quarta-feira, 11 de março de 2026

Sayid Marcos Tenório: Irã desafia a máquina de guerra dos EUA no Oriente Médio

Estamos diante de um momento que poderá marcar uma inflexão histórica na geopolítica contemporânea. Pela primeira vez em muitas décadas, a arquitetura de poder militar construída pelos EUA no Oriente Médio começa a ser diretamente desafiada por um adversário capaz de impor custos estratégicos reais. 

O que surpreende não é apenas a intensidade das operações iranianas, mas a escala e a coordenação com que vêm sendo conduzidas. Em poucos dias de confronto, bases aéreas, centros de radar, instalações logísticas e sistemas avançados de radar foram atingidas de forma coordenada.

Essas instalações não são simples postos militares. Elas sustentaram por décadas a supremacia militar dos EUA na região. Bases norte-americanas no Bahrein, no Kuwait, no Catar e na Arábia Saudita estão entre as maiores estruturas militares já construídas fora do território norte-americano, e consumiram trilhões de dólares ao longo de mais de três décadas. 

Essas bases fazem parte de uma vasta rede de projeção de poder que permitiu aos EUA controlar rotas energéticas, influenciar equilíbrios regionais e manter uma presença militar permanente no Golfo.

No entanto, aquilo que durante anos pareceu praticamente intocável, começa a revelar vulnerabilidades diante de um adversário que passou décadas se preparando para um cenário de confronto direto. 

Já vi analistas recorrem à comparação com Pearl Harbor, em 1941. A analogia, porém, é limitada. Pearl Harbor foi um ataque surpresa concentrado em poucas horas. O que ocorre agora envolve uma sequência de ataques e respostas militares distribuídos por diferentes pontos da região.

Mais importante do que a comparação histórica é a percepção de que, pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, a vasta rede de poder militar construída pelos EUA no Oriente Médio demonstra sinais de vulnerabilidade.

Outro elemento que chama atenção é o crescente silêncio informativo que passou a cercar o conflito. À medida que os dias avançam, a quantidade de imagens, vídeos e relatos disponíveis ao público parece diminuir. 

Em guerras anteriores, a cobertura era intensa e quase permanente. Durante a primeira Guerra do Golfo, por exemplo, o mundo assistia diariamente a imagens de bombardeios e operações militares. 

“Bombas inteligentes” eram apresentadas como símbolo da supremacia tecnológica norte-americana. Câmeras acopladas a mísseis transmitiam imagens ao vivo e o público acompanhava quase em tempo real a destruição de alvos militares.

Hoje, paradoxalmente, apesar de vivermos na era da informação digital, quase não vemos registros visuais da ofensiva atual. Essa ausência levanta uma questão inevitável:  se os EUA realmente tivessem domínio completo sobre o espaço aéreo iraniano, seria natural esperar imagens de aeronaves operando livremente sobre cidades iranianas. 

Até o momento, porém, tais registros são raros ou inexistentes. O que sugere um cenário mais complexo, no qual o espaço aéreo iraniano permanece fortemente defendido e sua capacidade de resposta militar continua ativa.

As capacidades do Irã não são improvisações. O Irã passou décadas preparando-se para um cenário como este. Ao longo dos anos, desenvolveu uma estratégia defensiva baseada na dispersão de infraestrutura militar, na profundidade territorial e na construção de complexos subterrâneos fortificados.

Grande parte de suas instalações militares encontra-se distribuída em diferentes regiões do país. Arsenais, centros de comando e plataformas de lançamento de mísseis foram projetados justamente para sobreviver a ataques maciços. Esse modelo de defesa dificulta qualquer tentativa de neutralizar rapidamente a capacidade militar do país.

Além disso, o território iraniano apresenta características geográficas que tornam extremamente complexa qualquer hipótese de invasão terrestre. Com cadeias montanhosas extensas, desertos e vastas áreas de difícil acesso, o país possui uma profundidade estratégica muito superior à de outros cenários de guerra recente no Oriente Médio.

Outro ponto sensível nesse conflito é o Estreito de Ormuz, um dos corredores marítimos mais estratégicos do planeta. Uma parcela significativa do petróleo mundial passa por essa estreita faixa de água. Qualquer interrupção prolongada do tráfego marítimo nessa região poderia produzir impactos imediatos nos mercados energéticos globais.

Essas constatações indicam que subestimaram a capacidade de preparação do Irã. Mesmo sob pressão militar intensa, o sistema de defesa iraniano continua operando. Sua capacidade de lançar mísseis permanece ativa e sua estratégia de dissuasão segue funcionando. A estrutura militar construída ao longo de décadas, demonstra uma resiliência maior do que muitos analistas previam.

Isso não significa que o conflito esteja definido ou que suas consequências humanas sejam menores. Em qualquer guerra, civis pagam um preço devastador. Infraestruturas são destruídas, cidades sofrem ataques e populações inteiras vivem sob constante ameaça.

Do ponto de vista estratégico, porém, uma questão começa a emergir com clareza: aqueles que iniciaram essa escalada militar podem ter aberto um conflito muito mais difícil de controlar do que imaginaram. E o Irã já declarou que será a nação persa que vai decidir a hora de parar.

Quando a poeira finalmente baixar sobre este conflito, o mundo poderá olhar para este momento como o início de uma nova fase na história do Oriente Médio. Uma fase em que a hegemonia militar dos EUA na região deixa de parecer inabalável e passa a ser abertamente contestada.

¨      "Não atacamos países vizinhos; visamos instalações dos Estados Unidos", afirma presidente do Irã

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou que as ações militares iranianas têm como alvo exclusivamente bases e instalações dos Estados Unidos na região, reiterando que o país não está atacando nações vizinhas consideradas amigas. A declaração foi divulgada em uma série de publicações nas redes sociais do líder iraniano. 

Nas mensagens, Pezeshkian destacou que a política externa do Irã segue baseada na manutenção de relações amistosas com governos da região, fundamentadas no respeito mútuo à soberania nacional e à integridade territorial. Segundo o presidente, essa postura não elimina o direito do país de responder militarmente a ações hostis.

“O Irã sempre enfatizou a manutenção e continuidade de relações amigáveis com os governos da região com base na boa vizinhança e no respeito mútuo pela soberania nacional e pela integridade territorial”, afirmou o presidente iraniano.

Pezeshkian acrescentou que, diante do que classificou como agressões militares por parte dos Estados Unidos e de Israel, o Irã considera legítimo exercer seu direito de defesa. “Isso não nega o direito inerente do Irã de se defender contra a agressão militar dos Estados Unidos e de Israel”, disse.

O líder iraniano também reforçou que o país continuará resistindo para proteger sua soberania. “Permaneceremos firmes e resistiremos até o fim para defender nosso país”, declarou.

De acordo com Pezeshkian, as operações militares conduzidas pelo Irã têm caráter estritamente defensivo e são direcionadas apenas a alvos que considera responsáveis por ações hostis contra a nação iraniana. “As operações defensivas do Irã são exclusivamente contra alvos e instalações que são a origem e a fonte de ações agressivas contra o povo iraniano, e os consideramos objetivos legítimos”, afirmou.

O presidente também reiterou que países vizinhos não estão entre os alvos das ações militares iranianas. “Não atacamos nossos países amigos e vizinhos, mas visamos bases militares, instalações e estruturas dos Estados Unidos na região”, declarou.

<><> Governo iraniano diz que mensagem do presidente é clara

Após as declarações do presidente, Mehdi Tabatabaei, vice-responsável por comunicação e anúncios públicos do gabinete de Pezeshkian, afirmou que a mensagem transmitida pelo chefe de Estado foi “clara”.

Em publicação nas redes sociais, Tabatabaei reiterou que o Irã não pretende atacar países da região que não participem de ações militares contra o país.

“Se os países da região não cooperarem com o ataque dos Estados Unidos contra o Irã, nós não os atacaremos”, escreveu.

O assessor também enfatizou que o país não aceitará pressões externas. “O Irã nunca se submeterá à coerção”, afirmou.

Segundo ele, qualquer agressão partindo de bases militares dos Estados Unidos na região será respondida pelas forças armadas iranianas. “Nossas poderosas forças armadas darão uma resposta decisiva a qualquer agressão proveniente de bases dos Estados Unidos na região”, declarou.

¨      Comando militar do Irã diz que seguirá atacando bases dos EUA no Oriente Médio

O comando militar do Irã advertiu que continuará atacando forças dos Estados Unidos espalhadas pelo Oriente Médio, mesmo após o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, anunciar que Teerã interromperia ataques contra países vizinhos do Golfo que abrigam bases militares americanas. A declaração ocorreu em meio à escalada de tensões na região e ao aumento das hostilidades envolvendo instalações estratégicas.

Segundo informações publicadas pelo Financial Times, Pezeshkian divulgou uma mensagem em vídeo transmitida pela televisão estatal neste sábado (7), na qual pediu desculpas pelos ataques recentes contra países árabes da região. Na declaração, afirmou: “Não haverá novos ataques ou lançamentos de mísseis contra países vizinhos".

Apesar do pedido de desculpas, o presidente iraniano alertou que qualquer país que permita aos Estados Unidos usar seu território ou espaço aéreo para lançar ofensivas contra o Irã poderá se tornar alvo de retaliação. Ele também rejeitou uma exigência feita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que o Irã se rendesse. Pezeshkian afirmou: “Eles levarão o desejo de nossa rendição incondicional para seus túmulos".

Pouco depois do pronunciamento, o Quartel-General Central Khatam al-Anbiya — responsável pelo comando das forças armadas iranianas — divulgou comunicado reiterando que as operações militares contra bases americanas e israelenses continuarão. O texto afirma que as forças armadas respeitam a soberania dos países vizinhos, mas advertiu que, “caso as ações hostis anteriores continuem, todas as bases e interesses militares” dos Estados Unidos e de Israel “em terra, mar e ar” na região se tornarão “alvos prioritários”.

<><> Presidente iraniano pede desculpas a países vizinhos

Os ataques na região do Golfo continuaram nas primeiras horas deste sábado, com o lançamento de mísseis e drones contra Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar. O porta-voz das forças armadas iranianas, Abolfazl Shekarchi, declarou que o inimigo será considerado “um alvo legítimo... onde quer que seus ataques se originem”. Ele acrescentou que qualquer país que ofereça espaço aéreo, território ou instalações para operações militares também poderá ser atingido.

Todos os países do Golfo citados abrigam bases militares dos Estados Unidos, o que eleva o risco de ampliação do conflito. Donald Trump afirmou que o pedido de desculpas do presidente iraniano representaria uma “rendição”, além de declarar que o Irã poderia “colapsar completamente” e prometer ataques severos contra o país.

Pezeshkian, considerado uma figura moderada dentro da estrutura política iraniana, ocupa atualmente a liderança do país como parte de um conselho interino de três membros. O órgão foi criado após os Estados Unidos e Israel realizarem ataques contra o complexo do líder supremo em Teerã, operação que resultou na morte do aiatolá Ali Khamenei e de outros altos dirigentes iranianos uma semana antes.

<><> Forças armadas reafirmam ataques contra bases dos EUA e Israel

Analistas iranianos afirmam que a declaração do presidente pode indicar uma tentativa de persuadir países vizinhos a não participarem diretamente do conflito nem permitirem o uso de suas bases pelos Estados Unidos. No entanto, segundo especialistas, a mensagem não representa necessariamente uma busca imediata por cessar-fogo.

Antes da escalada militar, vários governos do Golfo defendiam que Washington adotasse uma estratégia diplomática com Teerã. No entanto, após uma semana de ataques iranianos, líderes da região passaram a reconsiderar suas opções diante do risco crescente de envolvimento direto no conflito.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que a resposta militar do país foi planejada previamente para garantir continuidade mesmo diante de ataques à liderança iraniana. Em entrevista à rede Al Jazeera, declarou: “Nossas unidades militares agora são, de fato, independentes e um tanto isoladas, e estão agindo com base em instruções gerais dadas a elas antecipadamente".

Ele acrescentou que um ataque contra Omã, país que tradicionalmente mantém boas relações com Teerã e atuava como mediador entre Irã e Estados Unidos, “não foi nossa escolha”.

<><> Escalada militar eleva tensão no Golfo e impacta petróleo

A intensificação dos ataques já provocou efeitos significativos na economia e na segurança regional. O preço do petróleo ultrapassou a marca de 90 dólares por barril, enquanto o tráfego aéreo no Oriente Médio sofreu fortes interrupções.

Além disso, a navegação pelo Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde passa cerca de um quinto do petróleo e do gás comercializados no mundo — desacelerou drasticamente devido ao aumento do risco de ataques.

Autoridades da Arábia Saudita informaram que interceptaram 21 drones lançados em direção ao campo petrolífero de Shaybah, que produz cerca de 1 milhão de barris de petróleo por dia. O episódio marcou a primeira tentativa de atingir diretamente o coração da produção energética do país.

Nos Emirados Árabes Unidos, autoridades de Dubai afirmaram que destroços resultantes da interceptação de um ataque foram contidos após relatos de explosões e fumaça nas proximidades do principal aeroporto internacional da cidade.

Enquanto isso, companhias aéreas começaram a retomar gradualmente operações na região. A Emirates anunciou que pretende restabelecer voos para seus destinos habituais nos próximos dias, enquanto a Qatar Airways informou que iniciará voos de alívio após a reabertura parcial do espaço aéreo do país pela primeira vez em uma semana.

¨      Irã reage a Trump e promete retaliação a novos alvos dos EUA

A tensão entre Irã e Estados Unidos voltou a crescer após novas declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou neste sábado (7) que o país poderia realizar ataques devastadores contra alvos iranianos. Em resposta, uma autoridade sênior iraniana afirmou que Teerã está avaliando ampliar a lista de interesses americanos que podem ser atingidos em caso de uma nova ofensiva militar.

Segundo a CNN, o representante iraniano declarou que o governo do país interpreta as declarações de Trump como uma ameaça direta contra a população iraniana e contra o próprio Estado. O presidente norte-americano havia advertido que o Irã “será atingido muito duramente” e que Washington considera novos alvos que poderiam sofrer “destruição completa e morte certa”.

<><> Irã reage a declarações de Donald Trump

A autoridade iraniana afirmou que as declarações vindas de Washington foram interpretadas como uma tentativa de expandir o conflito para além dos confrontos atuais. De acordo com o representante, os comentários de Trump indicam que os Estados Unidos estariam dispostos a intensificar as operações militares contra o país.

Em resposta, o oficial declarou que Teerã já analisa possíveis medidas de retaliação caso ocorra uma nova ação militar americana. “Por essa razão, a República Islâmica anuncia que examinará seriamente regiões, forças e afiliados americanos que ainda não foram incluídos no banco de alvos das Forças Armadas iranianas e tomará medidas contra eles no caso de uma ação imprudente do inimigo”, afirmou.

<><> Possível ampliação de alvos americanos

A declaração indica que o Irã pode ampliar o conjunto de interesses e posições dos Estados Unidos considerados como possíveis alvos militares. O representante, no entanto, não detalhou quais locais ou estruturas poderiam ser incluídos nessa lista.

Também não foram fornecidas informações sobre quando eventuais ataques poderiam ocorrer, caso as tensões evoluam para um confronto direto.

<><> Escalada retórica aumenta tensão regional

A troca de declarações ocorre em um momento de crescente tensão entre Teerã e Washington, com ameaças públicas elevando o risco de uma escalada no Oriente Médio. A possibilidade de novos ataques ou de ampliação do conflito preocupa analistas e autoridades internacionais, que acompanham atentamente os desdobramentos da crise entre os dois países.

 

Fonte: Brasil 247

 

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