A
invisibilidade sanitária do Sul Global
Há
doenças que mobilizam comoção internacional, acionam complexas redes
científicas e movimentam vultosos investimentos. Outras, no entanto, persistem
à margem da atenção global, sobrevivendo como marcas silenciosas da
desigualdade planetária. O noma pertence a essa segunda categoria. Mais do que
uma enfermidade infecciosa, trata-se de um marcador brutal das hierarquias
sociais que estruturam o mundo contemporâneo.
O noma
é uma doença evitável e tratável que acomete principalmente crianças em
situação de extrema pobreza. Inicia-se, em geral, como uma infecção gengival e
pode evoluir rapidamente, destruindo tecidos faciais, ossos e funções vitais.
Sem tratamento, a mortalidade é altíssima. Os sobreviventes frequentemente
carregam sequelas físicas severas, além do estigma social e da exclusão que se
prolonga por toda a vida. A brutalidade clínica da doença é acompanhada por
outra violência menos visível, que se constitui pela naturalização de sua
existência.
Na
Nigéria, onde o noma permanece fortemente associado à desnutrição, ao acesso
limitado aos serviços de saúde e ao diagnóstico tardio, a doença expõe o
entrelaçamento entre pobreza e sofrimento. Não se trata de um evento biológico
isolado, mas do resultado de condições sociais historicamente produzidas. A
persistência do noma revela que, em determinadas regiões do mundo, a
precariedade das condições de vida ainda determina quem terá acesso ao direito
elementar de sobreviver.
Desde
2014, iniciativas desenvolvidas no Hospital de Noma de Sokoto, com apoio de
Médicos Sem Fronteiras, têm buscado enfrentar a doença por meio de uma
abordagem integral que articula tratamento clínico, cirurgias reconstrutivas,
suporte nutricional, saúde mental e ações comunitárias. O projeto também
investe na formação de profissionais locais e na ampliação da capacidade
cirúrgica nacional, sinalizando a importância de estratégias que ultrapassem
intervenções pontuais e fortaleçam sistemas de saúde locais.
Contudo,
apesar dos avanços terapêuticos e do impacto das ações de detecção precoce, o
noma permanece sub-priorizado nas agendas internacionais de saúde. Essa
negligência não pode ser explicada apenas por limitações técnicas ou
financeiras. Ela reflete, sobretudo, uma geopolítica do sofrimento que define
quais doenças mobilizam respostas globais e quais permanecem invisibilizadas.
Doenças que atingem majoritariamente populações pobres do Sul Global costumam
ocupar um lugar periférico nas prioridades sanitárias internacionais, revelando
que o valor atribuído à vida ainda segue profundamente atravessado por
desigualdades históricas.
O noma
evidencia que saúde não é apenas uma questão biomédica, mas um fenômeno social,
político e econômico. A doença floresce em territórios marcados pela
insegurança alimentar, pela fragilidade dos sistemas de atenção primária e pela
exclusão social persistente. Combater o noma exige, portanto, mais do que
antibióticos, cirurgias ou protocolos clínicos. Requer enfrentar determinantes
estruturais como pobreza, fome e acesso desigual ao cuidado em saúde.
Nesse
sentido, a integração do rastreamento do noma às rotinas de atenção primária,
campanhas de imunização e ações comunitárias representa uma estratégia potente.
A detecção precoce não apenas reduz a mortalidade e as sequelas permanentes,
mas também rompe o ciclo de invisibilidade que cerca a doença. Ao aproximar os
serviços de saúde das comunidades, cria-se a possibilidade de produzir cuidado
antes que o sofrimento se torne irreversível.
Entretanto,
iniciativas locais, por mais exitosas que sejam, não substituem a necessidade
de compromissos políticos globais mais robustos. O subfinanciamento de doenças
negligenciadas evidencia a persistência de uma economia moral da saúde
internacional que hierarquiza vidas. Investir na prevenção e no tratamento do
noma não é apenas uma decisão técnica; é um posicionamento ético sobre quais
existências merecem proteção.
A
história do noma nos convoca a refletir sobre o modo como o mundo administra o
sofrimento evitável. A existência continuada de uma doença associada
diretamente à fome e à pobreza revela que as desigualdades globais não são
acidentes, mas resultados de processos históricos e econômicos que produzem
territórios de abandono sanitário. O noma, nesse sentido, é menos uma doença
rara do que um sintoma recorrente de um modelo de desenvolvimento que
naturaliza a exclusão.
Ao
mesmo tempo, experiências como as desenvolvidas em Sokoto demonstram que é
possível construir respostas sanitárias baseadas na integralidade do cuidado,
na valorização do conhecimento local e no fortalecimento de sistemas públicos
de saúde. Tais iniciativas apontam para uma concepção de saúde global que não
se limita à intervenção emergencial, mas aposta na construção de autonomia e
capacidade institucional nos territórios mais vulnerabilizados.
Falar
sobre noma é, portanto, falar sobre justiça social. É reconhecer que nenhuma
doença evitável deveria persistir em função da pobreza. É afirmar que o direito
à saúde depende de condições dignas de vida, alimentação adequada e acesso
universal aos serviços de cuidado. E, sobretudo, é questionar um mundo que
ainda permite que determinadas populações adoeçam e morram sem provocar
indignação coletiva.
Enquanto
o noma continuar existindo, ele seguirá denunciando que o sofrimento humano
permanece distribuído de forma profundamente desigual. Enfrentá-lo exige não
apenas respostas médicas, mas o compromisso político de construir sociedades
nas quais nenhuma vida seja considerada descartável.
Fonte: Por Roger Flores Ceccon, no Le MOnde

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