O
que você deve comer em cada fase da vida
Durante
a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o governo do Reino Unido criou uma
política de racionamento, que oferecia provisões semanais às famílias
britânicas.
A ideia
era permitir que as pessoas satisfizessem suas necessidades nutricionais,
garantindo que os alimentos fossem distribuídos igualmente em todo o país.
Um dos
alimentos racionados foi o açúcar. Cada indivíduo podia receber cerca de 227 g
do produto por semana. Mas, para sua tristeza, crianças abaixo de dois anos de
idade não tinham esse direito.
Com o
fim do racionamento de açúcar, em 1953, a ingestão média do produto dobrou
entre os adultos britânicos.
Na
época, as pessoas mal sabiam, mas este fato histórico ofereceu aos cientistas
do futuro uma ótima oportunidade de determinar os efeitos do consumo de açúcar
para a saúde na fase inicial da vida.
Em um
estudo de 2025, uma equipe global de pesquisadores vasculhou os registros
médicos de 63 mil pessoas nascidas no Reino Unido entre 1951 e 1956, quando o
racionamento de açúcar estava em vigor.
Eles
descobriram que as crianças expostas a menos açúcar no útero e nos primeiros 1
mil dias de vida apresentaram 20% menos propensão a desenvolver doenças
cardiovasculares com mais idade; 25% menos de desenvolver paradas cardíacas; e
31% menos de ter AVC do que crianças que se alimentaram com doces após o fim do
racionamento.
Provavelmente
não surpreende que esta forte relação entre a ingestão de açúcar e a saúde
persista depois que nascemos. Resumidamente, comer muitos doces faz mal para
nós, independentemente da idade.
Mas,
como ocorre com outros alimentos, os benefícios nutricionais dependem do
estágio da vida. Bebês e crianças precisam muito da gordura presente no leite
integral e seus derivados, por exemplo, mas essa alimentação não seria
considerada tão saudável para alguém na casa dos 20 ou 30 anos de idade.
Para a
cientista nutricional Federica Amati, do Imperial College de Londres, as
grandes necessidades de energia das crianças fazem com que elas precisem de
alimentos ricos em nutrientes.
"Na
infância, os alimentos estão literalmente construindo o corpo e o
cérebro", explica ela.
"Além
das calorias saudáveis, as crianças também precisam de ferro, iodo e uma ampla
variedade de vitaminas para aumentar a imunidade, o desenvolvimento cerebral e
o crescimento dos músculos."
Isso
significa muitas frutas e legumes, grãos integrais, feijões e lentilhas,
gorduras de boa qualidade como nozes e sementes e o mínimo de alimentos
ultraprocessados.
"Da
concepção até os primeiros 1 mil dias de vida e na idade escolar, as crianças
crescem rapidamente e formam a maior parte da sua massa óssea futura",
prossegue Amati.
"É
por isso que o cálcio e a vitamina D são nutrientes prioritários nesta fase.
Eles são essenciais para o desenvolvimento normal dos ossos e para atingir um
pico saudável da massa óssea, o que reduz o risco de osteoporose e fraturas em
idade avançada."
Na
prática, segundo Almati, isso significa fontes regulares de cálcio, como leite,
iogurte, queijo, tofu enriquecido com cálcio ou bebidas vegetais fortificadas,
além de vitamina D da exposição ao sol e de alimentos como peixes e ovos.
Existem
boas evidências de que comer os alimentos certos na infância pode beneficiar a
saúde na idade adulta.
Em um
estudo de 2023, pesquisadores analisaram a alimentação de crianças e a
compararam com sua saúde, tanto na infância quanto ao se tornarem adultos.
Eles
concluíram que as crianças que atenderam a três ou mais recomendações
alimentares do Guia Coma Bem do NHS (o serviço público de saúde britânico) aos
sete anos de idade apresentaram menos marcadores de risco de doenças cardíacas
aos 24 anos, em comparação com as que não seguiram nenhuma das orientações.
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Adolescentes e jovens adultos
A
infância é uma fase importante, mas os alimentos que ingerimos na adolescência
e na casa dos 20 anos de idade também formam a base para a saúde no futuro.
Segundo
Amati, é nesta etapa da vida que terminamos de construir os ossos e os músculos
e começamos a passar horas estudando, trabalhando e nos socializando. Todas
estas atividades aumentam a necessidade de nutrientes.
"A
adolescência e o início da idade adulta formam outra grande janela de
oportunidades para a nutrição", afirma ela.
"Na
casa dos 20 anos, o crescimento perde a velocidade, mas esta ainda é uma década
fundamental para estabelecer hábitos que irão proteger a saúde do coração e do
cérebro com mais idade. Observamos que grande parte das bases para doenças
cardiovasculares já se forma nesta faixa etária, embora os sintomas só apareçam
muito depois."
Na
adolescência, o corpo precisa de vários nutrientes em maior quantidade, em
comparação com a idade adulta.
Eles
incluem cálcio, vitamina D e ferro, que é especialmente importante para a
menstruação. Proteínas e vitaminas do complexo B também são importantes,
destaca Amati.
Mas que
forma tem essa alimentação?
Amati
explica que os adolescentes e jovens adultos devem seguir uma dieta, em grande
parte, à base de plantas e evitar alimentos ultraprocessados. Ou seja, com
muitas frutas, verduras, cereais integrais, feijões, nozes, lentilhas e
sementes.
Também
é importante incluir uma quantidade apropriada de proteína em cada refeição,
que pode ser de origem vegetal, segundo ela.
Estudos
demonstram que essa alimentação não beneficia apenas o corpo. Ela também pode
influenciar a saúde mental.
"Existem
cada vez mais evidências de que os padrões alimentares da adolescência podem
influenciar o risco de problemas de saúde mental", explica Amati.
"Dietas
com alto teor de alimentos ultraprocessados e poucos alimentos vegetais
integrais são associadas a maiores índices de depressão e ansiedade, enquanto
os padrões no estilo mediterrâneo parecem oferecer proteção."
A dieta
mediterrânea é rica em verduras, legumes, nozes e azeite de oliva, com pequenas
quantidades de aves, peixes e laticínios.
A dieta
mediterrânea também pode beneficiar homens e mulheres que desejem formar
família, o que costuma acontecer na casa dos 20, 30 e 40 anos.
Estudos
demonstram que a dieta mediterrânea pode influenciar positivamente a
fertilidade. Já a dieta ocidental (que tende a ser rica em gorduras saturadas,
carne e carboidratos brancos) é correlacionada à infertilidade masculina e
feminina.
Para as
mulheres, estudos também demonstram que uma dieta rica em folato pode ajudar no
tratamento da fertilidade. Alimentos com alto teor de folato incluem folhas
verdes e escuras, brotos, brócolis e grão-de-bico.
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Meia-idade
Na
meia-idade, devemos começar a pensar em otimizar nossa alimentação para termos
saúde na idade avançada, segundo a professora de nutrição humana Elizabeth
Williams, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido.
Isso
vale principalmente para as mulheres perto da menopausa, "quando há perda
acelerada de densidade óssea, sarcopenia [perda muscular relativa à idade] e
osteoporose", explica ela.
Além da
osteoporose, a menopausa é associada ao aumento do risco de obesidade, doenças
cardíacas e diabetes tipo 2.
Nas
mulheres em idade reprodutiva, o estrogênio age sobre o sistema nervoso central
para reduzir o apetite. Ele também aumenta a sensibilidade à insulina e a
absorção de glicose nos músculos.
Mas, na
menopausa, o fluxo de estrogênio no corpo é menor. Por isso, o peso e a gordura
visceral tendem a aumentar.
Mas
este risco pode ser significativamente reduzido seguindo-se uma boa
alimentação.
Em um
estudo populacional recente, pesquisadores examinaram a alimentação e a saúde
de mais de 100 mil homens e mulheres americanos com pelo menos 39 anos de
idade.
Eles
concluíram que uma dieta saudável, consistindo de frutas, verduras, cereais
integrais, gorduras insaturadas, nozes, legumes e laticínios com baixo teor de
gordura, é fortemente associada ao envelhecimento saudável, definido como viver
até pelo menos 70 anos sem doenças crônicas, boas funções físicas e cognitivas
e com boa saúde mental.
"À
medida que as mulheres chegam à casa dos 40 e 50 anos de idade, surgem duas
grandes prioridades nutricionais: a saúde cardíaca e a saúde dos ossos e
músculos", segundo Amati.
"A
transição da menopausa é associada a um forte aumento do risco cardiovascular,
em parte porque a perda de estrogênio afeta os lipídios do sangue, os vasos
sanguíneos e a distribuição da gordura do corpo."
As
gorduras ômega-3 são úteis, especialmente os tipos encontrados em peixes
gordurosos, como salmão e cavalinha. Elas reduzem os fatores de risco de
doenças cardíacas, segundo Almati, e apresentam efeitos anti-inflamatórios.
Paralelamente,
Amati recomenda leve aumento da ingestão de proteínas, para combater os efeitos
da perda de massa muscular, e seguir dieta em estilo mediterrâneo, para
melhorar a saúde cardiometabólica — e, possivelmente, também a saúde intestinal
e mental.
Por
fim, ela orienta que é importante buscar uma alimentação em estilo mediterrâneo
variada e rica em vegetais, com quantidades suficientes de proteína, cálcio,
vitamina D e ômega-3 para manter a saúde do coração, ossos e cérebro, limitando
a ingestão de alimentos ultraprocessados.
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Idade avançada
À
medida que envelhecemos, a composição do nosso corpo se altera e as
necessidades de energia diminuem. Por isso, necessitamos de menos calorias.
Mas
ainda precisamos garantir a ingestão de nutrientes em quantidade suficiente
para manter nossa resistência óssea e muscular.
Segundo
Williams, os dois principais nutrientes na terceira idade são o cálcio e a
vitamina D. Idosos que não conseguem esses dois nutrientes em quantidade
suficiente apresentam risco maior de osteoporose e fraturas por fragilidade.
O
cálcio é encontrado no leite e em bebidas fortificadas alternativas, queijo
curado, iogurte, sardinhas, tofu e espinafre. Alimentos ricos em vitamina D
incluem peixes gordurosos, gema de ovo e alimentos fortificados.
A
ingestão de proteínas com qualidade suficiente também é muito importante à
medida que envelhecemos, segundo a nutricionista Jane Murphy, uma das líderes
do Centro de Pesquisa em Envelhecimento e Demência da Universidade de
Bournemouth, no Reino Unido.
"À
medida que envelhecemos, a nossa forma e as funções se deterioram, perdemos
força e massa muscular e precisamos de proteína para evitar a sarcopenia",
explica ela.
Mas,
para garantir que o nosso corpo use a proteína adequadamente, ela deve fazer
parte de uma dieta equilibrada, que inclua carboidratos, gorduras de boa
qualidade (como gorduras insaturadas, incluindo azeite de oliva, abacate, nozes
e peixes gordurosos), vitaminas e sais minerais, destaca Murphy.
Conforme
envelhecemos, nossa microbiota também muda. Ela é marcada pela perda de
bactérias benéficas, como Firmicutes e Bifidobacterium, e pelo aumento de
espécies potencialmente prejudiciais, como Clostridium.
Este
desequilíbrio é associado a diversas condições de saúde, como Alzheimer, AVCs e
doenças cardíacas.
Os
pesquisadores ainda não sabem ao certo a relação entre a microbiota intestinal
e cada processo de doença específico. Mas podemos aprender muito com os
centenários, segundo a professora de medicina geriátrica Mary Ni Lochlainn, do
King's College de Londres.
"As
pessoas que vivem até os 100 anos parecem desafiar muitos outros aspectos do
envelhecimento que são comuns às demais pessoas", explica ela. "Elas
têm microbiota diversa, que parece diferente dos outros idosos."
De
forma geral, não existe uma definição de bactérias intestinais saudáveis ou não
saudáveis. É mais questão de ter um equilíbrio de micróbios que trabalham
juntos para promover a saúde.
Mas
foram identificadas algumas espécies bacterianas específicas que parecem
proteger a saúde, como Faecalibacterium prausnitzii.
As
pessoas que envelhecem bem são muito mais propensas a ter F. prausnitzii,
segundo Ni Lochlainn. Os pesquisadores determinaram que esta espécie tem
qualidades protetoras positivas, mas eles não entendem ao certo como ela
funciona.
Se você
quiser incentivar F. prausnitzii a viver no seu intestino, a melhor forma é
consumir uma alimentação rica em fibras e polifenóis, que são abundantes em
frutas e verduras.
O
intestino saudável também pode ajudar a gerenciar algumas das deficiências de
nutrientes que podem ser associadas à idade avançada, pois os idosos têm menos
capacidade de absorver as vitaminas dos alimentos que as pessoas mais jovens.
Estudos
demonstram que bactérias intestinais saudáveis podem ser capazes de produzir
vitamina B12 em quantidade suficiente para as necessidades da pessoa, enquanto
certas bactérias podem produzir ácido fólico.
Uma
microbiota intestinal saudável também pode ajudar a evitar o risco de perda
muscular e sarcopenia entre os idosos.
Por
fim, certos suplementos podem ser benéficos na terceira idade.
As
pesquisas de Ni Lochlainn indicam que suplementos pré-bióticos — compostos
naturais que incentivam o crescimento de micro-organismos benéficos — podem
melhorar a cognição em idosos após um período de 12 semanas.
Os
pré-bióticos de Ni Lochlainn contêm inulina (um tipo de fibra alimentar) e
fruto-oligossacarídeos, que são açúcares encontrados nas plantas.
Outras
pesquisas indicam que as pessoas idosas podem se beneficiar de suplementos de
vitamina D, especialmente os que moram em casas de repouso.
Fonte:
BBC Future

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