Daniel
Vorcaro e o “novo capitalismo” brasileiro
O
capitalismo brasileiro está passando por uma transformação de fundo. As
fronteiras do capital fictício e plataformizado – nas formas do financismo, do
rentismo, do crime organizado e da oligarquia política – estão se associando na
perspectiva de criação de uma forma política que será, idealmente, uma das
espécies de um novo fascismo.
A
esquerda, no essencial, está fora desse jogo, a não ser pela cooptação de
trânsfugas useiros em mudar de lado. Vale dizer, e isto é muito importante, que
a forma política dessa nova forma de acumulação não pode ser, nem mesmo, uma
democracia liberal clássica de baixa intensidade.
Engana-se
quem pensa que essas formas em gestação são uma “anomalia”: são, na verdade, as
formas teleológicas mais condizentes da acumulação neoliberal de mundialização
que foram tratadas, em sua pré-história, lá entre os anos 1970/90, por autores
como, por exemplo, François Chesnais. Falta ainda mencionar, neste texto, a
cereja do bolo desta nova formação política: a consolidação de um estado
policial-jagunço – como o do Rio de Janeiro já serve de protótipo –, de compra
e venda de proteção.
Evidentemente,
esta nova acomodação do capitalismo não ocorre na ausência de uma crise no
sistema político; pelo contrário, ela é a sua expressão mais acabada, e é assim
que se apresenta a crise institucional em curso, que enlaça STF, Legislativo e
Executivo. Este é, por assim dizer, o pano de fundo da presente gravíssima
microcrise conjuntural em torno da prisão de Daniel Vorcaro.
A
tentativa permissiva de isentar de taxação setores de fronteira como fintechs e
apostas esportivas (bets) no “pacote de segurança”, por exemplo, reflete uma
realidade política nova e mais profunda: o Brasil vive uma transição acelerada
do modelo de Estado concebido na Constituição de 1988 para um novo Estado
Predador, que se molda às exigências de uma economia política híbrida, fundada
no rentismo de novo tipo e na simbiose com o crime organizado.
O pacto
de 1988 erigiu um Welfare State dependente, um acordo histórico que uniu a
burguesia industrial, as forças liberais da redemocratização e o nascente “novo
sindicalismo”, criadouro do PT “fordista”, o último partido social-democrata,
quase temporão, criado no Ocidente. Era um projeto que, com todas as suas
contradições e heranças patrimonialistas, aspirava a uma dominação de tipo
legal-racional, nos termos de Max Weber. Sua legitimidade derivava da Carta
Cidadã e de uma promessa de racionalização e inclusão. Esse modelo está sendo
desmontado por dentro.
A
máquina de produção de votos da política já não é a mesma. O lobby das casas de
aposta, por exemplo, é hoje o mais poderoso do país, tendo cooptado com
impressionante velocidade políticos, agremiações esportivas e astros populares.
Não há mais futebol sem bets. Este fenômeno é a face visível de uma disputa
subterrânea no coração do capitalismo brasileiro.
Assistimos
a um processo análogo à desindustrialização também no sistema financeiro: os
antigos “bancões”, estruturas monolíticas de crédito e acumulação do
capitalismo fordista, veem seu território ser erodido pelas fintechs, entidades
fluidas e desterritorializadas.
A
discussão “técnica” sobre tributos, em torno de um Estado “gastador” em eterna
“crise fiscal”, oculta o lado de sombras, que ninguém se atreve a discutir
publicamente. A incapacidade do Estado em regular e tributar efetivamente esses
novos setores não é apenas uma falha administrativa; é um sintoma de uma
transformação patológica.
O
Estado weberiano, definido pelo monopólio do uso legítimo da força, abdica
progressivamente desse monopólio ao fracassar em impor a lei a setores cujas
operações frequentemente se entrelaçam com a lavagem de dinheiro e o crime
organizado transnacional. O que emerge não é um vazio de poder, mas uma nova
formação: o Estado Predador.
Até
certo ponto – e devem ser pesquisadas as conexões – os diagnósticos sombrios de
personagens trumpistas, como Peter Thiel, ou do Projeto 2025, da Fundação
Heritage, de substituição do Estado Administrativo (o velho Estado
Legal-Racional liberal) por uma plataforma dirigida por um “rei-filósofo”
reacionário, guarda semelhanças nas diferenças com o processo brasileiro.
Este
não é um Estado simplesmente corrupto ou ineficiente. É um Estado que foi
capturado e reconfigurado para servir a uma coalizão de poder que inclui as
novas elites do rentismo digital, velhas estruturas patrimonialistas que se
adaptaram e, de forma crítica, facções do crime organizado que encontraram no
anonimato das criptomoedas e na volúpia das apostas online o canal perfeito
para a legitimação de seus capitais.
Este
Estado predador opera por extração sistemática, mas sua lógica é distinta do
capitalismo monopolista-industrial que busca suplantar. Enquanto o antigo
modelo, ainda que imperfeito, canalizava recursos para políticas sociais e um
projeto de desenvolvimento nacional, o novo modelo drena recursos para uma
economia política do ilícito e do rentismo de curto prazo.
O
Congresso, reflexo dessa nova base social, vem protegendo os interesses desses
novos senhores da economia, inviabilizando a própria capacidade estatal de se
financiar e impor a lei. Neste contexto, arriscamo-nos a nos tornar não apenas
um Estado predador, mas um Estado pária interno.
Um
Estado que, para vastos setores da população e da economia formal, corre o
risco de perder sua legitimidade última, não sendo mais visto como um árbitro
imparcial ou um provedor de direitos, mas como uma força extrativista e
opressora a serviço de uma aliança entre o poder financeiro de novo tipo e as
sombras do crime. Trata-se de uma mudança coligada do sistema político e do
capitalismo brasileiro, base e superestrutura se realimentando.
O caso
do Banco Master, com os fatos espetaculares da prisão de seu “CEO”, é um
símbolo dessa dinâmica. E de fato o é, mas seria um erro tratá-lo como uma
exceção monstruosa em um mercado imaculado. O “novo” capitalismo financeiro
brasileiro se revela como um sistema em que a prática de oferecer retornos
estratosféricos para atrair investidores se tornou a norma, e não a exceção. O
Banco Central, com sua pretensa “autonomia” e sua alegada “cegueira” diante da
“mão invisível” do “mercado”, assistiu a tudo com passividade conivente.
O Banco
Master, em 2019, quando recebeu autorização do Banco Central para operar, tinha
2,5 bilhões de reais em CDBs. Em 2022, eram 17 bilhões. Em 2024, atingiu a
cifra estratosférica de 50 bilhões. Pouco antes de quebrar, chegou a oferecer
CDBs com rendimento de 190% do CDI, um absurdo que por si só deveria ter
acionado todos os alarmes regulatórios. Mas o Master não estava sozinho nessa
dança das cadeiras.
A
oferta de CDBs a 130% do CDI ou mais tornou-se – este dado em geral é varrido
para debaixo do tapete – uma prática disseminada no sistema financeiro, uma
estratégia agressiva de captação de recursos, especialmente por bancos médios e
fintechs que precisavam ganhar escala rapidamente. Instituições como PagBank,
Banco Pan, Méliuz (com CDBs do banco Digio) e plataformas de investimento como
XP, BTG Pactual e Genial listaram em seus portfólios, de forma recorrente,
produtos com rentabilidade nessa faixa ou até superior.
O
Sofisa Direto, tradicional nesse segmento, frequentemente opera com taxas entre
110% e 120% do CDI em suas promoções. O que o mercado chamou de “inovação” e
“concorrência” foi, na verdade, uma corrida desenfreada pelo “funding” fácil,
empurrada por um ciclo de juros altos que tornava esses papéis irresistíveis
para o investidor comum, ávido por rendimento e seduzido pela promessa de
ganhos fáceis, mas alheio aos riscos de crédito embutidos nessas operações.
Recentemente,
em um convescote na Alemanha, onde também se fez presente o festejado “novo
herói” André Mendonça, que passou em branco (para variar) na imprensa
brasileira, useira e vezeira em diversionismos, assim falou o próprio
presidente da Febraban, Isaac Sidney Menezes Ferreira, em evento na
Universidade de Frankfurt: “Não podemos deixar que a regulação fique atrás da
velocidade e do risco. Nós temos que caminhar para uma regulação adaptativa.”
Em sua
fala, Isaac Sidney defendeu um debate estrutural sobre o sistema de garantias,
em especial o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), criticando seu uso como
“chamariz” para convencer clientes a investir em títulos de alto risco. “O
mecanismo não pode ser um instrumento de incrementar risco excessivo. Se temos
um sistema de garantias que incrementa mais do que mitiga riscos, a regulação
então está defasada”, afirmou, numa crítica velada ao modelo de negócios que
permitiu a proliferação de ofertas agressivas.
O
presidente da Febraban também apontou a distorção no custeio do fundo: “Uma
parte significativa da indústria bancária e financeira está suportando o
custeio enquanto outra parte significativa apenas usufrui do uso”, referindo-se
ao fato de que grandes bancos tradicionais arcam com a maior parte da
contribuição, enquanto plataformas que distribuíram os títulos do Master não
contribuem na mesma proporção. “Nós não podemos viver num sistema de garantia
que acabe socializando perdas privadas”, sentenciou.[5]
O
problema, portanto, não se resume às práticas corruptas ou à gestão temerária
de um banco específico. A questão é sistêmica. O modelo de negócios de dezenas
de instituições passou a se basear na captação a custos insustentáveis,
apostando que conseguiriam remunerar o capital investido com aplicações de
risco ainda maior.
O
balanço de 2024 do Banco Master, que informou o pagamento de R$ 500 milhões a
consultorias e escritórios de advocacia, é apenas a ponta do iceberg de um
sistema onde as fronteiras entre o lícito e o ilícito, entre a gestão
financeira e a lavagem de dinheiro, entre o lobby e a captura do Estado, se
tornaram porosas. A liquidação extrajudicial do Master, em novembro de 2025,
não “resolveu” o problema; apenas expôs a ferida.
Os
CDBs, em sua maioria, eram garantidos pelo FGC até o limite de R$ 250 mil, o
que protegeu o pequeno investidor, mas o custo sistêmico da quebra de confiança
e a exposição de fundos de pensão e outros bancos ao crédito podre são
imensuráveis.
O que
temos é uma crise de representação que atravessa todos os poderes, alimentada
pela promiscuidade entre o dinheiro novo, de origem muitas vezes obscura, e a
velha política do centrão e da extrema direita. Este é o bloco histórico do
“novo capitalismo” brasileiro.
• Mensagens indicam que Vorcaro ocultou R$
482 milhões em imóveis em Miami
Conversas
privadas indicam que o banqueiro Daniel Vorcaro teria adquirido imóveis de alto
padrão em Miami avaliados em cerca de R$ 482 milhões, ao mesmo tempo em que
afirmou à Polícia Federal não possuir residência na cidade norte-americana. As
mensagens mostram detalhes das negociações e da estrutura usada para realizar
as transações.As informações foram divulgadas em reportagem da colunista
Natália Portinari, do UOL, que teve acesso a trocas de mensagens e documentos
relacionados às aquisições imobiliárias.
Em uma
das conversas, datada de setembro, Vorcaro comemora a evolução da compra de um
dos imóveis. “Nem acredito que (consegui) aquela casa naquele preço. Só o
terreno é único”, escreveu. Em resposta, Martha Graeff afirma: “Amor, você é um
visionário”.
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Depoimento à polícia federal
Apesar
das mensagens que mencionam propriedades nos Estados Unidos, Vorcaro declarou à
Polícia Federal, em depoimento prestado em 30 de dezembro, que não possuía casa
em Miami.
“Apesar
de a mídia ter anunciado, eu não tenho. Tenho a locação de um imóvel lá”,
afirmou durante o depoimento.
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Mansão de R$ 446 milhões em bay point
Uma das
aquisições identificadas envolve uma mansão em Bay Point, condomínio fechado à
beira da Baía de Biscayne. Em 10 de janeiro de 2025, a empresa Goldbeach
Properties LLC pagou cerca de R$ 446 milhões pelo imóvel, valor que se tornou o
mais alto já registrado em vendas no bairro — o recorde anterior, de 2023, era
de R$ 202 milhões.
A
propriedade possui aproximadamente 1.900 metros quadrados, 11 quartos, piscina
e dois píeres com cerca de 120 metros de frente para a baía. Autorizações para
demolição e construção de uma nova residência já haviam sido emitidas em agosto
e setembro de 2024, antes mesmo da formalização do contrato de compra.
A
Goldbeach Properties LLC possui endereço em Provo, no estado de Utah, e foi
registrada no Delaware, jurisdição conhecida pelo alto grau de sigilo
societário.
Pouco
mais de um mês após essa transação, em 13 de fevereiro, a mesma empresa comprou
outra casa localizada do outro lado da rua por cerca de R$ 36,25 milhões.
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Cobertura de luxo no four seasons surf club
Outra
empresa citada nas mensagens é a Ocean View Capital Management, utilizada para
alugar uma cobertura onde Martha Graeff passou a residir em Miami, no
empreendimento de luxo Four Seasons Surf Club.
Em
conversa de 28 de outubro de 2024, ao receber documentos do contrato de
locação, Martha questionou: “O que é a Ocean View?”. Vorcaro respondeu:
“Empresa que alugou, amor”. Logo depois, pediu os dados do documento americano
dela para incluí-la no contrato como moradora.
Meses
depois, em fevereiro de 2025, Martha confirmou o endereço do imóvel em
mensagem: “Martha Graeff, 9111 Collins Ave Apt N PH4, Surfside FL 33154”.
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Preocupação com exposição do patrimônio
Mensagens
trocadas em dezembro de 2024 também mostram preocupação do banqueiro com a
visibilidade das propriedades. Em um diálogo enviado à meia-noite e 33 do dia
4, Vorcaro escreveu: “Acredita que o presidente do Bacen já falou da nossa
casa”.
Ele se
referia a Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central. Martha
perguntou: “Da casa de Miami? Como ele sabe?”. O banqueiro respondeu: “Pois é.
Falou lá dentro do Banco Central. Nada demais. Só te dizendo”.
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Outros imóveis ligados às empresas
Além
das duas casas em Bay Point, registros apontam a compra de outro imóvel em
Miami por empresa ligada ao mesmo endereço da Goldbeach Properties.
Um
apartamento no edifício Asia, em Brickell Key, foi adquirido por cerca de R$
14,7 milhões em março de 2023 pela Brickell Palm Holdings LLC, empresa da
Flórida cujo endereço postal corresponde ao mesmo parque empresarial em Provo,
Utah.
Documentos
da associação de moradores do prédio indicam como comprador “Brickell Palm
Holdings LLC – Antonio C Freixo Junior”. Antônio Carlos Freixo Júnior é sócio
da Entre Investimentos e aparece ao lado de Vorcaro em processo na Comissão de
Valores Mobiliários (CVM) que investiga suposta manipulação de cotas de fundo
imobiliário.
Procurado,
Freixo afirmou que o imóvel lhe pertence e não possui relação com a Goldbeach.
“Antônio Freixo é proprietário de um imóvel adquirido por meio da Brickell
Palms, empresa administrada por Agente Registrado/Registered Agent que
administra imóveis para terceiros nos Estados Unidos, não possuindo qualquer
relação com a Goldbeach ou outros clientes do agente de registro”, declarou.
O
endereço em Utah utilizado por algumas dessas empresas pertence à MIG Inc.,
companhia financeira que atua sob a marca Mosaic e oferece serviços a clientes
de alto patrimônio em mais de 70 países, incluindo o que descreve como
“serviços especiais” para “circunstâncias específicas”. Questionada sobre as
estruturas offshore associadas às empresas citadas, a MIG não respondeu aos
contatos do UOL.
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Empresa do pai comprou mansão na flórida
Registros
corporativos também indicam a criação, em setembro de 2022, da empresa Sozo
Real Estate Inc., constituída na Flórida por Henrique Vorcaro, pai de Daniel. A
companhia tinha como diretora Natália Zettel, filha de Henrique e irmã de
Daniel, casada com o pastor Fabiano Zettel, da Igreja da Lagoinha.
Cinco
meses após a abertura da empresa, em fevereiro de 2023, a Sozo adquiriu uma
mansão no condomínio Isleworth, em Windermere, próximo a Orlando, por cerca de
R$ 183 milhões, incluindo mobiliário e obras de arte. A região é conhecida por
concentrar propriedades de alto padrão e já foi residência do golfista Tiger
Woods.
Fonte:
Por Jaldes Meneses, em A Terra é Redonda/Brasil 247

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