Nikolas
Ferreira voou em jatinho de empresário denunciado por lavagem de dinheiro
O
relógio marcava 20h37 da última quarta-feira, 3, quando o deputado federal
Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, resolveu fazer piada no Twitter.
Dentro de um voo comercial, publicou uma foto e escreveu: “Tomara que o dono da
Latam não cometa nenhum crime daqui 4 anos”.
A frase
era uma tentativa de ironizar a repercussão de um episódio que havia
constrangido o parlamentar naquele dia: a revelação de que ele viajou em 2022
em um jatinho que pertencia ao banqueiro Daniel Vorcaro, personagem central do
escândalo do Banco Master.
A piada
tenta transformar em exagero aquilo que, na verdade, é uma pergunta legítima do
jornalismo: quem financia a circulação política de um dos principais quadros da
extrema direita brasileira? No caso dos voos de 2022, Nikolas disse que não
sabia quem era o dono da aeronave.
Mas a
história não termina ali. Ao examinar registros de fretamento e documentos de
prestação de contas do PL, encontramos outro episódio relevante envolvendo os
jatinhos usados pelo deputado — desta vez, durante a campanha municipal de
2024.
E há um
detalhe que torna essa nova história ainda mais reveladora. Diferentemente do
caso do jatinho de Vorcaro, no episódio que apresento a seguir, o dono da
aeronave já havia sido denunciado bem antes de Nikolas entrar no avião.
O tema
desta newsletter nasceu de uma apuração do Eduardo Goulart, novo editor sênior
do Intercept Brasil. É um reforço que empolga nossa equipe por ser uma das
maiores referências em investigações digitais e, como vocês vão ver a seguir,
alguém que sabe transformar um detalhe aparentemente banal em grandes
histórias. Vamos aos fatos.
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Os voos de Nikolas
Durante
a campanha municipal de 2024, quando rodou o Brasil para promover candidatos do
PL, Nikolas utilizou uma aeronave que pertence a um empresário denunciado pelo
Ministério Público de São Paulo por integrar uma organização criminosa voltada
à lavagem de dinheiro e à exploração ilegal de jogos de azar, incluindo
máquinas caça-níqueis.
As
informações foram obtidas por meio do cruzamento de registros de fretamento e
documentos de prestação de contas do Partido Liberal, o PL, com dados da
Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac.
Naquele
pleito, Nikolas fez 15 viagens bancadas com verba do fundo partidário. A
imprensa chegou a reportar que o custo desses voos superou os R$ 3,3 milhões,
conforme indicam notas fiscais de transporte emitidas pela empresa AllJet Táxi
Aéreo Ltda.
O fundo
partidário, utilizado para os pagamentos, é abastecido principalmente por
dinheiro público do orçamento federal, distribuído aos partidos para financiar
suas atividades políticas.
O que
não havia sido revelado até aqui é que um desses voos operados pela AllJet foi
realizado em uma aeronave de prefixo PR-MKB, cuja dona é uma empresa que
pertence a Nelson Ramon Aguilera Júnior, empresário conhecido por atuar no
setor da construção civil.
A
informação não era conhecida porque, no sistema de prestação de contas do PL, o
pagamento aparece como fretamento de aeronave feito à empresa que opera o
serviço aéreo, a AllJet. Essa empresa é responsável pelo voo e pela cobrança,
ainda que a aeronave utilizada pertença a um proprietário privado — neste caso,
o empresário Aguilera.
No
setor de aviação executiva, é comum que proprietários privados coloquem suas
aeronaves sob gestão de empresas de táxi aéreo, que passam a operá-las
comercialmente e alugá-las a terceiros.
Cerca
de dois anos antes de Nikolas entrar no jatinho, Aguilera foi denunciado pelo
Ministério Público de São Paulo, no âmbito de uma investigação conduzida pelo
Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco.
Segundo
o MP, Aguilera e outros investigados teriam estruturado um esquema destinado a
ocultar e dissimular a origem de valores provenientes da exploração de jogos
ilegais, utilizando empresas e atividades comerciais aparentemente lícitas para
inserir os recursos no circuito econômico formal.
A
denúncia de 2022 também não foi o primeiro episódio do tipo envolvendo o
empresário. Aguilera já havia sido alvo de uma acusação semelhante em 2017,
relacionada à exploração de jogos ilegais e lavagem de dinheiro. Os dois casos
seguem tramitando na Justiça.
Os
documentos de fretamento indicam que o PL contratou a aeronave ligada a
Aguilera entre 24 e 25 de agosto de 2024 para um trajeto envolvendo Jundiaí,
SP, Belo Horizonte, MG, e São José dos Campos, SP. O valor pago pelo serviço
ultrapassou R$ 165 mil.
No voo,
estavam Nikolas Ferreira, o secretário parlamentar Andre Dumont Lacerda e Pedro
Henrique Gonçalves. A aeronave utilizada nesses deslocamentos é um Learjet
modelo 31A, fabricado em 1999 e com capacidade para até oito passageiros,
segundo dados do Registro Aeronáutico Brasileiro da Anac.
A
aeronave vinculada ao empresário investigado foi, inclusive, alvo de uma medida
judicial posterior à viagem de Nikolas. Em outubro de 2025, um ofício da Anac
encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, o STF,
confirmou o cumprimento de ordem judicial de bloqueio e indisponibilidade da
aeronave de prefixo PR-MKB. O documento da Anac não aponta o motivo desse
bloqueio.
Depois
de tramitar inicialmente na Justiça de Franca, no interior de São Paulo, a
defesa de Aguilera argumentou que os fatos descritos na denúncia estariam
ligados a empresas sediadas majoritariamente na capital paulista e, portanto,
deveriam ser julgados pelo Foro Central Criminal de São Paulo.
Com
base nessa discussão processual, o caso foi encaminhado para a Justiça da
capital. O processo segue em andamento e permanece aberto, mas tramita em
segredo de justiça, o que impede o acesso público aos detalhes mais recentes da
investigação e às decisões judiciais posteriores.
Procuramos
o empresário Nelson Ramon Aguilera Júnior, o PL e o gabinete do deputado
Nikolas Ferreira. A Aguilera, perguntamos sobre sua relação com a aeronave
PR-MKB, a parceria com a empresa AllJet e esclarecimentos sobre os dois
processos criminais em que é investigado. Ao PL, questionamos o uso de recursos
do fundo partidário para fretar a aeronave e quais mecanismos o partido adota
na contratação de voos privados.
Em
resposta, o advogado de Aguilera, Ivan Cunha de Sousa, afirmou que a aeronave
mencionada está sob gestão da AllJet Táxi Aéreo e que eventuais questionamentos
sobre os voos deveriam ser direcionados à empresa. O advogado acrescentou ainda
que os processos judiciais citados na reportagem tramitam em segredo de
Justiça.
Já o
gabinete de Nikolas enviou uma resposta afirmando que o PL contratou o serviço
de táxi aéreo da AllJet e que, segundo registros da Receita Federal, Aguilera
não integra o quadro societário dessa empresa. A assessoria de imprensa não
respondeu, no entanto, se o deputado sabia que ele era o proprietário da
aeronave utilizada no voo operado pela AllJet nem se sua equipe verifica a
titularidade de aviões usados em agendas políticas.
A
AllJet confirmou que operou, nos dias 24 e 25 de agosto de 2024, o voo em que
esteve Nikolas e sua assessoria. Segundo a empresa, o avião de Aguilera
integrou suas atividades de fretamento e segue um modelo comum na aviação
executiva, em que aeronaves pertencentes a terceiros são operadas
comercialmente por empresas de táxi aéreo mediante contratos firmados com os
proprietários e registrados na Anac.
• Igreja da Lagoinha diz que afastou
Zettel e nega ligação com Vorcaro
A
Igreja Batista da Lagoinha divulgou esclarecimentos sobre o pastor Fabiano
Zettel, cunhado do empresário Daniel Vorcaro, afirmando que ele foi afastado do
'pastoreio' da unidade Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte, ainda em novembro
de 2025. Segundo a instituição informou a Míriam Leitão, do jornal O Globo, a
decisão ocorreu logo após surgirem as primeiras informações públicas
relacionadas ao caso envolvendo o Banco Master, investigação que levou à prisão
de Zettel na época.
Em
nota, a instituição religiosa afirma que o pastor deixou qualquer atividade
ligada à igreja no momento em que surgiram as primeiras notícias envolvendo seu
nome. "A Igreja Batista da Lagoinha esclarece informações apresentadas na
coluna publicada em O Globo no dia 9 de março de 2026, intitulada 'Igreja
evangélica ‘Lagoinha’ aparece em um dos lados mais obscuros das investigações
sobre Vorcaro'. Em primeiro lugar, é importante esclarecer que Fabiano Zettel
foi afastado do pastoreio da Lagoinha Belvedere ainda em novembro de 2025, tão
logo as primeiras informações públicas relacionadas ao caso começaram a surgir.
Desde então, ele não exerce qualquer função pastoral ou institucional na
Lagoinha".
A
igreja também afirmou que Zettel exercia um papel voluntário na congregação e
que sua atuação na instituição foi relativamente recente. "Cabe também
contextualizar que Fabiano Zettel passou a integrar a Lagoinha como pastor
voluntário há menos de dois anos, após ter atuado anteriormente como pastor em
outra denominação. Sua atuação esteve restrita à unidade localizada no bairro
Belvedere, em Belo Horizonte".
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Investigação menciona grupo ligado a Vorcaro
Na
semana passada, Zettel voltou a ser preso após investigações indicarem a
existência de um grupo supostamente liderado por Daniel Vorcaro para agir
contra adversários. Segundo as apurações, além do cunhado do empresário, fariam
parte do grupo Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, e o policial
federal aposentado Marilson Roseno da Silva.
Diante
das menções à igreja nas investigações e reportagens, a instituição afirmou não
ter qualquer ligação com os fatos investigados. "A Igreja Batista da
Lagoinha não é parte de qualquer investigação relacionada ao caso citado na
reportagem, nem possui qualquer vínculo com as atividades mencionadas".
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Igreja contesta associações
A nota
também aborda a menção a uma viagem realizada em avião de Vorcaro durante a
campanha eleitoral de 2022, que teria contado com a presença do deputado
federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e do pastor Guilherme Batista. Segundo a
igreja, nenhum dos citados integra a denominação. "A referência a uma
viagem ao Nordeste realizada por terceiros em aeronave pertencente ao
empresário citado não se trata de uma agenda da Igreja Lagoinha, tampouco
envolveu representantes da denominação. Nem o pastor mencionado na reportagem,
nem o deputado citado são membros da Lagoinha".
A
instituição afirmou ainda que considera falsa a associação da viagem com
atividades da igreja e declarou que adotará medidas judiciais. "Importa
ainda esclarecer que a alegação de que essa viagem teria relação com a
instituição é falsa e já foi objeto de reportagem considerada caluniosa, razão
pela qual medidas judiciais estão sendo adotadas para a devida
responsabilização e correção das informações".
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Relação pessoal com André Valadão
Outro
ponto mencionado na nota diz respeito à amizade entre o pastor André Valadão,
um dos líderes mais conhecidos da Lagoinha, e Daniel Vorcaro. A igreja afirmou
que a relação é de caráter pessoal. "Em relação à menção ao pastor André
Valadão, é importante esclarecer que relações pessoais entre famílias que
convivem há décadas em Belo Horizonte não configuram, por si só, qualquer
irregularidade ou vínculo institucional com os fatos investigados".
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Igreja afirma não ser alvo das investigações
A
denominação também reforçou que não há qualquer acusação formal ou investigação
direcionada à instituição no caso do Banco Master. "A Igreja Batista da
Lagoinha é uma comunidade religiosa presente em diversas cidades do Brasil e do
mundo, composta por milhares de membros e líderes. Como toda instituição desse
porte, não pode ser associada a eventuais condutas individuais ou relações
pessoais que não dizem respeito à sua atuação institucional".
A nota
conclui reafirmando que a igreja não está envolvida nas apurações e se coloca à
disposição das autoridades. "Reforçamos que não há qualquer investigação,
acusação formal ou elemento apresentado pelas autoridades que relacione a
Igreja Batista da Lagoinha às investigações envolvendo o Banco Master. A Igreja
Batista da Lagoinha permanece à disposição das autoridades competentes para
qualquer esclarecimento que se faça necessário".
Fonte:
Por Paulo Motoryn e Eduardo Goulart, em Cartas Marcadas/The Intercept

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