Governo
Lula vê disputa polarizada após Datafolha e aposta em entregas para reagir
O
governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já trabalhava com a expectativa
de um cenário mais apertado na disputa eleitoral de 2026 e recebeu sem grande
surpresa a nova pesquisa Datafolha divulgada no sábado, 7 de março.
Segundo informações
publicadas pelo jornal Valor, integrantes do Palácio do Planalto avaliam
que o levantamento reforça a tendência de uma eleição fortemente polarizada
entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje visto como o nome mais
competitivo do campo da oposição.
O
diagnóstico dentro do governo é que a reação precisa passar menos por alarmismo
e mais por reorganização política e comunicacional. A leitura de auxiliares do
presidente é que o cenário ainda está em aberto, mas exige uma ofensiva clara
para apresentar ao eleitorado os resultados da atual gestão, sobretudo em temas
econômicos e sociais, que o núcleo político considera centrais para a reversão
do desgaste registrado nas pesquisas.
De
acordo com o Datafolha, Lula aparece com 46% das intenções de voto em um
eventual segundo turno, abaixo dos 51% registrados em dezembro. Já Flávio
Bolsonaro foi de 38% para 43%, reduzindo a distância entre ambos para três
pontos percentuais. Como a margem de erro do levantamento é de dois pontos
percentuais para mais ou para menos, o quadro é interpretado como de empate
técnico.
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Alerta já havia sido aceso no Planalto
Embora
o resultado seja visto como pouco favorável ao presidente, a avaliação
predominante no governo é que os sinais de aperto já vinham sendo emitidos por
outros levantamentos recentes. Como relatado anteriormente pelo Valor, o
Planalto entrou em estado de atenção desde o fim de fevereiro, quando pesquisa
da AtlasIntel já indicava empate entre Lula e Flávio Bolsonaro em uma simulação
de segundo turno.
Naquele
momento, integrantes do governo reconheciam que não esperavam uma disputa tão
encurtada tão cedo no calendário eleitoral. O entendimento era de que o governo
precisaria recalibrar sua comunicação para responder a pontos sensíveis que vêm
afetando a imagem presidencial, especialmente os temas de corrupção e segurança
pública.
Agora,
com a nova rodada do Datafolha, a percepção se consolidou. Um auxiliar de Lula
resumiu a posição do entorno presidencial ao afirmar: “Uma eleição não se ganha
nem se perde na véspera”. A frase traduz a tentativa de manter o controle
político diante de uma conjuntura adversa, mas sem ignorar a gravidade do sinal
emitido pelas pesquisas.
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Comunicação segue no centro do problema
Nos
bastidores, integrantes da equipe petista admitem que o governo continua
enfrentando dificuldades para consolidar politicamente suas ações. A avaliação
interna é que há resultados concretos em diversas áreas, mas esses avanços não
estão sendo convertidos, na mesma proporção, em aumento de aprovação ou em
fortalecimento da imagem do presidente.
Esse
diagnóstico não é novo. Desde fevereiro, o próprio governo já apontava a
comunicação como um de seus principais gargalos. A crítica recorrente dentro do
Planalto é que a gestão ainda não conseguiu organizar uma narrativa eficaz que
associe suas políticas públicas ao cotidiano da população, nem responder com a
mesma intensidade às ofensivas da oposição e da extrema direita.
No
núcleo governista, há o entendimento de que apenas entregar políticas públicas
não basta. Será necessário comunicar melhor, disputar interpretação e fazer com
que o eleitorado perceba que determinados indicadores positivos da economia e
do mercado de trabalho estão diretamente relacionados às escolhas do atual
governo.
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Corrupção e segurança pública pressionam a imagem do governo
Entre
os temas que mais preocupam aliados do presidente, estão justamente aqueles que
historicamente produzem maior desgaste para administrações petistas: corrupção
e segurança pública. Segundo a avaliação de integrantes do governo,
investigações e operações deflagradas durante o atual mandato acabaram gerando
ruído político, sobretudo porque parte do eleitorado pode não distinguir entre
o surgimento dos escândalos e o esforço institucional de combatê-los.
É nesse
contexto que o Planalto observa com preocupação a repercussão de casos como a
Operação Carbono Oculto, que investigou o envolvimento do Primeiro Comando da
Capital (PCC) em fraudes no setor de combustíveis, além das irregularidades em
descontos associativos aplicados sobre benefícios do INSS. No entendimento de
aliados de Lula, faltou contextualização pública para mostrar que as
irregularidades vieram à tona justamente porque estavam sendo investigadas e
enfrentadas.
A
interpretação predominante no governo é que, sem uma estratégia de comunicação
mais eficiente, parte da sociedade pode associar automaticamente esses
episódios à atual gestão, e não ao processo de apuração e desmonte de esquemas
ilícitos. Por isso, auxiliares defendem que o Executivo passe a enfatizar com
mais clareza o papel do Estado no combate às fraudes e na responsabilização de
envolvidos.
Na área
de segurança pública, a apreensão é ainda maior. Integrantes do governo tratam
o tema como um dos principais pontos vulneráveis do campo progressista.
Internamente, a segurança é descrita como um “calcanhar de Aquiles” de governos
petistas, o que amplia a pressão para que o Planalto assuma maior protagonismo
no debate, apresente resultados concretos e deixe de atuar apenas de forma
reativa.
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Governo tenta reagir com agenda social e econômica
A
resposta defendida por setores do governo passa por uma aposta mais contundente
nas entregas da gestão Lula. A estratégia é reforçar a divulgação de
indicadores econômicos, avanços sociais e medidas de proteção de renda como
forma de reconectar o governo com sua base popular e enfrentar a narrativa
oposicionista.
Foi
exatamente essa linha que o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) procurou adotar
ao comentar a divulgação da pesquisa. Para ele, o levantamento ocorre em um
ambiente especialmente desfavorável ao presidente, em meio a uma nova ofensiva
de desinformação da extrema direita. Em publicação na rede social X, o
parlamentar afirmou: “Mesmo assim, Lula continua liderando em todos os cenários
de primeiro e segundo turnos. Eles já estão em campanha. Nós vamos começar
agora. Vamos falar sobre a vida do povo brasileiro: menor desemprego da série
histórica, aumento real do salário mínimo, maior renda média da história,
inflação sob controle”.
Na
mesma manifestação, Lindbergh também elevou o tom contra o campo bolsonarista e
vinculou a disputa eleitoral a projetos antagônicos de país. Segundo ele, “A
extrema-direita já começou a mostrar seu verdadeiro plano de destruir a
política de valorização do salário mínimo, retirar direitos trabalhistas,
atacar aposentados e colocar novamente a economia a serviço dos bancos e dos
super-ricos”.
As
declarações refletem o movimento em curso dentro do PT e do governo:
transformar a disputa eleitoral em um confronto direto entre o legado social de
Lula e o programa ultraliberal da extrema direita. O objetivo é recolocar no
centro do debate questões como emprego, renda, valorização do salário mínimo e
proteção social, e reduzir o espaço da oposição para monopolizar temas como
segurança e moralidade pública.
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Polarização deve marcar o pleito de 2026
Nos
bastidores do Planalto, a convicção é de que o quadro de 2026 tende a ser
dominado por uma polarização intensa. A ascensão de Flávio Bolsonaro nas
simulações reforça a leitura de que o bolsonarismo mantém capacidade de
mobilização e deve tentar transformar a eleição em um plebiscito entre dois
projetos antagônicos, repetindo, em nova chave, a lógica da disputa política
que marcou o Brasil nos últimos anos.
Ao
mesmo tempo, auxiliares de Lula avaliam que a eleição ainda está longe de
definição. A aposta do governo é que há tempo para reorganizar a comunicação,
apresentar resultados com mais eficiência e recuperar terreno entre eleitores
que hoje demonstram insatisfação ou oscilação. A frase do auxiliar
presidencial, ao dizer que “Uma eleição não se ganha nem se perde na véspera”,
sintetiza esse esforço de resistir à pressão do momento sem subestimar a
necessidade de correções imediatas.
O
problema central para o governo, portanto, não parece ser apenas o conteúdo da
pesquisa, mas aquilo que ela explicita: a disputa já começou de fato no
imaginário político nacional, e o campo governista entende que precisará agir
rapidamente para evitar que a vantagem simbólica da oposição se consolide em
torno dos temas mais sensíveis ao eleitorado.
Diante
disso, o Planalto trabalha com uma dupla missão. De um lado, precisa
intensificar a exibição de seus feitos administrativos e econômicos. De outro,
terá de construir uma narrativa mais firme para mostrar que o combate à
corrupção e a resposta ao crime organizado não são passivos do governo, mas
parte de uma ação ativa do Estado. É nessa combinação entre entrega concreta e
disputa de narrativa que o lulismo aposta para enfrentar uma corrida eleitoral
que, desde já, se anuncia dura, polarizada e imprevisível.
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Lula lidera entre católicos e Flávio Bolsonaro avança
entre evangélicos
Uma
pesquisa do instituto Datafolha divulgada neste sábado (7) aponta diferenças
significativas nas intenções de voto para a Presidência da República quando o
eleitorado é analisado a partir da religião. O levantamento revela que o
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apresenta vantagem entre eleitores que se
identificam como evangélicos, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT) aparece à frente entre católicos.
De
acordo com reportagem publicada pela
revista CartaCapital, os dados mostram que o desempenho eleitoral dos dois
políticos varia conforme o segmento religioso. Entre evangélicos, Flávio
Bolsonaro alcança cerca de metade das intenções de voto, enquanto Lula
registra, no máximo, 23%, dependendo do cenário analisado para o primeiro
turno. Nesse grupo específico, a margem de erro é de quatro pontos percentuais.
Já
entre os católicos, o quadro se inverte. Lula lidera com 45% das intenções de
voto, enquanto Flávio Bolsonaro aparece com até 30%. Nesse segmento, a margem
de erro estimada pela pesquisa é de três pontos percentuais.
O
levantamento também indica que os católicos correspondem a 48% dos
entrevistados, enquanto os evangélicos representam 28% da amostra. Segundo o
Datafolha, essa distribuição reflete de maneira aproximada a composição
religiosa do Brasil apontada pelo Censo de 2022.
Considerando
o conjunto do eleitorado, o presidente Lula aparece na liderança em todos os
cenários de primeiro turno avaliados pelo instituto, embora com vantagem
estreita sobre Flávio Bolsonaro.
Em uma
eventual disputa de segundo turno entre os dois, Lula registra 46% das
intenções de voto, contra 43% do senador. No entanto, o resultado configura
empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais para o
cenário geral.
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Flávio conseguiu recuperar a expectativa de vitória do
bloco anti-Lula. Por Jeferson Miola
No
início do segundo semestre do ano passado, Lula recuperou os índices de
aprovação do governo e alentou as expectativas de reeleição em outubro de 2026.
Pesquisas
mostravam, inclusive, a possibilidade de Lula obter, já no primeiro turno, mais
votos que a soma das candidaturas oponentes.
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No
entanto, a partir de novembro, com a chacina no Rio de Janeiro, a evolução da
CPMI do INSS e o escândalo Master, a gangorra da conjuntura política passou a
pender para o lado das oposições bolsonarista, lavajatista e antipetista.
Esses
três eventos condensam duas das principais preocupações do eleitorado mais
desfavoráveis ao governo, segundo as pesquisas:
- crime/insegurança/violência;
- corrupção.
Com
isso, apesar de Lula ainda manter o favoritismo, esvaneceu-se o cenário de
vitória dele no primeiro turno. O horizonte é de uma eleição renhida, disputada
voto a voto nos dois turnos.
O
desfile de carnaval da Acadêmicos de Niterói, por certo, também teve certa
influência, porém em escala muito menor que aquela alarmada, até com algum
exagero e impressionismo.
No
início de dezembro, Bolsonaro ungiu seu filho Flávio como o candidato
presidencial do bolsonarismo. O que parecia ser um movimento equivocado
mostrou-se bastante acertado.
Beneficiando-se
da impressionante taxa de transferência eleitoral e de uma monumental ofensiva
no mundo cibernético, Flávio se consolidou rapidamente, compactou o campo
bolsonarista e afastou o risco de comparação desfavorável com Tarcísio de
Freitas, o que poderia questionar a escolha e obrigar a um recuo.
Esse
cenário esvaziou o movimento das três pré-candidaturas do PSD e acabou com a
ilusão da direita antipetista que busca se disfarçar de “terceira via” como
“alternativa” à polarização.
O maior
êxito da candidatura de Flávio, contudo, foi conseguir recuperar a expectativa
de vitória do bloco anti-Lula.
Repaginado
pela mídia e apoiado no marketing suavizador da imagem de gângster do clã,
Flávio passou a ser cortejado pela Faria Lima, pelos órgãos de imprensa, pelo
empresariado (inclusive o prejudicado pelo tarifaço de Trump), pelos setores
nem bolsonaristas nem lulistas, pelos partidos fisiológicos que estavam em cima
do muro e por todo o espectro antipetista, mesmo que não bolsonarista.
Embalada
pela recuperação da expectativa de competitividade eleitoral contra Lula, a
mídia hegemônica aprofundou seu jornalismo de guerra para atingir Lula de duas
maneiras: com falsificações a respeito de Fabio Luís, o Lulinha; e por meio do
debilitamento do STF, para implodir a governabilidade do país no ano eleitoral
e facilitar o caminho de Flávio, um gângster ainda pior e mais articulado que o
pai.
As
águas de março prenunciam os próximos dias, semanas e meses de combates
duríssimos. Até a eleição em outubro, será um período de guerra suja, de
imundícies nunca antes vistas, como os grupos de comunicação evidenciaram nos
recentes ataques sincronizados.
Impregnada
de um ódio antipetista visceral, essa mídia anti-Lula, anti-PT e anti-povo não
desperdiça nenhuma oportunidade, por menor que seja, de tentar destruir o
governo, mesmo que o efeito colateral dessa escolha seja afundar o país no
abismo do fascismo e da barbárie.
Para as
classes dominantes, a democracia não é um componente vital da vida em sociedade
e sempre pode ser destruída quando governos de recorte distributivista
atrapalham o processo de roubo e saque da riqueza e da renda nacional.
A
eleição deste ano será ainda mais decisiva para a sobrevivência da democracia,
da soberania e para a continuidade do processo de melhoria das condições de
vida do povo brasileiro.
Com
suas realizações, o governo Lula larga com favoritismo, mas a confirmação da
vitória dependerá da capacidade de combate do campo democrático-popular nesta
guerra insana da lúmpemburguesia dominante contra a democracia e o povo
brasileiro.
Fonte:
Brasil 247

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