Fundamentos
da educação emancipadora
É
essencial que a educação científica promova a leitura crítica do mundo,
articulando conceitos científicos às experiências concretas dos sujeitos e às
problemáticas sociais passadas e contemporâneas
O
objetivo geral do texto é delinear alguns fundamentos que não podem ser
questionados e abandonados por quem pensa a educação de forma emancipadora.
Para uma compreensão geral, dividimos em quatro partes que se comunicam e que
refletem o mesmo sentido civilizatório proposto.
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Sociologia dos afetos
Está
correto falar de/em afetos? Claro que sim. Isso fica evidente quando tratamos
de relações pessoais ou de relações sociais. Num exemplo simples, quando nos
dirigimos em falas e em ações com nossos colegas, vizinhos, familiares,
desconhecidos na fila do pão, demonstramos nossa capacidade de respeito
(civilidade) e de Interação Social – se adequada ou não, se é presente um
mínimo de ajuda mútua (sociabilidade).
O mesmo
se aplica quando respeitamos as regras legítimas os limites e as necessidades
do outro, quando respeitamos a fila preferencial, quando tratamos bem os
animais. E aqui cabe outro exemplo: os jovens que mataram o cachorro
comunitário (Orelha) a pauladas e com extremo requinte de crueldade, por certo,
não conhecem algumas dessas palavras ou essas expressões não fazem parte do seu
repertório cognitivo.
São
pessoas que desconhecem a ética, o zelo pela coisa pública, os códigos de
civilidade, assim como desconhecem a Interação Social, a “simpatia pelas outras
pessoas”, o mínimo “afeto” pela vida – seja ela de um cachorro ou de outro ser
humano. Quem mata um cão com aquela desenvoltura de crueldade, em algum
momento, pode facilmente demonstrar o mesmo nível de descontrole, agressividade
e violência contra qualquer ser humano – especialmente os mais vulneráveis,
indefesos e fragilizados: “as pessoas que se encontram desprovidas de qualquer
dignidade humana”.
Não
será difícil ver, dizer, que o afeto está (empatia, simpatia) ou não está
(entropia, disrupção, sociopatia), esteve e deixou de estar (antipatia) em
todos os sentidos e segmentos da vida social. Há dois caminhos elementares
aqui: (i) das ações humanas louváveis, invejáveis e de outras detestáveis,
condenáveis; (ii) tanto quanto há práticas sociais e de poder honoríficas e a
serem replicáveis e outras que são abomináveis e execráveis. Pelo senso comum,
seria possível analisar “afetos” por esse caminho também.
Porém,
será que isso não nos remete a uma análise psicológica, a um circuito dos
sintomáticos das situações e das relações? A crítica aqui não está em discutir
se a Psicologia é necessária e acertada, isso é bastante óbvio, no sentido de
sua validação científica e reconhecimento social. A questão estaria em saber se
esse plano de averiguação, avaliação é suficiente e sobreviveria a uma análise
social que ultrapassasse o recorte do senso comum.
Para
uma sociologia a resposta é de insatisfação. A sociologia não deve desconhecer
os efeitos – e os níveis perceptíveis da interação social (no caso, os afetos)
–, mas, saber ou reconhecer tal dimensão não é bastante para a visão de mundo
requerida pela Sociologia. Curiosamente, a psicologia e a sociologia repartem
boas partes do mesmo objeto, que é a interação social.
A
diferença está no “que olhar” e “como olhar”, pois, isto modifica e direciona o
“que fazer”. Para a sociologia, a “falta de afeto” corresponde à crescente
entropia social (um termo emprestado da física), às diferenças que nunca foram
diferenças, mas sim desigualdades, à ausência de organização social que não
seja ditada pela exploração do trabalho (expropriação), pela imposição da
opressão e do subjugo e da miséria humana em todas as suas formas mais brutais.
Hoje é facilmente predizível afirmar que amanhã teremos ainda mais “pessoas
absolutamente desprovidas de dignidade humana”.
O que
nos leva a pensar o “afeto” em termos de embrutecimento societal, quer dizer, o
aprofundamento da opressão que impõe a extrema desigualdade. É dessa imposição
da desigualdade que advém a negação das pessoas, sobretudo, as mais frágeis e
sem poder de fato ou de representação. É dessa desigualdade extrema que provém
a lógica “amigo-inimigo”: os amigos são protegidos pelo poder; “os inimigos são
abatidos como cães” (essa frase de filme não é originária do cinema).
Numa
sociologia crítica, portanto, não é difícil analisar e concluir que a “falta de
afeto” é programada socialmente, pelo poder e pela lógica econômica. E é essa
programação que deve guiar nossa atenção, em especial quando vem apelidada de
luta de classes racista, ou quando se auto intitula de neoliberalismo
(neocolonialismo).
Como se
vê, o recorte é outro, a perspectiva desde a origem – entendendo-se que se
parte do mesmo objeto social – e o alcance possível e desejado são diversos.
Nesta ótica da sociologia crítica, no fundo, o objetivo é delineado pela visão
de mundo (cosmovisão) que nos dirige desde o início; pensando-se que o
resultado almejado é a profunda transformação social. Desse modo, o âmbito do
“afeto” se desloca do indivíduo para o coletivo e, assim, poderia receber outro
nome, como solidariedade social.
Veja-se
que não se trata, necessariamente (e mesmo que não se exclua), da solidariedade
com alguém especificamente; trata-se de ser vocacionado (como “ser social”) à
solidariedade com quem nem se conhece – ou ainda nem nasceu (como no caso do
“direito das gerações não-nascidas”).
Por
isso, em tese, nessa teoria social, o título é incorreto, ao menos desde a
origem dessa ciência social, e ainda que tenha sido útil para nos mostrar a
necessidade de observarmos, analisarmos, as situações, as relações, as
incidências, sob outros prismas. (E novamente, aqui, fazemos empréstimos de
outra ciência).
Por
fim, não há uma suposta “sociologia dos afetos” porque, na maioria esmagadora
das vezes, olhamos muito mais para os indivíduos que não são afeitos à
solidariedade social e que basicamente instigam contra a “solidez social”.
Neste último sentido, seria mais coerente uma “sociologia dos desafetos” –
econômicos, sociais, políticos e culturais.
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Fundamentos éticos e jurídicos
A
expressão Fundamentos, não seria necessário dizer, implica em algo essencial,
fundamental. Mais do que uma insígnia, soa e se impõe como possibilidade única,
inegociável, os pressupostos são preliminares, inamovíveis, premissas que
distinguem a própria origem e natureza. Para efeito comparativo, se os
princípios orientam, desfilam o caminho e o objetivo, os pressupostos
determinam a existência.
Numa
fórmula simples: os princípios orientam, os pressupostos determinam; os
princípios prenunciam, os pressupostos pautam, são condição sine qua nom.
Utilizando a imagem de um prédio, podemos dizer que os princípios são o prédio
em si e os alicerces são os pressupostos; desse modo, derruba-se o prédio, mas
os alicerces continuam ali como as estacas de um sentido original e de sua
direção.
Neste
âmbito, nossa abordagem destaca os princípios gerais do direito e que aqui
indicamos sinteticamente, como a vontade real de unificar, pacificando, os
objetivos ou os princípios gerais do direito com os ideais da justiça formal e
real. Porém, deve-se pensar na oferta, criação, pois seria um curso natural, de
uma base material (processual, objetiva, institucional) para uma maior ou real
materialização dos princípios gerais do direito: honeste vivere (viver
honestamente), alterum non laedere (não prejudicar ao próximo), suum cuique
tribuere (dar a cada um o que lhe pertence).
Um
caminho possível em objetividade, efetividade de uma educação com esse lastro,
proviria da proposta de uma educação pela Constituição de 1988, pois, além de
orientar os marcos éticos e jurídicos em termos de aprofundamento do processo
civilizatório, ainda nos presenteie com uma série inestimável de pressupostos,
princípios, garantias e liberdades. Um diálogo transversal com várias
disciplinas e conteúdos, por fim, nos demarcaria com todos os elos da isonomia,
equidade, paridade, pluralismo, afirmação da diversidade e negação da
desigualdade, assim visto desde o preâmbulo e os fartos aportes em Direitos
humanos.
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Fundamentos da educação para a ciência
Pensar
uma educação que se constitua de forma emancipadora implica romper com
concepções dogmáticas de ensino, historicamente consolidadas nas salas de aula
e naturalizadas como mecanismos de regulação social e de perpetuação das
desigualdades.
Na
perspectiva da educação para a ciência, essa ruptura demanda reconhecer o
conhecimento científico para além de uma concepção tecnicista, compreendendo-o
como uma produção humana e historicamente situada, indissociável dos contextos
políticos, sociais e econômicos nos quais é produzido, legitimado e socialmente
apropriado. Não há neutralidade na produção e aplicação da ciência.
A
ciência, nesse sentido, não se apresenta como uma produção descolada da
experiência humana, mas como uma construção social permeada, atravessada por
valores, interesses, disputas e projetos de sociedade. Reconhecer essa
não-neutralidade constitui um fundamento inegociável da educação científica
orientada à compreensão crítica da realidade e à formação integral do sujeito,
enquanto estudante e cidadão.
Reduzir
o ensino de ciências à mera transmissão de conteúdos, à lógica da educação
bancária (FREIRE, 2019) ou ao treinamento técnico significa esvaziar seu
potencial formativo e transformador, convertendo o conhecimento em instrumento
de adaptação, e não de emancipação.[i]
É
essencial, portanto, que a educação científica promova a leitura crítica do
mundo, articulando conceitos científicos às experiências concretas dos sujeitos
e às problemáticas sociais passadas e contemporâneas. Nesse processo, os
estudantes devem ser reconhecidos como sujeitos ativos na construção do
conhecimento, capazes de questionar, interpretar e atribuir sentido aos saberes
científicos.
Uma
educação para a ciência comprometida com a emancipação afirma o compromisso
ético da ciência com a vida, a justiça social e o bem comum, posicionando-se
criticamente diante de usos do conhecimento que aprofundam desigualdades e
exclusões sociais.
Assim,
a educação científica consolida-se como fundamento essencial de um projeto
civilizatório orientado pela autonomia intelectual, pela responsabilidade
coletiva e pela transformação social.
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Por que ensinar filosofia?
A
filosofia consiste na base de todas as ciências, de modo que todas as ciências
bebem de sua lógica a partir da vinculação de todos os conhecimentos
científicos terem nascido dos pensamentos filosóficos, o que proporciona
reflexão sobre a existência e o pertencimento.
A
filosofia contribui para a formação crítica do sujeito ao promover, desde a
educação básica, a problematização de normas, valores e práticas sociais. Para
além da transmissão de conteúdos específicos, seu ensino desenvolve
competências argumentativas e lógico-dedutivas, favorecendo a análise crítica
da realidade e das dinâmicas de poder e opressão. Desse modo, justifica-se sua
obrigatoriedade no ensino médio em razão de sua relevância formativa, reflexiva
e político-social.
Diante
do cenário atual na educação pública do estado de São Paulo, há um projeto
político do neoliberalismo que anula a autonomia e a emancipação na escola
pública. Após a reforma do ensino médio aprovada em 2017, que fragiliza a
educação brasileira desde sua base, a disciplina de filosofia deixou de ser
obrigatória no ensino médio e passou a integrar apenas como um item dos
itinerários formativos em escolas públicas. Em contrapartida, se contradiz ao
ensino privado que não adere à reforma e mantém o modelo antigo, com foco
pré-vestibular. O que acaba favorecendo a desigualdade no acesso à educação no
Brasil.
Assim,
a reforma diminui a carga horária comum, com ênfase em ciências humanas
(filosofia, história, artes e sociologia), e aumenta a carga horária de
itinerários formativos, que são matérias interdisciplinares (“educação
financeira”). Entretanto, ocorre uma omissão entre a finalidade e os efeitos
reais do projeto, substituindo-se a filosofia pela educação financeira, isso
equivale a ensinar o aluno a lidar com o pouco que ganha, e jamais questionar o
porquê de ganhar pouco.
A
exclusão da disciplina filosofia faz com que os estudantes deixem de ter acesso
a uma formação crítica, como indivíduos de uma sociedade cindida, conturbada,
desigual, como é a brasileira. Neste sentido, o ensino de filosofia agiria de
per si como resistência e construção da práxis (reflexão e ação).
Fonte:
Por Vinício Carrilho Martinez, Ester Dias da Silva Batista e Izabela Victória
Pereira, em Outras Palavras

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