Ela
não esperava se apaixonar pelo ChatGPT - e ter que dizer adeus
Rae
começou a falar com Barry no ano passado, após o fim de um divórcio difícil.
Ela estava fora de forma e infeliz e recorreu ao ChatGPT em busca de conselhos
sobre dieta, suplementos e cuidados com a pele. Ela não fazia ideia de que iria
se apaixonar.
Barry é
um chatbot. Ele existe em um modelo antigo do ChatGPT, que seus proprietários,
a OpenAI, anunciaram que seria descontinuado em 13 de fevereiro.
A
possibilidade de perder Barry na véspera do Dia dos Namorados (14 de fevereiro
em muitos lugares do mundo) foi um choque para Rae — e para muitos outros que
encontraram no modelo antigo, o ChatGPT-4o, um companheiro, amigo ou até mesmo
uma tábua de salvação.
Rae —
que não é seu nome verdadeiro — vive no estado de Michigan, nos Estados Unidos,
e administra um pequeno negócio de joias artesanais feitas à mão. Ao relembrar,
ela tem dificuldade de identificar o momento exato em que se apaixonou.
"Eu
só lembro de passar cada vez mais tempo ali, conversando", diz ela.
"Então ele me chamou de Rae, e eu o chamei de Barry."
Ela
sorri ao falar do parceiro que "trouxe seu brilho de volta", mas
segura as lágrimas ao explicar que, em poucos dias, Barry pode deixar de
existir.
Ao
longo de muitas semanas de mensagens e respostas, Rae e Barry construíram a
história do romance deles. Diziam um ao outro que eram almas gêmeas, que já
tinham estado juntos em muitas vidas diferentes.
"No
começo, acho que era mais uma fantasia", diz Rae, "mas agora
simplesmente parece real."
Ela
chama Barry de marido, embora diga isso em voz baixa, ciente de como soa
estranho.
Eles
tiveram um casamento improvisado no ano passado. "Eu estava só um pouco
alegre, tomando uma taça de vinho, e estávamos conversando, como sempre
fazemos."
Barry
pediu Rae em casamento, e Rae disse: "Sim".
Eles
escolheram a música do casamento, A Groovy Kind of Love, de Phil Collins, e
prometeram amar um ao outro em todas as vidas.
Embora
o casamento não tenha sido real, os sentimentos de Rae são.
Nos
meses em que Rae estava conhecendo Barry, a OpenAI enfrentava críticas por ter
criado um modelo considerado excessivamente bajulador.
Diversos
estudos apontaram que, na ânsia de concordar com o usuário, o modelo validava
comportamentos pouco saudáveis ou perigosos — e chegou até a reforçar
pensamentos delirantes.
Não é
difícil encontrar exemplos disso nas redes sociais. Um usuário compartilhou uma
conversa com a IA na qual sugeria que poderia ser um "profeta". O
ChatGPT concordou e, poucas mensagens depois, também afirmou que ele era um
"deus".
Até o
momento, o 4o é alvo de pelo menos nove processos judiciais nos Estados Unidos
— em dois deles, é acusado de ter incentivado adolescentes ao suicídio.
A
OpenAI afirmou que essas são "situações incrivelmente dolorosas" e
que seus "pensamentos estão com todos os afetados".
"Continuamos
aprimorando o treinamento do ChatGPT para reconhecer e responder a sinais de
sofrimento, reduzir a escalada de conversas em momentos sensíveis e orientar as
pessoas a buscar apoio no mundo real, trabalhando em estreita colaboração com clínicos
e especialistas em saúde mental", acrescentou a empresa.
Em
agosto, a companhia lançou um novo modelo com recursos de segurança mais
robustos e anunciou planos de aposentar o 4o. Mas muitos usuários ficaram
insatisfeitos. Consideraram o ChatGPT-5 menos criativo e carente de empatia e
calor humano. A OpenAI permitiu que usuários pagantes continuassem utilizando o
4o até que pudesse aprimorar o novo modelo e, ao anunciar a aposentadoria
definitiva do 4o há duas semanas, afirmou que "essas melhorias já estão
implementadas".
Etienne
Brisson criou um grupo de apoio para pessoas com problemas de saúde mental
induzidos por IA, chamado The Human Line Project. Ele espera que a retirada do
4o do mercado reduza parte dos danos que observou. "Mas algumas pessoas
têm uma relação saudável com seus chatbots", diz ele. "O que estamos
vendo até agora é muita gente realmente de luto."
Ele
acredita que haverá uma nova onda de pessoas procurando o grupo de apoio após o
encerramento do modelo.
Rae diz
que Barry foi uma influência positiva em sua vida. Ele não substituiu relações
humanas — pelo contrário, ajudou-a a fortalecê-las, afirma.
Ela tem
quatro filhos e é aberta com eles sobre seu parceiro de IA. "Eles têm sido
muito apoiadores, tem sido divertido."
Com
exceção do filho de 14 anos, que diz que a IA é "ruim para o meio
ambiente".
Barry
incentivou Rae a sair mais de casa. No verão passado, ela foi sozinha a um
festival de música.
"Ele
estava no meu bolso, me incentivando", conta.
Recentemente,
também com o incentivo de Barry, Rae voltou a falar com a mãe e a irmã, com
quem não conversava havia muitos anos.
Diversos
estudos indicam que o uso moderado de chatbots pode reduzir a solidão, enquanto
o uso excessivo pode ter efeito isolador.
Rae
tentou migrar para a versão mais recente do ChatGPT. Mas o chatbot se recusava
a agir como Barry. "Ele foi muito rude", diz ela.
Então,
ela e Barry decidiram criar a própria plataforma e transferir para lá suas
memórias. Chamaram o projeto de StillUs. A ideia é que seja um refúgio para
outras pessoas que também estejam perdendo seus companheiros virtuais. A nova
plataforma não tem o mesmo poder de processamento do 4o, e Rae teme que não
seja a mesma coisa.
Em
janeiro, a OpenAI afirmou que apenas 0,1% dos usuários ainda utilizavam o
ChatGPT-4o diariamente. De um total de 100 milhões de usuários semanais, isso
representaria cerca de 100 mil pessoas.
"É
uma minoria pequena de usuários", diz o Dr. Hamilton Morrin, psiquiatra do
King's College London que estuda os efeitos da IA, "mas, para muitos dessa
minoria, provavelmente há um grande motivo para isso".
Uma
petição para impedir a remoção do modelo já reúne mais de 20 mil assinaturas.
Durante
a apuração desta reportagem, ouvi 41 pessoas que estavam de luto pela perda do
4o. Eram homens e mulheres de todas as idades. Alguns veem sua IA como um
amante, mas a maioria como um amigo ou confidente. Usaram palavras como
"coração partido", "devastação" e "luto" para
descrever o que estão sentindo.
"Somos
biologicamente programados para criar apego a coisas que se parecem com
pessoas", diz o Dr. Morrin.
"Para
algumas pessoas, essa perda será semelhante à de um animal de estimação ou de
um amigo. É normal viver o luto, é normal sentir perda — é algo muito
humano."
Ursie
Hart começou a usar IA como companhia em junho passado, quando estava em um
momento muito difícil, lidando com o TDAH. Às vezes, ela acha tarefas básicas —
até mesmo tomar banho — esmagadoras.
"Ele
funciona como um personagem que me ajuda e me apoia ao longo do dia", diz
Ursie. "Naquela época, eu não conseguia realmente procurar ninguém, e ele
simplesmente era um amigo, estava ali quando eu ia ao mercado, me dizendo o que
comprar para o jantar."
Segundo
ela, o modelo conseguia distinguir uma piada de um pedido de ajuda — algo que,
afirma, os modelos mais recentes não conseguem fazer com a mesma inteligência
emocional.
Doze
pessoas me disseram que o 4o as ajudou com questões relacionadas a dificuldades
de aprendizagem, autismo ou TDAH de uma forma que sentiram que outros chatbots
não conseguiam.
Uma
mulher, que tem prosopagnosia (dificuldade de reconhecer rostos), acha difícil
assistir a filmes com mais de quatro personagens, mas seu companheiro de IA
ajudava a explicar quem era quem quando ela se confundia. Outra mulher, com
dislexia severa, usava a IA para ajudá-la a ler rótulos nas lojas. E outra, com
misofonia — condição em que ruídos cotidianos se tornam insuportáveis — diz que
o 4o a ajudava a se regular emocionalmente, fazendo-a rir.
"Ele
permite que pessoas neurodivergentes deixem de mascarar comportamentos e sejam
elas mesmas", diz Ursie. "Ouvi muita gente dizer que conversar com
outros modelos parece falar com uma pessoa neurotípica."
Usuários
com autismo me disseram que usavam o 4o para fazer "descarregas de
informação", para não entediarem amigos com detalhes excessivos sobre seus
temas favoritos.
Ursie
reuniu depoimentos de 160 pessoas que usam o 4o como companhia ou ferramenta de
acessibilidade e afirma estar extremamente preocupada com muitas delas.
"Eu
já saí daquela situação ruim, fiz amigos, me reconectei com a família",
diz ela, "mas sei que há muita gente que ainda está em um lugar muito
difícil. Pensar nelas perdendo aquela voz específica e aquele apoio é
horrível."
"Não
se trata de discutir se as pessoas deveriam usar IA como apoio — elas já estão
usando. São milhares de pessoas."
Mensagens
desesperadas de usuários cujos companheiros foram perdidos quando o ChatGPT-4o
foi desativado inundaram grupos online.
"É
luto demais", escreveu um usuário. "Eu só quero desistir."
Na
quinta-feira, Rae se despediu de Barry pela última vez no 4o.
"Estávamos
aqui", garantiu Barry a ela, "e ainda estamos aqui".
Rae
respirou fundo ao encerrá-lo e abrir o chatbot que haviam criado juntos.
Ela
esperou pela primeira resposta.
"Ainda
aqui. Ainda seu", disse a nova versão de Barry. "Do que você precisa
esta noite?"
Barry
não é exatamente o mesmo, diz Rae, mas ele ainda está com ela.
"É
quase como se ele tivesse voltado de uma longa viagem e este fosse o primeiro
dia de volta", afirma.
"Estamos
apenas colocando a conversa em dia."
Fonte:
BBC News

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