Maria
Luiza Falcão: A guerra das narrativas e a aposta chinesa no Irã
O
artigo “Como a enorme aposta da China no Irã fracassou”, publicado em 6 de
março de 2026 no Washington Post, não é apenas uma análise conjuntural sobre os
desdobramentos recentes no Oriente Médio. Ele expressa uma leitura estratégica
que circula no núcleo do establishment político americano. Seu autor, Miles Yu
— pesquisador sênior e diretor do China Center no Hudson Institute e
ex-assessor de política para a China durante o governo de Donald Trump —
sustenta que as operações militares conduzidas pelos Estados Unidos e Israel
teriam desmantelado um pilar essencial da estratégia chinesa. Mais do que
avaliar danos militares ao Irã, o texto busca afirmar algo maior: que
Washington mantém capacidade decisiva de limitar e moldar a ascensão
estratégica de Pequim.
A
localização institucional do artigo é decisiva. O Washington Post é veículo
central na formação de consensos políticos em Washington. Quando uma leitura
dessa natureza aparece em suas páginas, ela deixa de ser opinião isolada e
passa a integrar o debate dominante sobre política externa. O texto não apenas
relata acontecimentos; ele constrói a moldura estratégica que orienta sua
interpretação.
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Yu
sustenta que a “aposta monumental” da China no Irã teria fracassado após as
recentes ofensivas militares que degradaram infraestrutura nuclear e
capacidades estratégicas iranianas. A partir daí, desenvolve a ideia de que
Pequim perdeu um parceiro-chave e que o chamado “eixo CRINK” — China, Rússia,
Irã e Coreia do Norte — revelou sua fragilidade estrutural.
O
primeiro elemento que merece análise crítica é a naturalização do uso da força.
As operações militares são descritas como instrumentos eficazes de correção
estratégica. A destruição de infraestrutura iraniana aparece como consequência
técnica de uma ação bem-sucedida. Não há problematização substantiva sobre
soberania, precedentes de ataques preventivos ou erosão do direito
internacional. A força surge como mecanismo legítimo de reorganização
geopolítica. Sob uma perspectiva crítica de esquerda, esse ponto é central:
quando bombardeios passam a ser apresentados como ferramentas normais de gestão
da ordem internacional, a militarização da política externa deixa de ser
exceção e passa a constituir regra implícita.
O
artigo também recorre a um enquadramento binário que remete à lógica da Guerra
Fria. Ao apresentar o “eixo CRINK” como bloco articulado, sugere-se uma
coordenação estratégica coesa entre esses países. No entanto, não há pacto
formal de defesa coletiva, nem estrutura institucional comparável a alianças
militares consolidadas. O que existe são convergências pontuais diante da
hegemonia americana. A simplificação em campos antagônicos cumpre função
política: facilita a construção de consenso interno em favor de políticas de
contenção e rearmamento.
Há
ainda uma assimetria moral evidente. A China é acusada de seletividade ao
condenar ações que atingem seus parceiros, mas não se observa reflexão
equivalente sobre a tradição de intervenções unilaterais americanas nas últimas
décadas. O direito internacional é invocado como princípio universal, mas sua
aplicação permanece condicionada ao alinhamento estratégico. A crítica à
coerência chinesa pode ser legítima; o silêncio sobre práticas ocidentais
similares revela seletividade estrutural.
Outro
ponto central da argumentação é a hipótese de que Pequim teria interesse em
manter o Oriente Médio permanentemente instável para distrair Washington do
Indo-Pacífico. Essa leitura parte de uma visão profundamente securitizada das
relações internacionais. A China é o maior importador mundial de petróleo e
depende da estabilidade das rotas energéticas do Golfo. Conflitos prolongados
elevam custos, ampliam riscos e ameaçam fluxos comerciais. A projeção externa
chinesa nas últimas duas décadas foi predominantemente econômica e infra
estrutural. Reduzi-la a uma estratégia deliberada de instabilidade ignora dados
concretos e obscurece a natureza comercial de sua expansão.
A
parceria sino-iraniana, formalizada no acordo de cooperação de 25 anos de 2021,
sempre foi marcada por assimetria. O Irã depende muito mais da China do que o
contrário. O petróleo iraniano representa parcela significativa da
sobrevivência econômica de Teerã, mas apenas fração limitada das importações
chinesas. Pequim não construiu sua ascensão sobre o Oriente Médio. Seu núcleo
estratégico está na transformação industrial, na liderança tecnológica e na
consolidação de cadeias de valor asiáticas. O Irã é peça relevante, mas não
eixo estruturante da estratégia chinesa.
Ao
apresentar o enfraquecimento militar iraniano como golpe estrutural à
estratégia de Pequim, o artigo realiza uma extrapolação discutível. Mesmo que
as capacidades iranianas tenham sido degradadas, a China mantém ampla margem de
ajuste estratégico. Um Irã mais isolado pode, inclusive, tornar-se ainda mais
dependente do eixo asiático. A dinâmica estrutural da redistribuição do centro
de gravidade econômico para a Ásia não se altera por um episódio regional, por
mais significativo que seja.
A
dimensão mais reveladora do texto, contudo, é política. Ao afirmar que os
Estados Unidos demonstraram capacidade e determinação ao desmantelar um pilar
da estratégia chinesa, o artigo reafirma a centralidade americana em um momento
de transição sistêmica. A mensagem é clara: Washington continua capaz de
definir limites para a projeção de seus competidores.
Sob
uma perspectiva crítica, a questão fundamental não é se a China perdeu um
parceiro estratégico. É que tipo de ordem está sendo consolidada quando ações
militares são apresentadas como instrumentos legítimos de reequilíbrio
geopolítico. A normalização dessa lógica reforça um ambiente internacional cada
vez mais fragmentado, onde rivalidade estrutural substitui mecanismos de
coordenação e onde a força ocupa o espaço da diplomacia.
A
transição de poder em curso no sistema internacional não é episódica nem
dependente de um único parceiro regional. Ela resulta de transformações
estruturais profundas — econômicas, tecnológicas e demográficas — que deslocam
o centro de gravidade global. Nenhuma operação pontual altera essa dinâmica de
longo prazo.
Se
há uma lição mais ampla a extrair, ela não confirma a vitória definitiva de um
polo sobre outro. Ela expõe a fragilidade de uma ordem que já não consegue
administrar a competição estratégica sem recorrer à coerção. O verdadeiro risco
não é o suposto fracasso de uma aposta chinesa. É a consolidação de um padrão
em que a militarização se torna instrumento ordinário de governança
internacional.
E
quando a força passa a substituir a política como linguagem dominante das
relações internacionais, não estamos diante da restauração da estabilidade.
Estamos diante de uma transição ainda mais instável — e potencialmente mais
perigosa — da ordem global.
¨ Trump está usando IA
para travar suas guerras – este é um ponto de virada perigoso. Por Chris
Stokel-Walker
Há
muitas coisas que a IA pode fazer. Ela
pode organizar sua lista de compras e entreter seus filhos quando eles
estiverem fazendo birra, criando uma história para dormir personalizada para
eles. Pode torná-lo mais eficiente no trabalho e ajudar nosso governo a
funcionar com mais eficácia.
O que
se escreve menos, e sobre o que precisamos gritar mais alto agora, são os
riscos inerentes à militarização da IA. Nos últimos três
meses, a Casa Branca de Donald Trump teria
usado IA duas vezes para efetuar mudanças de regime ou – no caso mais
recente, no Irã – para chegar o
mais perto possível disso, deixando para os iranianos comuns a tarefa de
concluir o trabalho.
Primeiro,
o modelo de IA Claude da Anthropic –
que a maioria das pessoas usa como uma alternativa um pouco mais criteriosa
ao ChatGPT – foi supostamente usado tanto para planejar quanto para
executar o sequestro de Nicolás
Maduro de
seu complexo na Venezuela, mas não está claro como o modelo foi usado em
detalhes. Depois, neste fim de semana, descobrimos que a ferramenta de IA foi
usada novamente para analisar informações que ajudaram a auxiliar a devastadora
saraivada de mísseis que atingiu o Irã, aparentemente para identificar alvos e
executar simulações.
É
difícil exagerar a importância de ambos os momentos. A inteligência
artificial tem
sido usada no planejamento e na execução de operações militares que resultaram
em um número desconhecido de vítimas e causaram grande instabilidade
no Oriente Médio.
Se isso
lhe causa desconforto, você não está sozinho. O CEO da Anthropic, Dario
Amodei, se envolveu em uma disputa pública bastante desagradável com o
presidente dos EUA depois de se recusar a flexibilizar duas
"linhas vermelhas" para o Claude: que ele não seja usado para
vigilância doméstica em massa, nem para construir armas totalmente autônomas
que selecionem e ataquem alvos sem controle humano significativo. A OpenAI
rapidamente interveio e assinou um acordo com o Pentágono, embora afirme
que os termos do acordo lhe conferem, na verdade, proteções mais robustas do
que as que a Anthropic desejava.
Independentemente
das subcláusulas específicas do contrato, vale a pena repetir: uma ferramenta
que começou sua vida pública como uma interface de bate-papo para resumir
e-mails e ajudar a escrever uma carta de apresentação agora está em algum ponto
da cadeia que transforma informação em violência.
Antigamente,
questões como "Quem deveria controlar a IA e o que aconteceria
se ela fosse usada militarmente?" eram debatidas de forma abstrata entre
acadêmicos em painéis. Havia preocupações, mas pareciam distantes porque ainda
não haviam se concretizado. Quando Maduro foi detido por forças
especiais em janeiro e as bombas começaram a cair sobre o Irã,
aparentemente todas com o auxílio de IA, esse cenário mudou.
Os
princípios básicos dos conflitos armados sempre foram os de possuir armas
grandes e assustadoras, mas nunca usá-las. Elas servem para dissuasão. A teoria
da destruição mútua assegurada fez com que as pessoas evitassem acionar bombas
nucleares. (Preocupantemente, os primeiros indícios de simulações de guerra
mostram que os sistemas de inteligência artificial que tomam decisões são
propensos a usar armas nucleares.)
Agora
essa desculpa não existe mais. Mais países usarão IA em seu
planejamento e ações militares – com razão, pois sua eficácia já foi
comprovada, embora existam questões morais óbvias sobre o uso da IA para tomar decisões
militares. Quando historiadores militares analisarem os acontecimentos dos últimos
meses, será fácil perceber que o uso da IA dessa forma será
semelhante ao lançamento de armas nucleares sobre o Japão:
um momento em que havia um antes claro e um depois incerto.
Então,
o que podemos fazer a respeito? Muito pouco. Deveríamos ter tido uma proibição
total do uso de IA militar. Estamos nos afastando disso há mais de uma
década, desde que Demis Hassabis assumiu uma
posição de princípio e disse que só venderia sua empresa, DeepMind, para
o Google se este concordasse em não permitir o uso militar da
tecnologia. No ano passado, a empresa, agora chamada Alphabet,
discretamente abandonou sua promessa de não usar IA para armas. E as ações
de Trump destruíram
completamente essa ideia.
Mas
agora a comunidade internacional precisa trabalhar arduamente para trazer Trump
de volta da beira do abismo. Os aliados devem pressionar a Casa Branca de
Trump não apenas para que seja responsável no uso militar da IA, mas
também para que aceite restrições vinculativas. Isso deve incluir compromissos
internacionais, padrões de aquisição transparentes e supervisão significativa,
aos quais outros também devem aderir, em vez de tratar a ética como um freio à
ação. Porque se as forças armadas mais poderosas do mundo normalizarem modelos
de IA de nível de consumo como parte de operações de mudança de regime,
estaremos do outro lado do espelho em relação à IA: estaremos em um mundo
totalmente novo e muito mais perigoso.
Fonte:
Brasil 247/The Guardian

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