quinta-feira, 12 de março de 2026

Para deleite de Israel, Trump abraça guerra eterna e trai promessa de ‘America First’

Em 28 de fevereiro de 2026, as explosões que sacudiram Teerã não atingiram apenas os enclaves subterrâneos do programa nuclear iraniano; sua onda expansiva percorreu milhares de quilômetros até fragmentar o alicerce político sobre o qual Donald Trump havia construído sua segunda presidência. Em uma operação de audácia e risco extremos, a Força Aérea dos Estados Unidos, em coordenação com Israel, lançou o ataque mais contundente contra o Irã desde a crise dos reféns de 1979.

O objetivo declarado da Casa Branca era cirúrgico e clássico: eliminar de uma vez por todas a ameaça representada pelas instalações nucleares e pelo arsenal de mísseis balísticos da República Islâmica. Mas a magnitude do que ocorreu naquela madrugada — com relatos que falavam não apenas de bombas sobre centrifugadoras, mas também de um míssil que atingiu o bunker onde se refugiava o líder supremo, Ali Khamenei — revelava uma ambição muito maior: a decapitação do regime e seu colapso definitivo.

No entanto, a pergunta que paira sobre os escombros de Teerã — e também sobre os mercados de Nova York — não é tanto se o Irã conseguirá se reconstruir, mas se os Estados Unidos e seu presidente poderão sobreviver às consequências de seu próprio sucesso militar. O paradoxo possui a beleza trágica típica de um drama grego. Donald Trump, o presidente que chegou ao poder prometendo enterrar as “guerras eternas” e colocar a “América em primeiro lugar”, acaba de abrir a porta para um conflito de desgaste no Oriente Médio que ameaça devorar seu legado, sua base eleitoral e a estabilidade da economia global. E tudo indica que não o fez sozinho: foi conduzido até ali, com a precisão de um relojoeiro suíço, pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

Para compreender a magnitude do abismo diante do qual Trump se encontra, é preciso abandonar por um momento os mapas dos generais e voltar os olhos para os postos de gasolina de Ohio e Pensilvânia. O coração do movimento MAGA (Make America Great Again – Fazer a América Grande de Novo, em tradução livre) bate no ritmo do preço do petróleo. Seu núcleo eleitoral — a classe trabalhadora branca e a classe média manufatureira — foi uma das principais vítimas da inflação pós-pandemia. Cada dólar que o barril sobe é um voto que se afasta das urnas republicanas. Analistas do Goldman Sachs e do Barclays vinham advertindo sobre isso havia semanas em seus relatórios: um conflito aberto com o Irã faria disparar o preço do petróleo. Brent e WTI ultrapassariam facilmente a barreira dos 100 dólares, levando a inflação de volta a territórios proibidos, próximos de 5%. As hipotecas ficariam mais caras, o crédito para pequenos negócios do Meio-Oeste se congelaria e o sonho da “America First” se dissolveria na miragem de uma estagflação.

A lógica elementar indicava que Trump não poderia se permitir esse cenário. Seu instinto de sobrevivência política, que sempre foi sua principal bússola, deveria tê-lo levado a contemporizar, a ameaçar, talvez a realizar um bombardeio simbólico sobre instalações militares abandonadas. Mas não isso. Não um ataque que, segundo fontes de inteligência citadas pela Reuters e pelo The Straits Times dias antes da operação, havia sido explicitamente desaconselhado pela CIA. A agência advertia que um “golpe decapitador” contra Khamenei não provocaria o colapso do regime, mas sua substituição por figuras ainda mais radicais da Guarda Revolucionária (IRGC), dispostas a travar uma guerra de desgaste infinita. Se a inteligência americana sabia disso, se os modelos econômicos o previam, que nuvem tóxica turvou o julgamento do presidente?

A resposta, incômoda, mas cada vez mais aceita nos círculos analíticos de Washington, tem duas faces. Uma, a mais vulcânica e pública, é a do próprio Netanyahu, um sobrevivente político que há décadas enxerga no Irã uma ameaça existencial que precisa ser eliminada antes que seja tarde demais. Sua lógica era a do “agora ou nunca”. Com um presidente americano imprevisível e ansioso por demonstrar força, e com a percepção — possivelmente equivocada — de que os aiatolás estavam enfraquecidos pelos protestos internos, a janela de oportunidade parecia escancarada. A outra face, mais turva e que circula nos corredores do poder sob o sigilo do off the record, tem nome e sobrenome: o lobby israelense e os dossiês Epstein.

Sabe-se — e isso não é segredo para os serviços de inteligência — que Jeffrey Epstein não operava sozinho; sua rede de influência e chantagem era uma teia que se conectava a interesses israelenses, incluindo o Mossad. A teoria que ganha cada vez mais adeptos sustenta que o material comprometedor que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos guarda em seus cofres sobre figuras-chave do establishment não é propriedade exclusiva do governo federal. O Mossad, argumenta-se, teria uma cópia. E, no momento crucial — quando a máquina de guerra hesitava entre a prudência e a audácia — essa informação pode ter funcionado como um elemento sutil, porém eficaz, de coerção. Não seria necessário um vídeo de Trump em uma situação comprometedora para dobrar sua vontade; bastaria ter a capacidade de vazar informações sobre um colaborador próximo, um familiar ou um grande doador para que a geometria das decisões começasse a se inclinar.

Além da lenda obscura dos vídeos e das fotos, a influência do lobby israelense em Washington é uma realidade tão tangível quanto o mármore do Capitólio. Acadêmicos do porte de John Mearsheimer e Stephen Walt documentaram isso há anos em The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy (O lobby israelense e a política externa dos EUA, em tradução livre). Não se trata de uma conspiração, mas de um fato político: o Comitê de Assuntos Públicos Estados Unidos–Israel (AIPAC) e suas organizações satélites financiam campanhas, moldam discursos e condicionam votações no Congresso com uma eficácia avassaladora. Nenhum político que aspire a manter-se no poder deseja enfrentar uma máquina multimilionária de pressão e desgaste político financiada pelo lobby. Essa coerção — financeira e política — pode ser tão eficaz quanto qualquer forma de chantagem. Assim, quando o Pentágono e o Departamento de Estado debatiam a resposta ao Irã, as opções que priorizavam a “vantagem militar qualitativa” de Israel pesavam mais na balança do que aquelas que defendiam a estabilidade econômica interna dos Estados Unidos.

O que ocorreu no terreno na madrugada de 28 de fevereiro revela até que ponto essas prioridades estavam desalinhadas. Se os Estados Unidos buscavam uma operação cirúrgica para degradar a capacidade militar iraniana e proteger suas bases na região, os resultados indicam outra coisa. Os satélites mostravam impactos em instalações navais e lançadores de mísseis, sim. Mas também chegavam imagens dantescas de Minab, onde uma escola primária próxima a uma base militar foi atingida, matando 150 meninas. Houve ainda ataques contra hospitais em Teerã, já abarrotados de vítimas civis. Era a marca de um ataque concebido não para ser breve e exemplar, mas para ser total e, sobretudo, irreversível. Aquilo não era um aviso; era uma declaração de guerra existencial. Era a assinatura de Israel, o aliado que necessita que o conflito se transforme em um pântano do qual o Irã não consiga se reerguer.

E é nesse pântano que Trump corre o risco de ficar preso. O que ele provavelmente concebeu como um espetacular show of force ao estilo Trump — uma explosão de grandeza destinada a forçar o Irã a negociar sua rendição — foi interpretado pelo mundo e pelos mercados como a entrada em uma armadilha de custos infinitos. O Irã não colapsou. Sua liderança foi substituída por linhas ainda mais duras da Guarda Revolucionária, que prometem vingança. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 25% do petróleo mundial, treme diante da possibilidade de um bloqueio total. E, enquanto os petroleiros começam a desviar suas rotas, o rendimento do título do Tesouro americano de 10 anos dispara: os investidores exigem maior retorno diante do risco de uma inflação que já não veem como transitória, mas como um fenômeno entranhado na geopolítica.

A lógica de Netanyahu, fria e calculada, funcionou com perfeição. Ele conseguiu que o exército mais poderoso da Terra participasse da eliminação de seu maior inimigo estratégico sem precisar sacrificar a totalidade de suas próprias reservas. Conseguiu também que os Estados Unidos queimassem seu capital político e econômico em um conflito que, para Israel, é uma questão de vida ou morte. Para Trump, em contrapartida, o saldo é desastroso. Ele não apenas rompeu sua promessa fundacional de encerrar as “guerras eternas”, como o fez em um momento de máxima vulnerabilidade econômica para seu eleitorado. A fratura em sua base mais leal — profundamente antiglobalista e responsável por levá-lo ao poder — pode já ser irreversível. Muitos o veem agora como um presidente que foi enganado ou chantageado, ou que simplesmente traiu seus próprios princípios sob pressões externas.

A teoria da “captura estratégica”, estudada nas academias militares, ganha aqui uma expressão concreta. Quando um aliado menor consegue levar uma potência maior a executar ações que servem essencialmente a seus próprios interesses regionais — mesmo à custa do bem-estar interno da potência dominante — a relação deixa de ser uma aliança para tornar-se uma espécie de tutela invertida. E foi exatamente isso que ocorreu. Netanyahu olhou Trump nos olhos e o convenceu de que assassinar Khamenei seria um presente. Mas esse presente veio acompanhado de inflação, aumento das taxas de juros e da quase certeza de uma derrota nas eleições de meio de mandato.

Enquanto a fumaça se dissipa sobre Teerã e as represálias iranianas atingem bases americanas em sete países, uma pergunta paira sobre o Salão Oval: quem governa realmente a política de defesa dos Estados Unidos? A resposta, por mais incômoda que seja em um país que se orgulha de sua soberania, parece apontar para Jerusalém. Donald Trump, o negociador que prometia não se deixar enganar, caiu na armadilha mais antiga do tabuleiro do Oriente Médio: acreditar que é possível usar a força sem pagar um preço político. Seu legado — o da “America First” — jaz agora enterrado sob as ruínas de um bombardeio que não trará paz, mas uma guerra interminável concebida nos gabinetes de Tel Aviv. E a história, mais uma vez, provavelmente o lembrará não como o presidente que encerrou guerras, mas como aquele que foi utilizado por seu aliado mais astuto para iniciar a mais perigosa de todas.

¨      Trump sinaliza com o fim da guerra, mas Irã diz que Teerã é quem determinará o seu  fim

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou que esta terça-feira (10/03) será o dia "mais intenso" de ataques americano contra o Irã até agora — com "o maior número de caças, o maior número de bombardeiros, o maior número de ataques".

Segundo Hegseth, as forças iranianas dispararam o menor número de mísseis em um período de 24 horas desde o início da guerra.

O secretário de Defesa afirmou ainda que "seria sábio" que o novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, acatasse a mensagem dos EUA e não buscasse dedenvolver novas armas nucleares.

As declarações de Hegseth parecem ir na direção oposta da mensagem dada por Donald Trump na noite de segunda (9/3), quando o presidente disse que o conflito no Oriente Médio — desencadeado por ataques dos EUA e Israel ao Irã no final de fevereiro — pode terminar "em breve".

"Acho que a guerra está praticamente concluída", disse Trump em entrevista à CBS News.

Ele afirmou que os EUA estão "muito à frente do cronograma", acrescentando que o Irã "não tem marinha, não tem comunicações, não tem força aérea" e alega que seus mísseis estão "reduzidos a um número disperso".

Mas pouco após os comentários de Trump na segunda-feira (10/3), a Guarda Revolucionária do Irã respondeu dizendo que será o Irã que "determinará o fim da guerra".

A Guarda Revolucionária disse que Teerã não permitirá a exportação de "um litro de petróleo" da região se os ataques dos EUA e de Israel continuarem, segundo a agência de notícias Reuters.

Os preços do petróleo têm oscilado em meio ao aumento das tensões sobre o Estreito de Ormuz, que é crucial para o mercado global de energia, já que cerca de um quinto do petróleo mundial passa por essa estreita passagem.

Na segunda-feira, os preços do petróleo dispararam e bolsas no mundo todo, incluindo no Brasil, caíram.

Mas logo após a fala de Trump, os mercados reagiram. O Ibovespa, principal índice do mercado brasileiro, recuperou 180 mil pontos no final da tarde, fechando em alta de 0,86%, ao passo que o dólar fechou o dia com queda de 1,5% em relação ao real, sendo cotado a R$ 5,16.

Já os preços do petróleo WTI e Brent, que chegaram a ultrapassar os US$ 100 por barril no início da segunda-feira, se moderaram ao longo do dia, estabilizando-se na faixa dos US$ 90.

No final do dia, Trump concedeu uma entrevista coletiva na qual reafirmou que a guerra vai terminar "muito rapidamente", sem mencionar datas, e sinalizou na outra direção, ao dizer que os EUA "não ganharam o suficiente" no Irã.

<><> Guerra continua

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse nesta terça-feira (10/3) que a ação militar de Israel contra o Irã está "quebrando seus ossos".

Ele disse que o objetivo de Israel é libertar o povo iraniano da "tirania" do regime atual, mas diz que "em última análise, depende deles".

"Não há dúvida de que, por meio das ações tomadas até agora, estamos quebrando seus ossos e ainda estamos ativos", disse ele em publicação na conta oficial do seu gabinete.

Na noite de segunda para terça-feira, os ataques conjuntos entre EUA e Israel ocorreram principalmente em partes de Teerã e na cidade vizinha de Karaj.

Moradores da capital relataram à BBC o impacto dos ataques israelenses e americanos.

"Eles atacaram com força ontem à noite. Tudo o que se vê em nossa casa são rachaduras nas paredes. Dormir se tornou a coisa mais difícil do mundo", disse um homem à BBC Persa, serviço em persa da BBC.

No Líbano, Israel ordenou a evacuação urgente do sul do país, enquanto continua bombardeando a região com ataques aéreos.

O porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF), Avichay Adraee, afirma que Israel está agindo "com firmeza" contra o Hezbollah ao sul do rio Litani devido às atividades do grupo na região.

Outros países do Golfo relataram nesta terça que seguem interceptando ataques iranianos.

A Arábia Saudita afirma ter interceptado um míssil balístico e cinco drones de ataque durante a noite. As forças armadas do Kuwait afirmam ter interceptado e abatido com sucesso seis drones.

O Bahrein acionou suas sirenes de alerta e pediu aos moradores que se abrigassem, após a morte de uma mulher de 29 anos em um ataque à capital, Manama, na noite de segunda-feira.

O Ministério da Defesa dos Emirados Árabes anunciou na manhã de terça-feira que continua interceptando "ameaças de mísseis e drones" do Irã e que mobilizou sistemas de defesa aérea e caças. Os Emirados Árabes também informaram que seu consulado em Erbil, no norte do Iraque, foi alvo de um ataque com drone, que causou danos, mas não deixou feridos.

<><> Reunião de emergência sobre petróleo

Diante dos possíveis impactos do conflito sobre a distribuição de petróleo, os ministros dos países do G7 se reuniram na segunda-feira em caráter emergencial, mas não chegaram a um consenso sobre uma possível liberação conjunta de reservas de petróleo para conter a alta dos preços.

As reservas de petróleo são coordenadas pela Agência Internacional de Energia (AIE), com 32 membros do grupo detendo reservas estratégicas como parte de um sistema coletivo de emergência concebido para crises nos preços do petróleo.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, ofereceu ajuda para aliviar a situação com o fornecimento de petróleo e gás, inclusive para países europeus.

Em um pronunciamento televisionado diante de autoridades e executivos do setor de petróleo e gás, ele alertou que a produção de petróleo, que dependia das entregas pelo Estreito de Ormuz, poderia em breve parar completamente.

Em conversa telefônica, Putin e Trump falaram sobre "a atual situação internacional", envolvendo principalmente o Irã e a Ucrânia. Segundo Yuri Ushakov, assessor de política externa de Vladimir Putin, a conversa durou cerca de uma hora e foi "profissional, franca e construtiva".

Mais tarde, em comunicado nas redes sociais, Trump ameaçou um ataque "20 vezes mais forte" se o Irã fizer qualquer coisa que interrompa o fluxo de petróleo no Estreito de Ormuz.

"Além disso, vamos destruir alvos facilmente elimináveis que tornarão praticamente impossível para o Irã se reconstruir como nação — morte, fogo e fúria reinarão sobre eles — mas espero, e rezo, para que isso não aconteça", afirmou o presidente americano.

A grave interrupção no fornecimento de energia da região ameaça provocar aumento de preços para consumidores e empresas em todo o mundo.

Cerca de um quinto do fornecimento mundial de petróleo costuma ser transportado pelo Estreito de Ormuz. Mas o tráfego por essa estreita passagem praticamente parou desde o início da guerra, há mais de uma semana.

O analista Adnan Mazarei, do Instituto Peterson de Economia Internacional, afirmou que o aumento nos preços do petróleo era esperado, considerando a paralisação da produção em alguns países do Golfo e os sinais de um conflito prolongado na região.

"As pessoas estão percebendo que isso não vai acabar tão cedo", disse ele, acrescentando que objetivos apresentados pelos EUA estão "se tornando cada vez mais irrealistas".

Trump, que fez campanha eleitoral prometendo reduzir o custo de vida para os americanos, minimizou as preocupações com o aumento dos preços do petróleo.

No domingo, ele publicou em sua plataforma Truth Social: "Os preços do petróleo a curto prazo, que cairão rapidamente quando a destruição da ameaça nuclear iraniana terminar, são um preço muito pequeno a se pagar pela segurança e paz dos EUA e do mundo. SÓ OS TOLOS PENSARIAM DIFERENTE!"

Seu secretário de Energia, Chris Wright, disse a emissoras americanas que Israel, e não os EUA, estava mirando a infraestrutura energética do Irã, em meio a certa preocupação com o aumento dos preços da gasolina nos EUA causado pela guerra.

Dados da associação de motoristas AAA mostraram que o preço médio da gasolina comum nos EUA subiu 11% na semana passada, chegando a US$ 3,32 (R$ 17,28) por galão.

 

Fonte: Rebelión/BBC News Mundo

 

Nenhum comentário: