Juarez
Guimarães: Em nome da democracia
A
democracia não se defende apenas contra o golpe de Estado, mas contra o estado
de golpe permanente nos direitos, na soberania e na esperança...
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A centralidade da luta democrática
Desde
que o PSDB, após a sua quarta derrota nas eleições residenciais de 2014,
questionou institucionalmente o resultado das eleições e, depois,
centralizou-se na derrubada do segundo governo de Dilma Rousseff por um
impeachment sem comprovação de crime de responsabilidade, que a luta
democrática está no centro da conjuntura do país. Depois veio a prisão e a
condenação de Lula, em um processo escandalosamente forjado pela Lava-Jato,
abrindo caminho após o governo Temer para a eleição não já para o candidato do
PSDB, mas de uma força em ascensão da extrema direita neoliberal.
Ao
lançar a candidatura de Lula à presidência, mesmo já preso, e depois combinar a
resistência às medidas neoliberais de ataque aos direitos democráticos com a
luta pela libertação de Lula, as forças da esquerda brasileira foram
convergindo para a centralidade da luta democrática. A vitória de Lula em 2022,
no limite do possível, foi fruto deste acúmulo da luta democrática e popular.
Com a
tentativa de golpe, alguns dias após a posse de Lula, de novo a questão
democrática reivindicou a centralidade. A condenação de Jair Bolsonaro e da
alta cúpula militar envolvida no processo em 2025 foi decerto a maior vitória
histórica alcançada. A defesa da soberania nacional pelo governo Lula contra
Donald Trump, desmascarando o falso patriotismo do bolsonarismo, foi importante
para isolar a extrema direita.
Em
setembro deste ano, cerca de 54 % dos brasileiros se opunham à aprovação da
chamada “anistia” a Jair Bolsonaro pelo Congresso Nacional, segundo pesquisas
feitas à época, enquanto 39 % a apoiavam. No dia 21 de setembro, manifestações
em todo o Brasil contra a chamada PEC da impunidade e contra a chamada
“anistia” à Jair Bolsonaro simbolizaram a conquista das ruas contra a extrema
direita bolsonarista.
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“Liberdade” contra a democracia?
Em nome
da “liberdade”, os bolsonaristas defenderam o direito de não tomar vacinas e
não usar máscaras em meio à pandemia mais mortífera das últimas décadas, de
cada cidadão portar armas, de propagar fake news e usar a internet como meio
sistemático de calúnia e difamação.
Em nome
da “liberdade”, defendem a libertação daqueles que tentaram golpear a
democracia. Em nome da “liberdade” econômica, pregam a extinção dos sindicatos
e dos direitos do trabalho, o sucateamento das políticas sociais. Chamou-se
“Caminhada pela liberdade” a jornada recente de Nikolas Ferreira.
A
origem desta linguagem que mobiliza a “liberdade” contra a democracia está na
obra de um autor fundador de uma das tradições centrais do neoliberalismo. O
livro A constituição da liberdade, de 1959, de Friedrich Hayek, rompeu de forma
radical com um conceito de liberdade que relacionava liberdade a autogoverno,
liberdade a autonomia, tornando-o avesso já à ideia de democracia e soberania
popular. Em um outro caminho, dissociava liberdade da ideia de igualdade –
social, de gênero ou racial – e vinculava-a estritamente a um conceito
privatista do viver em meio às redes mercantis, chegando mesmo a fazer a
apologia da desigualdade como inerente ao exercício da liberdade.
A
partir deste novo conceito de liberdade, os neoliberais propõem uma relação
condicionada à defesa da democracia: ela deveria ser vista como método não
violento de troca de governos, mas apenas aceita se não ferissem as regras
básicas da liberdade de mercado. Caso contrário, uma ditadura poderia permitir
maior liberdade – como a ditadura de Augusto Pinochet, por exemplo – do que o
governo de Salvador Allende, como afirmou publicamente Friedrich Hayek.
Por
esta via, os neoliberais passaram a chamar de totalitários não apenas os
comunistas, como era na chamada “Guerra Fria”, mas todos os socialistas e até
mesmo os sociais-democratas ou mesmo liberais keynesianos.
É este
conceito de liberdade neoliberal que estrutura toda a polarização política,
social e cultural, inclusive os chamados “discursos do ódio” e da intolerância
radical da extrema direita. A crítica à “política” e a apologia do empresário,
do gestor de empresa e do CEO, como fez recentemente Michelle Bolsonaro ao
governador de São Paulo, tem sua raiz neste conceito privatista, egótico e
profundamente anti-democrático de liberdade. Para derrotar o bolsonarismo
nestas eleições é preciso enfrentar este núcleo irradiador de toda a sua
identidade e de seu discurso político.
Se para
os liberais, a democracia é associada estritamente ao aparato político e
jurídico, que define um conjunto de regras e liberdades, ancoradas e
hierarquizadas pelo direito irrestrito da propriedade privada e pela liberdade
mercantil, para os socialistas democráticos a democracia, a partir do princípio
e das instituições da soberania popular, estrutura o pluralismo político e uma
infra-estrutura sócio-econômica pública que permita as melhores e igualitárias
condições de vida para os cidadãos.
Por
este princípio, a liberdade do cidadão e da cidadã se manifesta coletivamente
no princípio da participação na soberania popular, no auto-governo democrático
da economia e, no plano individual, na autonomia que só pode existir quando não
há desigualdade estrutural social, de gênero ou racial.
São
estes fundamentos da liberdade e da democracia que devem ser mobilizados contra
o bolsonarismo nestas eleições. Hoje as instituições da democracia brasileira
estão muito longe de representar os fundamentos da soberania popular: houve nos
anos de Michel Temer e do bolsonarismo uma degradação das condições
republicanas mínimas da participação, da representação, da formação da opinião
pública.
E
houve, por outro lado, um aprofundamento da privatização e financeirização da
macro-economia do país: a captura institucional do Banco Central pelo sistema
financeiro, o aprofundamento das restrições orçamentárias por dispositivos que
instituem o teto de gastos, a hipertrofia das dimensões regressivas do sistema
tributário acoplada a uma política irrestrita de incentivos e benefícios
fiscais.
Mas é
fundamentalmente pela conquista efetiva de seus direitos do trabalho e sociais,
de gênero e antirracistas, que o povo brasileiro, como em qualquer país, avalia
a democracia.
Se o
governo Lula foi obrigado a governar sob condições adversas das instituições
políticas, da correlação de forças e sob o cerco do financismo, agravado
profundamente com a gestão sabotadora de Roberto Campos e ainda não superado na
gestãode Gabriel Galípolo, ele também incluiu na agenda pública de maneira
inédita o tema da justiça fiscal, da distribuição de renda, da redução da
jornada de trabalho, denunciando as desigualdades históricas e proclamando a
expansão desses direitos em um programa que disputa o futuro dos brasileiros.
Um
programa de governo que dispute o futuro democrático contra o bolsonarismo
deverá ser capaz, em suas diretrizes, de unir em um mesmo sentido reformas que
fortaleçam a soberania popular, que destravem uma política de desenvolvimento
com distribuição de renda e sustentabilidade e uma agenda forte de direitos do
trabalho a serem conquistados e providos em um futuro governo.
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A estratégia Flávio Bolsonaro
Apresentada
recorrentemente pelos analistas neoliberais como um grande erro do bolsonarismo
– a chapa mais forte contra Lula seria aquela capitaneada pelo governador de
São Paulo somada à presença simbólica de Michele Bolsonaro –, a candidatura de
Flávio Bolsonaro aposta sua potência eleitoral na coerência da narrativa: de
pai para filho, com direito ao apelo a um simbolismo fortemente religioso, ela
visa confirmar a adesão do núcleo popular do bolsonarismo e ir construindo, ao
longo da campanha, a frente anti-Lula.
Ela
está coerente com as iniciativas da extrema direita desde a condenação de Jair
Bolsonaro: a matança politicamente orientada promovida pelo governador do Rio
de Janeiro, trazendo a questão da segurança pública de um ponto de vista
punitivista para o centro da agenda; a aprovação da PEC da devastação ambiental
(o que reforça os laços do bolsonarismo com a agenda do agro-business); a
aprovação pelo Congresso Nacional do PL da Dosimetria, que busca atenuar as
penas aplicadas pelo STF aos líderes e aos envolvidos na tentativa de golpe
contra a democracia; a permanente vitimização de Jair Bolsonaro, que
confirmaria a sua liderança pelo martírio.
E,
enfim, a “Caminhada pela liberdade” liderada por Nikolas Ferreira, com um ato
público massivo em Brasília. O ano parlamentar começará com a pressão
bolsonarista pela votação da derrubada do veto de Lula ao PL da Dosimetria.
Flávio Bolsonaro já anunciou que logo apresentará um nome de confiança para ser
o seu “Paulo Guedes-Roberto Campos Neto” ao capital financeiro.
Há
afinidade e até mesmo sintonia desta estratégia com as campanhas desencadeadas
em uníssono, por toda a mídia empresarial brasileira, de desgaste do STF, a
qual confirmaria, por um outro ângulo, a acusação bolsonarista de ser o STF
parte do “sistema” a ser combatido. Como disse precisamente o jurista Pedro
Serrano, o direito de criticar a decisão de uma autoridade judicial não deve
ser confundido com uma acusação sem provas contra tal autoridade.
Defintivamente
não se trata de defender de modo incondicional e atribuir uma ética republicana
a personagens que transitam em meio a relações de interesse com o empresariado.
Mas até agora não foram apresentadas provas documentais de ilícitos cometidos
em tais relações.
O caso
do Banco Master é exemplar. Há evidências fortes e substantivas das relações
dos Vorcaros com o bolsonarismo: sua origem na Igreja Evangélica da Lagoinha de
Belo Horizonte, a mesma de Nikolas Ferreira, a primeira fase de seu crescimento
exatamente nos anos do governo de Jair Bolsonaro, sendo Daniel Vorcaro o maior
doador pessoal para as campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em
2022, vínculos com o PCC, envolvimento forte de doze governadores apoiadores de
Jair Bolsonaro em aplicações fraudulentas, em especial do Rio de Janeiro e
Brasília, financiamento a juros camaradas da mansão comprada por Flávio
Bolsonaro em Brasília, relações fortes com lideranças dos partidos do mal
chamado “Centrão” bolsonarista, as quais apresentaram projetos de lei que
protegeriam os crimes financeiros cometidos pelo Banco Master.
O
jornal Valor econômico, bíblia do capital financeiro, já vem propondo passar o
tratamento judicial do caso Master para as instâncias judiciais inferiores de
Brasília e São Paulo, ou seja, isolando as investigações dos agentes políticos
de primeira linha envolvidos.
Ao
afirmar a questão democrática pelo avesso, ou seja, pela legitimação dos
apoiadores de ditadura, dos golpistas da democracia, dos favoráveis às soluções
autocráticas e de violação dos mínimos direitos humanos, a candidatura Flávio
Bolsonaro não foge à sua vocação neoliberal. Antes, a confirma. É com esta
vocação autocrática e este programa neoliberal que pretende vencer em 2026.
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Nem polarização nem cristalização
Como
deve enquadrar a questão democrática a candidatura Lula nestas eleições
presidenciais de 2026?
Certamente
ela não pode simplesmente adotar o programa e a estratégia do avesso do avesso
bolsonarista, ou seja, centralizar-se na defesa da polarização personalizada e
despolitizada com ele. Contra a chamada “anistia” concentrar-se apenas na
palavra de ordem “sem anistia” a Bolsonaro e aos golpistas. Isto seria congelar
a polarização em seu mais alto grau, contribuindo exatamente para a estratégia
da candidatura Flávio Bolsonaro.
A
condenação dos golpistas deve ser reiterada como uma vitória da democracia, a
ser consolidada e aprofundada nestas eleições. Aliás, não se deveria atribuir à
anulação da condenação de Bolsonaro e dos golpista o nome de “anistia”,
assumindo-se a linguagem bolsonarista. Trata-se de condenar a impunidade do
mais grave crime contra a democracia. Anistia, há que ser cioso nisto, é
reivindicada sempre e somente em favor daqueles que lutaram pela democracia.
Há na
tese da polarização Lula/ Bolsonaro e na defesa da cristalização de votos – que
seria demonstrada pelas recentes pesquisas da Qualis e da Atlas/Intel – um
duplo equívoco. Por estas pesquisas, recém lançado, Flávio Bolsonaro já
alcançaria um quase empate com Lula em um eventual segundo turno, herdando por
inteiro a polarização de 2022 e projetando-a no futuro das urnas em outubro de
2026. Mas entre este passado e o futuro há um período intenso de disputa
política, em torno exatamente à questão democrática.
Os
analistas neoliberais chamam o bolsonarismo de direita e a convergência em
torno de Lula de esquerda. Haveria, pois, uma polarização entre esquerda e
direita. Na visão dos socialistas democráticas, o bolsonarismo é uma extrema
direita e a vitória de Lula em 2022 não deve ser interpretada simplesmente como
uma vitória da esquerda. Ela foi nucleada pela direção da esquerda, mas
extravasou as suas áreas diretas de influência: a esquerda socialista não
formava em 2022 e não forma hoje uma maioria de brasileiros e de eleitores.
No
momento mais difícil do terceiro governo Lula, em meados do primeiro semestre
de 2025, quando a avaliação do governo Lula estava marcadamente em negativo e
em queda, uma pesquisa nacional da Fundação Perseu Abramo identificou 30 % das
preferências pró-Lula, 40% anti-Lula e 33% em disputa, com várias gradações de
possibilidades. Como se verificou, alguns meses depois, em setembro do mesmo
ano, o cenário já era muito diferente, muito mais favorável à reeleição de
Lula.
A tese
da cristalização de votos no Brasil, com sua inspiração diretamente
norte-americana, com um sistema político historicamente formado por dois
partidos, que inclusive organizam a disputa federativa e legislativa, deve ser
relativizada. Há, pelo contrário, muitos deslocamentos eleitorais em um período
de forte instabilidade política.
Assim,
a partir e tendo como referência central a questão democrática, nestas eleições
de 2026 disputam-se dois futuros de país. O que o bolsonarismo tem a oferecer,
a partir da experiência vivida? Que futuro democrático, com base na experiência
atual de governo, a candidatura à reeleição de Lula tem a oferecer aos
trabalhadores e ao povo brasileiro?
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Uma crise política do bolsonarismo
Há um
aparente paradoxo entre a crise política do bolsonarismo e seu quase empate com
Lula no segundo turno, medido pelas pesquisas Qualis e Atlas Intel.
Esta
crise política é evidente em suas relações internacionais, sua identidade, sua
capacidade de unificar as forças anti-Lula e principalmente de criar com
credibilidade uma agenda de futuro para o país. As relações com Donald Trump,
que aliás sofre uma forte impopularidade nacional e internacional, ficaram
profundamente desgastadas com o recuo do presidente norte-americano em relação
às tarifas e às sanções à Alexandre de Moraes, com a própria cassação de
Eduardo Bolsonaro.
A
identidade “patriota” de Jair Bolsonaro ficou gravemente e simbolicamente
afetada. O PL e os aliados principais do bolsonarismo no Congresso Nacional
foram flagrados de forma quase cotidiana em episódios graves de corrupção e
fisiologia: eles formam o núcleo do poder político anti-republicano no Estado
brasileiro.
Ao
mesmo tempo, os apoiadores de Jair Bolsonaro nos governos estaduais e no
Congresso Nacional estão expostos à acusação comprovada nesta campanha
eleitoral de protegerem sempre os interesses dos mais ricos e de atacarem
sempre os interesses e direitos dos trabalhadores e dos mais pauperizados.
Mesmo na área da maioria evangélica, fundamental para a coesão popular da base
bolsonarista, há dissenções e atritos públicos explícitos entre lideranças.
Na
organização das alianças no plano estadual, a candidatura Flávio Bolsonaro vive
o desafio difícil de ser cumprido de coesionar a base da extrema direita e da
direita. Haverá quase certamente fortes dissensões nesta área. Mas é certamente
na disputa de futuro do país que o bolsonarismo enfrenta a maior dificuldade.
Por isso, a negatividade de sua agenda política, isto é, a sua aposta principal
na capacidade de ser a única alternativa viável à reeleição de Lula.
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A disputa democrática do futuro
Se
estas avaliações sobre o bolsonarismo e sua crise política, estão corretas, a
vitória da reeleição de Lula depende fundamentalmente de acertar o seu programa
e sua estratégia eleitoral. Ela é provável, mas, em uma escala de
possibilidades, ela não é hoje ainda muito provável nem quase certa.
O maior
erro seria, portanto, o de construir uma previsão triunfalista e uma visão
ufanista sobre o legado do atual governo Lula. As conquistas que podem vir este
ano – em um cenário de lenta queda da taxa Selic, com um orçamento comprimido e
um Congresso Nacional em sua maioria adverso – não serão capazes por si só de
alterar qualitativamente a avaliação hoje de quase empate entre avaliação
positiva e avaliação negativa do atual governo Lula.
Há
certamente toda uma agenda positiva ainda no âmbito do atual governo, que pode
e deve estimular a melhora de sua avaliação mesmo em um ambiente fortemente
enviesado de informações e de formação de opiniões. Mas este terceiro governo
Lula, com enormes méritos e os limites a ele impostos, foi um governo de
reconstrução do país em um cenário político internacional, econômico e político
adversos.
Neste
cenário político de forte disputa, será preciso construir uma proposta de
governo que aposte não na sua mera continuidade, mas na transformação do
Brasil, no potencial de uma vitória democrática histórica contra a
extrema-direita neoliberal, que crie uma âncora de esperança para a maioria dos
brasileiros em uma melhoria profunda e qualitativa de suas vidas.
É este
sentido da mudança democrática – derrotando uma candidatura do elogio à
ditadura, da perda da soberania, da violência contra as mulheres e os negros,
da destruição dos direitos dos trabalhadores e da devastação ambiental – que
deve prevalecer, alterando a correlação de forças e abrindo uma transição para
um futuro pós-neoliberal.
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Pedagogia anti-neoliberal da luta democrática
Há três
dimensões pedagógicas fundamentais no enquadramento da luta política deste ano
com uma centralidade democrática, a partir das tradições do socialismo.
A
primeira delas é a formação de uma unidade de uma narrativa de sentido. Diante
de um sistema permanente de desinformação e do processo de fragmentação das
classes trabalhadoras promovido pelo neoliberalismo, tal dimensão pedagógica é
decisiva. Ela dialoga com a própria experiência e consciência do povo
brasileiro nestes últimos anos.
A
derrubada do governo de Dilma Rousseff, o governo de Michel Temer e a ascensão
do bolsonarismo fazem parte de uma mesma lógica: desorganizar os fundamentos
mínimos republicanos e democráticos do Estado brasileiro para atacar sem
piedade todos os direitos das classes trabalhadoras e, com igual peso, promover
os interesses das classes dominantes.
A luta
pela democracia, encarnada na candidatura Lula, tem exatamente o sentido
oposto: retomar e aprofundar as dimensões democráticas e republicanas do Estado
brasileiro como único meio possível para promover os direitos fundamentais das
classes trabalhadoras e quebrar a cadeia de privilégios e controle pelas
classes dominantes da riqueza produzida no país.
A
segunda delas é a de permitir, para além da correlação de forças institucionais
hoje conformada, disputar o futuro a partir de uma série de agendas
fundamentais de enorme apelo popular. Estas agendas democrático-populares,
formadas como compromisso de governo, ligando a vitória nas eleições
presidenciais à eleição de um novo Congresso Nacional progressista, tem
exatamente o sentido de romper, principalmente nos meios populares, a rejeição
ao governo Lula e às forças de esquerda.
Terá a
extrema direita a coragem de ir contra uma política de maior valorização do
salário-mínimo? Poderá se opor à valorização dos sindicatos e da legislação do
trabalho para os trabalhadores que hoje sobrevivem em regime de precariedade?
Será contra a superação da jornada 6×1, sem redução de salário? Contra o fim ou
radical diminuição das impopulares emendas parlamentares?
Será
contra a extinção dos privilégios parlamentares e dos altos cargos do
judiciário e militares? Ficará em oposição a um investimento qualitativamente
maior em educação e saúde pública? Será contra a participação da população nas
definições da aplicação do orçamento dos governos? Contra a igualdade de
participação das mulheres na política e por políticas públicas vigorosas na
área da economia dos cuidados? Terá a coragem de se opor a novas medidas
históricas, como as quotas na educação, que ajudem a superar o racismo
histórico e estrutural?
Como
irá se opor a uma política de afirmação soberana do Brasil diante do governo de
Donald Trump? Terá coragem de vir a público defender um negacionismo ambiental
ou defender políticos de devastação da natureza após tantas catástrofes? Ficará
em oposição a uma política de reforma agrária que construa a soberania
alimentar e a agro-ecologia dos brasileiros? Defenderá uma política de altos
juros e de escândalos financeiros, após a desastrosa e curta experiência da
mal-chamada autonomia do Banco Central?
Através
desta sequência de perguntas, chega-se a uma terceira dimensão pedagógica
fundamental: a de expor a contradição frontal entre os políticos neoliberais da
extrema direita e os direitos e vontades fundamentais da maioria da população.
Entre negar estas agendas ou a elas aderir a reboque, o resultado é o mesmo: um
aprofundamento da crise da identidade e das bases sociais da extrema-direita,
principalmente nos meios populares.
Assim
pensada, esta tripla pedagogia da luta democrática, entendida de um ponto de
vista socialista, é fundamental para abrir um período de transcrescimento da
consciência anti-neoliberal da maioria dos trabalhadores e do povo brasileiro,
passo fundamental para a superação do regime neoliberal de Estado hoje vigente.
Fonte:
A Terra é Redonda

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