quarta-feira, 11 de março de 2026

Pedro Benedito Maciel Neto: Trump e "o declínio do império norte-americano"

O filme “O Declínio do Império Americano”, de 1986, do diretor Denys Arcand, nunca foi tão atual. Nele, oito amigos se encontram para um jantar e conversam, entre outras coisas, sobre teorias que explicavam o mundo que, no final da década de 1980, começavam a ser contestadas. Ao mesmo tempo, falam sobre as escolhas políticas e culturais que a geração nascida nos anos 1950 fez nesse período; há um monólogo no final do filme bastante importante.

Há um célebre monólogo final do filme no qual a personagem Dominique reflete sobre o fato de que os grandes impérios não caem apenas por invasões externas, mas por uma exaustão interna, na qual a busca pelo prazer pessoal e a indiferença superam os ideais coletivos. Eis parte dele: “Quando penso na história, vejo um vasto cemitério... Grandes impérios, civilizações refinadas... todos desaparecem. E nós? Nós estamos apenas desfrutando dos últimos dias de um império. Estamos preocupados com nossas pequenas vidas, nossos prazeres, nossos confortos, enquanto o mundo ao nosso redor está em chamas ou prestes a desmoronar. A história não se importa com a nossa felicidade individual.”

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O fato é que, em 1986, há quarenta anos, a percepção do declínio do grande império estadunidense foi pautada pelo diretor canadense e, creiam, existe um padrão histórico que se repete, mostrando como impérios colapsam ao longo dos séculos.

Os EUA removeram o ditador-presidente da Venezuela, ao arrepio do Direito Internacional, e agora declaram guerra ao Irã em busca de controle do petróleo e com o objetivo de atrapalhar a “nova rota da seda”, além de constranger os BRICS, argumento que vou defender noutro artigo, demonstrando o desespero do Império.

Tal “padrão histórico do colapso dos impérios” possui estágios identificáveis e mensuráveis que aparecem em uma sequência mais ou menos previsível. Exemplos históricos incluem a Espanha do século XVII, o Império Britânico do século XIX e a União Soviética; o próximo império a ruir seriam os Estados Unidos, pois a superpotência atual, que domina o mundo desde a II Guerra, está a caminho do colapso.

Impérios começam seu declínio no auge de seu poder aparente, expandindo comprometimentos militares além da sustentabilidade econômica. Foi assim com a Espanha do século XVII, que mantinha exércitos em Flandres e frotas no Mediterrâneo, gastando mais do que a prata das colônias podia financiar, resultando em déficit operacional permanente; com a Grã-Bretanha, cuja vasta extensão do império exigia uma marinha gigante e guarnições globais, com custos insustentáveis — evidentemente as duas guerras mundiais aceleraram o processo —; e com a União Soviética, que gastava 15% a 20% do PIB em despesas militares, levando à estagnação econômica.

Os Estados Unidos possuem 800 bases militares em mais de 70 países, com um orçamento de defesa de quase 1 trilhão de dólares anuais. O custo total real de todos os comprometimentos militares americanos é de 1,5 trilhão anualmente, cerca de 6% do PIB, superando o crescimento econômico real, o que aponta para um colapso inevitável.

Some-se ao custo militar a depreciação do dólar.

Nos Estados Unidos, a dívida nacional é de 35 trilhões de dólares, ou 120% do PIB, e continua crescendo; o déficit anual é de 1,8 trilhão, e apenas os juros sobre a dívida excedem 1 trilhão de dólares anualmente. A dívida cresce mais rápido que o PIB, tornando-se insustentável.

Enquanto o governo estadunidense desperdiça recursos em gastos improdutivos, a economia real encolhe e a base industrial atrofia; foi assim com outros impérios.

No caso do colapso do império americano, parecem existir vários desses fatores: a indústria, que era 27% do PIB em 1960, hoje é 11%; cidades industriais como Detroit e Cleveland colapsaram; os EUA dependem da China para eletrônicos, medicamentos e componentes críticos, uma dependência estratégica perigosa.

Com a economia real encolhendo e bons empregos desaparecendo, a coesão social desmorona.

Há um elemento que precisamos observar: o dólar vem perdendo o status de “moeda de reserva”. O mundo está mudando: China e Rússia estão comerciando em moedas locais; os BRICS estão criando mecanismos de pagamento alternativos; e a Arábia Saudita aceita yuan por petróleo. A participação do dólar nas reservas globais caiu de 70% para 58%, indicando uma erosão constante no citado status. Quando o status de reserva se vai, a capacidade de financiar déficits desaparece, a espiral da dívida torna-se insustentável e a inflação explode.

Quando ocorrerá o colapso do império americano? O tempo é incerto, pode ocorrer em 5 ou 20 anos, mas a direção é clara, pois não há país excepcional, não há povo escolhido, não há império eterno. Roma, mongóis, Espanha, Grã-Bretanha e URSS, além dos otomanos, caíram seguindo o mesmo padrão, e os EUA dão sinais claros de decadência, o que os torna mais perigosos do que nunca. Afinal, eles têm a tal bomba atômica e, como sabemos, a história não se importa com a nossa felicidade individual.

¨      "Se o Irã tiver fôlego, Trump será desmoralizado", diz Farinazzo

O comandante Robinson Farinazzo afirmou que o desfecho da guerra em curso tende a ser definido menos pelo “número de mortos” e mais pela capacidade de resistência das partes. Em entrevista à TV 247, aos jornalistas Leonardo Attuch e Joaquim de Carvalho, ele avaliou que, “se o Irã aguentar essa campanha por um bom tempo, Trump vai ficar em situação difícil”.

Ao responder se Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, “está ganhando ou perdendo essa guerra”, Farinazzo destacou que a principal surpresa do conflito foi a reação iraniana. “Ninguém esperava essa reação do Irã. Agora, qual é a questão central? É saber quem vai resistir por mais tempo.”

Segundo ele, há um elemento estrutural de desgaste para os Estados Unidos e seus aliados: “Cada vez que o Irã lança um míssil contra uma base americana ou contra Israel, são necessários dois, às vezes três ou quatro mísseis de defesa aérea para fazer a interceptação.” Ele observou que os mísseis interceptadores são mais caros, mais complexos e mais demorados de fabricar.

<><> Guerra de resistência e custo político

Para o comandante, trata-se de uma “queda de braço” cujo desfecho ainda é incerto. “É uma queda de braço que a gente não sabe quando vai acabar efetivamente.” Ainda assim, foi enfático quanto às consequências políticas para Trump em caso de fracasso: “Se o Trump perder essa guerra, ele está liquidado.”

Questionado sobre a capacidade do Irã de sustentar um conflito prolongado, Farinazzo afirmou que essa é “a pergunta de um bilhão de dólares”, reconhecendo que parte das análises envolve hipóteses. Contudo, declarou como ponto seguro que a China estaria fornecendo informações estratégicas a Teerã. “A China está fornecendo informações de satélite para o Irã. Ponto.”

Ele explicou que esse tipo de dado inclui localização de navios, situação de bases aéreas e outras informações relevantes para o planejamento militar.

<><> China, petróleo e rota da seda

Na avaliação de Farinazzo, o conflito também tem dimensão geopolítica mais ampla. “Eu acho que é para fechar a rota da seda e também para tirar um dos grandes fornecedores de petróleo da China, que é o Irã.”

Ele lembrou que o Irã fornece parcela relevante do petróleo consumido por Pequim e destacou que a China historicamente atua com discrição em seus apoios estratégicos. “A China sempre foi discreta. Nós só vamos saber a extensão desse apoio no término da guerra ou talvez depois.”

<><> Risco de escalada e armas nucleares

Ao tratar da possibilidade de escalada global, Farinazzo alertou para o risco de descontrole caso os estoques de mísseis defensivos dos Estados Unidos se esgotem. Nesse contexto, não descartou um cenário extremo: “Você duvida que uma pessoa como Trump ou Netanyahu poderia usar armas nucleares? Eu não duvido.”

Ele reforçou a preocupação ao lembrar que os Estados Unidos foram o único país a utilizar armas nucleares em guerra. “Eu não duvido que eles usem armas nucleares.”

<><> Brasil, eleições e a viagem de Lula

Sobre o Brasil, Farinazzo defendeu que o país mantenha postura de neutralidade, mas considerou importante condenar o que classificou como ataque “sem justificativa”. Também demonstrou preocupação com possíveis reflexos internos em ano eleitoral, mencionando o risco de instabilidade e violência política.

Nesse contexto, sugeriu que o presidente Lula adie a viagem aos Estados Unidos. “Acho que ele deveria adiar. Vai ser muito constrangedor para uma liderança como o presidente Lula, que é um expoente do Sul Global, sair na foto com Donald Trump neste momento.”

Ele acrescentou: “Sair na foto com Donald Trump neste momento, com crianças sendo enterradas no Irã, é algo muito delicado.”

Ao comentar o cenário político internacional, afirmou: “O que se pode esperar de um presidente que sequestra o presidente de um país soberano? Sequestrou Maduro, ameaça Cuba e agora ataca o Irã sem justificativa.”

Na sua visão, setores neoconservadores dos Estados Unidos não teriam interesse na reeleição de Lula. “Não é do interesse dos neocons uma reeleição do presidente Lula.”

<><> Defesa nacional e diálogo interno

Farinazzo também abordou as limitações estruturais do Brasil na área de defesa, citando fragilidades em sensoriamento, guerra eletrônica e produção de tecnologias estratégicas. Defendeu maior investimento na indústria nacional e ampliação do debate público sobre soberania.

Por fim, enfatizou a necessidade de diálogo entre diferentes campos políticos e as Forças Armadas. “É um erro os militares não conversarem com a esquerda, e é um erro da esquerda não conversar com os militares.” E concluiu: “A esquerda tem que conversar com os militares e vice-versa.”

Na avaliação do comandante, o mundo vive um momento de alta tensão e imprevisibilidade, em que o fator decisivo será a capacidade de resistência e o cálculo político das lideranças envolvidas.

¨      Sachs diz que EUA fracassarão em guerra com o Irã e acusa Israel de terrorismo

A escalada militar envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel voltou ao centro do debate geopolítico após novos ataques atribuídos por analistas à estratégia de pressão e confronto no Oriente Médio. Em meio ao agravamento do cenário, o economista e professor Jeffrey Sachs avaliou que a tentativa de impor uma “mudança de regime” em Teerã tende ao fracasso e pode produzir consequências “muito sérias” para a região e para o mundo.

As declarações foram dadas por Sachs em entrevista ao programa India and Global Left, publicado no YouTube, em que ele atribui a ofensiva a uma linha de ação de décadas conduzida por Washington e Tel Aviv e afirma que “este [novo] ataque também vai falhar”. Segundo ele, o objetivo central seria derrubar o governo iraniano “de um jeito ou de outro”, por meio de bombardeios, assassinatos e guerra econômica. 

<><> A tese de uma estratégia de longo prazo contra Teerã

Na conversa, Sachs descreve o que chamou de um “programa de longo prazo” envolvendo serviços de inteligência e governos aliados, com o Irã como “grande alvo”. Ele lista, como parte desse rastro de conflitos, episódios como a derrubada do governo na Líbia em 2011, a guerra no Iraque em 2003 e a operação iniciada em 2011 para derrubar o governo sírio, além de citar a ocupação e anexação da Cisjordânia e o que ele define como “genocídio em Gaza”.

Ao comentar a lógica do confronto, o economista sustenta que a dinâmica não se limitaria ao Irã, mas se conectaria ao projeto de hegemonia regional: “Os EUA e Israel miram a hegemonia no Oeste Asiático”, afirma, usando o termo que aparece na entrevista para se referir ao Oriente Médio.

<><> “Israel é um Estado terrorista”, diz Sachs ao citar Gaza

Questionado sobre a natureza dos ataques e seus efeitos sobre civis, Sachs endureceu o tom ao abordar a guerra em Gaza e responsabilizar Israel por mortes em larga escala. “Israel cometeu um genocídio em Gaza. Matou dezenas de milhares de crianças. Então, Israel é um Estado terrorista”, disse, em uma das passagens mais contundentes da entrevista.

Ele também afirmou que ações como assassinatos e tentativas de atingir lideranças políticas extrapolam limites legais e elevam o risco de escalada. “Assassinar chefes de Estado estrangeiros é um comportamento extremamente perigoso, provocativo, imprudente e ilegal”, declarou, acrescentando que “vangloriar-se disso” seria “além do vulgar”.

<><> “Ataques de decapitação” e a aposta frustrada em “mudança de regime”

Na avaliação do professor, uma ação de “decapitação” — termo usado na entrevista para descrever a tentativa de eliminar a cúpula de poder — não derrubaria o Estado iraniano, mas empurraria o país para uma lógica de guerra. Ele argumenta que o Irã é “uma política muito institucionalizada” e que a estrutura de comando tenderia a se reorganizar, com maior protagonismo do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica.

“Um ataque de decapitação, literalmente matando a cabeça do governo, não vai mudar o governo iraniano”, afirmou. Para Sachs, a ideia de que EUA e Israel conseguiriam impor uma transição política em Teerã seria “como tantas outras ações delirantes” e “essencialmente condenada ao fracasso”.

<><> Bases militares no Golfo e o risco para aliados de Washington

Sachs também apontou os países do Golfo como parte vulnerável do tabuleiro, por abrigarem instalações militares norte-americanas. Segundo ele, isso transforma tais Estados em atores sem liberdade plena de decisão. “A região do Golfo não pode falar o que pensa e não fala o que pensa”, disse, ao sustentar que hospedar bases não significaria proteção, mas subordinação.

Na entrevista, ele cita uma máxima atribuída a Henry Kissinger para ilustrar o dilema: “Ser inimigo dos Estados Unidos é perigoso, mas ser amigo é fatal”. Em seguida, recomendou que países evitem sediar bases e, quando já existirem, busquem retirá-las para recuperar soberania.

<><> Guerra de mísseis e limites de munição: semanas decisivas

Ao tratar do campo de batalha, Sachs afirma não ser “um especialista original” em assuntos militares, mas diz ouvir de fontes que o Irã teria mais mísseis do que EUA e Israel teriam capacidade de defesa antimísseis. Se essa leitura estiver correta, ele projeta uma guerra de atrito entre ataque e interceptação, com crescente vulnerabilidade israelense ao longo das semanas.

Ele também menciona a possibilidade de limitação de estoques de munição dos EUA na região. “Pelas contas militares que ouço, os EUA têm duas ou três semanas de munições na região para levar adiante esse bombardeio. Depois disso, quem sabe?”, afirmou, ao acrescentar que outras frentes — como a guerra na Ucrânia e a campanha israelense em Gaza — teriam pressionado inventários norte-americanos.

<><> Trump, opinião pública e custo político interno

A entrevista aborda ainda o impacto doméstico da guerra nos Estados Unidos. Sachs afirma que pesquisas indicariam baixo apoio popular a um conflito e sustenta que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estaria se desgastando. “Trump é impopular e cada vez mais impopular”, disse, avaliando que a guerra “vai acelerar” a queda de sua popularidade caso não haja um “resultado” que ele considere vitorioso.

Ele prevê, ainda, que eventos como mortes de militares norte-americanos, aumento expressivo do preço do petróleo e falhas no sistema de defesa israelense podem transformar o tema em prioridade interna. “Se houver perda de vidas americanas… se houver uma grande disparada do preço do petróleo… isso vai dar uma urgência a esse tema”, afirmou.

Sachs cita também uma pesquisa da Gallup, mencionada na entrevista, como sinal de mudança de percepção pública: pela primeira vez, segundo ele, mais norte-americanos estariam do lado dos palestinos do que dos israelenses. “Israel está, na minha visão, cometendo uma espécie de suicídio político por suas práticas realmente fascísticas”, disse.

<><> ONU dividida e o peso das alianças com os EUA

Ao narrar sua passagem pelo Conselho de Segurança da ONU, Sachs afirmou que foi impedido de depor e descreveu uma reunião marcada por divisão e pelo que considera inversão de responsabilidades. Ele relata que “a maioria dos países” teria culpado o Irã “por ter sido atacado”, e atribui esse comportamento à presença militar norte-americana em certos territórios.

Ele lista oito países — Bahrein, Colômbia, Dinamarca, Grécia, Letônia, Panamá, Reino Unido e Estados Unidos — como exemplos de Estados que, segundo sua avaliação, têm bases norte-americanas ou concedem direitos de uso e, por isso, adotariam a linha de Washington. Para Sachs, essa dinâmica enfraquece a defesa de princípios centrais da Carta da ONU, como a proibição do uso da força contra Estados soberanos.

Ao final, o economista afirmou que sua mensagem aos iranianos seria de solidariedade e oposição às guerras conduzidas, em suas palavras, por estruturas de poder e interesses internos. “As pessoas devem entender no Irã que, como americanos, somos contra o que está acontecendo… Essas não são guerras dos americanos. São guerras do complexo militar-industrial da América”, declarou.

 

Fonte: Brasil 247

 

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