quarta-feira, 11 de março de 2026

Maria Luiza Falcão: A guerra das narrativas e a aposta chinesa no Irã

O artigo “Como a enorme aposta da China no Irã fracassou”, publicado em 6 de março de 2026 no Washington Post, não é apenas uma análise conjuntural sobre os desdobramentos recentes no Oriente Médio. Ele expressa uma leitura estratégica que circula no núcleo do establishment político americano. Seu autor, Miles Yu — pesquisador sênior e diretor do China Center no Hudson Institute e ex-assessor de política para a China durante o governo de Donald Trump — sustenta que as operações militares conduzidas pelos Estados Unidos e Israel teriam desmantelado um pilar essencial da estratégia chinesa. Mais do que avaliar danos militares ao Irã, o texto busca afirmar algo maior: que Washington mantém capacidade decisiva de limitar e moldar a ascensão estratégica de Pequim.

A localização institucional do artigo é decisiva. O Washington Post é veículo central na formação de consensos políticos em Washington. Quando uma leitura dessa natureza aparece em suas páginas, ela deixa de ser opinião isolada e passa a integrar o debate dominante sobre política externa. O texto não apenas relata acontecimentos; ele constrói a moldura estratégica que orienta sua interpretação.

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 Yu sustenta que a “aposta monumental” da China no Irã teria fracassado após as recentes ofensivas militares que degradaram infraestrutura nuclear e capacidades estratégicas iranianas. A partir daí, desenvolve a ideia de que Pequim perdeu um parceiro-chave e que o chamado “eixo CRINK” — China, Rússia, Irã e Coreia do Norte — revelou sua fragilidade estrutural.

 O primeiro elemento que merece análise crítica é a naturalização do uso da força. As operações militares são descritas como instrumentos eficazes de correção estratégica. A destruição de infraestrutura iraniana aparece como consequência técnica de uma ação bem-sucedida. Não há problematização substantiva sobre soberania, precedentes de ataques preventivos ou erosão do direito internacional. A força surge como mecanismo legítimo de reorganização geopolítica. Sob uma perspectiva crítica de esquerda, esse ponto é central: quando bombardeios passam a ser apresentados como ferramentas normais de gestão da ordem internacional, a militarização da política externa deixa de ser exceção e passa a constituir regra implícita.

 O artigo também recorre a um enquadramento binário que remete à lógica da Guerra Fria. Ao apresentar o “eixo CRINK” como bloco articulado, sugere-se uma coordenação estratégica coesa entre esses países. No entanto, não há pacto formal de defesa coletiva, nem estrutura institucional comparável a alianças militares consolidadas. O que existe são convergências pontuais diante da hegemonia americana. A simplificação em campos antagônicos cumpre função política: facilita a construção de consenso interno em favor de políticas de contenção e rearmamento.

 Há ainda uma assimetria moral evidente. A China é acusada de seletividade ao condenar ações que atingem seus parceiros, mas não se observa reflexão equivalente sobre a tradição de intervenções unilaterais americanas nas últimas décadas. O direito internacional é invocado como princípio universal, mas sua aplicação permanece condicionada ao alinhamento estratégico. A crítica à coerência chinesa pode ser legítima; o silêncio sobre práticas ocidentais similares revela seletividade estrutural.

 Outro ponto central da argumentação é a hipótese de que Pequim teria interesse em manter o Oriente Médio permanentemente instável para distrair Washington do Indo-Pacífico. Essa leitura parte de uma visão profundamente securitizada das relações internacionais. A China é o maior importador mundial de petróleo e depende da estabilidade das rotas energéticas do Golfo. Conflitos prolongados elevam custos, ampliam riscos e ameaçam fluxos comerciais. A projeção externa chinesa nas últimas duas décadas foi predominantemente econômica e infra estrutural. Reduzi-la a uma estratégia deliberada de instabilidade ignora dados concretos e obscurece a natureza comercial de sua expansão.

 A parceria sino-iraniana, formalizada no acordo de cooperação de 25 anos de 2021, sempre foi marcada por assimetria. O Irã depende muito mais da China do que o contrário. O petróleo iraniano representa parcela significativa da sobrevivência econômica de Teerã, mas apenas fração limitada das importações chinesas. Pequim não construiu sua ascensão sobre o Oriente Médio. Seu núcleo estratégico está na transformação industrial, na liderança tecnológica e na consolidação de cadeias de valor asiáticas. O Irã é peça relevante, mas não eixo estruturante da estratégia chinesa.

 Ao apresentar o enfraquecimento militar iraniano como golpe estrutural à estratégia de Pequim, o artigo realiza uma extrapolação discutível. Mesmo que as capacidades iranianas tenham sido degradadas, a China mantém ampla margem de ajuste estratégico. Um Irã mais isolado pode, inclusive, tornar-se ainda mais dependente do eixo asiático. A dinâmica estrutural da redistribuição do centro de gravidade econômico para a Ásia não se altera por um episódio regional, por mais significativo que seja.

 A dimensão mais reveladora do texto, contudo, é política. Ao afirmar que os Estados Unidos demonstraram capacidade e determinação ao desmantelar um pilar da estratégia chinesa, o artigo reafirma a centralidade americana em um momento de transição sistêmica. A mensagem é clara: Washington continua capaz de definir limites para a projeção de seus competidores.

 Sob uma perspectiva crítica, a questão fundamental não é se a China perdeu um parceiro estratégico. É que tipo de ordem está sendo consolidada quando ações militares são apresentadas como instrumentos legítimos de reequilíbrio geopolítico. A normalização dessa lógica reforça um ambiente internacional cada vez mais fragmentado, onde rivalidade estrutural substitui mecanismos de coordenação e onde a força ocupa o espaço da diplomacia.

 A transição de poder em curso no sistema internacional não é episódica nem dependente de um único parceiro regional. Ela resulta de transformações estruturais profundas — econômicas, tecnológicas e demográficas — que deslocam o centro de gravidade global. Nenhuma operação pontual altera essa dinâmica de longo prazo.

 Se há uma lição mais ampla a extrair, ela não confirma a vitória definitiva de um polo sobre outro. Ela expõe a fragilidade de uma ordem que já não consegue administrar a competição estratégica sem recorrer à coerção. O verdadeiro risco não é o suposto fracasso de uma aposta chinesa. É a consolidação de um padrão em que a militarização se torna instrumento ordinário de governança internacional.

 E quando a força passa a substituir a política como linguagem dominante das relações internacionais, não estamos diante da restauração da estabilidade. Estamos diante de uma transição ainda mais instável — e potencialmente mais perigosa — da ordem global.

¨      Trump está usando IA para travar suas guerras – este é um ponto de virada perigoso. Por Chris Stokel-Walker

Há muitas coisas que a IA pode fazer. Ela pode organizar sua lista de compras e entreter seus filhos quando eles estiverem fazendo birra, criando uma história para dormir personalizada para eles. Pode torná-lo mais eficiente no trabalho e ajudar nosso governo a funcionar com mais eficácia.

O que se escreve menos, e sobre o que precisamos gritar mais alto agora, são os riscos inerentes à militarização da IA. Nos últimos três meses, a Casa Branca de Donald Trump teria usado IA duas vezes para efetuar mudanças de regime ou – no caso mais recente, no Irã – para chegar o mais perto possível disso, deixando para os iranianos comuns a tarefa de concluir o trabalho.

Primeiro, o modelo de IA Claude da Anthropic – que a maioria das pessoas usa como uma alternativa um pouco mais criteriosa ao ChatGPT – foi supostamente usado tanto para planejar quanto para executar o sequestro de Nicolás Maduro de seu complexo na Venezuela, mas não está claro como o modelo foi usado em detalhes. Depois, neste fim de semana, descobrimos que a ferramenta de IA foi usada novamente para analisar informações que ajudaram a auxiliar a devastadora saraivada de mísseis que atingiu o Irã, aparentemente para identificar alvos e executar simulações.

É difícil exagerar a importância de ambos os momentos. A inteligência artificial tem sido usada no planejamento e na execução de operações militares que resultaram em um número desconhecido de vítimas e causaram grande instabilidade no Oriente Médio.

Se isso lhe causa desconforto, você não está sozinho. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, se envolveu em uma disputa pública bastante desagradável com o presidente dos EUA depois de se recusar a flexibilizar duas "linhas vermelhas" para o Claude: que ele não seja usado para vigilância doméstica em massa, nem para construir armas totalmente autônomas que selecionem e ataquem alvos sem controle humano significativo. A OpenAI rapidamente interveio e assinou um acordo com o Pentágono, embora afirme que os termos do acordo lhe conferem, na verdade, proteções mais robustas do que as que a Anthropic desejava.

Independentemente das subcláusulas específicas do contrato, vale a pena repetir: uma ferramenta que começou sua vida pública como uma interface de bate-papo para resumir e-mails e ajudar a escrever uma carta de apresentação agora está em algum ponto da cadeia que transforma informação em violência.

Antigamente, questões como "Quem deveria controlar a IA e o que aconteceria se ela fosse usada militarmente?" eram debatidas de forma abstrata entre acadêmicos em painéis. Havia preocupações, mas pareciam distantes porque ainda não haviam se concretizado. Quando Maduro foi detido por forças especiais em janeiro e as bombas começaram a cair sobre o Irã, aparentemente todas com o auxílio de IA, esse cenário mudou.

Os princípios básicos dos conflitos armados sempre foram os de possuir armas grandes e assustadoras, mas nunca usá-las. Elas servem para dissuasão. A teoria da destruição mútua assegurada fez com que as pessoas evitassem acionar bombas nucleares. (Preocupantemente, os primeiros indícios de simulações de guerra mostram que os sistemas de inteligência artificial que tomam decisões são propensos a usar armas nucleares.)

Agora essa desculpa não existe mais. Mais países usarão IA em seu planejamento e ações militares – com razão, pois sua eficácia já foi comprovada, embora existam questões morais óbvias sobre o uso da IA ​​para tomar decisões militares. Quando historiadores militares analisarem os acontecimentos dos últimos meses, será fácil perceber que o uso da IA ​​dessa forma será semelhante ao lançamento de armas nucleares sobre o Japão: um momento em que havia um antes claro e um depois incerto.

Então, o que podemos fazer a respeito? Muito pouco. Deveríamos ter tido uma proibição total do uso de IA militar. Estamos nos afastando disso há mais de uma década, desde que Demis Hassabis assumiu uma posição de princípio e disse que só venderia sua empresa, DeepMind, para o Google se este concordasse em não permitir o uso militar da tecnologia. No ano passado, a empresa, agora chamada Alphabet, discretamente abandonou sua promessa de não usar IA para armas. E as ações de Trump destruíram completamente essa ideia.

Mas agora a comunidade internacional precisa trabalhar arduamente para trazer Trump de volta da beira do abismo. Os aliados devem pressionar a Casa Branca de Trump não apenas para que seja responsável no uso militar da IA, mas também para que aceite restrições vinculativas. Isso deve incluir compromissos internacionais, padrões de aquisição transparentes e supervisão significativa, aos quais outros também devem aderir, em vez de tratar a ética como um freio à ação. Porque se as forças armadas mais poderosas do mundo normalizarem modelos de IA de nível de consumo como parte de operações de mudança de regime, estaremos do outro lado do espelho em relação à IA: estaremos em um mundo totalmente novo e muito mais perigoso.

 

Fonte: Brasil 247/The Guardian

 

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