Do
Rio Tietê às espinhas no rosto: estudos revelam avanço de superbactérias
Bactérias
resistentes à maioria das classes de antimicrobianos, antes restritas ao
ambiente hospitalar, estão cada vez mais presentes na vida cotidiana. Três
trabalhos publicados por pesquisadores apoiados pela Fapesp evidenciam a
extensão do problema.
Um
clone altamente resistente a antibióticos e ao tratamento de efluentes foi
encontrado no rio Tietê, na capital paulista. O trabalho foi publicado na
revista One Health.
Em
outro estudo, divulgado no periódico Veterinary Microbiology, uma variante
altamente mortal, de outra bactéria, foi encontrada em um cão doméstico, que
morreu após uma longa internação.
Em
2023, um clone multirresistente de Staphylococcus aureus, bactéria comum na
pele humana que normalmente não é prejudicial à saúde, causou uma infecção
generalizada que matou uma jovem de 18 anos. A paciente havia dado entrada no
hospital pouco mais de 24 horas antes com torcicolo persistente e uma espinha
indolor no rosto. Os resultados do sequenciamento genético e dos testes de
resistência foram publicados em novembro de 2025 na revista The Lancet Microbe.
“Esses
são apenas alguns casos mais recentes que mostram como devemos abordar essa
questão seriamente do ponto de vista da Saúde Única. O uso de antimicrobianos
deve ser feito com muito critério e precisamos de políticas públicas de
educação para a população, assim como de diagnósticos precisos com mais
rapidez”, resume Nilton Lincopan, professor do Instituto de Ciências Biomédicas
da USP (Universidade de São Paulo) e coordenador dos trabalhos.
Lincopan
é pesquisador do Aries (Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos),
um Cepid (Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão) da Fapesp.
O
pesquisador coordena o OneBR, banco de dados genômico para auxiliar
profissionais e sistemas de saúde na vigilância epidemiológica, diagnóstico,
gerenciamento e controle da resistência antimicrobiana no Brasil, iniciativa
também apoiada pela Fapesp.
Bactérias
multirresistentes ou superbactérias, como também são chamadas, são
especialmente perigosas para pacientes em UTIs (unidades de terapia intensiva),
com procedimentos invasivos como ventilação mecânica ou em tratamento de
câncer, por exemplo. No entanto, podem também causar infecções graves em
pessoas saudáveis, especialmente crianças, cujo sistema imune ainda está em
formação.
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Rio Tietê
A
bactéria coletada no rio Tietê, da espécie Acinetobacter baumannii, apresentava
não apenas genes de resistência a antibacterianos, como também de virulência,
uma característica cada vez mais vista pelos especialistas. “Há pouco tempo,
encontravam bactérias que eram ou resistentes ou virulentas. Agora estamos
detectando algumas que têm esses dois atributos, o que torna a administração da
infecção ainda mais difícil”, conta Lincopan.
A
coleta foi realizada pela Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo)
como parte do monitoramento realizado pelo projeto OneBR. O clone é resistente
a carbapenêmicos, uma importante classe de antibióticos, o que fez a OMS
(Organização Mundial da Saúde) categorizar essas linhagens, encontradas no
mundo todo, como um patógeno de prioridade crítica.
A
hipótese mais plausível para a chegada da bactéria no rio é por meio de
efluentes hospitalares. Outros estudos já haviam indicado que a linhagem pode
ser resistente também aos tratamentos de resíduos e mesmo a produtos de
limpeza.
“Além
de novos antibióticos, será necessário desenvolver nos próximos anos novos
tratamentos de efluentes, que evitem que esses patógenos cheguem à natureza, um
problema também em outros rios urbanos do mundo”, diz Lincopan.
Participaram
do estudo o aluno de iniciação científica Guilherme Paiva, as doutorandas do
Cepid Aries Thais Martins Gonçalves e Johana Becerra, do ICB-USP, orientadas
por Lincopan, além dos pesquisadores do Cepid Aries Rodrigo Cayô e Ana Gales,
da Escola Paulista de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
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Cachorro
A
presença maior das superbactérias no ambiente pode ter sido a via de
contaminação de uma cadela doméstica de dois anos, da raça spitz alemão,
infectada com uma linhagem resistente de Klebsiella pneumoniae conhecida pela
sigla ST323. O animal foi admitido em um hospital veterinário com uma
gastroenterite hemorrágica severa, provavelmente após ingerir algo por
acidente.
A
cadela permaneceu hospitalizada por dias, enquanto a condição progredia para
pancreatite severa, peritonite difusa (inflamação da membrana abdominal) e, por
fim, ao óbito. Os registros veterinários revelaram que o animal já havia
recebido anteriormente tratamento antimicrobiano com ampicilina/sulbactam,
combinação de dois antibióticos bastante administrada, e metronidazol, em
diferentes ocasiões. No momento da coleta de amostra, ela estava sendo tratada
com ceftriaxona, antimicrobiano de outra classe.
“É
importante ressaltar que em nenhum momento o animal foi tratado com
carbapanêmicos, e mesmo assim a bactéria que provavelmente o matou era
resistente a essa classe. Isso mostra a complexidade do desenvolvimento de
resistência”, lembra Lincopan.
O
pesquisador lembra ainda que estão se tornando comuns infecções urinárias por
bactérias multirresistentes em animais domésticos. Uma hipótese levantada por
ele é a transmissão por humanos, que podem levá-las para casa após longas
internações hospitalares. Como gatos e cachorros tendem a lamber as pessoas e a
si mesmos, podem levar bactérias da boca para o sistema urinário.
O
trabalho tem como primeira autora a aluna Jéssica Taina Bordin, da Unimes
(Universidade Metropolitana de Santos), orientada por Fábio Sellera, professor
da mesma instituição e coordenador do estudo.
O
trabalho teve apoio da Faoeso ainda por meio de bolsa para o pesquisador do
Cepid Aries João Pedro Rueda Furlan, que realizou o pós-doutorado na Escola
Paulista de Medicina da Unifesp. O aluno de iniciação científica Guilherme
Paiva e a doutoranda do Cepid Aries Thais Martins Gonçalves, do ICB-USP, também
participaram do estudo.
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Acne
No caso
mais chocante, uma variante de Staphylococcus aureus, bactéria comum na pele
humana, causou uma sepse (infecção generalizada) numa jovem de 18 anos, em
2023.
A
análise genômica e de resistência apontou que a variante é resistente a
meticilina, tipo de resistência que causou 23.400 mortes nas Américas em 2019,
de acordo com levantamento publicado em 2023. A linhagem encontrada, conhecida
pela sigla USA300-NAE, causa justamente infecções na pele como a que iniciou o
quadro da jovem brasileira.
Para
Lincopan, é urgente que, para infecções comunitárias (aquelas adquiridas fora
do ambiente hospitalar), o atendimento médico seja mais cauteloso, considerando
a possibilidade de infecção por bactérias multirresistentes. Portanto, o
diagnóstico laboratorial, que inclui o estudo do perfil de sensibilidade das
bactérias aos antibióticos comercialmente disponíveis, deve preceder a
prescrição. O uso indiscriminado desses medicamentos é tido como uma das
principais causas para o desenvolvimento de resistência.
“Os
laboratórios de apoio molecular, infelizmente restritos a universidades e
grandes hospitais privados, são essenciais para identificar os patógenos de
prioridade crítica causadores de infecções e orientar os tratamentos mais
adequados, assim como para implementar um controle epidemiológico preventivo. É
preciso aumentar as parcerias dos hospitais públicos para testagem e tornar os
testes mais baratos e rápidos”, encerra o pesquisador.
“O
diagnóstico molecular atualmente utiliza o sequenciamento e análise de dados
genômicos, que permitem identificar clones internacionais e linhagens de alto
risco”, destaca o pesquisador de pós-doutorado do Cepid Aries Herrison Fontana,
coautor do estudo.
A OMS
considera a resistência antimicrobiana uma das grandes ameaças à saúde pública
e ao desenvolvimento global. Estima-se que bactérias multirresistentes tenham
sido responsáveis por 1,27 milhão de mortes e contribuído para outros 4,95
milhões de óbitos no mundo todo em 2019, ano do último grande levantamento do
tipo.
Fonte:
CNN Brasil

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