Plano
para salvar BRB da crise gerada por Master ameaça nascentes que abastecem
Brasília
Na
última terça-feira, 3 de março, a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF)
aprovou, com 14 votos favoráveis e 10 contrários, o Projeto de Lei nº
2.175/2026 — uma medida emergencial que autoriza o governo do Distrito Federal
a injetar até R$ 6,6 bilhões no Banco de Brasília (BRB). Fragilizado após seu
envolvimento direto na crise do Banco Master, o banco estatal corre risco de
liquidação.
A
sessão foi marcada por gritos nas galerias, pela retirada de manifestantes pela
Polícia Legislativa e por um embate que dividiu a base aliada do governador
Ibaneis Rocha (MDB). Mas a polêmica mais duradoura não ficou restrita ao
plenário: ela tem endereço certo, entre o Varjão e o Paranoá, numa faixa de
cerrado nativo chamada Serrinha do Paranoá.
Entre
os nove imóveis públicos listados como possíveis garantias, ativos ou objetos
de venda no PL para salvar o BRB, o maior e mais valioso é identificado apenas
como “Gleba A”: 716 hectares de propriedade da Companhia Imobiliária de
Brasília, a Terracap, avaliados em R$ 2,3 bilhões.
Mas o
que o documento não descreve é o que há dentro desse perímetro. Segundo estudos
da Secretaria de Agricultura do DF e levantamentos comunitários, a área abriga
entre 100 e 119 nascentes catalogadas, integra a Área de Proteção Ambiental
(APA) do Lago Paranoá, a APA do Planalto Central e a Área de Proteção de
Manancial (APM) do Taquari.
Os
detalhes sobre vegetação, nascentes e ocupação humana também não foram
incluídos no projeto. Mesmo sob protestos, Ibaneis Rocha (MDB) afirmou que não
pretende retirar a área da lista de imóveis públicos oferecidos como garantia
ao BRB.
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Por que isso importa?
• Serrinha do Paranoá está entre os
principais mananciais que abastecem a capital do país
• Segundo o PL aprovado a área tem um
valor de R$ 2,3 bilhões, mais de 30% do valor total do crédito que será
repassado ao banco estatal
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O PL, a opacidade, e o MP
A Gleba
A foi inserida apenas na segunda versão do projeto de lei, enviada dias antes
da votação. A falta de clareza sobre os imóveis foi o argumento mais recorrente
entre os deputados contrários. A deputada distrital Paula Belmonte (PSDB)
exibiu em plenário um cheque simbólico, acusando o governo de não entregar os
registros e avaliações completas das áreas. O deputado Fábio Félix (PSOL)
afirmou que a medida tenta “camuflar um rombo bilionário” e empurrar o problema
para depois das eleições. Até Thiago Manzoni (PL), da base governista, votou
contra após o plenário rejeitar um pedido de esclarecimentos presenciais do
presidente do BRB, Nelson de Souza.
Do lado
favorável ao Projeto de Lei, os deputados distritais Roosevelt Vilela (PL) e
Joaquim Roriz Neto (PL) argumentaram que a medida é necessária para evitar a
liquidação do banco e preservar empregos. O Sindicato dos Bancários ocupou o
plenário em defesa da aprovação. O Sindágua-DF, que representa trabalhadores da
Caesb, protestou na direção oposta — um funcionário foi detido durante a
sessão. A Associação Preserva Serrinha reuniu mais de 5 mil assinaturas em um
abaixo-assinado em menos de uma semana.
Questionado
sobre o clima da votação que aprovou o projeto na CLDF, Fábio Félix afirmou à
Agência Pública que o resultado foi definido em meio a uma forte articulação
política do governo. Segundo ele, muitos parlamentares ainda estavam indecisos
poucas horas antes da sessão e foram alvos de pressão para apoiar a proposta.
“Antes
da sessão, a votação era incerta. […] Mas o governo moveu a máquina, mobilizou
empregados do BRB e atuou na liberação de emendas e cargos para pressionar pela
aprovação do projeto”, avalia Félix.
No dia
seguinte à aprovação, o deputado distrital do PSOL protocolou representação na
Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente (Prodema), do Ministério
Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). O deputado sustenta que a
destinação da Gleba A pode violar a Constituição Federal, a Lei Orgânica do DF,
a Política Nacional do Meio Ambiente e o Sistema Nacional de Unidades de
Conservação.
“Você
não pode desafetar uma área e entregar um terreno a uma empresa, mesmo sendo
pública, sem lei específica e sem laudo técnico atualizado. Nada disso
acompanhou o processo que aprovou o projeto de lei, não houve parecer da
propriedade nem parecer ambiental”, explica.
Um
estudo da Consultoria Legislativa da própria CLDF, citado na representação,
aponta divergências entre a descrição apresentada no projeto e os registros
cartoriais e cadastrais da área — o que suscita dúvidas quanto à identidade
jurídica do imóvel listado.
Segundo
Félix, “falta uma série de informações sobre o que está sendo chamado de Gleba
A pela Terracap. Existem disputas judiciais, áreas de proteção ambiental e até
terrenos reivindicados por particulares na Justiça, o que evidencia a
complexidade e as incertezas nessa área”, conclui.
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O que Ibaneis Rocha tem a ver com a crise do BRB
O
governo do Distrito Federal é o acionista majoritário do BRB. Entre 2024 e
2025, o banco injetou R$ 16,7 bilhões no Banco Master, instituição do banqueiro
Daniel Vorcaro, por meio da compra de carteiras de precatórios e de ativos de
baixa liquidez que mais tarde se revelaram fraudulentos. A carteira de crédito
do BRB saltou de R$ 37 bilhões para R$ 57 bilhões em 12 meses, dos quais pelo
menos R$ 12,2 bilhões vieram de operações com o Master. O rombo resultante é
estimado em pelo menos R$ 5 bilhões — valor que superaria o patrimônio líquido
do próprio banco, avaliado em R$ 4,9 bilhões ao final de 2025, segundo o
diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino, em depoimento à
Polícia Federal (PF).
Em
setembro de 2025, o BC vetou a compra do controle do Master pelo BRB por
irregularidades e falta de documentação. Em agosto de 2025, antes do veto do
BC, o próprio governo do DF enviou à CLDF, em regime de urgência, um projeto de
compra de 49% das ações ordinárias do Master pelo BRB. O movimento colocou os
deputados distritais em situação de urgência regimental. O resultado veio em
uma semana: 14 distritais aprovaram a operação por meio do PL 1882/2025, que
foi sancionado por Ibaneis. A aquisição só não se concretizou porque o Banco
Central a vetou no mês seguinte. É nesse contexto que o governo Ibaneis Rocha
apresentou à CLDF o projeto que inclui a Serrinha do Paranoá entre os bens
públicos a serem mobilizados para salvar o BRB.
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Equilíbrio hídrico: área salvou Brasília do racionamento
Até
2015, a Serrinha era tratada como área de expansão urbana no Plano Diretor de
Brasília, aprovado em 2009. Naquela época, havia apenas duas nascentes
registradas oficialmente. Foi a mobilização da comunidade que reverteu esse
quadro: um novo mapeamento identificou 97 nascentes; um estudo mais recente
chegou a 119. Em 2017, durante a crise de abastecimento que afetou o DF, a
Caesb instalou uma estação de captação de água emergencial na boca do Núcleo
Rural do Palha, na Serrinha. O que era temporário tornou-se permanente — e a
estação já foi duplicada.
Em
comunicado, a Terracap informou que a área denominada “Gleba A”, de sua
propriedade, não possui recursos hídricos, tais como rios, nascentes ou
mananciais, nem está inserido em Área de Proteção Ambiental (APA).
“Dizer
que essa área está desocupada não corresponde à realidade. A Serrinha é um
território vivo, com comunidades rurais consolidadas e de enorme importância
para a produção de água no Distrito Federal”, disse à Pública Lúcia Mendes,
presidente da Associação Preserva Serrinha, em referência à afirmação da
Terracap de que a região seria desocupada.
A
Serrinha abrange dez núcleos rurais, onde vivem entre 60 e 65 mil pessoas em
pequenas propriedades. Em 2019, a Lei do Zoneamento Ecológico Econômico do DF
identificou quatro grandes riscos para a área: contaminação, perda do cerrado
nativo, erosão e perda da recarga de aquíferos.
Segundo
a presidente da Associação, a inclusão da Serrinha no pacote de imóveis
destinados à operação envolvendo o banco ocorreu de forma inesperada e sem
diálogo prévio com a comunidade. A mudança na lista de áreas previstas para
negociação provocou uma reação imediata de grupos locais. “A gente foi pego de
surpresa. Na segunda-feira, a Serrinha não constava na lista e, no dia
seguinte, apareceu incluída. Foi quando organizamos um manifesto e um
abaixo-assinado que já reúne mais de 5 mil assinaturas para alertar os
deputados sobre a importância ambiental da região”, afirma Mendes.
A
presidente contesta a justificativa apresentada pelo governador Ibaneis Rocha e
pela Terracap para manter a área na lista de imóveis destinados à capitalização
do BRB. Para Lúcia, a afirmação de que a Gleba não possui recursos hídricos
ignora o funcionamento do sistema natural da região. “Aquela área é justamente
onde a água infiltra para alimentar as nascentes. Se você impermeabiliza o
solo, a água não entra e as nascentes secam”.
Mercedes
Bustamante, doutora em biologia e professora da Universidade de Brasília (UnB),
alertou à reportagem que “a Serrinha do Paranoá é hoje o último grande
fragmento ainda preservado dentro da área de proteção ambiental da região, com
cobertura vegetal e baixa urbanização, o que a torna de extrema relevância
ambiental para o Distrito Federal”.
Além
das preocupações ambientais, a especialista lembra também do papel que a
Serrinha já desempenhou em momentos críticos do Distrito Federal. “Na crise
hídrica que enfrentamos entre 2016 e 2018, quando reservatórios como o
Descoberto chegaram a níveis críticos e houve racionamento de água, regiões
como a Serrinha do Paranoá contribuíram para manter a infiltração de água no
solo e para alimentar os mananciais que abastecem a população. Se essas áreas
forem ocupadas, a gente compromete justamente esse equilíbrio que já se mostrou
tão frágil”, finaliza Bustamante.
• Galípolo, Haddad e Lula fizeram a coisa
certa no caso Master
Poucos
escândalos na história das ligações entre o sistema financeiro e personalidades
da política no Brasil são tão elucidadores como o chamado "Caso
Master", que tanto consome, justificadamente, as atenções, muitas vezes
mal-intencionadas, dos meios de comunicação.
Neste
caso, porém, o que salta aos olhos de imediato, pelo que vem sendo exibido
pelas exaustivas e sôfregas investigações, é a atuação absolutamente correta
das maiores autoridades do governo, nomeadamente o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o ministro da
Fazenda, Fernando Haddad.
Em
dezembro de 2024, em reunião no Palácio do Planalto, Lula e Galípolo foram
assediados pelo controlador do banco Master, Daniel Vorcaro, já então em busca
de um sinal verde das autoridades para que seu banco pudesse adotar medidas
que, na verdade, relaxavam limites para ampliar ainda mais a pirâmide de
bilionárias transações ilegais contra seus investidores, atraídos por retornos
milagrosos oferecidos pelo banco.
Obviamente,
àquela altura, ninguém, inclusive o presidente e seus auxiliares, tinha
conhecimento da trama.
Diante
de todos, porém, o presidente, na própria reunião, determinou a Galípolo, de
maneira cabal, que o pleito de Vorcaro fosse examinado de forma técnica e
concedido se, e apenas se, obedecesse às leis e controles que regulam o
apetite, já de si insaciável, do sistema financeiro nacional.
Os
balizamentos estabelecidos por Lula foram seguidos à risca. Em ocasiões
distintas, o pedido para que o Banco de Brasília (BRB), por gestões do próprio
governador Ibaneis, adquirisse o Master recebeu resposta negativa do Banco
Central. Em 28 de março o BRB anunciou que iria comprar o Master, que já estava
em dificuldades. O próprio Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e
a Assembleia Legislativa do Distrito Federal chegaram a aprovar a operação. Em
3 de setembro porém Banco Central a barrou. Em todas as iniciativas de encobrir
o rombo, a autoridade financeira considerou insuficientes as garantias
apresentadas. A maracutaia evidentemente não cumpria os requisitos prudenciais
exigidos para preservar a estabilidade do sistema financeiro. A palavra final
cabia ao regulador do sistema financeiro nacional, e o Banco Central manteve
sua posição técnica e independente ao negar a operação.
Essas
decisões, tomadas no estrito cumprimento da legislação e dos critérios técnicos
que regem a supervisão bancária, mostraram desde cedo que o governo e as
autoridades monetárias não estavam dispostos a ceder a pressões de qualquer
natureza, nem a aceitar soluções improvisadas que pudessem transferir prejuízos
privados para o conjunto da sociedade.
A
coerência dessa atitude tornou-se ainda mais evidente meses depois. Em 18 de
novembro de 2025, diante do agravamento da situação patrimonial do banco e da
confirmação de irregularidades que já vinham sendo investigadas, o Banco
Central determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master, medida extrema
prevista em lei para proteger depositantes, investidores e a própria
integridade do sistema financeiro nacional. Na véspera, ao tentar sair do país,
Vorcaro fora preso.
O
encadeamento desses fatos fala por si. Primeiro, as autoridades recusaram
concessões que poderiam ampliar riscos e mascarar problemas estruturais.
Depois, quando os indícios se tornaram incontornáveis, adotaram a providência
mais dura disponível ao regulador.
Não se
trata de detalhe menor. Em um país frequentemente marcado pela influência de
grandes interesses econômicos sobre decisões públicas, o caso demonstra que,
desta vez, o presidente da República, o ministro da Fazenda e o presidente do
Banco Central mantiveram-se fiéis ao princípio elementar de que a lei e o
interesse público devem prevalecer sobre lobbies e pressões.
A
história do Caso Master ainda será investigada em profundidade. Mas já é
possível afirmar que, do ponto de vista institucional, Lula, Haddad e Galípolo
agiram como se espera de autoridades responsáveis: com prudência, respeito às
regras e absoluta independência diante de interesses privados. Isso, em si, já
constitui um exemplo raro e digno de registro na vida pública brasileira.
Fonte:
Fonte: Por Thiago Domenici e Duda Sousa, da Agencia Pública/Brasil 247

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