarquia/elite de sempre), que o acusava de imensa corrupção, criando a expressão “mar de lama”, que desembocou no trágico suicídio em 1954.

O ciclo repetiu-se com os sucessores. Juscelino Kubitschek, com seu plano de metas que industrializou o país e construiu Brasília, foi incessantemente atacado por suposto “esbanjamento” e corrupção, tentando-se desmoralizar a euforia desenvolvimentista. João Goulart, herdeiro político de Vargas, ao propor as Reformas de Base (agrária, urbana, bancária) e ampliar a organização popular, foi pintado como um comunista corrupto e incompetente, um perigo à moralidade e à família, abrindo caminho para o Golpe Militar de 1964. Jango se viu obrigado a fugir para salvar a vida de sua equipe e apoiadores.

O regime ditatorial subsequente se autoproclamou uma “revolução moral” para limpar a corrupção e o comunismo, mas serviu para impor um projeto econômico excludente, manter e reforçar a concentração de renda e riqueza, e reprimir qualquer ameaça à ordem oligárquica existente.

A redemocratização não desmontou essa lógica, com a oligarquia financeirizada e midiática usando o combate à corrupção como arma seletiva. A campanha de Fernando Collor em 1989, com seu discurso moralizante de “caçador de marajás”, foi amplamente beneficiada por uma manipulação grosseira da Rede Globo, que editou o debate decisivo contra Lula e a favor de Fernando Collor.

No dia da eleição, a rede Globo transmitiu por horas a fio a cobertura do sequestro encenado do empresário Abílio Diniz, criando um clima de comoção e desestabilização. O ápice foi a exibição da “pasta de denúncias” vazia contra Lula, um teatro midiático mentiroso com profundo impacto eleitoral. Fernando Collor, o moralista da Globo, caiu dois anos depois por corrupção, revelando a hipocrisia do uso do discurso moral dissociado da prática. Atualmente Fernando Collor encontra-se condenado por corrupção, cumprindo prisão domiciliar em função de enfermidade.

O impeachment da Presidenta Dilma Rousseff em 2016 foi o ápice contemporâneo dessa estratégia moralista e golpista. Sem crime de responsabilidade ou enriquecimento ilícito, com um discurso moral inflamado pela grande mídia e por setores do judiciário, criou-se a atmosfera de “crise ética” necessária para depor um governo democrático e legitimamente eleito, que, apesar de suas alianças contraditórias, ameaçava interesses oligárquicos ao manter políticas de inclusão social e não se curvar totalmente às agendas econômicas mais radicais do capital financeiro.

A Operação Lava Jato foi o aparato técnico e midiático perfeito para essa narrativa moralista e golpista. Ao criminalizar a política e o Estado como um todo, criou a imagem de um país inteiro corrompido, mas direcionou seu fogo para setores específicos do espectro político, destruindo projetos nacionais e deslegitimando a democracia representativa. O verdadeiro alvo nunca foi o combate da corrupção, mas a reconquista total do Estado por uma oligarquia que se vê como a dona do país e é subserviente a interesses externos, especialmente interesses estadunidenses.

O padrão histórico se confirma: após cada golpe, a corrupção não é combatida, direitos são reduzidos, políticas sociais desmontadas e o Estado retorna ao seu papel tradicional de garantidor dos privilégios econômicos da oligarquia do país.

E assim chegamos ao presente. A cada eleição em que se anuncia a derrota do campo político da elite oligárquica, o mesmo roteiro é reativado: a histeria moral com acusações de corrupção seletiva (por exemplo do STF que puniu golpistas), e apelos por intervenção das forças “puras” contra a “bandidagem” no poder. O objetivo real e não declaro é emplacar o campo político preferido e escolhido pela elite oligárquica.

Portanto, quando se ouve o grito histérico contra a corrupção vindo da tradicional mídia hegemônica e dos púlpitos financeiros, a primeira pergunta a fazer não é sobre a veracidade de eventuais crimes (que devem, em um Estado de Direito sério, ser investigados e punidos), mas sobre a função política desse discurso neste momento. Quem ele beneficia? Quais são as pessoas que representam a “força pura” que irá substituir a “bandidagem” no poder? Que projeto de país ele pretende viabilizar? A Lava e Vaza Jato podem servir de inspiração para as respostas.

Ficou famosa uma frase de campanha do Bill Clinton a presidente dos Estados Unidos: “É a economia, estúpido”. Ela buscava focar no que realmente importava para o eleitor estadunidense, a economia do país. Considero o termo “estúpido” meio forte, mas vem “importado” da frase usada nos Estados Unidos.   No Brasil, o núcleo do conflito está no controle do Estado e dos limites da democracia. A formulação para a situação brasileira, fazendo analogia à frase estadunidense, poderia ser: “Não é a corrupção, é Golpe de Estado, estúpido”.

Sempre foi.

É isso que a elite oligárquica brasileira tenta reacender quando perde no voto. Enquanto o combate à corrupção continuar sendo um discurso moral, distanciado da prática, o Brasil seguirá preso ao seu ciclo histórico mais perverso: o da democracia tolerada apenas quando não ameaça os privilégios oligárquicos internos e externos.

•        A velha direita é convidada a entrar no Chevetão rebaixado do bolsonarismo. Por Moisés Mendes

A direita das antigas está de novo diante de uma escolha difícil. É furado o projeto que Gilberto Kassab leva adiante como gesto desesperado da direita, na tentativa de evitar a sobrevida do bolsonarismo e o quarto mandato de Lula. Os três porquinhos não funcionaram.

Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite são fracos, como mostram as pesquisas. O nome para enfrentar Lula é Flávio Bolsonaro. A velha direita está mais uma vez perdendo a guerra, como perde desde a eleição de Lula em 2002.

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Flávio é o candidato. O eleitor anti-Lula não confia em mais ninguém que não seja da raiz do bolsonarismo, com certificado e alvará do seu criador. As últimas pesquisas Quaest e Folha encerraram a conversa.

Flávio se firmou como nome da direita, desde que Tarcísio de Freitas foi alijado da disputa por decisão de Bolsonaro. Só um desastre ou a aparição milagrosa de um candidato até agora inexistente tiram o filho do duelo com Lula em outubro.

Esse é o cenário para Globo, Folha e Estadão, que terão de entrar no entusiasmo de parte da Faria Lima ou sucumbir como perdedores. O reduto que ainda chamam de mercado financeiro, mas que são agrupamentos de segundo time, de semibanqueiros, donos e executivos de fintechs, já se entregou.

Os informes sobre vários eventos com altos boys do setor mostram acolhimento efusivo a Flávio, que disse o seguinte, sempre interrompido por aplausos, em encontro com o pessoal da casa e convidados do BTG, como se ensaiasse um stand-up de baixa qualidade:

"Lula é como Opala, velhão, já foi bonito, mas hoje não te leva a lugar nenhum e ainda bebe para caramba. (...) Ou é o caminho da prosperidade, que vamos propor, ou o caminho das trevas. (...) Vamos ganhar a eleição com o cérebro, não com o fígado. (...) Se tem uma coisa que vou ser radical é a segurança pública”.

Os informes revelam que o mercado se dobra, dando gargalhadas com as tiradas inteligentes de Flávio. Mas os jornalões, que tentam absorver e transmitir os sonhos, os medos e os anseios das elites e da classe média anti-Lula, aplaudiriam Flávio com o mesmo fervor? Claro que não.

A cachorrada que se atira para qualquer osso não converge para os mesmos interesses que as corporações de mídia tentavam e ainda tentam representar.

Essa Faria Lima da Série B, que toma hibisco com Flávio, pode ter hoje mais conexões com os interesses do PCC do que com a ambição da Globo de continuar falando pela velha direita que se dizia liberal e foi comida pela extrema direita.

É um retrato quase acabado. Flávio dará racionalidade ao bolsonarismo. É o mais sensato, o que tem mais relações com o poder econômico, o que não vai defender cloroquina nem pegar criança no colo fazendo arminha. Por isso é o mais perigoso.

Se não for comido, Flávio come a Globo e tudo o que a Globo acha que ainda representa, e sem lambuzar a cara com sangue. Flávio come onde oferecem guardanapo de pano. Esse é o novo bolsonarismo, posto diante da direita antiga vampirizada pelo fascismo a partir de 2018.

É Flávio ou é Lula. Engolem o sapo ungido por Bolsonaro e ficam submissos ao fasciliberalismo com um Paulo Guedes mais impositivo e radicalizado, ou aceitam que Lula pode ser um sapo menos barbudo e mais palatável.

A velha direita queria Tarcísio e está de novo sob o comando do bolsonarismo, agora um bolsonarismo de negócios que fala diretamente com o BTG e pretende falar de igual para igual com o Bradesco, sob a liderança de Flávio.

As últimas pesquisas são devastadoras para os jornalões, que não conseguem mais desfrutar da ilusão de que forjam seus candidatos. Não há mais candidato inventado pelo poder da mídia desde Fernando Collor.

O novo roteiro da prosperidade bolsonarista tem mais clareza e mais apelo anti-Lula do que a encenação com o enredo confuso dos três porquinhos do PSD de Kassab.

Flávio é o sapo piloto do novo Chevetão rebaixado da extrema direita, com bancos de couro e volante fake de Ferrari. A direita metida a bacana que vacilar e embarcar atrasada sentará no colo de quem chegou primeiro.

 

Fonte: Por João Carlos Loebens, em A Terra é Redonda/Brasil 247

 

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