Sayid
Marcos Tenório: Irã desafia a máquina de guerra dos EUA no Oriente Médio
Estamos
diante de um momento que poderá marcar uma inflexão histórica na geopolítica
contemporânea. Pela primeira vez em muitas décadas, a arquitetura de poder
militar construída pelos EUA no Oriente Médio começa a ser diretamente
desafiada por um adversário capaz de impor custos estratégicos reais.
O que
surpreende não é apenas a intensidade das operações iranianas, mas a escala e a
coordenação com que vêm sendo conduzidas. Em poucos dias de confronto, bases
aéreas, centros de radar, instalações logísticas e sistemas avançados de radar
foram atingidas de forma coordenada.
Essas
instalações não são simples postos militares. Elas sustentaram por décadas a
supremacia militar dos EUA na região. Bases norte-americanas no Bahrein, no
Kuwait, no Catar e na Arábia Saudita estão entre as maiores estruturas
militares já construídas fora do território norte-americano, e consumiram
trilhões de dólares ao longo de mais de três décadas.
Essas
bases fazem parte de uma vasta rede de projeção de poder que permitiu aos EUA
controlar rotas energéticas, influenciar equilíbrios regionais e manter uma
presença militar permanente no Golfo.
No
entanto, aquilo que durante anos pareceu praticamente intocável, começa a
revelar vulnerabilidades diante de um adversário que passou décadas se
preparando para um cenário de confronto direto.
Já vi
analistas recorrem à comparação com Pearl Harbor, em 1941. A analogia, porém, é
limitada. Pearl Harbor foi um ataque surpresa concentrado em poucas horas. O
que ocorre agora envolve uma sequência de ataques e respostas militares
distribuídos por diferentes pontos da região.
Mais
importante do que a comparação histórica é a percepção de que, pela primeira
vez desde o fim da Guerra Fria, a vasta rede de poder militar construída pelos
EUA no Oriente Médio demonstra sinais de vulnerabilidade.
Outro
elemento que chama atenção é o crescente silêncio informativo que passou a
cercar o conflito. À medida que os dias avançam, a quantidade de imagens,
vídeos e relatos disponíveis ao público parece diminuir.
Em
guerras anteriores, a cobertura era intensa e quase permanente. Durante a
primeira Guerra do Golfo, por exemplo, o mundo assistia diariamente a imagens
de bombardeios e operações militares.
“Bombas
inteligentes” eram apresentadas como símbolo da supremacia tecnológica
norte-americana. Câmeras acopladas a mísseis transmitiam imagens ao vivo e o
público acompanhava quase em tempo real a destruição de alvos militares.
Hoje,
paradoxalmente, apesar de vivermos na era da informação digital, quase não
vemos registros visuais da ofensiva atual. Essa ausência levanta uma questão
inevitável: se os EUA realmente tivessem domínio completo sobre o espaço
aéreo iraniano, seria natural esperar imagens de aeronaves operando livremente
sobre cidades iranianas.
Até o
momento, porém, tais registros são raros ou inexistentes. O que sugere um
cenário mais complexo, no qual o espaço aéreo iraniano permanece fortemente
defendido e sua capacidade de resposta militar continua ativa.
As
capacidades do Irã não são improvisações. O Irã passou décadas preparando-se
para um cenário como este. Ao longo dos anos, desenvolveu uma estratégia
defensiva baseada na dispersão de infraestrutura militar, na profundidade
territorial e na construção de complexos subterrâneos fortificados.
Grande
parte de suas instalações militares encontra-se distribuída em diferentes
regiões do país. Arsenais, centros de comando e plataformas de lançamento de
mísseis foram projetados justamente para sobreviver a ataques maciços. Esse
modelo de defesa dificulta qualquer tentativa de neutralizar rapidamente a
capacidade militar do país.
Além
disso, o território iraniano apresenta características geográficas que tornam
extremamente complexa qualquer hipótese de invasão terrestre. Com cadeias
montanhosas extensas, desertos e vastas áreas de difícil acesso, o país possui
uma profundidade estratégica muito superior à de outros cenários de guerra
recente no Oriente Médio.
Outro
ponto sensível nesse conflito é o Estreito de Ormuz, um dos corredores
marítimos mais estratégicos do planeta. Uma parcela significativa do petróleo
mundial passa por essa estreita faixa de água. Qualquer interrupção prolongada
do tráfego marítimo nessa região poderia produzir impactos imediatos nos
mercados energéticos globais.
Essas
constatações indicam que subestimaram a capacidade de preparação do Irã. Mesmo
sob pressão militar intensa, o sistema de defesa iraniano continua operando.
Sua capacidade de lançar mísseis permanece ativa e sua estratégia de dissuasão
segue funcionando. A estrutura militar construída ao longo de décadas,
demonstra uma resiliência maior do que muitos analistas previam.
Isso
não significa que o conflito esteja definido ou que suas consequências humanas
sejam menores. Em qualquer guerra, civis pagam um preço devastador.
Infraestruturas são destruídas, cidades sofrem ataques e populações inteiras
vivem sob constante ameaça.
Do
ponto de vista estratégico, porém, uma questão começa a emergir com clareza:
aqueles que iniciaram essa escalada militar podem ter aberto um conflito muito
mais difícil de controlar do que imaginaram. E o Irã já declarou que será a
nação persa que vai decidir a hora de parar.
Quando
a poeira finalmente baixar sobre este conflito, o mundo poderá olhar para este
momento como o início de uma nova fase na história do Oriente Médio. Uma fase
em que a hegemonia militar dos EUA na região deixa de parecer inabalável e
passa a ser abertamente contestada.
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"Não atacamos países vizinhos; visamos instalações
dos Estados Unidos", afirma presidente do Irã
O
presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou que as ações militares iranianas
têm como alvo exclusivamente bases e instalações dos Estados Unidos na região,
reiterando que o país não está atacando nações vizinhas consideradas amigas. A
declaração foi divulgada em uma série de publicações nas redes sociais do líder
iraniano.
Nas
mensagens, Pezeshkian destacou que a política externa do Irã segue baseada na
manutenção de relações amistosas com governos da região, fundamentadas no
respeito mútuo à soberania nacional e à integridade territorial. Segundo o
presidente, essa postura não elimina o direito do país de responder
militarmente a ações hostis.
“O Irã
sempre enfatizou a manutenção e continuidade de relações amigáveis com os
governos da região com base na boa vizinhança e no respeito mútuo pela
soberania nacional e pela integridade territorial”, afirmou o presidente
iraniano.
Pezeshkian
acrescentou que, diante do que classificou como agressões militares por parte
dos Estados Unidos e de Israel, o Irã considera legítimo exercer seu direito de
defesa. “Isso não nega o direito inerente do Irã de se defender contra a
agressão militar dos Estados Unidos e de Israel”, disse.
O líder
iraniano também reforçou que o país continuará resistindo para proteger sua
soberania. “Permaneceremos firmes e resistiremos até o fim para defender nosso
país”, declarou.
De
acordo com Pezeshkian, as operações militares conduzidas pelo Irã têm caráter
estritamente defensivo e são direcionadas apenas a alvos que considera
responsáveis por ações hostis contra a nação iraniana. “As operações defensivas
do Irã são exclusivamente contra alvos e instalações que são a origem e a fonte
de ações agressivas contra o povo iraniano, e os consideramos objetivos
legítimos”, afirmou.
O
presidente também reiterou que países vizinhos não estão entre os alvos das
ações militares iranianas. “Não atacamos nossos países amigos e vizinhos, mas
visamos bases militares, instalações e estruturas dos Estados Unidos na
região”, declarou.
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Governo iraniano diz que mensagem do presidente é clara
Após as
declarações do presidente, Mehdi Tabatabaei, vice-responsável por comunicação e
anúncios públicos do gabinete de Pezeshkian, afirmou que a mensagem transmitida
pelo chefe de Estado foi “clara”.
Em
publicação nas redes sociais, Tabatabaei reiterou que o Irã não pretende atacar
países da região que não participem de ações militares contra o país.
“Se os
países da região não cooperarem com o ataque dos Estados Unidos contra o Irã,
nós não os atacaremos”, escreveu.
O
assessor também enfatizou que o país não aceitará pressões externas. “O Irã
nunca se submeterá à coerção”, afirmou.
Segundo
ele, qualquer agressão partindo de bases militares dos Estados Unidos na região
será respondida pelas forças armadas iranianas. “Nossas poderosas forças
armadas darão uma resposta decisiva a qualquer agressão proveniente de bases
dos Estados Unidos na região”, declarou.
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Comando militar do Irã diz que seguirá atacando bases dos
EUA no Oriente Médio
O
comando militar do Irã advertiu que continuará atacando forças dos Estados
Unidos espalhadas pelo Oriente Médio, mesmo após o presidente iraniano, Masoud
Pezeshkian, anunciar que Teerã interromperia ataques contra países vizinhos do
Golfo que abrigam bases militares americanas. A declaração ocorreu em meio à
escalada de tensões na região e ao aumento das hostilidades envolvendo
instalações estratégicas.
Segundo
informações publicadas pelo Financial Times, Pezeshkian divulgou
uma mensagem em vídeo transmitida pela televisão estatal neste sábado (7), na
qual pediu desculpas pelos ataques recentes contra países árabes da região. Na
declaração, afirmou: “Não haverá novos ataques ou lançamentos de mísseis contra
países vizinhos".
Apesar
do pedido de desculpas, o presidente iraniano alertou que qualquer país que
permita aos Estados Unidos usar seu território ou espaço aéreo para lançar
ofensivas contra o Irã poderá se tornar alvo de retaliação. Ele também rejeitou
uma exigência feita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que
o Irã se rendesse. Pezeshkian afirmou: “Eles levarão o desejo de nossa rendição
incondicional para seus túmulos".
Pouco
depois do pronunciamento, o Quartel-General Central Khatam al-Anbiya —
responsável pelo comando das forças armadas iranianas — divulgou comunicado
reiterando que as operações militares contra bases americanas e israelenses
continuarão. O texto afirma que as forças armadas respeitam a soberania dos
países vizinhos, mas advertiu que, “caso as ações hostis anteriores continuem,
todas as bases e interesses militares” dos Estados Unidos e de Israel “em
terra, mar e ar” na região se tornarão “alvos prioritários”.
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Presidente iraniano pede desculpas a países vizinhos
Os
ataques na região do Golfo continuaram nas primeiras horas deste sábado, com o
lançamento de mísseis e drones contra Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e
Qatar. O porta-voz das forças armadas iranianas, Abolfazl Shekarchi, declarou
que o inimigo será considerado “um alvo legítimo... onde quer que seus ataques
se originem”. Ele acrescentou que qualquer país que ofereça espaço aéreo,
território ou instalações para operações militares também poderá ser atingido.
Todos
os países do Golfo citados abrigam bases militares dos Estados Unidos, o que
eleva o risco de ampliação do conflito. Donald Trump afirmou que o pedido de
desculpas do presidente iraniano representaria uma “rendição”, além de declarar
que o Irã poderia “colapsar completamente” e prometer ataques severos contra o
país.
Pezeshkian,
considerado uma figura moderada dentro da estrutura política iraniana, ocupa
atualmente a liderança do país como parte de um conselho interino de três
membros. O órgão foi criado após os Estados Unidos e Israel realizarem ataques
contra o complexo do líder supremo em Teerã, operação que resultou na morte do
aiatolá Ali Khamenei e de outros altos dirigentes iranianos uma semana antes.
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Forças armadas reafirmam ataques contra bases dos EUA e Israel
Analistas
iranianos afirmam que a declaração do presidente pode indicar uma tentativa de
persuadir países vizinhos a não participarem diretamente do conflito nem
permitirem o uso de suas bases pelos Estados Unidos. No entanto, segundo
especialistas, a mensagem não representa necessariamente uma busca imediata por
cessar-fogo.
Antes
da escalada militar, vários governos do Golfo defendiam que Washington adotasse
uma estratégia diplomática com Teerã. No entanto, após uma semana de ataques
iranianos, líderes da região passaram a reconsiderar suas opções diante do
risco crescente de envolvimento direto no conflito.
O
ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que a resposta
militar do país foi planejada previamente para garantir continuidade mesmo
diante de ataques à liderança iraniana. Em entrevista à rede Al Jazeera,
declarou: “Nossas unidades militares agora são, de fato, independentes e um
tanto isoladas, e estão agindo com base em instruções gerais dadas a elas
antecipadamente".
Ele
acrescentou que um ataque contra Omã, país que tradicionalmente mantém boas
relações com Teerã e atuava como mediador entre Irã e Estados Unidos, “não foi
nossa escolha”.
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Escalada militar eleva tensão no Golfo e impacta petróleo
A
intensificação dos ataques já provocou efeitos significativos na economia e na
segurança regional. O preço do petróleo ultrapassou a marca de 90 dólares por
barril, enquanto o tráfego aéreo no Oriente Médio sofreu fortes interrupções.
Além
disso, a navegação pelo Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde passa
cerca de um quinto do petróleo e do gás comercializados no mundo — desacelerou
drasticamente devido ao aumento do risco de ataques.
Autoridades
da Arábia Saudita informaram que interceptaram 21 drones lançados em direção ao
campo petrolífero de Shaybah, que produz cerca de 1 milhão de barris de
petróleo por dia. O episódio marcou a primeira tentativa de atingir diretamente
o coração da produção energética do país.
Nos
Emirados Árabes Unidos, autoridades de Dubai afirmaram que destroços
resultantes da interceptação de um ataque foram contidos após relatos de
explosões e fumaça nas proximidades do principal aeroporto internacional da
cidade.
Enquanto
isso, companhias aéreas começaram a retomar gradualmente operações na região. A
Emirates anunciou que pretende restabelecer voos para seus destinos habituais
nos próximos dias, enquanto a Qatar Airways informou que iniciará voos de
alívio após a reabertura parcial do espaço aéreo do país pela primeira vez em
uma semana.
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Irã reage a Trump e promete retaliação a novos alvos dos
EUA
A
tensão entre Irã e Estados Unidos voltou a crescer após novas declarações do
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou neste sábado (7) que o
país poderia realizar ataques devastadores contra alvos iranianos. Em resposta,
uma autoridade sênior iraniana afirmou que Teerã está avaliando ampliar a lista
de interesses americanos que podem ser atingidos em caso de uma nova ofensiva
militar.
Segundo
a CNN, o representante
iraniano declarou que o governo do país interpreta as declarações de Trump como
uma ameaça direta contra a população iraniana e contra o próprio Estado. O
presidente norte-americano havia advertido que o Irã “será atingido muito
duramente” e que Washington considera novos alvos que poderiam sofrer
“destruição completa e morte certa”.
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Irã reage a declarações de Donald Trump
A
autoridade iraniana afirmou que as declarações vindas de Washington foram
interpretadas como uma tentativa de expandir o conflito para além dos
confrontos atuais. De acordo com o representante, os comentários de Trump
indicam que os Estados Unidos estariam dispostos a intensificar as operações
militares contra o país.
Em
resposta, o oficial declarou que Teerã já analisa possíveis medidas de
retaliação caso ocorra uma nova ação militar americana. “Por essa razão, a
República Islâmica anuncia que examinará seriamente regiões, forças e afiliados
americanos que ainda não foram incluídos no banco de alvos das Forças Armadas
iranianas e tomará medidas contra eles no caso de uma ação imprudente do
inimigo”, afirmou.
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Possível ampliação de alvos americanos
A
declaração indica que o Irã pode ampliar o conjunto de interesses e posições
dos Estados Unidos considerados como possíveis alvos militares. O
representante, no entanto, não detalhou quais locais ou estruturas poderiam ser
incluídos nessa lista.
Também
não foram fornecidas informações sobre quando eventuais ataques poderiam
ocorrer, caso as tensões evoluam para um confronto direto.
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Escalada retórica aumenta tensão regional
A troca
de declarações ocorre em um momento de crescente tensão entre Teerã e
Washington, com ameaças públicas elevando o risco de uma escalada no Oriente
Médio. A possibilidade de novos ataques ou de ampliação do conflito preocupa
analistas e autoridades internacionais, que acompanham atentamente os
desdobramentos da crise entre os dois países.
Fonte:
Brasil 247

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