Ângela
Carrato: Globo mente, manipula e omite sobre Moraes
A
edição do Jornal Nacional de sexta-feira (6/3) foi cuidadosamente preparada
para funcionar como um exocet. O objetivo era consolidar a narrativa que joga o
ministro do STF, Alexandre de Moraes, no centro do escândalo de corrupção do
banco Master, além de incluir o próprio governo Lula na história.
Não deu
certo.
Na
cobertura internacional, o objetivo era continuar com as manipulações e
mentiras que tentam vender para a opinião pública que os Estados Unidos e
Israel, para o bem da humanidade, estão vencendo a guerra contra o Irã.
Igualmente
não deu certo.
Para
piorar, a omissão de que Trump convocou todos os presidentes de direita e
extrema-direita da América Latina para uma reunião neste sábado em Miami,
explicitou o lado da família Marinho e deixou claro que ela faz de tudo para
sabotar o governo Lula.
O
EXOCET QUE FLOPOU
Há
muitas maneiras para se construir e editar uma reportagem.
A
escolhida pelo JN sobre o banco Master, nesta sexta-feira, foi a “didática”:
aparentemente apoiada em informações e relatos, induz a opinião pública a
chegar à conclusão desejada pelos donos da Globo.
Vamos
aos fatos.
A
reportagem sobre “o escândalo do banco Master” durou 20 minutos e ocupou todo o
primeiro bloco.
Começou
apresentando, com riqueza de detalhes, a transferência do ex-poderoso banqueiro
Daniel Vorcaro de uma prisão em São Paulo para outra em Brasília.
São
mostradas imagens dele antes e agora, com cabeça raspada, uniforme de
presidiário e sua nova rotina: cela de pouco mais de seis metros quadrados,
duas horas de banho de sol e seis refeições diárias.
A
mensagem é clara e serviu para exaltar o trabalho da Polícia Federal e do
ministro do STF, André Mendonça, que determinou a sua nova prisão e
transferência para a capital federal.
A ordem
foi emitida no âmbito da Operação Compliance Zero, focando em suspeitas de
fraude e obstrução da justiça, além de supostas ameaças contra jornalistas.
Delimitava-se,
assim, quem era o bandido e quais os mocinhos.
Na
sequência, a reportagem tenta desqualificar o procurador-geral da República,
Paulo Gonet, e jogá-lo contra a Polícia Federal, dizendo que ele teria
argumentado “tempo exíguo” para analisar profundamente as informações da PF
antes da operação, o que levou a críticas sobre sua suposta “leniência”.
O JN
insinua tolerância de Gonet para com a corrupção e bandidos, ao passo que a
Polícia Federal novamente seria a encarnação do bem.
Vale
lembrar que houve proximidade absoluta entre setores da PF e a Globo durante a
Operação Lava Jato (2017-2021).
Foram
vazadas com exclusividade para a emissora informações que interessavam a Sergio
Moro e a Deltan Dallagnol, apresentadas como expressão da verdade e utilizadas
para justificar e prender, sem quaisquer provas, durante 580 dias, o então
ex-presidente Lula.
André
Mendonça ocupa no momento o espaço que no passado recente o JN dedicou a Moro.
Após
este enquadramento, a reportagem passa ao que realmente interessa à família
Marinho: provar que a colunista do jornal O Globo, Malu Gaspar, estava certa
quando denunciou em off e sem provas, que o ministro Alexandre de Moraes
interferiu junto ao Banco Central para salvar Vorcaro, por sua esposa, a
advogada Viviane Barci, ter contrato milionário com o banco Master.
O tal
contrato que, até agora, apenas Malu Gaspar viu, se trata de uma minuta
digital, sem assinatura, localizado pela PF num dos celulares de Vorcaro.
O fato
de Alexandre de Moraes não ter se pronunciado sobre o assunto, fez com que o
grupo Globo transformasse seu silêncio em prova de que ele, por interesses
pecuniários, teria interferido junto ao Banco Central para salvar o Master da
liquidação extrajudicial, que aconteceu em 18 de novembro do ano passado.
Se
Moraes já era alvo das críticas do Centrão e da extrema-direita pela posição
inflexível com que conduziu o julgamento e prisão dos que tentaram dar um golpe
em 8 de janeiro de 2023, as novas “evidências” justificariam o descrédito do
ministro e abririam caminho para o seu impeachment.
Como
aconteceu na Operação Lava Jato, a sua versão 2.0 em curso se valeria da
pressão da opinião pública, “indignada diante de tanta corrupção”, para
desacreditar Moraes e enfraquecer o STF.
O
exocet viria em seguida, com a mesma Malu Gaspar, dando outro “furo” de
reportagem, ao divulgar que nas mensagens trocadas entre Vorcaro em um dos seus
celulares periciados pela Polícia Federal, constavam conversas nada
republicanas entre o então banqueiro e Moraes, inclusive em 17 de novembro,
quando foi preso, tentando fugir para a ilha de Malta, no mar Mediterrâneo, na
véspera da liquidação do seu banco.
As
conversas teriam começado cedo, pouco depois das 7h, e tinham como teor pedidos
de Vorcaro para que Moraes o ajudasse, pois dizia estar concluindo negociações
para vender o Master.
As
conversas, em tom informal, terminavam às 19h48, uma hora antes de Vorcaro ser
preso no aeroporto de Guarulhos, tentando fugir. Sua última pergunta ao
ministro teria sido: “alguma novidade?”
As
informações divulgadas por Malu Gaspar pareciam incontestáveis.
Só que
não.
As
mensagens trocadas entre Vorcaro e o suposto ministro, não tinham respostas.
Para a reportagem do JN a explicação era de que não foram redigidas no
WhatsApp, mas no bloco de notas, valendo-se de dispositivo que, uma vez lidas,
desaparecem automaticamente. Explicação que o JN deu para não se ter acesso às
respostas de Moraes.
Tudo
bastante coerente para incriminar o ministro, exceto por um detalhe.
Nenhum
dos números utilizados para o contato coincidem com os de Moraes. Além disso, a
inclusão de um nome na agenda do celular é um ato unilateral.
O JN
acabou tendo que divulgar, no final da própria reportagem, que Moraes havia, em
nota, desmentindo o contato com Vorcaro, ao mesmo tempo em que o STF divulgava
comunicado à imprensa, desqualificando tecnicamente a reportagem do JN.
Outro
detalhe que a reportagem omitiu é que não existe um só A.M., iniciais que o JN
cravou como sendo do ministro.
Resultado
da lambança: a nova acusação sem provas contra um ministro do STF dificilmente
não redundará em processo contra Malu Gaspar.
Se o
telejornal da família Marinho quisesse se aprofundar na investigação sobre a
corrupção do Master, o caminho seria ir fundo na atuação de governadores de
extrema-direita como Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, Clécio Luis, do Amapá,
e Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, que usaram fundos de pensão de
funcionários de seus estados para capitalizar o Master.
Ibaneis
fez ainda pior. O BRB adquiriu cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito
possivelmente fraudadas do banco Master, gerando prejuízos bilionários para a
instituição.
O
telejornal da família Marinho poderia, por exemplo, noticiar os R$ 3 milhões
que o cunhado e operador de Vorcaro, Fabiano Zettel, doou para Jair Bolsonaro,
e os R$ 2 milhões igualmente doados para Tarcísio de Freitas, durante as
eleições de 2022.
A
denúncia foi feita por Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL,
agremiação do próprio Bolsonaro e, claro, despertaria muito interesse.
Curiosamente,
o JN não se interessou pelo assunto. Como dizia o patriarca Roberto Marinho,
tão importante quanto divulgar um fato é esconder a sua existência.
Também
passou longe desta edição do JN, as denúncias de que o deputado Nikolas
Ferreira (PL-MG), se valeu por 10 vezes de jatinho do Master para fazer
campanha para si e para Bolsonaro em 2022.
A
absurda resposta de Nikolas de que não sabia a quem pertencia a aeronave,
associada a não ter declarado a sua utilização, constitui crime eleitoral,
passível de cassação de mandato.
A
família Marinho parece considerar que o assunto não é de interesse público.
Também
deve ter considerado como não possuindo interesse público, o fato do
pré-candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro, não precisar ter
seu sigilo bancário quebrado, mesmo diante de tantas acusações e suspeitas que
pairam sobre ele. A quebra de seu sigilo tem sido barrada pelo senador Carlos
Viana (Podemos-MG), presidente da CPMI do INSS.
Mesmo
havendo evidente elo entre a corrupção no INSS nos governos Temer e Bolsonaro e
a corrupção do banco Master, o JN prefere desconhecer o assunto e endossar
todas as irregularidades perpetradas por Vianna e parlamentares de
extrema-direita que integram a CPMI. Parlamentares que vem impedindo que
requerimentos envolvendo Nikolas e a quebra de sigilo de Flávio Bolsonaro sejam
aprovados.
Por
outro lado, o JN e toda a mídia corporativa, oligárquica, hereditária e
familiar foi para cima do filho do presidente Lula, Fábio Luiz, quebrando seus
sigilos bancário e fiscal no período de 2022 a janeiro de 2026.
O
objetivo era atingir Lula, que ficaria tão desmoralizado quanto o que pretendia
para Alexandre de Moraes. Abriria-se assim caminho para que chovessem pedidos
de impeachment de ambos.
Era
tanta má-fé que o JN, no dia anterior, apresentou gráficos que “comprovariam” a
movimentação milionária de “Lulinha”.
Para
tanto somou valores recebidos e pagos para alcançar a cifra de R$ 19,5 milhões,
movimentados em quatro anos. Apresentou como suspeita até a transferência, em
três parcelas, da antecipação de herança ao filho, depositada por Lula, em
função da morte da ex-primeira dama, Marisa Letícia.
Quem
não entende nada de contabilidade e desconhece que o faturamento de qualquer
empresário médio, bem sucedido, como é o caso de Fábio Luíz, gira em torno de
R$ 200 mil a R$ 300 mil mensais, embarcou na mentira.
A
jogada foi somar os valores recebidos e os valores pagos para chegar aos tais
R$19,5 milhões.
Todas
as transações foram feitas via Banco do Brasil e devidamente declaradas à
Receita Federal.
Como
mentira tem perna curta, o que foi planejado para ser um exocet, deixando o
alvo sem condições de reagir, terminou com o JN, se valendo da apresentadora do
seu canal pago GloboNews, Natuza Nery, escalada para desmentir o que havia sido
dito minutos antes.
Resta
saber se o ministro Alexandre de Moraes, depois de tudo isso, vai incluir ou
não Malu Gaspar no inquérito sobre Fake News, do qual é relator.
Ela
estaria ao lado de jornalistas e influenciadores que receberam dinheiro de
Vorcaro para difamar o Banco Central e espalhar mentiras contra Moraes e a
Suprema Corte.
Como
esta é também uma longa história, prometo abordá-la em outra oportunidade.
MENTIRAS
SOBRE A GUERRA CONTRA O IRÃ
O
balanço da primeira semana do conflito aponta, por qualquer ângulo que seja
observado, para a derrota dos Estados Unidos e de Israel.
Mesmo a
guerra tendo sido desencadeada sem nenhum motivo por Donald Trump e Benjamin
Nethanyaru, o JN insiste em criminalizar a vítima, o governo do Irã,
apresentando-o como “ditatorial”, comandado por aiatolás violentos,
sanguinários e retrógrados.
Todas
as referências ao Irã o mostram como atacando, ao passo que os Estados Unidos e
Israel apenas se defendem.
Só na
edição desta quinta-feira, o JN exibiu imagens do bombardeio que matou 165
meninas de uma escola do ensino fundamental no Irã, ocorrido no primeiro dia da
guerra.
Até
então a narrativa era de que a escola se localizava ao lado de uma “edificação
suspeita” e teria sido alvejada por engano. Pior ainda. Mesmo a ONU já
determinando investigação sobre este gravíssimo crime, o JN passa pano para
Trump e Nethanyaru.
Os
Estados Unidos não reconhecem a autoria do ataque e a Casa Branca diz estar
“investigando o caso”.
Já
Israel informa que não encontrou “nenhuma ligação” do ataque com as operações
militares de Tel Aviv.
Como
porta-voz informal desses dois governos, o JN repete e endossa a mentira. Atua
como assessoria de imprensa para o imperialista Trump e o genocida e
colonialista Nethanyaru.
Apesar
dos Estados Unidos terem matado o líder espiritual supremo do Irã, aiatolá
Khamenei, junto com parte de sua família, incluindo uma netinha de dois anos,
todas as reportagens do JN criminalizam o Irã.
Ontem,
a coisa foi tão absurda que, mesmo não dispondo de nenhum vídeo para mostrar
que os Estados Unidos e Israel estariam levando a melhor, apresentou imagens,
criadas por IA, do local onde Khamenei foi morto: um bunker, com vários andares
subterrâneos onde se tramava contra o Ocidente.
Mesmo
contando com correspondentes próprios, o JN está cobrindo a guerra a partir dos
Estados Unidos e da Europa. Possivelmente estes correspondentes que falam com
tanta propriedade sobre o que está acontecendo a milhares de quilômetros de
distância, não saibam sequer apontar no mapa onde fica o Irã.
Tamanho
absurdo confirma, mais uma vez, o que é relatado na obra clássica do jornalista
australiano Phillip Knightley (1929-2016) autor de “A Primeira Vítima”. O livro
mostra como a mídia e correspondentes de guerra submetidos aos interesses
ocidentais e dos patrões sempre agiram como propagadores de mentiras e de
mitos.
Isto
explica ainda como, contra todas as evidências, os correspondentes do JN
conseguem afirmar que Estados Unidos e Israel estão levando a melhor.
Como
não dá para mentir impunemente o tempo todo, o JN relatou que os ataques a
bases militares em países como Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Arábia
Saudita, Bahrein e Jordânia estão se revertendo contra o Irã.
Nada
mais mentiroso. O Irã não está atacando seus vizinhos. Os ataques são dirigidos
a bases militares dos Estados Unidos neles existentes, o que faz toda a
diferença.
Ao
invés de apontar que tais ataques estão levando os dirigentes destes países a
defender o fim da guerra, o JN diz que o Irã está piorando a sua situação junto
aos vizinhos.
Outra
tática vitoriosa do Irã, fechar o estreito de Ormuz, por onde passa 20% da
produção mundial de petróleo, é descrita como uma ação muito arriscada.
Arriscada
para quem, cara pálida? A pergunta se justifica uma vez que este fechamento já
provocou o aumento no preço do petróleo, de US$ 60 a barril, para US$ 90.
Toda
uma parte da reportagem foi dedicada ao assunto, com gráficos, infográficos e
depoimentos de especialistas. Mais um subterfúgio para esconder o óbvio. Ao
fechar Ormuz, o Irã atinge toda a economia mundial, o que pressionará os
Estados Unidos e Israel.
Incapaz
de esconder as dimensões do que está em jogo, a reportagem do JN muda de
assunto e mostra Trump ameaçando o Irã, ao afirmar que vai escolher o novo
dirigente do país e que “pouco importa que seja ditador ou democrata”, desde
que “defenda os interesses dos Estados Unidos, de Israel e dos países da
região”.
Tamanha
arrogância foi imediatamente naturalizada com o telejornal da família Marinho
dizendo que Trump pretende aplicar no Irã a mesma solução que adotou na
Venezuela: retirar do poder um governo adversário e emplacar alguém que lhe
seja dócil e submisso.
Acredite
se quiser, mas o JN endossou esta fala absurda justificando que os Estrados
Unidos querem controlar as reservas de petróleo no mundo, começando pela
Venezuela, o segundo maior produtor mundial, e Irã, o terceiro.
Como se
tamanhos absurdos não bastassem, a reportagem apresenta uma série de números e
dados para justificar que ação dos Estados Unidos coloca contra a parede a
China e já jogou para baixo a sua previsão do crescimento do seu PIB.
A
reportagem aborda as enormes perdas que o Irã tem tido em termos de pessoas,
foguetes e drones, mas não faz qualquer comparação com as mortes de soldados
estadunidenses e israelenses.
Não há
menção à destruição que o Irá está provocando em Tel Aviv, ao desespero que
toma conta de sua população e nas manifestações nos Estados Unidos e na Europa
contra Trump.
Pesquisas
indicam que apenas 27% dos estadunidenses apoiam a guerra, dado que o
telejornal possivelmente considera irrelevante.
Como
igualmente deve ser irrelevante a informação de que Israel, “a maior democracia
do Oriente Médio” impõe censura férrea a tudo o que se refere aos danos
sofridos pelo país nesta guerra.
Tamanhas
mentiras, que não começaram agora, explicam como parcela da população
brasileira apoia os Estados Unidos e Israel e considera postura “patriótica”
participar de manifestações contra o governo Lula embrulhada em bandeiras do
Tio Sam e do genocida Israel.
Como
nenhuma guerra dura para sempre, haverá, em algum momento, o acerto de contas.
O JN dificilmente escapará de um novo tribunal de Nuremberg, específico para a
mídia.
As
mentiras que ela divulga, provocam tanta ou maior destruição do que bombas.
A
OMISSÃO SOBRE A REUNIÃO DE TRUMP EM MIAMI
Definitivamente,
o JN não é o local para se informar sobre qualquer assunto envolvendo a América
Latina.
Na
edição desta sexta-feira, não há qualquer menção à reunião de Trump com todos
os dirigentes de direita e de extrema-direita da América Latina, agendada para
este sábado.
Lula
não foi convidado.
A tal
reunião tem como objetivo alinhar estes países à política de “quintal”
defendida por Trump.
Lula
obviamente é contra e ao informar, o JN inevitavelmente suscitaria comparações
entre ele e o capacho dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro.
Se não
conseguir emplacar um candidato “de centro”, a família Marinho apoiará Flávio e
justificará qualquer ação de Trump contra o Brasil.
Então,
caro leitor (a), se quiser estar minimamente informado e não engolir gato por
lebre, desligue a TV Globo, esqueça o JN e se valha da mídia independente.
Fonte:
Viomundo

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