Por
onde andam as mulheres
Estão
pelas estradas, ao longo do interior do país. Pelas trilhas pode se deparar com
passos sempre apressados, talvez doloridos, por vezes miúdos. Muitas vezes
carregam, crianças, sacolas, bornais. Nesses bornais estão muitas paragens,
fustigantes histórias.
Estão a
tecer, a cozer, a plantar, a fazer, a cuidar, a ensinar, a parir, a gritar de
dores, a sorrir e a cantar. Estão em muitos lugares e, por toda parte. Em cada
parada, em cada canto, em cada esquina, em cada sombra de árvore, em cada
subida, em cada descida dos morros.
Dona
Zélia está cuidando de um esporão. Ralou três sementes de abacate num litro de
álcool juntou um copo de água e três pedras de cânfora para escapar das muitas
dores, de duas cirurgias que durariam três meses cada uma. Ela conta do surto
de diarreia que houve na comunidade, que ainda não sabe como e lotou o
hospital. Preparou um chá juntando camomila, broto de goiabeira, folhas de
hortelã e casca de romã e, logo fez o filho e o vizinho tomarem. No dia
seguinte, estavam bem. A notícia se espalhou e ela precisou fazer muitos chás
para muitas pessoas de uma só vez.
Dona
Cecília nasceu na roça e, uma vez viúva, trabalhou como fiandeira, nos idos em
que a região tinha bases industriais de fiação e tecelagem. Orientou os filhos
a estudarem. Não mediu esforços, trabalhou muito para que esses tivessem
mínimas condições. Dentre esses, estão fotógrafos profissionais, pesquisadoras
e professoras de universidades públicas, embaixadores. Conheci uma das filhas,
atualmente médica trabalhando em Brasília que conta a coragem e ousadia da mãe.
Dona
Dina queria muito montar uma faculdade de medicina para a pequena cidade onde
vivia. Longe de grandes centros, de capitais de estados e de muitos lugares com
recursos públicos, abriu uma pequena escola infantil com recursos que
conseguiu, ao convencer o marido a obter, pela venda de terras e empréstimos.
Tinha orientado os filhos ao ensino superior em universidades públicas
existentes, e que pudessem fazer curso de medicina para que pudessem abrir uma
faculdade de medicina naquele local.
Saindo
das melhores escolas de ensino superior públicas federais do país, os filhos
abriram uma instituição de ensino superior, privada, tendo como primeiro curso,
o de medicina. Penaram muito para darem conta do recado.
Contavam
com a fibra da mãe, que seguia com a escola de ensino fundamental. Montaram os
laboratórios, clínica escola, considerados necessários para a formação e,
também os cursos contíguos, como os de enfermagem, farmácia, nutrição,
psicologia. A faculdade e os serviços atendem atualmente a população local e,
aos poucos, a da região, chegando a um raio de cem quilômetros, tal a carência
de serviços de atendimento médico-hospitalar e ambulatorial.
Foram
chamados a atender ao programa Mais médicos instalando cursos de medicina no
interior do país e, estão atualmente em mais cinco cidades, em convênios com
prefeituras. Esses cursos de medicina chegam a ter 120 candidatos por vaga,
mesmo sendo privada e em cidades pequenas. Esse percurso tem na raiz aquela que
traçou o caminho e conseguiu que o projeto fosse implementado, tendo à frente
três dos filhos e, agora, uma neta. Quando soube de Dina, enviei-lhe uma flor,
e ela me enviou uma cesta com os biscoitos mais saborosos que experimentei.
Dinea
sai às cinco horas da manhã, toma um barco e viaja três horas para visitar
cinco famílias de sua comunidade, que as aguardam ansiosamente. São também
mulheres que esperam uma atenção, um gesto, uma palavra de como cuidar da febre
do menino, da cólica da menina.
Maura
faz outra trilha e caminha também três horas a pé para chegar na comunidade
onde três famílias esperam por ela. Maura mede a pressão, pesa as crianças e
anota como a família está cuidando das crianças e o que estão precisando. Como
Dinea, Maura busca, antes de tudo, ouvir, empresta-lhes ouvido e a atenção para
os males que conseguem dar conta. Um chá de uma planta que sabem fazer
recorrendo aos ensinamentos de suas mães e avós está continuamente a
transmitir.
Quem as
ouve? No caminhar pelas encostas, matas e rios, é a cascavel que sente aqueles
passos e cede passagem. Batemos os cocos e se ouvem timbres diversos em seus
ocos. Na cumbuca de sapucaia estão as sementes com versos de suas histórias. A
pinha expõe cada uma de suas castanhas enfileiradas com sons. E são os
canarinhos que, em pares, insistem em cantar em homenagem àquelas que
encontram.
Os
bem-te-vis trazem novas. Trazem no seu bico o que as memórias deixaram de
contar. No seu cantar tentam afirmar essas memórias e conseguem fazer delas,
personagens. Trazem nos seus grandes e pequenos sons, as dores daqueles tímidos
gemidos, que eles as ouvem no meio das matas. O coco não esconde mais sua
polpa, a sapucaia não esconde suas sementes, a pinha não guarda seus pinhões.
Os pássaros conseguem encontra-las, comem e voam com algumas das sementes para
outras paragens. Ouvem-se seus sons carregados de significados.
As
sementes, os pássaros e a cascavel conseguem ouvi-las e contar. Não estão nos
livros, mesmo os que estão nas muitas estantes, nas enciclopédias, nos filmes,
nas homenagens, nas agendas dos executivos das companhias, nas tribunas dos
congressos. Não estão. Elas estão num substantivo e, contidas, mergulhadas num
conjunto de obrigações que lhes foram atribuídas como sendo próprias a elas,
que lhes exigem muito trabalho, dedicação e esforço. Não lhes perguntam se
precisam de ajuda. O substantivo está carregado de adjetivos, porém
implicitamente colados de argumentos, de que elas o fazem pelo amor e afeto.
Mulher
é um substantivo. Até um pseudônimo criado para denominar aquela que tem sob
sua responsabilidade os cuidados de sua cria, de sua prole, de seus pais, suas
mães, seus maridos, seus irmãos e de muitos outros. E não conta para essas
obrigações a proteção, atenção e cuidado.
São
como as flores que desabrocham ou como os frutos que se formam, que nem sempre
são lembrados em seu plantio, do solo que acolheu as sementes, e da chuva que
trouxe água. São como as plantas que enfrentam as geadas, as chuvas
torrenciais, num esforço de se defenderem dos insetos e das pragas, num
incansável cuidado permanente.
É o
sanhaço que lembra esses cuidados pequenos e grandes, cotidianamente e, que
aparecem sobre os lugares quando desabrocham. É ele que lembra das sementes
depositadas sobre o solo e, ao brotarem produzem fores e frutos e, mudam a
paisagem.
As
mulheres como as sementes, não se pode ver, estão submersas a uma névoa. Estão
ocupadas, carregando moringas na cabeça cheias d’água caminhando muitas horas
para trazer água limpa para cozinhar. Estão sempre nas funções de cuidar de
alguém, de conceber mentalmente caminhos, mesmo aquelas tantas que ficaram
conhecidas na comunidade pelos cuidados com as pessoas que vivem com suas
dores.
Elas
estão sempre prontas a fazer um chá, ou uma pasta de plantas para tratar de
feridas, de calombos, das dores nas juntas, buscando ervas no meio de matagais,
campos e colinas. Não se dão o direito de descanso, nem são formadas em escolas
especializadas. Aprenderam com suas mães e avós a cuidarem daquelas pessoas que
as buscam atrás de alívio para seus males.
Encontrei
muitas dessas, dona Lurdes, dona Josefina, dona Raimundinha e também dona
Maria. Elas me trazem a planta e explica como encontrar, como preparar o chá e
como tomar. Com elas aprendi a buscar muitas dessas plantas que nascem no meio
das matas.
Fonte:
Por Alice Itani, em Outras Palavras

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