quinta-feira, 12 de março de 2026

A invisibilidade sanitária do Sul Global

Há doenças que mobilizam comoção internacional, acionam complexas redes científicas e movimentam vultosos investimentos. Outras, no entanto, persistem à margem da atenção global, sobrevivendo como marcas silenciosas da desigualdade planetária. O noma pertence a essa segunda categoria. Mais do que uma enfermidade infecciosa, trata-se de um marcador brutal das hierarquias sociais que estruturam o mundo contemporâneo.

O noma é uma doença evitável e tratável que acomete principalmente crianças em situação de extrema pobreza. Inicia-se, em geral, como uma infecção gengival e pode evoluir rapidamente, destruindo tecidos faciais, ossos e funções vitais. Sem tratamento, a mortalidade é altíssima. Os sobreviventes frequentemente carregam sequelas físicas severas, além do estigma social e da exclusão que se prolonga por toda a vida. A brutalidade clínica da doença é acompanhada por outra violência menos visível, que se constitui pela naturalização de sua existência.

Na Nigéria, onde o noma permanece fortemente associado à desnutrição, ao acesso limitado aos serviços de saúde e ao diagnóstico tardio, a doença expõe o entrelaçamento entre pobreza e sofrimento. Não se trata de um evento biológico isolado, mas do resultado de condições sociais historicamente produzidas. A persistência do noma revela que, em determinadas regiões do mundo, a precariedade das condições de vida ainda determina quem terá acesso ao direito elementar de sobreviver.

Desde 2014, iniciativas desenvolvidas no Hospital de Noma de Sokoto, com apoio de Médicos Sem Fronteiras, têm buscado enfrentar a doença por meio de uma abordagem integral que articula tratamento clínico, cirurgias reconstrutivas, suporte nutricional, saúde mental e ações comunitárias. O projeto também investe na formação de profissionais locais e na ampliação da capacidade cirúrgica nacional, sinalizando a importância de estratégias que ultrapassem intervenções pontuais e fortaleçam sistemas de saúde locais.

Contudo, apesar dos avanços terapêuticos e do impacto das ações de detecção precoce, o noma permanece sub-priorizado nas agendas internacionais de saúde. Essa negligência não pode ser explicada apenas por limitações técnicas ou financeiras. Ela reflete, sobretudo, uma geopolítica do sofrimento que define quais doenças mobilizam respostas globais e quais permanecem invisibilizadas. Doenças que atingem majoritariamente populações pobres do Sul Global costumam ocupar um lugar periférico nas prioridades sanitárias internacionais, revelando que o valor atribuído à vida ainda segue profundamente atravessado por desigualdades históricas.

O noma evidencia que saúde não é apenas uma questão biomédica, mas um fenômeno social, político e econômico. A doença floresce em territórios marcados pela insegurança alimentar, pela fragilidade dos sistemas de atenção primária e pela exclusão social persistente. Combater o noma exige, portanto, mais do que antibióticos, cirurgias ou protocolos clínicos. Requer enfrentar determinantes estruturais como pobreza, fome e acesso desigual ao cuidado em saúde.

Nesse sentido, a integração do rastreamento do noma às rotinas de atenção primária, campanhas de imunização e ações comunitárias representa uma estratégia potente. A detecção precoce não apenas reduz a mortalidade e as sequelas permanentes, mas também rompe o ciclo de invisibilidade que cerca a doença. Ao aproximar os serviços de saúde das comunidades, cria-se a possibilidade de produzir cuidado antes que o sofrimento se torne irreversível.

Entretanto, iniciativas locais, por mais exitosas que sejam, não substituem a necessidade de compromissos políticos globais mais robustos. O subfinanciamento de doenças negligenciadas evidencia a persistência de uma economia moral da saúde internacional que hierarquiza vidas. Investir na prevenção e no tratamento do noma não é apenas uma decisão técnica; é um posicionamento ético sobre quais existências merecem proteção.

A história do noma nos convoca a refletir sobre o modo como o mundo administra o sofrimento evitável. A existência continuada de uma doença associada diretamente à fome e à pobreza revela que as desigualdades globais não são acidentes, mas resultados de processos históricos e econômicos que produzem territórios de abandono sanitário. O noma, nesse sentido, é menos uma doença rara do que um sintoma recorrente de um modelo de desenvolvimento que naturaliza a exclusão.

Ao mesmo tempo, experiências como as desenvolvidas em Sokoto demonstram que é possível construir respostas sanitárias baseadas na integralidade do cuidado, na valorização do conhecimento local e no fortalecimento de sistemas públicos de saúde. Tais iniciativas apontam para uma concepção de saúde global que não se limita à intervenção emergencial, mas aposta na construção de autonomia e capacidade institucional nos territórios mais vulnerabilizados.

Falar sobre noma é, portanto, falar sobre justiça social. É reconhecer que nenhuma doença evitável deveria persistir em função da pobreza. É afirmar que o direito à saúde depende de condições dignas de vida, alimentação adequada e acesso universal aos serviços de cuidado. E, sobretudo, é questionar um mundo que ainda permite que determinadas populações adoeçam e morram sem provocar indignação coletiva.

Enquanto o noma continuar existindo, ele seguirá denunciando que o sofrimento humano permanece distribuído de forma profundamente desigual. Enfrentá-lo exige não apenas respostas médicas, mas o compromisso político de construir sociedades nas quais nenhuma vida seja considerada descartável.

 

Fonte: Por Roger Flores Ceccon, no Le MOnde

 

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