Feminicídio
e violência contra a mulher: Medida protetiva tem falhas mas ainda salva vidas
Cibelle
Monteiro Alves tinha 22 anos quando seu ex-namorado entrou no shopping onde
trabalhava e a matou com uma faca. O crime, registrado como feminicídio,
ocorreu em fevereiro deste ano, na cidade de São Bernardo do Campo, na Grande
São Paulo, porque o agressor não aceitava o fim do relacionamento.
Alves
já havia registrado mais de um Boletim de Ocorrência contra Cássio Henrique da
Silva Zampieri, 25, seu assassino, e tinha uma medida protetiva de urgência
contra ele. Em uma situação anterior ao feminicídio, ela chegou a acionar a
polícia quando Zampieri tentou invadir seu prédio. O socorro, entretanto, só
chegou uma hora e meia depois, quando ele já tinha ido embora.
Esse é
um dos diversos casos recentes de mulheres vítimas de feminicídio, mesmo tendo
medidas protetivas que deveriam protegê-las. “O que adianta essa tal de medida
protetiva se não tem uma proteção? Por que se chama medida protetiva? É medida
‘improtetiva’. O bandido que vai matar, que é violento, sabe que não vai
acontecer nada com ele”, desabafou a apresentadora Ana Maria Braga nas redes
sociais.
Um
levantamento recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostra que
uma em cada 10 vítimas de feminicídio no Brasil em 2025 tinha medida protetiva
concedida pela Justiça quando foi morta. Em São Paulo, o resultado foi ainda
mais gritante: uma em cada cinco vítimas contava com a proteção judicial, que
não funcionou.
Mas
isso quer dizer que medida protetiva não funciona? Para especialistas ouvidas
pela Agência Pública, a resposta é que, apesar de o mecanismo ser falho e
precisar de aprimoramentos, ele ainda é essencial para a proteção da mulher.
<><>
Ex-ministra e pesquisadora defendem a medida
“O que
eu diria para uma mulher que está em dúvida se pede medida protetiva por medo
de não funcionar? Eu diria: acredite na medida protetiva. Ela salva vidas”,
afirma Cida Gonçalves, que foi ministra das Mulheres de janeiro de 2023 a maio
de 2025, no terceiro governo Lula. Ela participou da formulação da Lei Maria da
Penha e do Ligue 180, que recebe denúncias de violência contra a mulher, além
de outras políticas como a Casa da Mulher Brasileira.
“Mas
isso não quer dizer que não há questões a serem melhoradas. É preciso investir
mais nas Patrulhas Maria da Penha [que fiscalizam o cumprimento de medidas
protetivas] e insistir no uso das tornozeleiras [eletrônicas], para os
agressores serem monitorados com mais efetividade”, afirma.
Gonçalves
se refere a uma lei aprovada em abril do ano passado que permite a colocação do
dispositivo de monitoramento em agressores de mulheres alvos de medida
protetiva. Assim, é possível verificar a localização geográfica em tempo real,
avisar a vítima e a polícia em caso de aproximação. A medida tem que ser
ordenada pelo juiz na concessão da proteção. Por ser relativamente recente,
ainda são poucos os magistrados que a adotam, segundo a ex-ministra.
Juliana
Ribeiro Brandão, pesquisadora sênior do FBSP, concorda que as medidas
protetivas são uma das estratégias mais importantes previstas na Lei Maria da
Penha. Ela, inclusive, sugere mudar o foco: apesar de uma em cada 10 vítimas
ter medida protetiva, pode-se considerar que nove em cada 10 não tinham essa
proteção.
“As
[cerca de] 13% [das mulheres vítimas de feminicídio] que tinham medida
protetiva conseguiram superar todas as dificuldades do ciclo de violência:
perceber a relação abusiva, ter coragem para fazer a denúncia, pedir a proteção
à Justiça e [ser] concedida, [o que] a grande maioria ainda não consegue sequer
alcançar”, pondera Brandão.
A
pesquisadora também chama a atenção para um descompasso: ao mesmo tempo em que
os números de feminicídio têm trajetória ascendente, as prisões de agressores
também aumentaram nos últimos anos. São Paulo, por exemplo, prendeu 18,5 mil
agressores de mulheres em 2025, um recorde. Mas também teve o maior número de
feminicídios da série histórica: foram 270 mortes no ano.
Isso
quer dizer, afirma Brandão, que a violência contra a mulher não é resolvida
apenas com medidas punitivas – mesmo com o endurecimento das penas, como
aconteceu recentemente. “A tendência tem sido tratar esses crimes com mais
severidade. Mas como esperar que um agressor vá se recuperar num sistema penal
superlotado e com condições precárias?”, questiona.
“Ainda
colocamos muita energia no viés repressivo e muito pouca no preventivo. Uma
medida protetiva funciona como uma redução de danos, ela diminui as chances de
acontecer uma violência fatal. Mas não mexe na origem dessa violência”,
observa.
<><>
Políticas públicas precisam se voltar para a prevenção
O ponto
é que, enquanto as mulheres alcançaram mais igualdade de direitos nos últimos
anos, também houve uma reação forte, principalmente por parte dos homens. Isso
se reflete em números, tendo em vista que mortes violentas da população em
geral vêm diminuindo no Brasil nos últimos anos, e os números de violência
contra a mulher aumentam. De 2024 para 2025, houve redução de 11% nas mortes
violentas, e um crescimento de quase 5% nos feminicídios, alcançando o recorde
da série histórica, segundo o FBSP.
Mais do
que isso, os crimes cometidos contra mulheres estão cada vez mais cruéis. Em
casos que chocaram o país nos últimos meses, homens não apenas agrediram e
mataram mulheres, mas o fizeram de forma cada vez mais violenta: atropelando e
arrastando na rua, ateando fogo, atacando no local de trabalho, ou na frente de
filhos, que em alguns casos, são mortos também. A grande maioria desses
assassinatos, oito em cada 10, foi cometida pelos companheiros ou
ex-companheiros das vítimas.
Para
Gonçalves, as redes sociais permitiram uma propagação sem precedentes do ódio
contra mulheres. Canais com conteúdo de ódio contra as mulheres, conhecidos
como ‘red pill’, são acessados por qualquer pessoa, inclusive crianças. “O
movimento feminista fez uma revolução no Brasil e no mundo sem dar um único
tiro. Mas agora as mulheres estão pagando”, afirma citando a socióloga e
ex-senadora, Eva Blay em um artigo no jornal “Folha de S.Paulo”.
Um dos
elementos presentes na Lei Maria da Penha é a obrigação dos agressores passarem
por centros de reeducação e acompanhamento psicossocial, em busca de
reabilitação. No entanto, essa parte também não é realizada plenamente,
principalmente no interior do país.
“Temos
que criar uma política nacional de reeducação do agressor. Não basta só fazer
um grupo de agressores, se reunir algumas vezes, que vai gerar uma reeducação.
Estamos numa sociedade patriarcal, machista, com homens criados para serem
machistas. O feminicídio é um crime evitável. O Estado tem que fazer todos os
esforços para que a mulher não morra”, ressalta Gonçalves.
Brandão
concorda que apenas a punição aos agressores não é efetiva no longo prazo, além
de colocar nas costas das mulheres toda a responsabilidade de garantir sua
própria proteção. “Se todas as fichas estão na medida protetiva, então a
balança pesa mais uma vez sobre a vítima. O problema não é só a falta de
efetividade da medida protetiva, mas todo o contexto de falta de políticas de
prevenção e acompanhamento de potenciais vítimas”, conclui.
Fonte:
Por Amanda Audi, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário