Os
percalços mortais dos entregadores de bike
Guto é
ciclista, pai de família, entregador de aplicativo. Pedala pela capital
paulista dia ou noite. A pressão das corporações pelo cumprimento curtíssimo de
prazo de entrega, por longos percursos, lança trabalhadores precarizados a uma
corrida contra o tempo. De madrugada, ele percorre seu trajeto por uma
ciclofaixa quando, simplesmente… Ela desaparece! Se fosse durante o dia, a
avenida em que ele desemboca estaria repleta de carros, motos, caminhões, em um
típico dia de trânsito caótico paulistano. A alternativa seria lançar a
bicicleta para a calçada em meio aos pedestres.
Ao
Metrópoles, Vinícius — também “ciclo-entregador” — se queixa. Morador do Parque
América, próximo ao Autódromo de Interlagos, conta que lá há poucas
ciclofaixas, de baixa qualidade, com muitos buracos. Na Avenida Paulista, onde
passa a maior parte das horas de trabalho, a coisa é bem melhor. Mas esbarra —
literalmente — no alto fluxo de pessoas que utilizam a faixa para correr,
praticar esportes, ou mesmo transitar. Nos dois casos relatados, há um grande
vencedor em comum: o carro.
A
logística sobre duas rodas sustenta, cada vez mais, parcela crescente da
economia. Concentrados nas capitais brasileiras, o número de trabalhadores por
aplicativos cresceu de 770 mil para 2,1 milhões em dez anos. Em São Paulo, essa
expansão gera um problema crescente: uma malha cicloviária pequena e com
crescimento lento, associada a políticas urbanas que priorizam o transporte
individual. A capital paulista lidera a extensão de rede de ciclovias e
ciclofaixas exclusivas no Brasil; mas apesar delas cobrirem 737 quilômetros, a
cidade tem apenas 3,7% da malha viária com vias exclusivas para bike. O
levantamento é da Aliança Bike (Associação Brasileira do Setor de Bicicletas),
divulgado em dezembro passado.
A
combinação de crescimento acelerado da categoria plataformizada, ausência de
direitos e modelo de remuneração por produtividade empurra motoboys e ciclistas
a circular mais, mais rápido e por mais tempo, inevitavelmente em vias sem
infraestrutura segura. Para resumir as vítimas dessa lógica: a cada 39 minutos,
em média, morre um motociclista — e já são mais de um terço das fatalidades no
trânsito brasileiro, índice que ultrapassa 50% em regiões com menor
infraestrutura e fiscalização. Os dados são do Ministério da Saúde.
Segundo
informações da plataforma MobiliDados, a maioria das vítimas são jovens negros
e com menor escolaridade. Enquanto acidentes e mortes para estes trabalhadores
precarizados multiplicam-se, a situação de vulnerabilidade é chocante, como
mostrou o Outras Palavras: 3 em 10 entregadores abordados numa significativa
amostra nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro apresentaram algum nível de
insegurança alimentar; e há índices altíssimos de transtornos mentais
decorrentes da rotina.
Cabe
aqui uma reflexão. Entregadores, pessimamente remunerados, correm, quase voam,
pelas ruas de grandes cidades, diariamente, tentando cumprir metas
inalcançáveis. Além da falta de regulação que garanta direitos, segurança e
algum vínculo empregatício, como as cidades garantem a viabilidade e segurança
das atividades?
Na
cidade de Nova York, por exemplo, a metrópole exige que as plataformas
compartilhem dados operacionais com o governo, viabilizando um planejamento
urbano mais eficiente e políticas de segurança para os entregadores. Ainda não
permite motos entre faixas, tem transporte público eficiente e infraestrutura
cicloviária de mais de 2.200 km. Em contraste, o Plano de Mobilidade da
Prefeitura de São Paulo previa 1.800 km de ciclovias até 2028 — uma meta pouco
factível, pelo andar da carruagem. Uma auditoria cidadã constatou que 17% dos
trechos têm largura inferior ao que está previsto no Manual de Sinalização
Urbana da Companhia de Engenharia de Tráfego; em alguns pontos da cidade, a
ciclovia vira uma “ciclolinha”.
A
expansão das atividades de e-commerce e a intensificação das entregas nas
cidades de todo o globo estão diretamente ligadas ao aumento de acidentes e
óbitos no trânsito. Tanto em São Paulo quanto em Nova York, as condições de
segurança e infraestrutura são incongruentes com a expansão econômica dessas
atividades. Em especial no caso brasileiro, a ausência de regulação e visão
estratégica em integrar logística ao planejamento das cidades — articulando
governo, mercado e sociedade civil — aprofunda as condições injustas e
degradantes destes trabalhadores.
Fonte:
Por Lucas Scatolini, em Outras Palavras

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