Vitória
no Tapajós: como a resistência indígena protege o futuro das infâncias
Diz uma
lenda amazônica que, nas profundezas do Rio Tapajós, dorme a Boiúna — a Cobra
Grande, de olhos de fogo, que protege as águas e equilibra a floresta. Para os
povos que habitam suas margens, ela não é apenas um mito, mas uma guardiã que
vigia o sono dos curumins. Recentemente, a força dessa guardiã parece ter se
manifestado no corpo e na voz de centenas de famílias que barraram a entrega do
rio ao mercado privado.
Para as
crianças indígenas e ribeirinhas que ali vivem, o Rio Tapajós é o primeiro
território de descoberta do mundo. Antes mesmo de dominarem a escrita, muitas
já sabem ler o movimento das águas e o tempo das chuvas. No entanto, esse
ecossistema sagrado entrou na mira do decreto 12.600/2025, uma medida que
pretendia privatizar trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins,
transformando-os em corredores industriais para o agronegócio.
A
reação foi um levante que durou pouco mais de 30 dias. No terminal portuário de
uma multinacional, em Santarém (PA), indígenas de 14 povos — entre eles
Munduruku, Apiaká, Arapiun, Borari, Tapajó e Tupinambá — montaram um
acampamento de resistência. Encerrada em fevereiro de 2026, a mobilização
culminou na revogação histórica do decreto e deixou uma marca profunda no
imaginário das mais de 200 crianças que estiveram ali, segundo o Conselho
Indígena Tupinambá. Elas viram que o rio, além de dar o peixe e o banho, também
se defende com o corpo.
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O rio como extensão do corpo e da alma
No
cotidiano das aldeias, a separação entre “ser humano” e “natureza” não faz
sentido. A psicóloga indígena Rebeca Tupinambá, do Baixo Tapajós, descreve essa
relação como uma fusão de identidades. “O rio é uma extensão de nós mesmos, do
nosso corpo. As crianças já crescem aprendendo a nadar, a andar de canoa,
conhecendo o curso da cheia e da seca. Ele é a fonte de lazer e a base da nossa
construção”, explica.
Quando
o território é ameaçado, o impacto na vida e na identidade das crianças é alto.
Para Rebeca, a privatização e as dragagens industriais provocariam um trauma
geracional. “Uma criança feliz é uma criança que, no final do dia, sai para
pescar ou contar histórias na beira do rio. Se isso fosse tirado, elas
perderiam o contato espiritual com os encantados e a própria identidade.”
Durante
a ocupação, o medo foi transformado em pertencimento. Rebeca relata que as
crianças participaram ativamente da elaboração simbólica da luta. “A gente
estava ali lutando, mas elas estavam pintando a Cobra Grande. Elas entendem que
em todo esse rio mora uma protetora, um ser encantado que protege a força da
natureza. As crianças já estão saindo dessa experiência com o sentimento de
guerreiros e guerreiras, guardiões da floresta e das águas”, afirma a
psicóloga.
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Uma lição para todo o Brasil
A
vitória no porto de Santarém foi uma demonstração de força coletiva que
ultrapassou as fronteiras do Pará. Auricélia Arapiun, coordenadora do Conselho
Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), pontua que a revogação do decreto foi uma
conquista da organização popular frente a um Estado que muitas vezes ignora os
direitos originários.”
A lição
que fica para toda a sociedade é que somente a luta popular, somente a nossa
resistência e o nosso enfrentamento é capaz de mudar a realidade”, afirma
Auricélia em vídeo para as redes sociais.
Essa
consciência política, embora dura, acaba sendo compartilhada pelas crianças. A
antropóloga Tânia Ferreira observa que essa vivência forja uma “cidadania
territorial” desde cedo. “A criança percebe que o direito ao território é o que
garante o direito de existir. Quando elas ouvem os cantos de guerra e
participam das assembleias, estão aprendendo que a política não é algo
distante, mas algo que protege o seu quintal e a sua comida”, analisa Tânia.
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Crianças como agentes de mudança
Durante
os dias de ocupação, as atividades para as crianças ganharam novos contornos.
Em vez de salas de aula fechadas, o aprendizado aconteceu em rodas de conversa
e rituais coletivos.
As
crianças participaram de:
• Oficinas de pintura corporal e
artística: onde os grafismos ancestrais e a figura da Boiúna foram usados para
reafirmar o domínio sobre o território;
• Momentos de escuta ancestral: ouvindo os
anciãos contarem por que o rio não pode ser vendido, conectando a política
atual às histórias de criação do mundo;
• Vivência de cidadania ativa:
acompanhando as lideranças nas manifestações e conversas, entendendo a
importância da comunicação para a proteção da floresta.
Essa
imersão desperta uma sensação cívica que raramente é estimulada em contextos
urbanos. Segundo Tânia, essa experiência ensina que a defesa do bem comum exige
presença e coragem. “Elas entenderam que o silêncio não protege o rio. Isso
cria uma geração de líderes que já nasce sabendo o que é inegociável para o seu
povo”, diz a antropóloga.
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Uma causa para todas as infâncias
É comum
pensar que a luta dos Tapajós é exclusiva dos povos indígenas, mas o depoimento
de Elza Munduruku, mãe de um menino de cinco anos, convoca a sociedade
não-indígena para a responsabilidade. Elza relata que, embora sinta orgulho da
coragem do filho, a luta constante é exaustiva.
“Proteger
o que é nosso não deveria ser uma batalha diária. Quando a gente luta por esse
rio, estamos garantindo que a chuva continue caindo em outros lugares do
Brasil. Proteger a infância do meu filho é proteger a infância de qualquer
criança”, desabafa.
A
implicação de quem vive nas cidades é o que falta para que a justiça climática
seja real. A água que sai da torneira em São Paulo ou o clima equilibrado no
Sul dependem diretamente da saúde da bacia do Tapajós. Trazer essa conversa
para as infâncias urbanas é essencial para quebrar a visão de que a Amazônia é
um lugar isolado.
“Se as
crianças do Tapajós perderem o rio, as crianças das cidades perderão o futuro
climático. Defender o território é garantir que o amanhã de todos seja
possível”, conclui Tânia.
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Como conectar essa realidade com as crianças das cidades?
Conversar
sobre o futuro climático do Brasil com crianças que não vivem em territórios
indígenas, ribeirinhos ou frontalmente ameaçados é uma forma de cultivar
empatia e consciência ambiental.
Para as
especialistas que conversamos nesta matéria, existem alguns caminhos práticos
para essa conversa:
1. A origem da água: mostrar que o ciclo da
água conecta a bacia amazônica aos reservatórios que abastecem as cidades
brasileiras;
2. A sabedoria dos povos: apresentar lendas
e encantados do folclore brasileiro, como a Cobra Grande, não como uma
“história de medo”, mas como um símbolo de proteção e cuidado com o que é de
todos;
3. Solidariedade: ensinar que algumas
crianças precisam lutar para ter o direito de brincar em seus rios, e que
apoiar essa causa é um ato de amizade entre todos os pequenos brasileiros.
• Em Atalaia do Norte, Defensoria Pública
lança cartilha sobre direitos das mulheres indígenas
A
Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) lançou, em Atalaia do Norte
(a 1.138 quilômetros de Manaus), a cartilha sobre Direitos das Mulheres
Indígenas. Idealizada em parceria com o coletivo Javari Vale da Arte, a
iniciativa compõe a programação do Mês da Mulher e aconteceu durante o mutirão
de atendimentos jurídicos para a população indígena que segue até esta
segunda-feira (9) no município.
A
defensora pública Daniele Fernandes, coordenadora do Núcleo Especializado na
Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais (Nudcit),
explicou que cartilha traz os direitos das mulheres e descreve como eles podem
ser pleiteados de forma gratuita, por meio Defensoria, além de listar telefones
úteis e onde a mulher indígena pode procurar ajuda em caso de emergência.
“Apresentamos
informações sobre os direitos que toda mulher indígena tem, o direito ao bem
viver, uma vida livre da violência, como pedir medidas protetivas de urgência,
o que são as medidas protetivas de urgência, a Lei Maria da Penha e os direitos
à pensão e guarda dos filhos”, pontuou a defensora pública.
Daniele
Fernandes destacou o respeito às práticas culturais durante a gravidez que, por
meio da Lei Estadual nº 5.312/20, reconhece o direito da mulher indígena a ter
uma parteira tradicional e acompanhamento durante o parto.
“Existe
uma lei estadual que prevê esse direito para a mulher e pode ser exigido caso o
Estado se negue a permitir que essa parteira ingresse no momento do parto”,
afirmou.
A
defensora pública ressaltou que a violência contra a mulher tem sido um tema
cada vez mais debatido em coletivos femininos de mulheres indígenas. Segundo
ela, a instituição também está atuando em ações para mediar os debates sobre os
direitos das mulheres. “A violência não faz parte da tradicionalidade dos povos
indígenas que cultuam o direito ao bem viver”, explicou.
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Parceria
A
coordenadora do coletivo Javari Vale da Arte, Juliane Mayuruna, reforçou que a
publicação amplia o acesso à informação jurídica e facilita o atendimento para
as mulheres indígenas.
“O
acesso à justiça é muito difícil para quem vem da aldeia, tem alguns
atendimentos, como de pensão alimentícia, por exemplo, em que a gente conversou
com uma indígena ela nem sabia que existia isso”, comentou Juliane Mayuruna.
O
vice-coordenador da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja),
Varney Kanamary, também destacou a importância do material informativo.
“Isso é
muito importante porque as mulheres indígenas que são aldeadas ainda não
conhecem seus direitos”, disse.
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Atalaia do Norte
Desde o
último sábado (7), em Atalaia do Norte, os indígenas recebem atendimento
jurídico em uma ação desenhada pela Defensoria Pública do Amazonas em parceria
com a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) na sede da entidade
no município, reunindo diversas etnias, como Kanamari, Marubo, Mayuruna Matsés,
Kulina e Matis.
Criada
em 2008, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) atua na defesa
dos direitos e na proteção das garantias fundamentais dessas populações.
A ação
conta com o apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), que atua
como parceira na iniciativa, auxiliando a Defensoria Pública tanto nos
atendimentos quanto na logística da ação. A presença da Funai tem sido
fundamental para facilitar o diálogo com as diferentes etnias, orientar os
indígenas durante os atendimentos e apoiar a organização da estrutura que
permite que os serviços cheguem de forma mais eficiente aos povos do Vale do
Javari.
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Aldeia Massapê
Entre
os dias 3 e 5 de março, a Defensoria Pública participou do mutirão de
atendimento na Aldeia Massapê, realizado no âmbito do programa “Registre-se!
Brasil Parente”, na Terra Indígena do Vale do Javari, no oeste do Amazonas.
Na ação
foi realizado um debate sobre temas como violência de gênero e racismo
ambiental, com a participação de representantes da DPE-AM, Fundação Nacional
dos Povos Indígenas (Funai) e Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
A Terra
Indígena Vale do Javari é a segunda maior do Brasil e foi homologada em 2001.
Localizada no extremo oeste do Amazonas, abrange áreas dos municípios de
Atalaia do Norte, Benjamin Constant e São Paulo de Olivença, na região de
fronteira entre Brasil e Peru.
O
território é considerado uma das regiões com maior concentração de povos
indígenas isolados do mundo, além de abrigar diversas etnias, como Kanamari,
Korubo, Kulina, Marubo, Matís, Mayuruna e Tsonwük Dyapah.
O
mutirão de documentação civil “Registre-se! Brasil Parente” é uma iniciativa
promovida pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em parceria com a Fundação
Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Corregedoria-Geral de Justiça do Amazonas
(CGJ-AM), Núcleo de Justiça Itinerante do Tribunal de Justiça do Amazonas
(TJAM), o Cartório Almeida de Lima – Atalaia do Norte, Associação dos Notários
e Registradores do Estado do Amazonas (Anoreg-AM), Defensoria Pública do
Amazonas e Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-AM) e visa erradicar
o sub-registro civil, através da emissão gratuita de certidões de nascimento e
documentação básica.
Fonte:
Por Ylanna Pires, no Portal Lunetas/DPE-AM

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