Flávio
Aguiar: Europa - 50 países em busca de um continente
A
Europa é o continente que tem mais países por quilômetro quadrado: 50. Nesta
contagem, tomo duas liberdades. Primeira: estou incluindo o chamado Chipre
Turco, a metade da ilha que se declarou independente e que só a Turquia
reconhece. Segunda: excluo a Rússia, que geopoliticamente foi expulsa da Europa
e passou a ser um país exclusivamente asiático, levando consigo quase 10% do
território geográfico europeu.
Também
é o continente cujo mapa de países soberanos e cujas fronteiras passaram por
mais mudanças desde o século XIX, todas elas dramáticas e traumáticas.
O
século XIX viveu sob a égide conservadora do chamado “Concerto Europeu”,
nascido em 1815 no Congresso de Viena, pós-napoleônico.
A
miríade de reinos, ducados e principados em que se dividia a Europa atravessou
este período sob a liderança dos países vencedores, Rússia, Prússia,
Grã-Bretanha e Áustria, e da França Restaurada, que virou República, depois
novamente Império, e por fim de novo República.
Este
“Concerto Europeu” passou por sérios abalos, como o isolamento da Rússia
durante e depois da Guerra da Criméia (1853 – 1856), e a Guerra
Franco-Prussiana (1870 – 1871), que terminou com a derrota humilhante da França
e a proclamação do Império Alemão em pleno Palácio de Versalhes, nos arredores
de Paris. Assim mesmo, ele incorporou o Império Otomano e sobreviveu até seu
fim apocalíptico na Primeira Guerra Mundial, quando desapareceram o Império
Alemão e o Austro-Húngaro, o Imério Otomano começou a se desfazer e o Império
Russo se transformou na União Soviética.
A
partir daí a Europa se viu convulsionada pela ascensão do nazi-fascismo e suas
anexações até o final da Segunda Guerra Mundial. A Europa que emergiu desta
hecatombe viveu dividida entre o Ocidente, transformado num protetorado
norte-americano através da OTAN, e o Leste, administrado pela União Soviética
através do Pacto de Varsóvia.
Apesar
das ditaduras na Grécia, na Espanha e em Portugal, a Europa Ocidental deste
momento caracterizou-se em grande parte pela social-democracia, vista como uma
alternativa democrática aos regimes comunistas.
O
colapso da URSS abriu espaço para a criação da União Europeia em 1999, que hoje
abrange 27 países, secundada pela Zona do Euro, moeda adotada por 20 deles.
Desde então houve uma aproximação dos países do antigo Leste Europeu da OTAN e
dos Estados Unidos, intensificada pela Gerra na Ucrânia a partir de 2022.
A União
sofreu um forte abalo com a saída do Reino Unido a partir de 2016, depois de um
plebiscito catastrófico chamado pelo primeiro-ministro conservador David
Cameron. Hoje também está pressionada pela política imperial adotada pelo
governo de Washington, liderado por Donald Trump.
Algum
tempo atrás a União Europeia e por tabela a Europa toda tinham o aspecto de um
Ancien Régime equilibrado, vetusto e estável.
Entre o
final da primeira e a metade da segunda década deste século este equilíbrio
reinou. A inflação continental era baixa, o euro era valorizado e estável, os
problemas sociais eram evitados, mitigados ou contidos. Os planos de
austeridade imperavam, incontestes.
Havia
uma Rainha-Mãe (Angela Merkel) severa, mas simpática e protetora; um
burgomestre (Nicolas Sarkozy) saltitante e seguro de si, sucedido por outro
(François Hollande) menos lustroso, mais cinzento e opaco, mas igualmente
confiável para o equilíbrio das finanças. Havia uma Príncipa Herdeira, Úrsula
von der Leyen, que, de fato, veio a herdar da Rainha-Mãe o reino da União
Europeia.
Na ilha
o brilhoso e faceiro David Cameron, Embaixador da Corte junto aos ilhéus, dava
as tintas conservadoras; o mesmo fazia desde a Capela Sixtina o doutrinário e
ultra-montano Capelão-Mor, Bento XVI. Havia até um Bobo da Corte em Roma,
Silvio Berlusconi. E na Tesouraria quem dava as tintas no Banco Central
Europeu, desde o Bundesbank em Frankfurt, o Banco Central Alemão, era Jens
Weidman, que faria Roberto Campos parecer um aventureiro esquerdista.
Não
faltava nem mesmo um Rasputin, Vladimir Putin, que irrigava a economia alemã e
europeia com o gás russo. Para completar a cena, houve até um Príncipe Rebelde,
o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, do esquerdista Syriza, cujo governo
foi reduzido a frangalhos pela pressão da Rainha-Mãe e seus aliados nos bancos
credores alemães e outros europeus.
Este
bloco tinha a firmeza de um gigantesco iceberg, e como um iceberg ele
derreteu a partir de 2016, quando David Cameron meteu os pés pelas mãos com seu
desastrado plebiscito.
Hoje
todos aqueles personagens são sombras do passado, com exceção de Vladimir
Putin, que permanece mais vivo do que nunca, mas banido para a Ásia, sob o
braço protetor de Xi Jinping.
O
derretimento definitivo aconteceu a partir de 2022, com a adesão da Alemanha às
sanções econômicas contra a Rússia, devido à guerra na Ucrânia e a pressão
norte-americana. Moscou fechou as torneiras do gás, e a crise energética abalou
profundamente a economia alemã e por conseguinte a europeia. Aliás, os
gasodutos entre a Rússia e a Alemanha foram sabotados num incidente até hoje
não esclarecido.
Aqueles
personagens acima enumerados foram substituídos pela atual coleção de
mediocridades espantosas, com raras exceções: Pedro Sanchez na Espanha,
Francisco I e agora Leão XIV no Vaticano e um ou outro perdido no nevoeiro em
que a Europa se transformou.
No
comando da União Europeia Ursula von der Leyen parece uma comandante sem
comandados, já que seus súditos permanecem mais atentos às platitudes de
Friedrich Merz ou aos cada vez mais raros lampejos de lucidez de Emmanuel
Macron defendendo a soberania europeia, sem falar nos arrancos tonitruantes de
Donald Trump.
A
Europa estagnou no atoleiro de sua fragmentação. A alternativa que os
principais países do continente encontraram para enfrentar a crise econômica
foi apostar na indústria de armamentos. Por um lado isto procura capitalizar a
russofobia como elemento de união. Por outro, o militarismo crescente
impulsiona os nacionalismos xenófobos e as tradicionais bandeiras
particularistas das extremas direitas, que crescem por todo lado.
A
contaminação de todos os partidos pela xenofobia vem provocando a retomada dos
controles policiais nas fronteiras terrestres, o que enfraquece o acordo de
Schengen, que prevê a livre circulação entre os países signatários.
Dirigentes
e ministros falam abertamente na inevitabilidade de uma guerra com a Rússia, o
que eleva o tom com Viktor Otban, o primeiro-ministro húngaro, mais próximo de
Moscou.
Politicamente
os países nórdicos, antigos esteios da social-democracia, estão, como a
Alemanha, acossados pela extrema-direita. Esta ocupa o governo italiano e
pressiona outros. Na maior parte os partidos social-democratas e socialistas
renderam-se aos princípios do neo-liberalismo e dos planos de austeridade.
Muitos dirigentes dos Partidos Verdes traíram o ideal pacifista de sua fundação
e aderiram ao crescente militarismo, descrito como “defensivo”.
A
primeira reação da maioria dos governantes europeus diante do tarifaço de
Donald Trump foi de subserviência ou contemporização. Mais recentemente
Friedrich Merz e Emmanuel Macron vêm esboçando alguma reação retórica, este um
pouco mais ruidoso do que aquele. Keir Starmer, do Reino Unido, vem mantendo um
silêncio obsequioso.
Os
partidos mais à esquerda seguem divididos e impotentes. Seu melhor desempenho
acontece na França, onde os votos úteis da França Insubmissa têm assegurado a
vitória de Emmanuel Macron no segundo turno, contra a extrema direita de Marine
Le Pen.
Em
matéria de política externa, a encarregada da pasta na União Europeia, Kara
Kallas, da Estônia, é ferozmente antirrussa. Antes de Donald Trump assumir a
Casa Branca os EUA vinham retomando a instalação de ogivas nucleares e mísseis
na Europa. E dirigentes do antigo Leste Europeu aplaudem a retomada.
Donald
Trump exorta os países europeus a investirem mais na OTAN e na própria
capacidade militar. Mas até agora não falou em diminuir a presença militar dos
Estados Unidos no continente. Washington mantém lá mais de 100 instalações
militares. A maior delas é a Base Aérea de Ramstein, na Alemanha, com cerca de
16.200 norte-americanos estacionados.
A
reação entre pusilânime e tíbia da maioria dos governantes europeus diante da
agressão israelense e norte-americana ao Irã mostra como ainda permanecem a
reboque dos EUA em matéria de geopolítica. Emmanuel Macron exibiu uma reação um
pouco mais enérgica, exortando seus “parceiros europeus” a dependerem menos de
terceiros e projetando um aumento do poderio nuclear e convencional da França.
Quanto
à América Latina, duas únicas vozes se levantaram defendendo a soberania da
Venezuela ou criticando abertamente a invasão norte-americana: a do Papa Leão
XIV e a do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, respectivamente. Este
último criticou abertamente o ataque dos EUA e Israel ao Irã, e negou
autorização para que Washington use bases espanholas, o que enfureceu Donald
Trump.
Há
iniciativas de diversificar a pauta comercial europeia, por exemplo, com a
assinatura do acordo de livre-comercio com o Mercosul.
Além de
na França, há resistências localizadas em países como a Itália, Polônia,
Luxemburgo, Holanda, Irlanda, Áustria e Bélgica. Ursula von der Leyen declarou
que vai implementar o acordo assinado, “mem que seja provisoriamente”.
Houve
um avanço crucial com a Índia, com a assinatura de acordo semelhante, depois de
20 anos de negociação, restando ver quem será beneficiado. Apesar da pauta do
acordo ser ampla, fala-se sobretudo em vantagens no campo da tecnologia
militar.
Em
resumo, é difícil visualizar que Europa sairá deste atoleiro, porque, antes de
maus nada, é difícil imaginar que, no curto e médio prazos, ela sairá dele.
¨
De Trump a Putin, o perigoso retorno dos pais déspotas.
por Massimo Recalcati
Nosso
tempo vive o declínio da função simbólica do pai. Os efeitos desse declínio
afetam não apenas o discurso educacional e as figuras parentais cada vez mais
em crise no exercício de seus papéis, mas também, de forma mais profunda, a
própria natureza dos laços sociais.
A
dissolução de valores consolidados da tradição não gerou uma vida coletiva mais
solidária, mas sim uma desorientação disseminada que promoveu uma tendência
regressiva de viés nostálgico desses mesmos valores. Trata-se de um impulso
pulsional conservador que permeia não apenas o Ocidente, mas todo o planeta.
Exposto a um vácuo simbólico que não consegue ocupar, o indivíduo contemporâneo
é impelido pela tentação de recuperar uma versão absolutista da autoridade do
pai. Em vez de tentar praticar outra forma de paternidade, diferente da patriarcal
— que, pelo menos no Ocidente, estaria à beira da extinção —, o nosso tempo
manifesta uma inclinação paradoxal para um nostálgico saudosismo.
Enquanto
a função simbólica do pai evapora, revelando seu fatal enfraquecimento, no
cenário político contemporâneas se afirmam figuras de pais que exibem
abertamente sua onipotência, como para obscurecer esse inevitável
enfraquecimento. O que retorna não é a figura simbólica do pai como fundamento
do pacto social e lugar de transmissão da lei da palavra, que é a única lei que
torna possível a convivência civil, mas uma sua caricatura obscena, ou seja,
aquela representada pelo pai da horda originalmente descrito
por Darwin e Freud.
Qual é
a natureza mais essencial dessa versão puramente perversa do pai? Não se trata
de um pai que separa o prazer da lei, atribuindo um sentido à experiência do
limite e do não-tudo, mas um pai-orangotango que subjuga a própria lei ao seu
desmedido prazer. É, poder-se-ia dizer, a forma contemporânea assumida pelo
retorno da versão mais autoritária e patológica do patriarcado: a autoridade
paterna, em vez de ser símbolo da lei da palavra, impõe-se contra tal lei. Ela
gostaria libertar-se da lei dos homens, fazendo de seu próprio arbítrio a única
forma possível de lei.
De Putin a Trump,
de Netanyahu a Khamenei,
de Erdogan a Kim Jong-un, em regiões do mundo e em contextos
culturais extremamente diversos, se afirmam pais tirânicos que rejeitam a
primazia da política como primazia da palavra, afirmando um poder arcaico
adverso a qualquer forma de mediação simbólica. Os pais da horda não falam,
comandam; não interpretam a lei, mas a moldam à sua própria pessoa; não
representam o limite, mas o violam sistematicamente em nome de uma soberania
que quer se impor como absoluta. Sua força não deriva da lei da palavra, mas de
sua adesão às pulsões mais primitivas e pré-políticas das massas, de seu
fascínio por um poder que promete proteção em troca de submissão.
A crise
contemporânea da democracia é em grande parte determinada pelo retorno
espectral do fantasma do pai da horda, que Darwin, retomado
por Freud, colocava como matriz originária do vínculo social. Em sua
narrativa, as primeiras formas de agregação humana teriam sido caracterizadas
pela presença de um líder que impunha sua força a filhos e filhas, subjugados
por um prazer incestuoso elevado à categoria de única versão possível da lei.
Não por
acaso, na reinterpretação freudiana desse mito, o nascimento do pacto social e
a constituição de uma possível comunidade surgiam apenas da morte por
assassinato do pai da horda, perpetrado pelos irmãos e irmãs reunidos contra o
pai-tirano. Somente se o pai orangotango for deposto, de fato, poderá existir
uma lei capaz de limitar o impulso incestuoso ao domínio e ao desfrute do todo.
Em
nosso tempo, porém, parece estar acontecendo justamente o oposto: o retorno do
pai onipotente da horda traz consigo o risco da morte do pacto social. Trata-se
de um novo autoritarismo que, no Ocidente, não é de modo algum um resíduo
arcaico que resiste à hipermodernidade, mas, ao contrário, um produto obsceno
da própria crise da hipermodernidade. O pai da horda surge como uma resposta
regressiva à angústia gerada pela evaporação do pai simbólico. Um caso
emblemático atual é o uso trumpiano das milícias do ICE para combater o
fenômeno da imigração, ou a degradação debochada e espetacular de seus
adversários políticos, reduzidos a figuras subumanas — como já aconteceu
com Biden ou, mais recentemente, com o casal Obama.
O
retorno desses pais déspotas que substituem o direito pela força, ou melhor,
como acontecia na horda primitiva descrita por Darwin e Freud,
que colocam sua própria força no lugar daquela do direito, em vez de restaurar
a velha autoridade simbólica do pai sinalizam sua perda mais absoluta, o
fracasso definitivo dessa função. Não estamos, de fato, diante de um retorno à
lei simbólica da palavra, mas sim sua tendência a suspendê-la em nome da força,
confundida com o único direito que importa.
Os pais
da horda não fortalecem a democracia, mas a excluem por princípio (como
acontece, por exemplo, no regime religioso de Khamenei ou no regime
militar-policialesco de Putin) ou a corroem por dentro (como nas ações
políticas de Trump ou Netanyahu). Sua força deriva do vazio
político que ocupam: lá onde o pai simbólico foi desativado, o pai da horda se
apresenta como uma solução imaginária para a angústia e a desorientação
coletiva.
Fonte:
A Terra é Redonda/La Repubblica

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