Ecodomínio
Cerrado: muito além de uma savana, um ‘hotspot’ em colapso
O
Cerrado vai muito além da imagem de uma savana tropical uniforme. Este
Ecodomínio funciona como um intrincado mosaico de 14 diferentes ecossistemas.
Um hotspot de biodiversidade com vasta riqueza e espécies exclusivas que,
simultaneamente, enfrenta a degradação acelerada pela ação humana. É dessa
diversidade, onde cada ecossistema tem dinâmicas distintas e fragilidades
próprias, que surge a “floresta invertida”.
A
floresta invertida são as extensas raízes das árvores e arbustos que, além de
dar suporte à vegetação, cumprem um importante papel para o controle de
emissões: são sumidouros de carbono. É no subsolo que se encontra a “maior
parte da biomassa, com raízes que podem ultrapassar 15 metros de profundidade e
sustentam a vegetação durante a seca e a recarga de aquíferos”, explica o
professor e pesquisador Cássio Cardoso Pereira. “Esse sistema subterrâneo
também concentra o principal estoque de carbono do Ecodomínio, estabilizado nas
camadas profundas do solo […]. Isso mostra que seu papel como sumidouro de
carbono é majoritariamente invisível e altamente vulnerável a distúrbios que
degradam o solo e as raízes”, complementa.
Pereira
é o principal autor do artigo The Cerrado crisis review: highlighting threats
and providing future pathways to save Brazil’s biodiversity hotspot, publicado
na revista Nature Conservation em janeiro de 2026. Uma das principais
conclusões da pesquisa é sobre o avanço acelerado da degradação para mais da
metade da região. “A dimensão da crise ecológica no Ecodomínio do Cerrado é
ampla e estrutural, marcada por desmatamento acelerado, fragmentação de
habitats e perda de funções ecológicas essenciais”, adverte. “Estima-se que
mais de 55% da vegetação nativa original já tenha sido convertida”, salienta.
A
despeito da relevância do Cerrado como o segundo maior Ecodomínio da América do
Sul, a região frequentemente permanece à sombra da Amazônia. Cobrindo 24% da
área do Brasil e atuando como “berço das águas” das principais bacias
hidrográficas do país, este Ecodomínio tem sido historicamente negligenciado
nas políticas de preservação ambiental, que não alcançam nem a 10% da área.
“Proteger apenas cerca de 8% do território, com menos de 3% sob proteção
integral, é incompatível com sua importância ecológica e hidrológica”, assevera
o pesquisador.
Na
entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos –
IHU, Pereira aponta porque o estudo propõe o uso do conceito de Ecodomínio no
lugar do termo bioma para designar a região do Cerrado. “O conceito de
Ecodomínio que propusemos corresponde a grandes unidades ecológicas com
relativa uniformidade climática, geomorfológica e biológica, que englobam
múltiplas ecorregiões, biomas e ecossistemas em sua extensão original”,
esclarece. “Nesse sentido, aquilo que o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística – IBGE denomina de ‘bioma’ se aproximaria mais de um ecodomínio”,
indica.
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Confira a entrevista.
• Pode explicar do que se trata o conceito
de Ecodomínio proposto em artigo publicado na Nature Conservation, assinado com
outros colegas? Quais suas especificidades e a diferença em relação ao conceito
de bioma?
Cássio
Cardoso Pereira – No Brasil, o termo “bioma” é usado oficialmente de forma
geopolítica e, do ponto de vista ecológico, é inadequado e até enganoso, pois
agrupa sob uma mesma categoria diferentes biomas, ecorregiões e ecossistemas.
Em ecologia, bioma refere-se a grandes unidades transcontinentais definidas
sobretudo pelas formas de vida dominantes, estrutura da vegetação e condições
ambientais semelhantes.
Já o
conceito de Ecodomínio que propusemos corresponde a grandes unidades ecológicas
com relativa uniformidade climática, geomorfológica e biológica, que englobam
múltiplas ecorregiões, biomas e ecossistemas em sua extensão original. Nesse
sentido, aquilo que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE
denomina de “bioma” se aproximaria mais de um ecodomínio, mas essa
simplificação é problemática ao uniformizar sistemas altamente heterogêneos, o
que pode gerar distorções na formulação de políticas públicas, conservação e
planejamento ambiental.
• O que é e como funciona a floresta
invertida? Porque essa característica torna o Cerrado um bioma único?
Cássio
Cardoso Pereira – A “floresta invertida” do Cerrado refere-se ao fato de que a
maior parte da sua biomassa está no subsolo, com raízes que podem ultrapassar
15 metros de profundidade e sustentam a vegetação durante a seca e a recarga de
aquíferos. Esse sistema subterrâneo também concentra o principal estoque de
carbono do Ecodomínio, estabilizado nas camadas profundas do solo. Em média, o
Cerrado armazena cerca de 158 toneladas de carbono por hectare, sendo
aproximadamente 87% abaixo do solo e apenas 13% na parte aérea. Isso mostra que
seu papel como sumidouro de carbono é majoritariamente invisível e altamente
vulnerável a distúrbios que degradam o solo e as raízes.
• Por que não podemos tratar o Cerrado
como um sistema homogêneo? Que tipo de ecossistemas encontramos na região e
como eles funcionam de forma interdependente?
Cássio
Cardoso Pereira – Não podemos tratar o Cerrado como um sistema homogêneo porque
ele é formado por um mosaico complexo de cerca de 14 ecossistemas diferentes,
organizados em três grandes tipos de biomas: campos, savanas e florestas
tropicais. Esses ecossistemas ocorrem em mosaicos espaciais e, em um raio de
cerca de 1 km, é comum encontrar vários deles coexistindo na paisagem, como,
por exemplo, Campos Rupestres, Cerrado sensu stricto e Matas de Galeria ao longo de uma serra.
Apesar das diferenças estruturais e ecológicas, funcionam de forma
interdependente por meio de fluxos de água, carbono, nutrientes e
biodiversidade. Assim, a degradação de um único componente pode afetar o
equilíbrio ecológico de todos os outros.
• Quais as
principais conclusões da pesquisa The Cerrado crisis review: highlighting
threats and providing future pathways to save Brazil’s biodiversity hotspot?
Cássio
Cardoso Pereira – A revisão conclui que o Ecodomínio do Cerrado enfrenta uma
crise ecológica acelerada, impulsionada sobretudo pela expansão agropecuária,
desmatamento, fragmentação e perda de vegetação nativa em larga escala. O
estudo evidencia que, apesar de sua altíssima biodiversidade e importância
hidrológica e climática, o Ecodomínio permanece subprotegido e sujeito a
intensas pressões antrópicas. Também mostra que a conversão dos ecossistemas
compromete estoques de carbono subterrâneo, serviços ecossistêmicos e a
estabilidade hídrica regional. Por fim, o artigo destaca a urgência de
políticas integradas de conservação, restauração ecológica e planejamento
territorial que considerem a complexidade e a heterogeneidade do Ecodomínio do
Cerrado.
• Qual a dimensão da crise ecológica que
vive o Cerrado? Qual estimativa da perda de vegetação? Qual o impacto do
agronegócio?
Cássio
Cardoso Pereira – A dimensão da crise ecológica no Ecodomínio do Cerrado é
ampla e estrutural, marcada por desmatamento acelerado, fragmentação de
habitats e perda de funções ecológicas essenciais. Estima-se que mais de 55% da
vegetação nativa original já tenha sido convertida, sobretudo nas últimas
décadas, comprometendo a biodiversidade, os estoques subterrâneos de carbono e
a estabilidade hídrica regional.
O
agronegócio é o principal motor desse processo, com a expansão de monoculturas
e pastagens sobre campos, savanas e florestas tropicais, favorecida por um
arcabouço legal que exige a preservação de apenas 20% da vegetação nativa no
Cerrado (35% nas áreas adjacentes à Amazônia Legal, contra 80% na Amazônia),
percentuais que muitas vezes nem são plenamente cumpridos.
É
importante reconhecer que existe o agro que cumpre a lei e investe em produção
responsável, mas também há um segmento que se beneficia de cadeias associadas
ao desmatamento, uso de laranjas e ocupação inicial de terras com gado para
posterior venda a grandes empresários do setor. Esse modelo predatório
aprofunda a crise ecológica e compromete o futuro ambiental e climático do
país.
Paradoxalmente,
essa degradação também prejudica o próprio setor agropecuário, ao reduzir
polinizadores, comprometer a disponibilidade de água, intensificar mudanças
climáticas regionais e aumentar a vulnerabilidade produtiva a secas e eventos
extremos.
• Como funciona o equilíbrio entre
captação e infiltração de água no Cerrado? Como a crise ambiental desse bioma
conhecido como “berço das águas” afeta a segurança hídrica de todo o Brasil?
Cássio
Cardoso Pereira – O equilíbrio hídrico no Ecodomínio do Cerrado depende da alta
capacidade de infiltração de água em seus solos profundos e altamente porosos,
associada à vegetação com raízes extensas que favorecem a recarga de aquíferos.
Em vez de escoar superficialmente, grande parte da água das chuvas infiltra-se
no solo e alimenta nascentes, veredas e grandes bacias hidrográficas do país.
Por isso, o Cerrado é conhecido como “berço das águas”, abastecendo importantes
rios que sustentam o abastecimento humano, a geração de energia e a produção
agrícola no Brasil.
A
conversão da vegetação nativa e a compactação do solo reduzem a infiltração,
aumentam o escoamento superficial e diminuem a recarga hídrica, comprometendo a
segurança hídrica nacional e ampliando os riscos de escassez e instabilidade no
regime de chuvas.
• Quais são as lacunas na conservação do
Cerrado? Como elas afetam a biodiversidade?
Cássio
Cardoso Pereira – As principais lacunas na conservação do Ecodomínio do Cerrado
são a baixa cobertura de áreas protegidas, a proteção desigual entre
ecossistemas e a aplicação insuficiente da legislação ambiental. Campos e
savanas, apesar de altamente biodiversos, são especialmente negligenciados. A
fragmentação e a perda de conectividade aceleram a extinção de espécies e
enfraquecem processos ecológicos essenciais. Com isso, compromete-se a
resiliência e o funcionamento de todo o sistema.
• O estudo catalogou 706 Unidades de
Conservação, equivalente a apenas 8% do Ecodomínio, com menos de 3% sob
proteção integral. Além disso, o artigo mostra a existência de cerca de 40
centrais hidroelétricas em rios do Cerrado. O que esses números revelam sobre a
falta de políticas ambientais para a proteção da região?
Cássio
Cardoso Pereira – Esses números evidenciam a grande insuficiência das políticas
ambientais para o Ecodomínio do Cerrado. Proteger apenas cerca de 8% do
território, com menos de 3% sob proteção integral, é incompatível com sua
importância ecológica e hidrológica. A presença de dezenas de hidrelétricas em
seus rios reforça a pressão sobre sistemas aquáticos estratégicos. No conjunto,
os dados mostram uma priorização histórica do uso econômico em detrimento da
conservação.
• Quais são as estratégias de restauração
mais adequadas para a recuperação desse Ecodomínio?
Cássio
Cardoso Pereira – A restauração no Ecodomínio do Cerrado é um processo caro,
demorado e tecnicamente complexo, por isso a prioridade deve ser conservar o
que ainda existe de vegetação nativa, pois é mais eficiente manter sistemas
funcionais do que reconstruí-los após a degradação.
A
restauração é necessária nas áreas já convertidas ou degradadas e deve se
basear no conceito de ecossistemas de referência, utilizando áreas nativas bem
conservadas como modelo para recuperar a composição, a estrutura e os processos
ecológicos originais. Isso é especialmente importante em um sistema com cerca
de 14 ecossistemas distintos, entre campos, savanas e florestas tropicais,
exigindo abordagens específicas para cada contexto. Nesse sentido, deve-se
evitar o plantio de árvores em áreas naturalmente abertas e campestres, que
pode descaracterizar o funcionamento ecológico desses ambientes.
Além
disso, a restauração no Cerrado é um enorme desafio devido à escassez e à
degradação do banco de sementes no solo, frequentemente dominado por espécies
invasoras e com baixa capacidade de regeneração natural da flora nativa. A
limitada diversidade de sementes disponíveis em viveiros, especialmente de
espécies campestres e herbáceas, dificulta a reconstrução fiel dos
ecossistemas. Por isso, a restauração eficaz exige cadeias de sementes nativas,
uso de bancos de sementes in situ e ex situ, técnicas como transposição de
biomassa e planejamento de longo prazo baseado na diversidade, funcionalidade e
contexto ecológico local.
• Por que reconhecer o Cerrado como um
hotspot de biodiversidade é fundamental para a proteção ambiental?
Cássio
Cardoso Pereira – Um hotspot de biodiversidade é uma região com altíssima
riqueza de espécies e elevado grau de endemismo que, ao mesmo tempo, sofre
intensa perda de habitat e forte pressão antrópica. O Ecodomínio do Cerrado já
é reconhecido como hotspot desde 2000, devido à sua enorme biodiversidade e ao
avanço acelerado da conversão da vegetação nativa. No entanto, esse
reconhecimento precisa sair do papel e se traduzir em ações concretas de
conservação. Isso inclui ampliar áreas protegidas, zerar o desmatamento e
investir em restauração ecológica baseada na diversidade e em ecossistemas de
referência.
• É possível prevenir o colapso desse
ecossistema? Como?
Cássio
Cardoso Pereira – Do jeito que caminhamos, prevenir o colapso do Ecodomínio do
Cerrado exigirá esforço conjunto de governo, setor produtivo, ciência e
sociedade civil. É preciso zerar o desmatamento, ampliar áreas protegidas,
restaurar ecossistemas degradados, revisar o Código Florestal para aumentar a
proteção de vegetação nativa e regular o uso da água, inclusive frente às
hidrelétricas.
Essas
ações, aliadas à conservação in situ e ex situ da fauna e flora, garantem a
manutenção de interações ecológicas essenciais, como polinização e dispersão de
sementes, protegem os sumidouros de carbono subterrâneos que são fundamentais
para mitigar o aquecimento global e promovem produção e desenvolvimento
sustentáveis, preservando biodiversidade, recursos hídricos e estabilidade
ambiental.
• Deseja acrescentar algo?
Cássio
Cardoso Pereira – Preciso acrescentar que ainda existe uma visão equivocada
sobre o desmatamento do Cerrado. Muitas pessoas o tratam como se fosse o dólar,
que sobe e desce, mas o desmatamento é cumulativo: o que foi perdido não volta.
Reduzir o desmatamento é importante, mas precisamos sempre lembrar que a área
original do Cerrado é finita e, ano após ano, fica cada vez menor. Mesmo que
consigamos diminuir a taxa de desmatamento, chegará um ponto em que não sobrará
mais vegetação nativa suficiente para manter os processos ecológicos
essenciais, a biodiversidade e os serviços ambientais, como a proteção de rios
e sumidouros de carbono. Por isso, a única estratégia segura é zerar o
desmatamento e investir fortemente na restauração das áreas já degradadas,
garantindo a conservação do que resta e a recuperação do que foi perdido.
Fonte:
Entrevista com Cássio Cardoso Pereira, para IHU

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