quarta-feira, 11 de março de 2026

Vitória no Tapajós: como a resistência indígena protege o futuro das infâncias

Diz uma lenda amazônica que, nas profundezas do Rio Tapajós, dorme a Boiúna — a Cobra Grande, de olhos de fogo, que protege as águas e equilibra a floresta. Para os povos que habitam suas margens, ela não é apenas um mito, mas uma guardiã que vigia o sono dos curumins. Recentemente, a força dessa guardiã parece ter se manifestado no corpo e na voz de centenas de famílias que barraram a entrega do rio ao mercado privado.

Para as crianças indígenas e ribeirinhas que ali vivem, o Rio Tapajós é o primeiro território de descoberta do mundo. Antes mesmo de dominarem a escrita, muitas já sabem ler o movimento das águas e o tempo das chuvas. No entanto, esse ecossistema sagrado entrou na mira do decreto 12.600/2025, uma medida que pretendia privatizar trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, transformando-os em corredores industriais para o agronegócio.

A reação foi um levante que durou pouco mais de 30 dias. No terminal portuário de uma multinacional, em Santarém (PA), indígenas de 14 povos — entre eles Munduruku, Apiaká, Arapiun, Borari, Tapajó e Tupinambá — montaram um acampamento de resistência. Encerrada em fevereiro de 2026, a mobilização culminou na revogação histórica do decreto e deixou uma marca profunda no imaginário das mais de 200 crianças que estiveram ali, segundo o Conselho Indígena Tupinambá. Elas viram que o rio, além de dar o peixe e o banho, também se defende com o corpo.

<><> O rio como extensão do corpo e da alma

No cotidiano das aldeias, a separação entre “ser humano” e “natureza” não faz sentido. A psicóloga indígena Rebeca Tupinambá, do Baixo Tapajós, descreve essa relação como uma fusão de identidades. “O rio é uma extensão de nós mesmos, do nosso corpo. As crianças já crescem aprendendo a nadar, a andar de canoa, conhecendo o curso da cheia e da seca. Ele é a fonte de lazer e a base da nossa construção”, explica.

Quando o território é ameaçado, o impacto na vida e na identidade das crianças é alto. Para Rebeca, a privatização e as dragagens industriais provocariam um trauma geracional. “Uma criança feliz é uma criança que, no final do dia, sai para pescar ou contar histórias na beira do rio. Se isso fosse tirado, elas perderiam o contato espiritual com os encantados e a própria identidade.”

Durante a ocupação, o medo foi transformado em pertencimento. Rebeca relata que as crianças participaram ativamente da elaboração simbólica da luta. “A gente estava ali lutando, mas elas estavam pintando a Cobra Grande. Elas entendem que em todo esse rio mora uma protetora, um ser encantado que protege a força da natureza. As crianças já estão saindo dessa experiência com o sentimento de guerreiros e guerreiras, guardiões da floresta e das águas”, afirma a psicóloga.

<><> Uma lição para todo o Brasil

A vitória no porto de Santarém foi uma demonstração de força coletiva que ultrapassou as fronteiras do Pará. Auricélia Arapiun, coordenadora do Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), pontua que a revogação do decreto foi uma conquista da organização popular frente a um Estado que muitas vezes ignora os direitos originários.”

A lição que fica para toda a sociedade é que somente a luta popular, somente a nossa resistência e o nosso enfrentamento é capaz de mudar a realidade”, afirma Auricélia em vídeo para as redes sociais.

Essa consciência política, embora dura, acaba sendo compartilhada pelas crianças. A antropóloga Tânia Ferreira observa que essa vivência forja uma “cidadania territorial” desde cedo. “A criança percebe que o direito ao território é o que garante o direito de existir. Quando elas ouvem os cantos de guerra e participam das assembleias, estão aprendendo que a política não é algo distante, mas algo que protege o seu quintal e a sua comida”, analisa Tânia.

<><> Crianças como agentes de mudança

Durante os dias de ocupação, as atividades para as crianças ganharam novos contornos. Em vez de salas de aula fechadas, o aprendizado aconteceu em rodas de conversa e rituais coletivos.

As crianças participaram de:

•        Oficinas de pintura corporal e artística: onde os grafismos ancestrais e a figura da Boiúna foram usados para reafirmar o domínio sobre o território;

•        Momentos de escuta ancestral: ouvindo os anciãos contarem por que o rio não pode ser vendido, conectando a política atual às histórias de criação do mundo;

•        Vivência de cidadania ativa: acompanhando as lideranças nas manifestações e conversas, entendendo a importância da comunicação para a proteção da floresta.

Essa imersão desperta uma sensação cívica que raramente é estimulada em contextos urbanos. Segundo Tânia, essa experiência ensina que a defesa do bem comum exige presença e coragem. “Elas entenderam que o silêncio não protege o rio. Isso cria uma geração de líderes que já nasce sabendo o que é inegociável para o seu povo”, diz a antropóloga.

<><> Uma causa para todas as infâncias

É comum pensar que a luta dos Tapajós é exclusiva dos povos indígenas, mas o depoimento de Elza Munduruku, mãe de um menino de cinco anos, convoca a sociedade não-indígena para a responsabilidade. Elza relata que, embora sinta orgulho da coragem do filho, a luta constante é exaustiva.

“Proteger o que é nosso não deveria ser uma batalha diária. Quando a gente luta por esse rio, estamos garantindo que a chuva continue caindo em outros lugares do Brasil. Proteger a infância do meu filho é proteger a infância de qualquer criança”, desabafa.

A implicação de quem vive nas cidades é o que falta para que a justiça climática seja real. A água que sai da torneira em São Paulo ou o clima equilibrado no Sul dependem diretamente da saúde da bacia do Tapajós. Trazer essa conversa para as infâncias urbanas é essencial para quebrar a visão de que a Amazônia é um lugar isolado.

“Se as crianças do Tapajós perderem o rio, as crianças das cidades perderão o futuro climático. Defender o território é garantir que o amanhã de todos seja possível”, conclui Tânia.

<><> Como conectar essa realidade com as crianças das cidades?

Conversar sobre o futuro climático do Brasil com crianças que não vivem em territórios indígenas, ribeirinhos ou frontalmente ameaçados é uma forma de cultivar empatia e consciência ambiental.

Para as especialistas que conversamos nesta matéria, existem alguns caminhos práticos para essa conversa:

1.       A origem da água: mostrar que o ciclo da água conecta a bacia amazônica aos reservatórios que abastecem as cidades brasileiras;

2.       A sabedoria dos povos: apresentar lendas e encantados do folclore brasileiro, como a Cobra Grande, não como uma “história de medo”, mas como um símbolo de proteção e cuidado com o que é de todos;

3.       Solidariedade: ensinar que algumas crianças precisam lutar para ter o direito de brincar em seus rios, e que apoiar essa causa é um ato de amizade entre todos os pequenos brasileiros.

•        Em Atalaia do Norte, Defensoria Pública lança cartilha sobre direitos das mulheres indígenas

A Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) lançou, em Atalaia do Norte (a 1.138 quilômetros de Manaus), a cartilha sobre Direitos das Mulheres Indígenas. Idealizada em parceria com o coletivo Javari Vale da Arte, a iniciativa compõe a programação do Mês da Mulher e aconteceu durante o mutirão de atendimentos jurídicos para a população indígena que segue até esta segunda-feira (9) no município.

A defensora pública Daniele Fernandes, coordenadora do Núcleo Especializado na Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais (Nudcit), explicou que cartilha traz os direitos das mulheres e descreve como eles podem ser pleiteados de forma gratuita, por meio Defensoria, além de listar telefones úteis e onde a mulher indígena pode procurar ajuda em caso de emergência.

“Apresentamos informações sobre os direitos que toda mulher indígena tem, o direito ao bem viver, uma vida livre da violência, como pedir medidas protetivas de urgência, o que são as medidas protetivas de urgência, a Lei Maria da Penha e os direitos à pensão e guarda dos filhos”, pontuou a defensora pública.

Daniele Fernandes destacou o respeito às práticas culturais durante a gravidez que, por meio da Lei Estadual nº 5.312/20, reconhece o direito da mulher indígena a ter uma parteira tradicional e acompanhamento durante o parto.

“Existe uma lei estadual que prevê esse direito para a mulher e pode ser exigido caso o Estado se negue a permitir que essa parteira ingresse no momento do parto”, afirmou.

A defensora pública ressaltou que a violência contra a mulher tem sido um tema cada vez mais debatido em coletivos femininos de mulheres indígenas. Segundo ela, a instituição também está atuando em ações para mediar os debates sobre os direitos das mulheres. “A violência não faz parte da tradicionalidade dos povos indígenas que cultuam o direito ao bem viver”, explicou.

<><> Parceria

A coordenadora do coletivo Javari Vale da Arte, Juliane Mayuruna, reforçou que a publicação amplia o acesso à informação jurídica e facilita o atendimento para as mulheres indígenas.

“O acesso à justiça é muito difícil para quem vem da aldeia, tem alguns atendimentos, como de pensão alimentícia, por exemplo, em que a gente conversou com uma indígena ela nem sabia que existia isso”, comentou Juliane Mayuruna.

O vice-coordenador da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Varney Kanamary, também destacou a importância do material informativo.

“Isso é muito importante porque as mulheres indígenas que são aldeadas ainda não conhecem seus direitos”, disse.

<><> Atalaia do Norte

Desde o último sábado (7), em Atalaia do Norte, os indígenas recebem atendimento jurídico em uma ação desenhada pela Defensoria Pública do Amazonas em parceria com a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) na sede da entidade no município, reunindo diversas etnias, como Kanamari, Marubo, Mayuruna Matsés, Kulina e Matis.

Criada em 2008, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) atua na defesa dos direitos e na proteção das garantias fundamentais dessas populações.

A ação conta com o apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), que atua como parceira na iniciativa, auxiliando a Defensoria Pública tanto nos atendimentos quanto na logística da ação. A presença da Funai tem sido fundamental para facilitar o diálogo com as diferentes etnias, orientar os indígenas durante os atendimentos e apoiar a organização da estrutura que permite que os serviços cheguem de forma mais eficiente aos povos do Vale do Javari.

<><> Aldeia Massapê

Entre os dias 3 e 5 de março, a Defensoria Pública participou do mutirão de atendimento na Aldeia Massapê, realizado no âmbito do programa “Registre-se! Brasil Parente”, na Terra Indígena do Vale do Javari, no oeste do Amazonas.

Na ação foi realizado um debate sobre temas como violência de gênero e racismo ambiental, com a participação de representantes da DPE-AM, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

A Terra Indígena Vale do Javari é a segunda maior do Brasil e foi homologada em 2001. Localizada no extremo oeste do Amazonas, abrange áreas dos municípios de Atalaia do Norte, Benjamin Constant e São Paulo de Olivença, na região de fronteira entre Brasil e Peru.

O território é considerado uma das regiões com maior concentração de povos indígenas isolados do mundo, além de abrigar diversas etnias, como Kanamari, Korubo, Kulina, Marubo, Matís, Mayuruna e Tsonwük Dyapah.

O mutirão de documentação civil “Registre-se! Brasil Parente” é uma iniciativa promovida pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em parceria com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Corregedoria-Geral de Justiça do Amazonas (CGJ-AM), Núcleo de Justiça Itinerante do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), o Cartório Almeida de Lima – Atalaia do Norte, Associação dos Notários e Registradores do Estado do Amazonas (Anoreg-AM), Defensoria Pública do Amazonas e Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-AM) e visa erradicar o sub-registro civil, através da emissão gratuita de certidões de nascimento e documentação básica.

 

Fonte: Por Ylanna Pires, no Portal Lunetas/DPE-AM

 

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