Desenvolvimento
e autonomia
Nos
últimos anos, graças ao nosso trabalho acadêmico, tivemos a oportunidade de
estabelecer parcerias entre acadêmicos da China e da América Latina, com
numerosas visitas entre ambas as partes. Alguns participaram de conferências
curtas, outros ficaram por longos períodos para fins de pesquisa, e até aqueles
que decidiram se estabelecer permanentemente no país.
Os
latino-americanos que puderam ver com seus próprios olhos a China ficaram
impressionados, principalmente pelo choque entre a visão difundida sobre o país
e a realidade que encontraram: um país em pleno processo de modernização, que
desenvolve tecnologia de ponta e superou a extrema pobreza, construindo uma
camada de renda média de aproximadamente 400 milhões de pessoas. Quando esses
colegas foram indagados sobre o que mais havia chamado a sua atenção,
mencionaram dois aspectos muito específicos: segurança e eficiência na vida
cotidiana.
Ao
falarem sobre segurança, esses visitantes não se referem a uma ideia abstrata
nem a um slogan institucional. Eles relatam sobre experiências simples e
facilmente reconhecíveis: andar pela cidade à noite sem medo, deixar um
computador em uma biblioteca pública durante a pausa do almoço, ou confiar que
um pacote permanecerá intacto em frente à porta da casa.
Por
trás dessa confiança está um ambiente digital profundamente integrado à vida
cotidiana. Com uma taxa de uso de pagamentos móveis superior a 85%, muitas
interações se tornaram mais eficientes, reduzindo atritos sociais e facilitando
um funcionamento mais transparente do espaço urbano, tanto para moradores
quanto para visitantes. A China conseguiu, em poucas décadas, garantir
segurança e estabilidade, bem como a melhoria contínua da qualidade de vida do
povo.
Para
muitos países da América Latina, a segurança é um luxo, já que a América Latina
e o Caribe respondem por 33% dos assassinatos do mundo, apesar de representarem
apenas 8% da população mundial. A região caracteriza-se por baixas taxas de
crescimento, baixo desenvolvimento tecnológico e pela maior disparidade de
renda entre os continentes. Isso se reflete em sociedades desiguais, pobres e
violentas. Reverter este processo é urgente, mas falta à região autonomia para
escolher os seus próprios caminhos sem interferências externas.
É
preciso compreender que a segurança no nível individual não pode ser
compreendida isoladamente de um contexto mais amplo de estabilidade econômica e
de previsibilidade internacional. E é justamente nessa área que o cenário
global atual apresenta sinais preocupantes, uma vez que o uso crescente do
unilateralismo e das sanções econômicas como ferramentas políticas tem
enfraquecido as normas básicas do direito internacional. As políticas
unilaterais dos Estados Unidos, por exemplo, provaram não gerar estabilidade,
mas sim intensificar conflitos e a instabilidade regional.
O Plano
Colômbia, por exemplo, demandou bilhões de dólares para combater a insurgência
e os cartéis de drogas. A insurgência foi praticamente destruída, mas o poder
dos cartéis se manteve intacto, infiltrando-se em diversas instâncias do Estado
e da sociedade. Este modelo repressivo e inócuo tende a se estender sob a
administração de Donald Trump.
Em 03
de março, teve início uma operação conjunta entre as forças armadas do Equador
e dos Estados Unidos para combater o narcotráfico. Infelizmente, sabemos de
antemão quem prevalecerá (como vem ocorrendo na Colômbia e no México) e que a
população local sofrerá uma série de abusos e violações.
Na
América Latina, a experiência histórica mostra que pressões externas e
políticas de bloqueio não apenas desaceleram o desenvolvimento econômico, mas
também limitam a capacidade dos países de decidir, de forma soberana, o próprio
caminho de desenvolvimento. Com o governo de Donald Trump, aumentaram-se as
limitações à soberania dos países da região, principalmente após o ataque à
Venezuela e a captura, sem base legal, de Nicolás Maduro.
Além
disso, países da região são pressionados a não cooperar com o governo de Cuba,
o que impede a exportação de petróleo, deixando a economia em frangalhos e a
população do país à beira da fome.
A
tradicional política dos Estados Unidos para a América Latina oscila entre o
porrete e a cenoura. No entanto, o que se vê atualmente é apenas a oferta de
porretes, sem contrapartida de cenouras. O exemplo mais emblemático é a pressão
exercida contra os países da região para que não cooperem com a China.
O
Panamá, sob a ameaça de intervenção militar no Canal, cassou as concessões de
portos concedidas à empresa Hong Kong CK Hutchison Holdings. O novo governo
eleito de Honduras está tentando romper relações com Pequim e restabelecer as
relações diplomáticas com a província de Taiwan. O governo Donald Trump está
sancionando o governo chileno para impedir a construção de um cabo submarino de
fibra ótica que ligaria o país a Hong Kong. A lista de ações do Departamento de
Estado é muito longa. No entanto, há muitos porretes, como dissemos, mas nada
de cenouras.
Diante
desse cenário de pressões, em contraste com esse tipo de postura, o governo da
China divulgou, em dezembro de 2025, o “Livro Branco da Política da China sobre
a América Latina e o Caribe”. Outras versões foram publicadas em 2008 e em
2016. Em cada Livro Branco, a China atualiza sua estratégia para a região de
forma bastante transparente.
Em
2008, propunha o aumento do comércio e dos investimentos em setores como
energia, infraestrutura, mineração e alimentos. Em 2016, foram incluídas
questões como a parceria com a Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative), o
Fórum China-CELAC e a criação de novas cadeias industriais de valor,
principalmente no setor de bens de consumo.
De
acordo com o livro branco chinês de 2025, a política fundamental da China em
relação à América Latina baseia-se em três pilares claros. Primeiro, é regida
pelo respeito à soberania de cada país, pela não interferência nos assuntos
internos e pela ausência de condições políticas em qualquer cooperação
bilateral.
Segundo,
as áreas prioritárias para a colaboração focam em infraestrutura, logística,
tecnologia digital, energia limpa e facilitação do comércio, voltadas ao
desenvolvimento mútuo. Por fim, o princípio de uma só China é estabelecido como
a base indispensável e inegociável para todos os acordos e laços de cooperação
com a região.
É
importante assinalar que as propostas chinesas diferem dos modelos ocidentais,
uma vez que a China enfatiza a não condicionalidade política e o respeito à
soberania, oferecendo uma abordagem baseada no desenvolvimento compartilhado e
no respeito às peculiaridades regionais. A proposta chinesa é articulada com
base em uma lógica pragmática de cooperação.
Em
outras palavras, foca na cooperação e na busca por benefícios compartilhados. A
recente política de abertura é um exemplo claro. Desde o final de 2023 e ao
longo de 2024, a China adotou medidas de facilitação e isenção de vistos para
vários países, incluindo parceiros estratégicos da América Latina como Brasil,
Argentina, Chile, Peru e Uruguai. A ideia é simples: permitir que mais pessoas
conheçam a realidade chinesa em primeira mão, sem intermediários nem filtros
prévios.
Essa
abertura também se reflete em dados concretos. Em 2025, o comércio entre a
China e a América Latina e o Caribe ultrapassou 500 bilhões de dólares. O país
é o maior parceiro da América do Sul e o segundo maior da ALC. No entanto, a
relevância dessa relação vai além da mera troca comercial. Seu núcleo mais
forte está na cooperação tecnológica e no desenvolvimento de infraestrutura.
No
Brasil, a presença chinesa é palpável: a plataforma de mobilidade 99,
pertencente à Didi Chuxing, já opera em mais de 3.300 cidades brasileiras,
conectando 55 milhões de usuários a uma base de 1,5 milhão de motoristas,
motociclistas e entregadores.
Outros
projetos, como o Porto de Chancay, no Peru, foram concebidos como projetos
logísticos de alcance global, algo que pode ser potencializado com a construção
de uma ferrovia bi-oceânica; a incorporação de ônibus elétricos da marca
chinesa em sistemas de transporte público em cidades como Santiago, Bogotá e
Cidade do México; e a implantação de montadoras chinesas de veículos elétricos
e híbridos no Brasil mostram que o desenvolvimento sustentável se tornou um
objetivo compartilhado.
Empresas
chinesas como BYD e Great Wall Motors instalaram plantas de produção nos
estados da Bahia e de São Paulo. A fábrica da BYD na Bahia tem capacidade
inicial de 150.000 veículos elétricos e híbridos por ano, enquanto a fábrica da
Great Wall Motors em São Paulo pode produzir 50.000 unidades por ano, com
possibilidades de expansão. Esses investimentos contribuem para a geração de
empregos, para a modernização da indústria automobilística brasileira e para
uma economia de baixo carbono.
É
importante frisar que a experiência chinesa nos últimos 77 anos sugere que o
desenvolvimento, a estabilidade e a segurança estão intimamente ligados. O
crescimento econômico cria condições para a paz social e, por sua vez, um
ambiente seguro fortalece as bases do desenvolvimento. Ao mesmo tempo, é
essencial reconhecer que não existe um único caminho válido.
Cada
país enfrenta desafios distintos e tem suas próprias realidades. No caso da
América Latina, a questão-chave é a autonomia estratégica para escolher o
próprio caminho de desenvolvimento, que consiste na capacidade de tomar
decisões soberanas voltadas ao bem-estar da população e à integração regional,
sem ser prejudicada por pressões externas que buscam impor alinhamentos
geopolíticos alheios aos interesses nacionais.
Por
fim, em um mundo cada vez mais fragmentado, nenhuma nação pode esperar
prosperar isoladamente. Os esforços da China para se abrir e a busca da América
Latina por maior autonomia não são processos contraditórios, mas sim dinâmicas
que podem se reforçar mutuamente. Ambos apontam para a construção de uma ordem
internacional mais equilibrada. Somente dessa forma, com respeito às diferenças
e com cooperação baseada em fatos – e não em preconceitos –, será possível que
a segurança e o desenvolvimento alcancem mais sociedades.
Fonte:
Por Liao Yue e Marcos Cordeiro Pires, em
A Terra é Redonda

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